Ardil 22

Segunda Guerra Mundial, Pianosa, ilha no mar mediterrâneo, próximo à Toscana. O Capitão Yossarian faz parte do esquadrão de bombardeiros da Força Aérea Americana. Na primeira sequência do filme, ele é esfaqueado por um varredor de rua. Entra flashback, a montagem do filme assume o tom irreverente com idas e vindas na história, confundindo o espectador entre a realidade da guerra e a mente do soldado possivelmente moribundo.

Ardil 22, baseado no romance antibelicista de Joseph Heller, é uma incursão pela loucura da guerra, com ironia, humor negro e personagens insanos. A própria premissa do título representa os absurdos meandros da guerra: para tentar ser mandado para casa, Yossarian pretende demonstrar insanidade, mas um médico o alerta que quem deseja escapar da guerra é perfeitamente lúcido, invalidando o argumento; os dois discutem , o doutor conclui que este é o Ardil 22.

A película faz parte de uma série de obras que, nos anos 70, questionaram de forma contundente as incursões militares americanas, principalmente na Segunda Grande Guerra e na campanha do Vietnã. Além de Ardil 22, vale citar Mash (1970), Patton, rebelde ou herói (1970), O franco atirador (1978) e Apocalypse now (1979).  

Ardil 22 (Catch-22, EUA, 1970), de Mike Nichols. Com Alan Arkin (Yossarian), Martin Balsam (Colonel Cathcart), Richard Benjamin (Major Danby), Arthur Garfunkel (Nately), Jack Gilford (Doutor Daneeka), Anthony Perkins (Padre Tappman), Martin Sheen (Dobbs), Jon voight (Milo), Orson Welles (General Dreedle).

Macbeth: reinado de sangue

Macbeth: reinado de sangue (Macbeth, EUA, 1948) é um filme de baixo orçamento, feito para a Republic Pictures. A opção de Orson Welles foi trabalhar com estética teatral, a ação transcorrendo toda em estúdio, com cenários expressionistas e pouco movimento de câmera. O castelo de Macbeth é, na verdade, formado por grutas, escadas curvas e grandes espaços vazios, praticamente sem mobiliário, a não ser o trono real, feito de pedras cinzas. A partir deste filme, Welles se consolida como o primeiro grande cineasta independente dos EUA.

O resultado é uma obra marcada pela força das interpretações, principalmente de Orson Welles no papel de Macbeth. A câmera opressora ajuda a caracterização do monarca que enlouquece em sua luta pelo poder. Macbeth está, em várias cenas, muito próximo à câmera, com outros personagens dispostos ao longo dos amplos espaços, definindo visualmente o isolamento gradativo do monarca. A profundidade de campo determina que todos, passo a passo, vão se afastando. A traição ganha contornos simbólicos.

Elipses também estão entre as escolhas criativas de Welles. O assassinato de Duncan é sugerido do lado de fora da gruta, bem como as execuções por decapitação. As imagens mais fortes e sugestivas do filme ficam por conta das bruxas. À medida que prenunciam os feitos diabólicos, o espectador sabe que está diante do mal, resta apenas acompanhar o destino trágico dos personagens que se entregam a sentimentos tão antigos como o próprio texto de Shakespeare: inveja, cobiça, traição.

Ladrão de casaca

Ladrão de casaca (To catch a thief, EUA, 1954), de Alfred Hitchcock, é um charme completo, tem Cary Grant, Grace Kelly e a Riviera Francesa.  As externas foram rodadas no litoral sul da França. John Robie (Cary Grant) é “o gato”, ex-ladrão de jóias que vive em uma bela casa nas montanhas, com vista para o mediterrâneo. Uma série de roubos de jóias acontece nos hotéis e ele é o principal suspeito. Para provar sua inocência, deve prender o verdadeiro criminoso que imita seus gestos nos antigos roubos. Seu caminho vai se cruzar com Francie Stevens (Grace Kelly), bela e misteriosa mulher da Riviera.

