
O Boulevard do Crime (Les enfants du paradis, França, 1945), de Marcel Carné.
Baptiste (Jean-Louis Barrault), vestido de palhaço, está sentado em um barril, no palco, diante da multidão que se aglomera na feira, aguardando a apresentação teatral. Tem o olhar triste, fixo na cortesã Garance (Arletty) que o observa sorridente. Ao seu lado, um homem de posses, na outra extremidade o refinado Lacenaire (Marcel Herrand), dramaturgo fracassado que envereda pelo mundo do crime. Lacenaire rouba o relógio de ouro do homem ao seu lado e sai de cena.
O homem sente falta do objeto e acusa Garance de ter praticado o furto. Segue-se uma discussão entre os dois e a polícia chega ao local. Garance vai ser presa, mas Baptiste grita do palco que testemunhou o crime. Ele desce do barril e passa a encenar o roubo por meio da pantomima, gesto a gesto, as mãos e expressões de seu rosto fazendo o retrato dos envolvidos. Garance, mesmo ameaçada de prisão, ri, encantada com a performance. Sem dizer uma única palavra – assim como Carlitos no número de canto e dança em Tempos modernos (1946), Baptiste inocenta a cortesã, por quem já desenvolveu uma paixão à primeira vista.
O boulevard do crime é considerado um dos melhores, senão o melhor, filme francês de todos os tempos. O diretor Marcel Carné conseguiu proezas quase inacreditáveis na produção e filmagem na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra – as filmagens aconteceram em Paris e Nice.
Foi construído o maior cenário de estúdio da história do cinema francês, uma rua de meio quilômetro, reproduzindo o Boulevard do Crime, região em Paris que abrigava teatros e espetáculos de rua entre 1830 e 1840. Para compor as cenas de rua, Carné contou com cerca de 1.500 figurantes. Foram 18 meses de produção, a equipe sempre às voltas com carência de materiais, figurinos e película. De acordo com normas nazistas impostas ao cinema francês, um filme poderia ter no máximo 90 minutos de duração. Marcel Carné filmou dois filmes com esta duração, Les enfants du paradis e O Boulevard do Crime. A estreia aconteceu somente 1945, portanto o filme pode ser exibido na íntegra.
A narrativa gira em torno de Garance. Três personagens se apaixonam por ela: o mímico Baptiste, o ator shakespereano Brasseur e o criminoso Lacenaire. Garance se torna amante dos três, até que entra em cena um quarto amante: o Conde Montray (Louis Salou) que a conquista com dinheiro e uma vida requintada.
No entanto, é o amor ingênuo e idealista de Baptiste que move a trama e provoca os conflitos. Baptiste deseja Garance na plenitude, algo impossível devido a posição dela na sociedade. Ele se transforma em um mímico de sucesso, assim como seu amigo Brasseur que conquista a cena teatral. Pode-se ver na disputa entre os dois relações entre a preservação da arte cênica muda e a arte da interpretação verbal – cinema mudo x cinema sonoro.
‘É possível que Arletty realmente ame o inocente Baptiste, que triunfa em uma briga de bar e a leva para morar com ele em sua sórdida casa de cômodos, onde aluga um quarto para ela e se retira castamente à noite. Mas Frédérick, que vive na casa de cômodos, não tem tais escrúpulos – e nesse aspecto Baptiste não é santo. Casa com a filha do gerente do teatro, gera ‘um abominável rebento’ (na opinião de Kael) e engana a esposa porque ainda ama Garance. Lacenaire que circula pelo submundo como um rei valendo-se de sua fama de cruel, acha que pode ter Arletty gratuitamente (‘Você é a única mulher por quem eu não tenho desprezo’), mas é o conde que com seu dinheiro torna-a sua amante. Quando Lacenaire puxa uma cortina para o conde ver Garance nos braços de Baptiste tantos homens se acham no direito de tê-la que o ator comenta: ‘O ciúme pertence a todos, as mulheres a ninguém’.” – Roger Ebert.
O Boulevard do Crime fez um estrondoso sucesso quando foi lançado. Ficou 54 semanas em cartaz e, ainda hoje, tem exibições frequentes em Paris. Impossível não se impressionar com as cenas de rua na região que concentrava “atores, assassinos, vigaristas, batedores de carteiras, prostitutas e ricos decadentes”. Ali, todos circulam livremente como também frequentam clubes noturnos, teatros, os sórdidos esconderijos dos criminosos e as moradias dos miseráveis.
A sequência final, quando Garance se despede de Baptiste e se mistura à multidão na rua, retrata essa Paris tomada por famosos e anônimos, todos se acotovelando, quase se pisoteando, no glamour do Boulevard do Crime. Todos em busca de paixões, sucesso, dinheiro ou simplesmente existir e, quem sabe, ser visto.
Referência: Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006
Deixe um comentário