Abandono

Maria entrou no quarto e deixou a toalha cair. Gesto para o flagrante da câmara de cinema se ela fosse alguns anos mais jovem. Talvez até seu marido, estendido na cama, a desvendasse com olhar antigo.

Ela enxugou os cabelos, os olhos cruzando o espelho, o reflexo gasto do corpo. Escolheu na penteadeira um hidratante ainda cheio até a borda. Apoiou a perna na beirada da cama, começou a passar o creme, as mãos deslizando dos pés as coxas. Vai-e-vem, vai-e-vem, como lembranças. Às vezes, olhava seu marido, estendido na embriaguez, cheiro de suor e álcool.

Cheirou alguns perfumes esquecidos. Este – cheiro bom de fim de tarde na praia, aquele, leve cheiro de dama da noite ao cair do dia. Perfumou-se no pescoço, braços, seios, barriga. Cheiro de praia, como na noite de hotel em Ipanema – tantos e tantos anos. Ipanema das praias de cinema, dos sonhos. Ipanema. Pés descalços tocando pela primeira vez areias de mar. A primeira vez.

Abriu o guarda-roupa. Será que essa calça ainda me serve? Essa blusa me caía tão bem! Esse vestido estava na moda quando… como é mesmo o nome daquela atriz? daquele filme?

Há mais de dez anos não vou ao cinema. A vida, a vida, tarde da noite, sozinha em casa, esperando o marido voltar dos bares. A vida.

Maria ligou o secador de cabelos. O barulho despertou o marido. Sonolento, ele notou a mulher pelo espelho. Os cabelos ao vento do secador, lábios ganhando aos poucos a cor do batom. Observou-a vestindo a calcinha, uma blusa branca, uma calça leve de verão, sandálias deixando os pés à mostra.

Ainda com cabelos úmidos, ela pegou a pequena bolsa: colocou um frasco de perfume, batom, espelhinho, contou algum dinheiro, saiu do quarto. Pela janela, o marido a viu subindo a escada da rua. Onde você vai? Maria observou a casa, o olhar desceu pelo telhado colonial, passou pelas paredes recém-pintadas de amarelo, parou nas janelas de madeira, no verniz ainda brilhando que ela fez questão de passar. Me deixa dar o toque final, pedira ao pintor, me deixa depois de tanto tempo terminar com tudo isso, uma pincelada, a marca no tempo. O tempo.

Onde você vai a essa hora? Repetiu o marido parado na janela, mãos espalhando a ressaca do rosto. Não sei. Talvez eu vá tomar um chopp com uma amiga. Talvez ao cinema. Talvez andar de carro por aí.

Tempestade

Chovia. Quando entrei no ônibus, o barulho na lataria insinuava chuva forte, típica pancada de verão. Da minha casa até o local de encontro com Cristiane, o ônibus gastaria cerca de 10 minutos. Domingo à tarde, o calor afugentava das ruas, o trânsito estava calmo, o ônibus vazio. A água escorrendo no vidro provocou imaginações de cinema: namorados correndo de mãos dadas na chuva, se escondendo em marquises, beijos molhados…

Acordei com um estrondo. As nuvens negras aumentavam na velocidade que só me lembro de ver naqueles efeitos visuais que aceleram as imagens. O dia escureceu, as luzes dos postes acenderam em plena três horas da tarde. A poucos metros do ponto em que eu deveria descer, pesada, assombrosa tempestade desabou.

Desci do ônibus, pesadas gotas de chuva batendo como pedras em meu rosto, em minhas costas. O vento mudava de sentido rapidamente. Consegui chegar até o abrigo de ônibus na avenida. Cristiane me esperaria no ponto de ônibus do outro lado.

A chuva dificultava a visão. A cortina de água cortava o ar quase na horizontal. Em alguns intervalos das rajadas, enxerguei um pequeno grupo de pessoas se escondendo das águas no abrigo do outro lado da avenida. Cris era inconfundível, mesmo à distância. Cabelos castanhos que chegavam quase até a cintura, faces brancas, olhos também castanhos, mas o que a distinguia mesmo naquela distância era a altura incomum em uma jovem daquela geração, cerca de 1,75.

O destino fazia das suas. A enxurrada formou um rio na avenida, impedindo qualquer tentativa de atravessá-la. Alguns carros pararam no meio, motores apagados, a água batendo na altura da porta. Meus pés já estavam submersos, mulheres gritavam no abrigo, uma criança de cerca de dois anos, no colo do pai, assistia a tudo deslumbrada.

