Os renegados

Na primeira sequência já sabemos que a protagonista está morta. Mona (Sandrine Bonnaire) é encontrada jogada em uma vala em uma fria manhã de inverno, no sul da França. A polícia conclui que, possivelmente, o frio é a causa da morte.

A diretora Agnès Varda estrutura o filme como uma narrativa policial (sem a polícia presente): personagens que cruzaram com a jovem em seus últimos dias relatam para a câmera os encontros, tentando elucidar para o espectador aspectos da personalidade de Mona, que escolheu andar pelas estradas, vivendo ao acaso.

São relatos fragmentados, às vezes conversas desencontradas com a câmera, cabe ao espectador juntar os pedaços. O único relato denso é de uma professora que dá carona para Mona e passa algum tempo com ela na estrada e durante uma conferência. Os caminhos e encontros de Mona traçam um panorama dos anos 80, quando sociedades mergulharam em crises que provocaram nas pessoas dilemas existenciais, buscas, frustrações, desilusão completa com as estruturas sociais. No final, sabemos apenas o que já estava claro no início: Mona está morta. 

Os renegados (Sans toit ni loi, França, 1985), de Agnès Varda. Com Sandrine Bonnaire, Macha Méril, Stéphane Freiss. 

Lírios d’água

O longa de estreia de Céline Sciamma (Tomboy, Retrato de uma jovem em chamas) apresenta temática recorrente na carreira da diretora: a conflituosa descoberta da sexualidade que rompe os limites entre amizade e romance. 

Marie tem 15 anos e nutre uma paixão à distância por Floriane, atleta de nado sincronizado da escola em que estudam. Floriane namora François e, ao mesmo tempo, incentiva os desejos de Marie. O quadro se completa com Anne, melhor amiga de Marie que é apaixonada por François.

A trama segue o ponto de vista de Marie que se entrega mais e mais ao jogo de dominação estipulado pela sua amada. A sexualidade entre as duas é tratada às vezes de forma suave, outras agressivas, representando a instabilidade das jovens que se confrontam sozinhas com estas descobertas.  

Lírios d’água (Naissance des pieuvres, França, 2007), de Céline Sciamma. Com Pauline Acquart (Marie), Adèle Haenel (Floriane), Louise Blachère (Anne).

O cigarro

Pierre Guérande, diretor de um museu em Paris, está envolvido em uma pesquisa sobre  faraó egipcio que cometeu suícidio. Ele é casado com uma mulher muitos anos mais nova e começa a desconfiar que está sendo traído. Pierre não julga a esposa, pois reflete que é natural, devido a diferença de idade, mas resolve experimentar a mesma técnica de suicidio do faraó: Pierre introduz veneno em um cigarro e o mistura com outros dentro de seu estojo. Dessa forma, não sabe que dia vai morrer. 

Germaine Dulac faz um fascinante estudo sobre relações amorosas, desilusões, frustrações à medida que o tempo passa, inserindo nessas questões um tema sempre tabu na sociedade: o suicídio. Filme reflexivo e sensível, marca da grande Germaine Dulac e do movimento ao qual fez parte, o impressionismo francês.

O cigarro (La cigarette, França, 1919), de Germaine Dulac. Com Gabriel Signoret, Andrée Brabant, Jules Raucourt.

O crime de Monsieur Lange

Jean Renoir faz uma fascinante incursão pelo cinema de gênero. No início do filme já sabemos que o escritor Amédée Lange cometeu um crime. A história é contada por sua namorada em uma pousada, durante a noite, para um grupo de homens. A intrincada trama traz revelações sobre troca de identidades, assédio sexual, corrupção, roubo de direitos autorais. Tudo centrado em uma editora de publicações populares, incluindo jornal e quadrinhos. Lange faz sucesso após publicar uma série de quadrinhos ambientada no Texas, intitulada Arizona Kid. No final, a dúvida que fica é se um assassinato pode ser justificável e o assassino pode escapar sem prestar contas à justiça. 

O crime de Monsieur Lange (Le crime de Monsieur Lange, França, 1936), de Jean Renoir. Com René Lefèvre, Florelle, Jules Berry. 

Sete anos de azar

Após chegar bêbado em casa, o bem-sucedido Max acorda de manhã e se vê às voltas com uma confusão inusitada. Seu mordomo quebra o espelho do closet e na tentativa de disfarçar o ocorrido coloca outro empregado da casa, parecido com Max, do outro lado da moldura. É o ponto forte da comédia, as interações físicas entre Max e seu duplo frente a frente são responsáveis por cenas antológicas do cinema mudo. 

O tema que provoca a série de gags é a superstição dos sete anos de azar para quem quebrar o espelho. Max está de casamento marcado, mas sucessivos desencontros e acidentes parecem comprovar a lenda urbana. 

Sete anos de azar (Seven years bad luck, EUA/França, 1921), de Max Linder. Com Max Linder, Alta Allen, Ralph McCullough.