As cenas de perseguições de carros nas estradas e os belos jardins de mansões traduzem a beleza estonteante da Riviera Francesa. O filme é um primor de diálogos e insinuações visuais. Em uma cena, Francie e Robbie estão no quarto do hotel, à noite. Ela está com vestido branco. O colar de diamantes se destaca em seu pescoço. Os dois estão à janela, vendo fogos de artifício.

– Se quer ver os fogos de artifício, é melhor apagar a luz. Hoje verá uma das vistas mais fascinantes de toda a Riviera. Falo dos fogos de artifício. – diz Francie.

– Foi o que pensei. – completa Robbie.

Hitchcock disse que Ladrão de casaca “era uma história bem leve, não era uma história séria” e que Grace Kelly lhe interessava porque, nela, o sexo era indireto.

“Quando trato das questões de sexo na tela, não esqueço que, mesmo aí, o suspense comanda tudo. Se o sexo é espalhafatoso demais e óbvio demais, acabou-se o suspense. O que é que me dita a escolha de atrizes loiras e sofisticadas? Procuramos mulheres de alta classe, verdadeiras damas, mas que no quarto se tornarão putas. A pobre Marilyn Monroe tinha o sexo estampado em todo o rosto, como Brigitte Bardot, e isso não é muito fino. (…) Veja o início de Ladrão de Casaca. Fotografei Grace Kelly impassível, fria, e no mais das vezes mostro-a de perfil, com um ar clássico, muito bonita e muito glacial. Mas quando circula pelos corredores do hotel e Cary Grant a acompanha até a porta do quarto, o que faz? Afunda seus lábios nos dele.” – Hitchcock Truffaut – Entrevistas.

Ladrão de casaca é um dos grandes sucessos de bilheteria de Alfred Hitchcock. É um filme bem-humorado com toques de suspense e algumas da marcas características do diretor. O homem acusado injustamente. Revelações surpreendentes. A elegância dos atores e dos locais de filmagem. A atriz loira pretensamente fria, mas carregada de sensualidade. Assista ao filme e decida por quem você vai se apaixonar: Grace Kelly, Cary Grant ou a Riviera Francesa.

Referência: Hitchcock/Truffaut – entrevistas. François Truffaut. São Paulo: Braziliense, 1983

Serpico

Frank Serpico (Al Pacino) ingressa na polícia de Nova York e rapidamente se defronta com uma realidade: a corrupção dos policiais de rua. Colegas são responsáveis por coletas de dinheiro, vindo de cafetões, pessoas ligadas ao jogo, traficantes. O dinheiro é dividido entre membros do departamento, com parte reservada para os delegados e chefes do departamento.

O filme é baseado na história de Serpico, policial que serviu nos anos 70 e não aceitava dinheiro de suborno. Ele passa a ser perseguido pelos colegas, sua honestidade se transforma em ameaça ao departamento. O policial é sistematicamente transferido e sofre represálias.

Serpico empreende uma luta pessoal contra a corrupção, buscando apoio nas corregedorias, indo aos tribunais. Sofre uma tentativa de assassinato e tem que se mudar para o exterior, passando a viver sob o serviço de proteção às testemunhas.

Sidney Lumet compõe um filme vigoroso, contido nas cenas de violência, mas forte nas relações sociais que se criam a partir de um dos principais problemas da polícia na Nova York dos anos 70. O filme valeu a segunda indicação de Dustin Hoffman ao Oscar de melhor ator, após o sucesso de O poderoso chefão (1972).

Serpico (EUA, 1973), de Sidney Lumet. Com Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe, Barbara Eda-Young.

Sindicato de ladrões

Terry Malloy (Marlon Brando), ex-boxeador, conversa com seu irmão Charley (Karl Malden), no banco traseiro do carro. Ele lembra como Charley entrou no vestiário numa noite de luta e disse: “Hoje não é a sua noite. Vamos apostar no Wilson.” Amargurado, Terry completa: “Você é meu irmão. Não devia ter me deixado entregar lutas por trocados.” Charley comenta que ele também lucrou com a luta. A câmera dá close no rosto de Terry, que diz:

– You don’t understand! I could have had class. I could have been a contender. I could have been somebody. Instead of a bum, which is what I am – let’s face.