Eu não podia ficar ali. Estudei a situação. Poucos metros acima havia um declive na avenida que terminava onde estávamos, lugar em que a água se juntava, formando uma lagoa, favorecida pelos bueiros insuficientes para o escoamento. No declive, o volume de água era grande, mas a enxurrada corria veloz. Talvez eu pudesse atravessar. Andei cerca de 100 metros e me aventurei. Atravessei com a água batendo nos joelho, ameaçado pela correnteza forte que poderia em um momento ou outro me jogar no meio das águas.

Cheguei do outro lado. Desci até o abrigo, as roupas pesadas, coladas ao meu corpo, os pés imersos na água.  Cris me recebeu com um grito de alívio, um abraço, seu rosto em meu peito encharcado.

– Seu maluco.

– Não podemos ficar aqui.

– O que vamos fazer? Essa chuva.

– Minha casa é perto daqui. Talvez a gente consiga pegar um táxi. A chuva está diminuindo.

Por sorte, o táxi parou ao primeiro sinal que fiz. A altura da água diminuíra um pouco, mesmo assim entramos com dificuldade. O carro andou cerca de trinta metros, patinando na chuva, até que ouvimos barulho de motor engasgando. As luzes do painel se apagaram. O motorista tentou virar a chave na ignição, ouvimos o arranque rateando, rateando…

– Não tem jeito.

– E se eu empurrar. Tem uma descida logo ali.

– Nessa chuva?

– Eu já estou molhado mesmo. – Cris fez menção de ajudar, mas fechei a porta rapidamente ao descer do carro, fazendo gesto pelo vidro de “fica aí”. A chuva voltou a bater forte nas minhas costas enquanto eu empurrava o carro lentamente, meus pés escorregando no asfalto molhado até que o carro chegou no início da descida. Um pequeno embalo e pude ver a fumaça saindo do cano de descarga, sinal que o motor funcionara.

Entrei no carro. Em ponto morto, o motorista pisava fundo no acelerador, o barulho do motor agredindo nossos ouvidos. O motorista engatou primeira, soltou a embreagem, o carro deu dois ou três solavancos e voltou a morrer. Cris me olhou com aqueles olhos de “e agora?”. Desci novamente do carro, empurrei com todas as forças para que ele pegasse embalo na descida. Assim que o motor voltou a funcionar, o motorista andou por mais alguns metros, tentando manter o ritmo do motor. Tive que correr atrás do táxi e assim que entrei o motorista arrancou ferozmente, as rodas deslizando, espalhando água para os lados.

O motorista parou na porta da minha casa. Ele acenou para mim, gesto de negativa ao me ver tirando a carteira do bolso.

– A corrida é por conta. Não posso cobrar, depois desse empurra-empurra. 

Senti um frio intenso ao sair do carro. Chovia fino agora, nuvens negras ainda provocavam a escuridão que confundia tarde com noite. Vi nos olhos de Cris a incerteza de quem se depara pela primeira vez com o risco inesperado da vida. Entramos em casa. Meus pais estavam fora.

– Preciso tomar um banho quente. – ela disse assim que pusemos os pés na sala.

– Vou pegar uma toalha para você.

Tirei as roupas molhadas no quarto, enxuguei meu corpo, vesti roupas secas. Um estranho silêncio tomava conta da casa. Ouvia-se apenas o barulho de goteira lá fora, tamborilar intermitente em cima de alguma lata no terreiro, ou talvez no teto de zinco da casinha de ferramentas de meu pai. Eu ouvia claramente outro barulho: o chuveiro ligado, imagem da água quente escorrendo pelo corpo de Cris.

Meu ouvido captava cada som dentro do banheiro. O barulho da saboneteira batendo no azulejo, o recipiente de shampoo sendo tirado e colocado no suporte, a pesada água dos cabelos caindo no chão, a torneira girando, cotovelos encostando nas paredes do boxe apertado, barulho de toalha secando o corpo, o trinco da porta sendo desfeito.

Cris apareceu no umbral da porta da sala, a toalha enrolada acima dos seios. Os cabelos molhados, a pele branca de seu rosto com sensação de alívio. Ela sorriu meio sem graça, deixando o frescor de sua pele úmida se espalhar pelo ambiente.