Playtime – Tempo de diversão

Dou risada quando dizem que Playtime não tem estrutura”, disse Jacques Tati, em resposta às críticas que recebeu sobre o filme. A obra consumiu três anos de filmagens, com a construção de cenários gigantescos nos arredores de Paris, incluindo a réplica do aeroporto. O diretor tentou junto à prefeitura, sem sucesso, que a cidade cenográfica permanecesse como ponto turístico da capital francesa.  

Dividido em seis partes, Playtime narra os encontros e desencontros de uma turista americana e o personagem interpretado por Tati, francês assombrado pela modernidade da cidade. Tati disse que aplicou ao filme sua visão das cidades modernas, que se igualaram quando optaram pela construção de complexos centros turísticos, tentativa de fascinar e oferecer o máximo de conforto e deslumbre aos visitantes. Em Playtime, a arquitetura do aeroporto motiva todos a andarem em linha reta. O restaurante que abre suas portas no dia do término das reformas provoca uma série hilária de acidentes envolvendo tetos de gesso, cadeiras e a porta de vidro. 

“É como um balé. No começo, os personagens sempre andam alinhados com a arquitetura. Nunca fazem curvas. Vem e vão em linhas retas. Mas quando mais nos adentramos no filme, mais as pessoas começam a dançar e girar, até se tornarem um círculo.” – Jacques Tati.

A sequência final é antológica: após a noite de peripécias no restaurante, levando todos à exaustão física e psicológica, a cidade amanhece. Enquanto alguns vão à padaria tomar o café da manhã, os turistas americanos embarcam de volta para o aeroporto, outros tomam seus carros. Todos se envolvem em um congestionamento que provoca o giro dos automóveis na praça, num carrossel simétrico, verdadeiro balé aos olhos do espectador. 

É a obra-prima do diretor, verdadeiro delírio visual, recheado de metáforas sobre a modernidade das cidades e como afetam nossas vidas. ”Quero que o filme comece quando você sai do cinema.”. Afirmou Jacques Tati. Sobre a estrutura narrativa de Playtime, Tati comentou.  

“Eu não sentia a necessidade de escrever um roteiro com o enredo, surpresas, reviravoltas e desfechos de sempre. Tais convenções não são necessárias para se fazer um filme. Filmes sempre expressam histórias bem estruturadas. Não podemos deixar isso de lado ao menos uma vez? É justamente porque o público não espera saber se ocorrerá um assassinato, estupro, um beijo ao luar, um resgate, a identidade de um estranho ou de um assassino, que eles têm tempo para rir e eu posso incluir várias piadas.”

Playtime – Tempo de diversão (Playtime, França, 1967), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Barbara Dennek, Billy Kearns.

Meu tio

O filme abre com cães correndo livremente pelas ruas de Paris. Um dos cães, dachshund vestido com manta escocesa, passa por baixo do portão e entra em casa: a moderna e futurista casa da família com quem mora. Os mesmo cães são vistos no final do filme, fazendo exatamente a mesma coisa: correndo pelas ruas, felizes com a liberdade. 

Com imagens assim, simples situações do cotidiano, Jacques Tati não deixa dúvidas sobre o tema de Meu Tio: a família Arpel se entrega ao fascínio do modernismo, representada pela casa que beira o ridículo com seu ambientes, móveis e eletrodomésticos  nada aconchegantes ou habitáveis; enquanto o Sr. Hulot vive em um bairro simples, onde um varredor de rua sempre se esquece de usar a vassoura pois conversa com cada um que passa. Uma das sequências antológicas do cinema é quando o Sr. Hulot entra em seu prédio:

“Jacques Tati é o grande filósofo faz-tudo da comédia, que toma cuidado meticuloso em organizar seus filmes de modo a exporem uma série de revelações e deleites aparentemente sem esforço. Examinemos uma das cenas iniciais de Meu tio, quando a câmera observa o exterior do prédio onde Hulot, o personagem de Tati, vive em um quarto sob o telhado. À primeira vista, parecem dois prédios vizinhos e Hulot entra no andar térreo de um deles. Mas, à medida que sobe as escadas, vislumbramos-lhe o corpo e as pernas, a cabeça ou os sapatos através de uma série de janelas, portas e corredores, revelando que os dois edifícios são interligados. Quando afinal ele chega ao último andar, desaparece e não ressurge onde seria de se esperar, mas sim no outro lado da tela.” – Roger Ebert

A sequência representa o perfeito domínio que Jacques Tati tinha do espaço cênico, criando gags através de referências visuais, praticamente sem diálogos, usando o som dos objetos em cena em momentos precisos. A casa futurista aprisiona seus moradores na formalidade, nas aparências que a sociedade exige. As ruas, para onde o cão foge, assim como o menino Arpel que anseia pela chegada do tio para se entregar à vida deliciosamente mundana das crianças. Só mesmo as ruas e só mesmo a genialidade de Jacques Tati são capazes de criar a gag do assobio das crianças que desviam a atenção dos pedestres, levandos-os ao encontro do poste.  