Impossível traduzir a intensidade, a beleza da cena. São momentos do cinema que serão lembrados para sempre. Basta consultar qualquer antologia do cinema e a cena está lá. Marlon Brando está lá.

Sindicato de Ladrões (1954) ganhou oito Oscars, incluindo filme, ator (Brando), atriz coadjuvante (Eva-Marie Saint), diretor e roteiro original. O filme começa com um trabalhador sendo assassinado pelos membros do sindicato dos estivadores de Nova Iorque. Terry Malloy presencia o crime e passa a ser assediado pela polícia para depor na comissão de inquérito contra o sindicato. Os dirigentes ameaçam todos os trabalhadores, inclusive Terry, para não depor.

Elia Kazan (1909-2003) foi dos mais prestigiados diretores do cinema americano. Criou o Actor’s Studio de onde saíram atores com estilo revolucionário de interpretação, entre eles, Marlon Brando, James Dean e Warren Beatty. Sua carreira tem uma mancha: na década de 50, na famosa caça às bruxas (macartismo) empreendida por congressistas americanos, Kazan denunciou ex-companheiros da juventude que militaram no partido comunista. Na época, os estúdios cinematográficos, pressionados pelo governo, demitiram roteiristas, atores e diretores denunciados.  Os demitidos entravam na lista negra e não conseguiam mais emprego. Muitos críticos analisam Sindicato de Ladrões como a tentativa de redenção ou justificativa do diretor. O personagem de Marlon Brando, Terry Malloy, é um delator que no final do filme se transforma em herói dos trabalhadores.

Motivado ou não pela culpa, Elia Kazan ajudou a criar um clássico do cinema. É um filme sobre corrupção, sobre trabalhadores famintos que buscam apenas mais um dia de trabalho, sobre dirigentes que usam o dinheiro e a violência para manter o poder. É um filme sobre pessoas que compram e pessoas que se vendem. O trailer, em 1954, anunciava,“É um filme sobre o nosso tempo.” Sindicato de Ladrões deveria ser relançado nos cinemas brasileiros. Com o trailer original.

Sindicato de Ladrões (On the Waterfront, 54, EUA), de Elia Kazan. Com Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger, Eva-Marie Saint.

Quatro casamentos e um funeral

Quatro casamentos e um funeral (Four weddings and a funeral, EUA, 1994), de Mike Newell, é das comédias-românticas mais admiradas pelo público e pela crítica. O filme mantém a estrutura básica do gênero: encontros e desencontros com humor, romance, sexo e música contagiante até o happy-end.

Heitor Capuzzo aponta,  no livro Lágrimas de luz – o drama romântico no cinema, essas características comuns em determinado gênero cinematográfico.

“O drama romântico utiliza, reiteradamente, a narrativa em dois grandes blocos dramáticos. O que separa ambos os blocos é uma espécie de ‘lua-de-mel’, ou seja, ‘a consumação do amor’. O início é marcado pelo encontro, a rápida formação do par, os subterfúgios para driblar as pressões externas, a definição de espaços específicos e os momentos de felicidade, que comprovam a existência efetiva da ligação amorosa. Como os filmes industriais desenvolveram o happy-end, com a união do par ao final, o drama romântico permite ao espectador aguardar, tensamente, a separação ou acontecimentos trágicos que irão intervir para a sua não viabilidade.”

Quatro casamentos e um funeral utiliza dos elementos dramáticos comuns à comédia-romântica. Charles (Hugh Grant) é uma espécie de Don Juan, solteiro convicto. Conhece Carrie (Andie MacDowell) em um casamento. Os dois se encantam, passam a noite juntos e se separam. Voltam a se encontrar. Carrie está noiva, mas dorme novamente com Charles. Os encontros e desencontros se sucedem, incluindo casamento de um e de outro.