Restava apenas uma garoa da chuva. Enquanto Cris se vestia no quarto de minha irmã, cheguei até a janela do meu quarto. Dos telhados das casas vizinhas subia uma névoa, um tom londrino marcado pelas luzes do início da noite. A cena não lembrava em nada a assustadora tempestade.  Essa tarde enevoada de dezembro deixou em mim a imagem inelutável de Cris saindo do banho.

Tarde nublada

As nuvens encobrem a serra. Daqui a pouco, restará um dia negro, anoitecer provocado nesse final de tarde. Minha vista do décimo andar é invejável, segundo comentários dos visitantes. Confesso, na maioria dos dias desejo outras imagens: o mar, montanhas se perdendo do olhar, nuvens feito algodão do lado de fora da janela do avião, o corpo nu da mulher desejada.

A montanha desapareceu por completo. Gosto do dia entre o claro e o escuro. A vista confusa, carros se amontoando nas ruas lá embaixo, acendendo faróis, tomando rumos sabe-se lá. Para a solidão, o décimo andar do  apartamento é refúgio seguro, inviolável. A chuva anunciada começa, trazendo raios, trovões, certo pesar nos sentimentos. A luneta de vasculhar janelas e pessoas está encostada no canto, sem razão nessa tarde melancólica. Guarda imagens, lembranças misturadas com o tempo, pedaços que aparecem como quem remexe em papéis amontoados em gavetas ano após ano.

Maria Emília, sentada na cama, encolhe os joelhos até o queixo, abraça as pernas e se deixa. Alguém pode estar olhando-a nesta pose bonita e sensual.

O velho Euclides abre a gaveta da cômoda em busca da antiga blusa de lã que usava debaixo do terno preto bem passado nas tardes chuvosas à porta do Cine Brasil.

Carlos e Amanda acabam de fazer amor. Ele puxa a coberta para encobrir-lhe os seios, temendo-lhe o frio. Olham-se dentro do outro.

O pai, na varanda do sítio, olha o tempo. Os cachorros se deitam na vida contemplativa, ao lado do dono que só lhes cobra a companhia.

A mãe pensa, “a novela das seis pode ficar para amanhã”. Se essa chuva deixar de angustiar, de trazer desejos de terra molhada, de flores respingando, do lugar onde ela daria tudo para estar agora, contra a vontade do médico, contra os remédios que aos poucos derrubam a esperança.

O pequeno Guto volta da escola pisando em poças d’águas. Vai devagar, deixa a chuva entrar por baixo da roupa até a camisa de malha grudar nas costas, o tênis ficar pesado, arrastado. Vai devagar, pensa na mãe correndo para buscar a toalha, no banho quente e demorado que vai ganhar ao chegar em casa.

Átila tem um sonho, beijar a namorada debaixo da chuva, os cabelos escorrendo, os seios molhados. Se uma das senhoras debaixo da marquise do outro lado da rua aceitasse ser sua namorada.

Cláudia mora quase ao pé da montanha. Acabou de tomar um chocolate quente. Talvez prepare outro. Tem o coração apertado e pode-se ouvir um ou outro suspiro. Quando se cansa da chuva e da tristeza, volta para a solidão do livro. Mas a cada barulho na vidraça, levanta os olhos e sonha com beijo do namorado que nunca chega.

Tem um pouco de chuva nesta tarde de cada um. É uma tarde de chuva cada vez mais pesada.

Horário de verão

Débora.  Entre um copo de cerveja e outro fica mais atrevida. Despista, diz que precisa entrar na piscina, “a cerveja está subindo”. Na minha frente, deixa o short deslizar pelas pernas, devagar, até largá-lo ao acaso no chão. Um gesto decorado com a malícia do improviso. Dá voltas na água, mergulha, descansa, o rosto apoiado na beirada da piscina. Os olhos parados em mim.

Sai da piscina, deixa o cabelo escorrer, o corpo dobrado para frente. Outro gesto medido: passa perto, o bastante para deixar sentir o cheiro do seu corpo molhado, e vai para a churrasqueira. Pega uma cerveja, encosta na amurada. Conversa com os amigos.

Crianças correm, adultos conversam, ninguém parece prestar atenção no meu olhar. Depois, bem mais tarde, cadeiras desarrumadas, uma toalha jogada de lado, o chinelo que deixaram de pegar, a carne esfriando na churrasqueira. A piscina vazia, refletindo as luzes do quintal. O calor da noite, Débora deitada em meu colo. Solitária naquela casa desejada.