Meu tio (Mon oncle, França, 1958), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Jean Pierre Zola, Adrienne Servantie, Alain Bécourt.

Referência: Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

Vidas duplas

Ganhei meu kindle de presente de aniversário anos atrás. Relutei no início em ligar o fascinante objeto, comprar meu primeiro e-book e aderir à leitura digital. Amo os livros físicos, admirar as capas, sentir o cheiro de páginas novas, sentar-me no confortável sofá e deitar os olhos nas letras impressas. Às vezes, pago caro por esse prazer, livros no Brasil alcançam preços fora da realidade. 

O tema de Vidas duplas é a revolução digital no mercado editorial. Alain é editor de importante empresa que prepara a transição para o mercado digital, que exige investimentos em e-books, audio livros e outras propostas. Léonard é escritor e reluta em se render a esses tempos. Selena, mulher de Alain, também enfrenta sua crise profissional: interpreta uma especialista em crises em série policial de sucesso e está cansada do trabalho repetitivo. Crises de relacionamento e casos extraconjugais pontuam a trama. 

O interesse da trama está nos conflitos dos personagens, revelados em diálogos reflexivos quando editor, escritores, blogueiros se encontram em bares e jantares e colocam em pauta as mudanças profissionais. “Meu blog tem cinco mil acessos diários, mas ninguém lê meus livros.” ‘Com um kindle, você pode carregar sua biblioteca inteira em uma viagem.” “Eu não quero carregar minha biblioteca inteira, prefiro levar um livro leve.” Outra importante questão desses tempos virtuais aparece quando a responsável pela transição digital da editora dá lições a Alain sobre o poder dos algoritmos também no universo da literatura. 

Hoje ligo meu kindle e leio também com prazer, no mesmo sofá confortável, afinal, “as letras são maiores”, como diz um personagem de Vidas duplas

Vidas duplas (Doubles vies, França, 2018), de Olivier Assayas. Com Juliette Binoche (Selena), Guillaume Canet (Alain), Vincent Macaigne Léonard), Nora Hamzawi (Valérie). 

Retrato de uma jovem em chamas

O cenário é uma bela ilha na França, no século XVIII. A jovem pintora Marianne (Noémie Merlant) desembarca, contratada para pintar o retrato de Héloise (Adèle Haenel), jovem que vive reclusa na mansão da família. O retrato será enviado para Milão, onde reside o homem que pretende se casar com ela (os dois não se conhecem). 

A narrativa acompanha de forma linear o relacionamento das duas, a princípio dominado pelo silêncio. As duas caminham pela ilha, contemplando a natureza, se contemplando, deixando-se levar cada vez mais pela afetividade, pela atração de duas jovens solitárias que buscam, cada uma a sua forma, a beleza da arte. Beleza que se revela em imagens sensíveis de Marianne e Héloise, entregues àquele mundo só delas, como se cada momento fosse destinado a este encontro inevitável, enquanto esperam o destino já traçado: deixar a ilha e entrar no cruel mundo determinado pelas convenções sociais da família, dos homens. Atenção para a tocante cena final na ópera, momento em que a arte conversa com essas mulheres a quem não foi permitido se entregar as suas escolhas. 

Retrato de uma jovem em chamas (Portrait de la femme fille en jeu ,França, 2019 ), de Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami.

As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco

É o quarto filme centrado nas aventuras, ou desventuras, do Sr. Hulot, inesquecível personagem criado e interpretado por Jacques Tati. Dessa vez, ele enfrenta o trânsito em viagem tresloucada de Paris a Amsterdã. O Sr. Hulot é projetista de uma pequena fábrica de automóveis (esse é um dos fascínios do personagem, nunca se sabe exatamente quem ele é ou o que ele faz, ele simplesmente se adapta às ideias de seu criador). Ele desenvolve um carro-acampamento que deve ser transportado de caminhão para uma feira de automóveis em Amsterdã. 

Mais uma vez, Jacques Tati centra suas lentes críticas e irônicas na direção da modernidade, agora o alvo são os automóveis. Em entrevista, o diretor disse que pensou no filme observando como a personalidade das pessoas muda quando estão dentro de seus carros. Depois do lançamento do filme, Tati inclusive se juntou a grupos ativistas em passeios de bicicletas para protestar contra a invasão dos carros nas cidades, em detrimento de pedestres. 

A crítica é o pretexto para as divertidas gags protagonizadas pelo Sr. Hulot em meio ao trânsito louco. A marca visual de Jacques Tati continua inovadora, em sequências que reforçam o poder das imagens no cinema, com destaque para a série de acidentes de carros em um cruzamento e a composição estética dos carros em uma tarde de chuva, quando motoristas e passageiros se integram ao movimento dos limpadores de pára brisas. 

As aventuras do Sr. Hulot no trânsito louco (Trafic, França, 1971), de Jacques Tati. Com Jacques Tati, Maria Kimberly, François Maison Grosse.