O que transforma, então, Quatro casamentos… em um filme diferente do gênero, capaz de agradar público, crítica e entrar para a galeria dos filmes mais queridos do cinema? Em primeiro lugar, a escolha do ângulo de visão do diretor sobre acontecimentos rotineiros da sociedade. Mike Newell vê tudo com olhar amoral, contemplativo, reforçando o humor de pequenos, mas importantes acontecimentos na vida dos casais. Os discursos dos padrinhos após o casamento, os erros do padre iniciante (Rowan Atkinson em divertida participação), uma bizarra cena de amor entre recém-casados aos ouvidos de Charles, escondido no armário, as gags sem fim de Charles com suas ex-namoradas. Os personagens se divertem com as situações, assim como o público.

Até mesmo nos momentos dramáticos, o filme assume essa naturalidade cotidiana. A beleza de Matthew (John Hannah) declamando o poema de W. H. Auden no funeral de seu namorado Gareth (Simon Callow) está no comportamento das pessoas na igreja. Elas assistem a uma das mais bonitas revelações de amor do cinema com olhar terno, como se naquele momento não houvesse lugar para a dor, apenas para a beleza dos amantes refletida nos versos do poema.

O segredo do filme está também na reiteração dos aspectos comuns do gênero, mas sem aquele exagero estético. A música pontua sutilmente, as cenas de sexo apresentam cortes nos momentos precisos – uma manhã na cama após a noite de amor começa com belo plano do Rio Tâmisa, em Londres, a câmera em travelling lento até entrar pela janela e enquadrar Charles entre lençóis amarrotados, sob o olhar de Carrie.

A cena final, na chuva, remete a momentos emocionantes do cinema, como despedidas em meio ao caos urbano. “O espaço preferido dos realizadores dos anos 40 para as despedidas do par central é a estação de trem. Metaforicamente, permite imobilizar o amante que fica só na estação com o afastamento rápido e em crescendo daquele que está embarcando.” – Heitor Capuzzo.

Ninguém resiste a beijos de adeus ou de reconciliação em meio à névoa do aeroporto, interrompidos pelo apito do trem ou molhados pela chuva. É a magia do cinema romântico desde a sua mais tenra idade.

Referência: Lágrimas de luz – o drama romântico no cinema. Heitor Capuzzo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999

Lafitte, o corsário

Na Lousiana, uma região pantanosa é controlada pelo pirata Jean Lafitte. O corsário implanta uma espécie de governo paralelo, controlando também o comércio da região, conseguindo milhares de seguidores. O exército inglês, na luta contra a independência americana, tenta comprar Lafitte para participar da guerra contra os EUA. No entanto, o patriotismo aflora e Lafitte e seus piratas lutam pelos EUA, mas devem enfrentar a desconfiança da população e o jogo de interesse de políticos locais.

O diretor Cecil B. DeMille centra suas lentes no romantismo típico do cinema clássico ao retratar a guerra de independência americana (e demais conflitos internos ou externos). Os temas são recorrentes e caros a esta era de ouro de Hollywood: romance, patriotismo, dever cívico acima da vida, reconstituição primorosa de época, glamour nas sequências de batalha. Uma reviravolta no final deixa no ar os dilemas entre cumprir rigorosamente a lei ou premiar o heroísmo dos piratas.

Lafitte, o corsário (The buccaneer, EUA, 1938), de Cecil B. DeMille. Com Fredric March (Jean Lafitte), Franciska Gaal (Gretchen), Akim Tamiroff (Dominique You), Margot Grahame (Annette), Walter Brennan (Ezra Peavey), Hugh Sothern (Andrew Jackson), Anthony Quinn (Beluche), Ian Keith (Crawford).