– Todo mundo já foi. Preciso ir embora também. – disse pela terceira ou quarta vez.

– Você prometeu ficar até a meia-noite.

– Já é meia-noite. – Débora tirou o relógio de meu braço e por um instante pensei que ia jogá-lo na piscina. Mas ela apenas mexeu nos ponteiros.

– Então ainda temos uma hora. Hoje acaba o horário de verão. – Débora colocou novamente o relógio em meu pulso. Marcava onze horas.

Muitos e muitos anos depois, ao sentar na varanda para ver a noite, caminhar pelo calçadão da praia nas férias de julho, ler um livro desinteressante em tardes de calor, visitar sites, blogs, lavar o carro em manhãs de domingo, folhear revistas no horário de trabalho, zapear a TV procurando uma partida de futebol; muitos e muitos anos depois, ao me deparar sozinho com esses singelos momentos, algumas horas da vida voltam.

Bailes de carnaval

Zé de Pio  passou o pequeno pano branco perto do nariz, cheiro de amaciante, ainda o calor do ferro de passar. O amaciante, artigo de luxo na casa beirando a miséria, era reservado para ocasiões marcadas a caneta no calendário: dia do aniversário de um dos seis filhos, quando Donana tirava do armário a roupinha do ano anterior e a levava ao tanque e ao ferro de passar com o carinho de mãe, e nas vésperas dos bailes de carnaval.

Por volta das nove horas da noite, Zé de Pio  começava a perambular pela sala como presidiário em dia da libertação. A cada volta, espreitava Donana a passar as peças brancas: calça e camisa sociais e dois pequenos pedaços de pano.  As roupas vestia solene na frente do espelho, olhar atento para não estragar as dobras do tecido.

Depois, o ritual que repetiria durante quatro noites. Sentado na pequena e corroída mesa de comer, deslizava o primeiro pano branco em cada curva do trompete. Começava pela campana, a mão em gestos circulares até não restar a menor dúvida de partículas de poeira. Seguia por toda a extensão do tubo num vai e vem ritmado, sem sobressaltos. Cada um dos três pistos recebia tratamento igualitário, como se naquele momento Zé de Pio  não quisesse notas diferenciadas, apenas o brilho uniforme.

Por fim, jogava o pano usado de lado e cuidadosamente desdobrava o segundo pano branco. A mão direita em formato de cone recebia o tecido e num gesto ansioso encobria o bocal do trompete, esfregando o pequeno cilindro, às vezes com fúria, às vezes com suavidade, misturando movimentos como em um sopro descontrolado.

Após terminar a operação, colocava o instrumento com cuidado na caixa, se olhava uma última vez no espelho, limpava as gotas de suor que escorriam debaixo dos cabelos pintados de preto, e saía pela porta da casa sem nem mesmo se despedir da mulher. No caminho de apenas quatro quarteirões até o clube, respondia sem olhar as saudações de amigos a erguer copos de cachaça nas portas dos bares. A sensação da bebida estalava no céu da boca, mas Zé de Pio resistia, durante os quatro dias de carnaval resistia e vencia aquelas garrafas que o perseguiam por todos os outros dias de sua vida.

Sempre que saía do bar, pernas em desalinho, batendo o ombro nas paredes das casas, o bêbado ouvia murmúrios de uma ou outra janela “lá vai Zé de Pio, este não tem jeito…”. Mas não em noites de carnaval. Peito esticado, ombros alinhados, pernas firmes, em noites de carnaval ele é José Sandoval Angelini, filho de Pio Angelini.  José Sandoval Angelini, trompetista da Banda da Praça Navona.

Durante quatro noites, ele subiria no modesto palco do clube, trompete nos lábios, olhos fechados, nota a nota destilando as marchinhas de carnaval, o cheiro de suor tomando o lugar da colônia barata, as roupas brancas se encharcando. Até o início das manhãs, José Sandoval Angelini ditava o ritmo do carnaval, recebendo rolos de confete e chuvas de serpentina, partículas de papel que grudavam em seu corpo molhado.

Os jovens pulando no salão pouco se importavam com quem tocava, mal distinguiam o trompetista do tocador de tuba e também pouco se importavam em ouvir, noite após noite, as repetidas e gastas marchinhas de carnaval. Mas nos cantos do salão, sentados à mesa, velhos casais da cidade, embalados pela nostalgia, comentavam quando os olhos paravam no trompetista.

