O último metrô

Em A noite americana (1973), François Truffaut volta suas lentes para os bastidores de uma produção cinematográfica. O próprio Truffaut interpreta um cineasta durante as filmagens de uma obra nos EUA, explorando o complexo processo criativo e técnico da produção. 

A trama de O último metrô explora processo semelhante, desta vez sobre o teatro.  Marion Steiner dirige o teatro de seu marido, judeu obrigado a se esconder da ocupação nazista na França. Grande parte do filme se concentra nos ensaios da peça “A desaparecida”, a trupe de atores, atrizes e diretor tentando continuar seu trabalho, a busca pela arte, mesmo durante a Segunda Grande Guerra. Fora do teatro, os protagonistas da peça vivem conflitos com os nazistas. O filho de uma integrante da equipe está desaparecido; o ator Bernard Granger luta pela  resistência; Marion tenta se equilibrar entre salvar o teatro ou se render às investidas dos colaboradores do regime. 

A película é um primor estético, com deslumbrante reconstituição de época e fotografia feita sob medida para destacar a beleza dos protagonistas, principalmente Catherine Deneuve (cada plano, cada close, deixa o espectador em uma espécie de absoluto fascínio por Deneuve, como na mais pura abstração da beleza). 

“Quando O último metrô estreou na França, em 1980, não faltaram acusações de que Truffaut havia se rendido e feito um filme que correspondia ao cinema de qualidade que ele próprio, três décadas antes, desqualificara em um artigo demolidor. (…) A combinação de filme histórico, requinte fotográfico e cenográfico e um par de estrelas como protagonistas sugere um filme prêt-à-porter, formatado para recuperar a afeição do público que Truffaut, naquele momento, parecia ter perdido após os fracassos de O quarto verde e o A amor em fuga.” – Cássio Starling Carlos.  

Apesar das críticas, o filme se consagrou nas bilheterias, foi indicado como melhor filme estrangeiro ao Oscar e ao Globo de Ouro e conquistou dez prêmios César, na França: melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro, música, fotografia, direção de arte, montagem e som.

O último metrô (Le dernier metro, França, 1980), de François Truffaut. Com Catherine Deneuve (Marion Steiner), Gérard Depardieu (Bernard Granger), Jean Poiret (Jean-Loup Cottins), Heinz Bennent (Lucas Steiner), Andréa Ferréol (Arlette Gulaume), Sabine Haudepin (Nadine Marsac), Jean-Louis Richard (Daxiat).

Referência: François Truffaut. O último metrô. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

Carta para Elia

Os cineastas da Nova Hollywood fizeram parte da primeira geração de cinéfilos a se aventurarem pela realização cinematográfica. Steven Spielberg e George Lucas deram os primeiros passos na direção influenciados pelos filmes e seriados que assistiram vezes sem conta na infância e adolescência. Spielberg afirma que depois de assistir a Lawrence da Arábia (1962) decidiu que sua vida seria o cinema. George Lucas não nega a influência decisiva dos filmes de Akira Kurosawa, principalmente A fortaleza escondida (1958) na criação de Star Wars

Em Carta para Elia, Martin Scorsese, com certeza o mais apaixonado pela história do cinema entre todos que participaram da Nova Hollywood, faz uma declaração bela, sensível e aficionada ao cinema de Elia Kazan. Scorsese desfila diante da câmera seu conhecimento insaciável sobre Kazan, discorrendo sobre a carreira e filmes do diretor. Dedica a maior parte das análises aos filmes que marcaram sua adolescência e influenciaram sua escolha pelo cinema: Sindicato de ladrões (1954) e Vidas amargas (1955). 

A mancha na carreira de Elia Kazan também é debatida por Scorsese. Na década de 50, Kazan depôs no Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, sob a presidência do senador Joseph McCarthy. Elia Kazan delatou colegas de trabalho, entre eles Lee Strasberg, do Actors Studio, supostamente por participarem de atividades associadas ao comunismo. Martin Scorsese não busca justificativas ou julga a delação de Kazan. 

Nos anos 70, os dois se aproximaram se tornaram amigos, trocaram confidências sobre a paixão em comum pelo cinema. Scorsese comenta que nunca conversou com Elia Kazan sobre o que representaram Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas na sua formação de cineasta. Prefere dizer: “Então, Elia. Isso sempre teve que ficar entre mim e os filmes e a única forma de poder lhe dizer o quanto significou para mim foi fazendo filmes.”

Carta para Elia (A letter to Elia, EUA, 2010), de Kent Jones e Martin Scorsese.