Chuva de setembro

João Nunes ajoelhou no meio da rua e abriu os braços para o céu, deixando a chuva bater em seu rosto, olhos fechados, agradecendo a dádiva. Depois de três meses de estiagem, a chuva vinha pesada naquela sexta-feira de setembro, pingos grossos formando uma enxurrada densa no canto do meio-fio, a água marrom de tanta poeira das ruas.

Um carro desviou de João Nunes, desvio tranqüilo, sem buzina, o motorista respeitando aquele gesto solene de agradecimento. Em poucos minutos a notícia espalhou pela rua.

– O João Nunes tá lá na rua tomando chuva.

– Vem ver o João Nunes pulando feito menino na enxurrada.

– Deus do céu! O João Nunes endoidou.

– Também, com uma mãe daquelas.

A mãe estranhou quando João entrou esbaforido em casa na noite anterior, pequenas gotas de suor escorrendo pela testa: “Amanhã tem que chover”. Perto dos quarenta e cinco anos, filho único, ele vivia com a velha mãe que insistia em recomendações como: “cuidado com as companhias”, “olha a hora, hein”, “vê se não dorme muito tarde”.

João foi para o quarto, ligou o computador, passou parte da noite no Google procurando simpatias, magias, promessas, qualquer coisa que fizesse chover na sexta-feira.

Na sexta-feira de manhã, chegou ao escritório com olhos vermelhos de sono. Olhava da janela o tempo: o céu de um azul desbotado, a paisagem densa de poluição, ar pesado, sequer uma nuvem no céu. Ao sair para o almoço, avisou à secretária que não voltaria à tarde. Em casa, almoçou na frente da TV, esperando a moça da previsão do tempo. “Uma pesada massa de ar quente impede a formação de chuvas no Estado. O tempo deve continuar quente e seco por todo o final de semana.” Ele largou o prato desolado, a mãe colocou a mão na sua testa buscando febre.

João Nunes foi para o quarto, deitou e adormeceu. O sono durou quase a tarde inteira, como se ele se entregasse de vez à inutilidade (assim ele pensava nesse momento) de sua vida. Acordou com um trovão ensurdecedor.

Correu para a varanda a tempo de ver as nuvens negras e densas se formando no céu com velocidade de efeitos especiais. Fechou os olhos sem acreditar e, quando os abriu, a chuva repentina já ecoava no telhado da casa. Saiu à rua, ajoelhou e abriu os braços agradecido.

Alguns meninos se juntaram a ele, pisando festivos nas poças d’água. As velhas donas de casa chegaram à janela, os maridos abriram os portões das garagens, o bêbado no boteco bebeu mais uma em homenagem à chuva. Naquela sexta-feira à tardinha, todos os moradores da rua saíram para ver João Nunes cantando e dançando feito maluco na chuva.

Todos, menos Sofia.

Sofia lia tranquilamente O Cão dos Baskerville no sofá quando o mesmo trovão que acordara João Nunes a assustou. Abriu as cortinas, entreabriu a janela o suficiente para sentir o saudoso cheiro de chuva. Respirou fundo, certa do que tinha a fazer. Fechou o livro, foi até o quarto e despiu-se, deixando as roupas caídas no chão, ao lado do espelho.

Ela enviuvara há cerca de um ano e meio. Seu marido tivera um infarto repentino, caíra morto na garagem a deixando sozinha, os dois filhos já casados.

Nunca trabalhara, completara o segundo grau pouco antes do casamento. Depois de casada, entregou-se à cuidar da casa e dos filhos. O marido atencioso, amável, vida sem incidentes, atrapalhada apenas pelos cada vez mais longos dias de estiagem. Sofia não suportava o calor, a falta de chuva, passava mal com o tempo seco.

Quando o marido morreu, continuou sua rotina: a casa, programas vespertinos de TV,  leitura de livros policiais, várias horas passadas na Internet, novela das seis, visitas semanais dos filhos. Vida tranqüila, sem incidentes. Até que João Nunes começou a tocar a campainha.