– Nem parece o Zé de Pio.

Sempre aos domingos

Há silêncio dentro do carro. O irmão cochila, rosto encostado no vidro lateral. Nem o fascínio que sente por carros e estradas consegue vencer o cansaço. A irmã dorme desde que o pai engatou a primeira marcha, deitada no banco, a cabeça em meu colo. No banco da frente, a caçula da família se esconde nos seios da mãe, participando inocente da apatia que toma conta de todos naquele final de tarde de verão. A volta para casa transcorre assim, silenciosa.

Naquela manhã, a mãe se levantou antes de todos. Sentada à mesa da sala de jantar, sacola de pães em frente, uma bisnaga de mortadela, ela prepara a comida do dia. A faca parte cada pedaço bem fino, todos da mesma espessura, como uma máquina de padaria. Ela conta os pães, separando três para cada filho. “Os meninos são pequenos, não dão conta de comer isso tudo. E ainda tem o almoço”, diz o pai, saindo do quarto. “Nadar dá fome e pão com salame é gostoso e barato.”, justifica a mãe, enquanto ajeita tudo em uma cesta: panela de arroz, outra com pedaços de frango assado por cima da farofa com linguiça. No isopor, o pai coloca os recipientes de plástico com k-suco, duas garrafas de cerveja, dois litros de água, cobrindo tudo com barras de gelo.

A estrada para Sete Lagoas é movimentada, uma pista para cada lado transforma meros quilômetros em uma jornada longa, retardada por fila de caminhões que exercitam a paciência do pai ao volante. Ele vira à direita, logo após a placa indicativa para Pedro Leopoldo. São aproximadamente cinco quilômetros de estrada de terra, poeira cobrindo as laterais do carro.

O pai passava a semana planejando pequenas viagens de um dia. Chegava em casa e logo após o jantar discutia com a mãe o destino. “Fiquei sabendo de uma cachoeira perto de Vespasiano. É dentro de uma fazenda, o pessoal chama de Bem-te-vi.” “É longe?” “Não.” Na outra semana: “O Milton me falou de um lugar muito bom, Jujulândia, estrada de Pedro Leopoldo, perto, tem três cachoeiras.”

Em uma das entradas de Jujulândia, o carro passa dentro do riacho, as rodas afundam, águas quase cobrindo os pneus. Depois, a estrada estreita, cortando um bosque, árvores dos dois lados, galhos atravessando pelo alto, formando uma alameda coberta. Os carros ficam na sombra das árvores, pouco distantes do rio.

A mãe estende uma grande toalha ao lado do carro, ajeita com carinho os utensílios, tomando cuidado de fechar bem as panelas, protegendo a comida contra as formigas com um pano de prato amarrado em cada uma. Coloca um pequeno colchão ao lado. Ela vai passar grande parte do dia à sombra, tomando conta do bebê, enquanto o pai desbrava com os três outros filhos.

“Cada um pega um tronco destes.”, ordena o pai, com dois juncos nos braços. Gastamos cerca de uma hora procurando mais pedaços pelos arredores, entrando em trilhas, passando dentro d’água com os pequenos troncos acima da cabeça. Ele vai até o carro, volta com alguns pedaços de corda: “Uma jangada, vamos fazer uma jangada.”

O pai não embarca na jangada, deixa a aventura para os filhos. Descemos rio abaixo, a jangada batendo em uma pedra ou outra, aos poucos as cordas afrouxam, sensação de que todos os troncos vão se soltar. Quase no final da corredeira, pulamos e deixamos o que restou da jangada seguir seu curso. Olho para o alto, o pai gesticula alegre.

Agora ele também está silencioso. Olhar fixo na estrada, seguindo lento a fila de carros que se forma na volta para casa. A mãe, solidária no cansaço, vigia com o canto dos olhos, atenta ao marido, pronta para um cutucão caso note um cochilo. O sol, já fraco, rastro amarelado no céu, decreta o final do dia.

Eu tento manter os olhos abertos, mas sinto aos poucos o rosto tombar sobre o peito. Antes de adormecer, penso na semana, o pai e a mãe discutindo um novo destino para o domingo. Sempre aos domingos.