No princípio, ele vinha com cortesia saber se ela precisava de alguma coisa, como estava de saúde, “o tempo, deixe o tempo passar minha amiga Sofia.” Depois, pequenos atrevimentos: uma flor colhida no jardim da mãe, uma caixa de bombom, um livro de presente de aniversário. As visitas passaram a ter dia e hora: quinta-feira, às oito da noite. Nada de bebidas, apenas suco e refrigerante, um sentado de frente para o outro no sofá da sala. Amizade tranquila, às vezes perturbada pelo olhar direto,  em silêncio.

Certa noite, João Nunes falou de sentimentos e atreveu um toque nas mãos. Foi recusado. Insistiu com flores enviadas pelo correio, semanalmente. Versos de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade chegavam ao e-mail de Sofia. Convites para o cinema. Tudo inútil: os nãos de Sofia eram secos e objetivos. Os boatos começaram a circular pela rua, a viúva pensava em dar um basta em tudo. Mas continuava permitindo, sentia prazer naquele jogo e nunca fora mulher de se preocupar com a falação alheia.

Naquela quinta-feira de setembro, João Nunes chegou pontualmente. Sofia o recebeu com seriedade, estava, naquele dia, atormentada pelo tempo seco. Conversaram sobre pequenas coisas, os olhos dele não conseguindo se esconder do rosto, das pernas, do decote de Sofia.

– Eu quero fazer amor com você. – Sofia levantou-se ao ouvir essa frase tão cheia de propósitos. Seu marido nunca falara assim, eles eram tão silenciosos.

Ela chegou à janela. O vento quente de todas as noites, essa primavera sem chuva, esse calor insuportável, esses dias passando como se fossem os mesmos. Sofia voltou-se para João Nunes e prometeu:

– Se chover amanhã, venha à minha casa neste mesmo horário. Se chover amanhã.

Enquanto João Nunes sapateava na chuva, Sofia deixava a água morna do chuveiro molhar seu rosto, seus cabelos, seu corpo. Enquanto a rua agradecia feliz o fim da estiagem, contagiada pela alegria incompreensível de João Nunes, Sofia começava o longo e cuidadoso ritual da mulher se preparando para o amor.

As mil e uma noites de Pasolini

As mil e uma noites de Pasolini (l Fiore Delle Mille e Una Notte, Itália/França, 1974), de Pier Paolo Pasolini. Capítulo final da Trilogia da Vida. Os outros filmes são Decameron e Os contos de CanterburyAs Mil e uma noites é o mais belo, com fotografia primorosa resgatada pela exibição em HD. As paisagens variando entre o deserto, as cidades de pedras, o mar e a lua, ganham registro esplêndido neste cinema cultuado como poético de Pasolini.

O diretor entrelaça histórias extraídas de contos eróticos das Mil e umas noites. O elo central é o amor da escrava Zumurrud pelo jovem que a comprou. Ela é sequestrada e passa por vários percalços enquanto tenta reencontrar o seu amor. As outras histórias incluem narrativas fantásticas, como a mulher devoradora, o príncipe viajante buscando seu destino e dois amantes que confrontam o demônio.

O tema central das histórias é a sexualidade. Pasolini explora as nuances de corpos masculinos e femininos, fotografando a beleza da nudez explícita com a naturalidade e sensibilidade de um poeta visual. As mil e uma noites é dos melhores filmes deste cinema subversivo que invade os anos 70. Subversão representada pela violência, pelo erotismo, pela sexualidade sem pudor que cineastas como Pasolini ousaram revelar aos espectadores.

Foi apenas um sonho

No livro Figuras traçadas na luz, David Bordwell  descreve problemas encontrados por diretores para filmar uma conversa em volta da mesa de jantar.