Raios e trovões

A história aconteceu em uma pequena cidade da Zona da Mata, interior de Minas. Minha mãe brincava no chão da cozinha, perto do fogão à lenha, com irmãos. O irmão mais velho, de 20 anos, estava deitado na mesa da cozinha, um pequeno rádio elétrico em seu peito, escutando notícias do Botafogo, time do coração.

Era noite de tempestade, relâmpagos e trovões – desses que despertam todos os medos. De repente, o mais ensurdecedor de todos. Todos na cozinha se levantaram em um salto. Menos o irmão que escutava rádio. Ele estava morto. Um raio atingira as imediações e, por uma dessas fatalidades inacreditáveis, o rádio pousado no peito conduziu a descarga, matando-o. Não me questionem das possibilidades científicas ou probabilidades estatísticas,  aconteceu.

A mãe nunca se recuperou do trauma. Em dias de tempestade, acende uma, dependendo da quantidade de raios e trovões, várias velas para Nossa Senhora. Na infância, me acostumei a vê-la andando pela casa escutando a chuva, mãos segurando o coração a cada trepidar de janelas. Chuva forte, ela apertava os filhos no colo dizendo palavras carinhosas e protetoras  – para ela mesma. Rádio ou qualquer coisa ligada na tomada, nem pensar.

Quando a chuva diminuía, eu dava um jeito de escapulir para a rua, correr para as brincadeiras de chuva. Tico-tico fuzilado, o perdedor ia para o paredão, braços abertos, rosto voltado para o muro, uma bola de meia molhada deixava uma sádica marca nas costas do pobre condenado; ou simplesmente fazer barricada de pedras e paus na correnteza, pular em poças d’água. Quando voltava para casa, a mãe já tinha esgotado as velas.

Adolescente, no tempo das águas, eu e amigos descíamos a pé do Estadual Central – do Santo Antônio ao Centro da Cidade – sem guarda-chuva. Eu deixava a chuva entrar pelas roupas, encharcar corpo e alma, sensação de jovens em bando despreocupados da vida. Chegava em casa, a mãe dizia “menino, tira essa roupa e toma um banho quente”. Eu tomava, esquecido de tudo.

E beijar namorada debaixo da chuva… Hoje, tenho certo receio da chuva, um resfriado, coisa mais séria, sei lá. Prefiro sentar na varanda para ver a chuva, raios e trovões. A cada barulho penso na mãe acendendo velas, as mãos no peito, o coração na infância.

Quinta série

O vento frio de junho achava seu caminho entre os prédios do campus. Motivado pela estranha nostalgia que manhãs de outono provocam, resolvi caminhar pelos bonitos jardins da universidade. Passei pelo complexo da unidade de saúde. Onde agora é a escola de odontologia, havia campo de terra, quadra de futebol de salão e piscina.

O centro esportivo era aberto à comunidade nos finais de semana e nas manhãs de sábado eu acompanhava o pai para assistir aos jogos do time do bairro. Meu pai era o treinador, mas sempre tive a impressão que ele apenas distribuía as camisas. Ele andava de um lado para o outro na lateral do campo durante o jogo, gritando com os jogadores e com o juiz. Nada que se parecesse com instruções ou táticas de jogo. Pensando bem, parecido com os técnicos profissionais de hoje.

Na quinta série, entrei para o colégio da rede católica que naquela época funcionava dentro da universidade. As aulas começavam a uma da tarde. Antes e depois, os meninos jogavam futebol. Às 12h30 em ponto, nos reuníamos na quadra e dividíamos apressados os times. Era apenas meia hora de pelada. Cerca de quarenta minutos depois, ofegantes e suados, entrávamos na sala. As meninas olhavam com repulsa, os professores repetiam sermões sobre bom comportamento, blábláblá sobre a necessidade de aprender a separar as coisas, hora da escola e hora do futebol. Apenas o professor de português nos olhava complacente.

Depois da aula, era a vez do campo de terra. Onze meninos para cada lado, sem disciplina ou posições definidas, todo mundo indo e voltando como futebol polivalente, correndo atrás da bola até escurecer.

Quando eu chegava em casa, encontrava o olhar desolado da mãe no meu uniforme sujo de poeira e terra. Esperava por um sermão, um puxão de orelha, algo assim. Ela apenas pedia que eu tirasse logo a roupa e corria para o tanque. No outro dia, na hora da escola, havia sempre uma bermuda e camiseta limpas passadas em cima da cama. Ela me mandava para a aula com um beijo quente no rosto e mil recomendações para não sujar o uniforme.