“Você pode colocar a câmera fixa a uma certa distância e filmar a cena numa tomada contínua. Se os atores tiverem decorado suas falas, até pode funcionar, sem necessidade de mudanças no posicionamento da câmera nem na iluminação para as várias tomadas. Mas, normalmente, como as pessoas se sentam de todos os lados da mesa, pelo menos uma pessoa estará de costas para a câmera, a menos que se faça uma composição ao estilo da Última Ceia. (…) O quebra-cabeça da mesa de jantar se torna emblemático de muitos tipos de cenas. Você enfrenta as mesmas questões ao filmar personagens jogando pôquer, uma gangue planejando um assalto, oficiais do exército examinando uma sepultura. Sempre que três ou quatro personagens estão em volta de algo, os problemas de mise-en-scène, filmagem e montagem são similares.”

Há uma sequência em Foi apenas um sonho (Revolution Road, EUA, 2008), de Sam Mendes que exemplifica aquilo que Bordwell classifica como o trabalho essencial do diretor:

“No sistema de estúdio, a encenação era o fundamento do ofício de diretor. (…) o diretor era responsável por dar forma às representações dentro do espaço-tempo da cena. Alguns dominavam só o básico, ao passo que outros elevavam sua arte a níveis surpreendentes de sutileza.”

É o caso de Sam Mendes, na sequência descrita a seguir.

April Wheeler (Kate Winslet) está sentada à mesa de jantar. Escuta impassível a discussão entre John Givings (Michael Shannon) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio), seu marido. A câmera a enquadra de perfil, um cigarro na mão estática à frente do seu rosto, na altura dos olhos. Frank sai de cena, John chega perto de April e fala baixo, junto ao seu rosto, “tenho pena de você”. John é um personagem estranho, passou anos internado, tomou eletrochoques que resultaram na perda de sua incrível capacidade matemática e, ao que parece, dotaram-no de outra habilidade: enxergar e dizer a verdade a Frank e April, que se escondem atrás de um casamento destrutivo.

John continua dizendo a April, “talvez vocês dois se mereçam. O jeito que você está agora me faz sentir pena dele também. Deve perturbá-lo bastante para ele querer fazer filhos só para provar que é homem.” Nesse momento, Frank investe contra John.

Esta sequência reflete o clima angustiante do filme. É mais um capítulo do desmoronamento psicológico de Frank e April. A continuação representa um daqueles momentos do cinema em que se percebe o trabalho reflexivo de composição de cena de um grande diretor.

A câmera filma April novamente de perfil, os cabelos atrás da orelha, o cigarro sempre na sua mão suspensa à frente do rosto. Ao fundo, num plano próximo, mas desfocado, John sai pela porta da sala de jantar. Seus pais se postam na moldura da porta, um de cada lado, deixando pequeno vão entre eles. Estão desfocados, a câmera continua no primeiro plano de April. De repente, John entra gritando pela porta, se coloca exatamente entre seus pais e clama por desculpas, as mãos juntas em frente ao rosto transtornado. Ele abraça a mãe, se volta para o pai, faz que vai sair pela porta, se volta para April, sempre lamentando seu gesto. Durante toda a cena, John está desfocado e April permanece impassível, olhando para a frente. Em nenhum momento se volta para John. O rosto desfocado de John adquire dimensões assombrosas, como imagem distorcida pela loucura.

Até que John diz:

– Mas querem saber? – nesse exato momento, a câmera desfoca April e foca John que agora apresenta um rosto tranqüilo, sereno, espécie de transformação do Dr Jekyll em Mr. Hyde. É como homem lúcido que ele revela.

– Estou feliz por uma coisa. Sabe porque estou feliz? (ele aponta para April). Estou feliz de não ser essa criança. John sai de cena pela porta, seguido pelos pais. Corta para April de frente, os olhos fechados, o cigarro queimando em suas mãos.

Nuances da linguagem de cinema. O foco da câmera constrói um momento tenso e revelador, direcionando o olhar do espectador em momentos exatos, precisos. A sutileza dessa arte que criou toda a sua linguagem baseada em princípios básicos: roteiros com diálogos inteligentes, bons atores, composição de cena, ilusão ótica da câmera e dos movimentos que ela proporciona, montagem.

Referência: Figuras traçadas na luz. David Bordwell. Campinas: Papirus, 2008