Termino meu passeio pela infância nessa manhã de outono no atual prédio da Faculdade de Direito. Aqui ficavam as salas de aula do velho colégio. Foi bem na porta daquela sala, no começo da minha adolescência, que o professor de português me viu sentado na pequena murada branca que separa as salas do pátio, pouco antes da aula começar, o uniforme limpo e bem passado. No terceiro dia em que me viu na mesma posição perguntou:

– Você parou de jogar futebol?

– Não estou com vontade.

Ele olhou furtivamente para o outro lado do pátio e entrou na sala. Eu fiquei ainda alguns minutos. Os olhos fixos na sala em frente, onde as meninas da sexta série conversavam animadamente. Mariana, encostada na parede, de vez em quando olhava para mim, os lábios ensaiando um sorriso.

Duquesa

A casa está em silêncio nesta noite fria de julho. Todos dormem. Ajeito os travesseiros, o edredom espera esparramado no sofá. Perco-me durante alguns segundos no irritante processo de configurar idioma e legenda do DVD. Apago a luz, me acomodo e num breve instante, antes do filme começar, meus olhos procuram o chão da sala, o hábito de ver ali a almofada cor-de-rosa, Duquesa enrodilhada, o focinho escondido entre as patas, as longas orelhas peludas resvalando no chão.

Nem sempre ela foi serena assim. Na juventude raivosa, ela levantava-se rápido e corria da sala até o quintal, deixando no rastro latidos curtos e roucos. Parava, ouvidos atentos, olhos procurando suspeitos. Ao menor sinal, latia para essas ameaças encobertas que alegram a vida do cão doméstico. Atrás da proteção dos muros da casa, latem para o vento.

Duquesa mostrava garras também para os visitantes. Certa feita, se agarrou à barra da calça do entregador de gás. Observava atenta da varanda, sentada no alto da escada, o leiturista da Copasa – olhos sedentos, dentes em prontidão. Pedreiros, pintores, marceneiros, freqüentadores da infinda reforma de minha casa, tomavam sempre o cuidado de saber o paradeiro da cocker antes de entrar. “É pequena mas brava.” – diziam. Até mesmo a diarista de tantos anos olhava ressabiada ao entrar. Duquesa levantava a cabeça discretamente, rosnava por dois ou três segundos e, desapontada por ver gente conhecida, voltava a deitar o focinho entre as patas peludas.

Seu jeito de comer também era ruidoso. Colocava alguns grãos de ração na boca e os espalhava pelo chão. Depois pegava grão a grão e antes de mastigar latia para o alto.

Com o tempo, os latidos diminuíram, a maturidade serenou pouco a pouco a revolta contra o vazio. A diarista entrava, Duquesa levantava discretamente a cabeça, nada de rosnados. Assistia tranqüila o entregador de gás deixar o botijão. Do alto da escada, não levantava mais os olhos para o leiturista da Copasa. Passou a marcar os lugares da casa com sua serenidade avançada.

Durante os almoços em família, ficava enrodilhada na almofada cor-de-rosa no canto. Andava perdida pela casa até se aconchegar na presença de um dos moradores. Se minha filha dormia à tarde, Duquesa deitava aos pés da cama. Se minha esposa passava a tarde trabalhando no jardim, Duquesa deitava na varanda, em vigília adormecida. Perto da cadeira de minha escrivaninha, ela ocupava um pequeno espaço. Só não entrava no quarto do meu filho: arredio a cães, ele a enxotava. A cachorra dava então algumas voltas, chegava o focinho no limite do ambiente proibido, se voltava e deitava na soleira da porta em solene protesto.

A idade a vencia. Não latia mais. Os visitantes a quem tanto amedrontava agora se referiam a um pequeno bicho de pelúcia estendido em algum canto da casa, o focinho entre as patas, a respiração tranqüila, protegida finalmente de todas as ameaças que tanto perseguiu.

Nesta noite fria de inverno, meus olhos procuram em vão a almofada cor-de-rosa no centro da sala antes do filme começar. Penso que não é uma boa noite para filme. Vou ao computador me despedir de Duquesa contando sua breve história. História que começou quatorze anos atrás, quando minha filha chegou em casa com um filhote parecido com um pequeno bicho de pelúcia, remexendo em suas mãos, tentando se soltar para correr pela casa com seus latidos curtos e roucos.