O homem dos olhos esbugalhados (Stranger on the third floor, EUA, 1940), de Boris Ingster.
O sonho de Michael Ward, jovem jornalista, é um primor estético expressionista. Vários homens são mostrados em closes, apenas os rostos iluminados, acusando Michael de ter assassinado um homem. A cena se funde com edições de jornais em ângulos distorcidos, seguida de Michael na prisão, o cenário quadriculado ao fundo, o guarda sentado em uma cadeira alta, diante de um imenso relógio. Fusões sobre fusões se sucedem, com o jornalista sentado em um cenário escuro, luzes entrando pela diagonal e se estendendo por toda a parede e pelo chão.
A sequência expressionista termina no tribunal, com todos os personagens diante de um cenário lúgubre, gótico, com sombras e símbolos refletindo nas paredes e nos rostos do júri. Após o veredito, Michael é encaminhado para a cadeira elétrica.
O homem dos olhos esbugalhados é considerado o filme que anuncia o cinema noir nos Estados Unidos. O diretor Boris Ingster e o diretor de fotografia Nicholas Musuraca foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão, inaugurado no cinema americano com o clássico Aurora (1929), de Murnau.
O jornalista Michael Murnau é testemunha num caso de assassinato do dono de um bar e seu depoimento incrimina Joe Briggs. Briggs jura inocência, alegando ter entrado no bar logo após o assassinato. Durante o julgamento, Michael encontra seu vizinho de apartamento morto e vê um estranho descer correndo as escadas. Tudo se complica, pois ele pode ajudar a levar à morte um homem inocente.
A narrativa curta, pouco mais de sessenta minutos de duração, tem como marca o estilo visual sombrio, demarcando as questões psicológicas que rondam os principais personagens. Quando o estranho entra em cena – Peter Lorre em mais uma interpretação de um criminoso assolado por problemas psíquicos (como em M. o vampiro de Dusseldorf -1931) a trama ganha a tradicional reviravolta dos filmes noir.
O destaque do filme é a sequência do pesadelo que alerta para os intrincados jogos psicológicos e o quase macabro sistema judiciário que pode levar inocentes à morte num piscar de olhos.
Elenco: Peter Lorre (O estranho), John McGuire (Michael Ward), Margaret Tallichet (Jane), Elisha Cook Jr. (Joe Briggs).
O início de O relógio verde (The big clock, EUA, 1948), de John Farrow, define bem a estrutura narrativa comum dos filmes noir. É noite. O jornalista George Stroud (Ray Milland) está no saguão do prédio onde trabalha e se esconde do vigia. A escuridão toma conta do ambiente, com pequenos flashes iluminando o personagem. Voz interior de George: “Essa foi por pouco. E se eu entrar no relógio e o vigilante estiver lá? Pense rápido, George. Que sorte. Ele está de folga.” O jornalista sobe as escadas e entra no enorme relógio que decora o salão do prédio. “Mais guardas. O saguão está sendo vigiado e há ordens de atirar para matar. Matar você, George. Você. Como me meti nessa corrida de ratos? Eu não sou bandido. O que aconteceu? Quando começou? Apenas 36 horas atrás eu estava lá embaixo, atravessando o saguão para ir trabalhar, cuidando de minha vida, ansioso pelas primeiras férias que eu teria em anos. Há 36 horas eu era um cidadão decente, respeitável e que respeitava a lei, com uma esposa, um filho e um bom emprego. Há apenas 36 horas, de acordo com o grande relógio.”
Corta para flashback que narra os acontecimentos a partir de exatos 36 horas antes. A voz interior que remete ao que aconteceu até aquele momento é marca do cinema noir. Basta citar o clássicos dos clássicos do gênero: Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder.
George Stroud é reconhecido por sua perícia no jornalismo investigativo – ele descobre o paradeiro de suspeitos de crimes antes da própria polícia. George se envolve em uma intrincada teia quando conhece no bar a sedutora Pauline York (Rita Jonson ) – a femme fatalle.
Pauline é amante de Earl Janoth (Charles Laughton), dono do império de comunicações onde George trabalha. Sem crime não há filme noir. Pauline é assassinada em seu apartamento por Janoth, atingida na cabeça por um relógio verde de porcelana. Para tentar encobrir o crime, o magnata conta com seu funcionário de confiança Steve Hagen (George Macready).
No entanto, uma série de pequenos incidentes pode incriminar Janoth. A solução é obrigar o jornalista George Stroud a descobrir o criminoso antes da polícia. O problema é que o principal suspeito é o próprio jornalista: foi ele quem comprou o relógio verde e o esqueceu no apartamento de Pauline, onde esteve minutos antes do assassinato.
O jogo de gato e rato apresenta algumas reviravoltas, a principal: todos ficam detidos no prédio à noite, pois uma testemunha vê o provável criminoso – George entrando no prédio. O grande embate acontece entre George e Janoth, dois atores consagrados que, dizem, não se deram bem durante as filmagens. Relatos indicam que Ray Milligan, notório galã e ultra conservador, não aceitava a homossexualidade de Charles Laughton.
O grande destaque do filme é o roteiro, com reviravoltas precisas e personagens coadjuvantes que são decisivos no decorrer da trama. Atenção para a participação de Elsa Lanchester como a pintora Louise Patterson: ela insere humor em suas interações, principalmente ao interpretar os diálogos, verdadeiras tiradas, outra marca dos filmes noir.
A mão do diabo (La main du diable, França, 1943), de Maurice Tourneur.
Roland Bristol (Pierre Fresnay) entra em uma hospedaria no interior da França. A noite é chuvosa, com raios iluminando as janelas. Um grupo de moradores do vilarejo está reunido; eles sempre encontram à noite para contar histórias.
Roland está sendo perseguido por alguém e assume um comportamento alerta e agressivo ao menor sinal do lado de fora. Ele não tem uma das mãos, em seu lugar está uma peça de porcelana. Ele se aproxima do grupo e, mais calmo, resolve contar a sua história, advertindo que é uma narrativa difícil de acreditar.
Maurice Tourneur adaptou o conto La main enchantée de Gérard, do escritor Nerval. Pode-se associar o filme também à clássica história de Fausto que vendeu sua alma ao diabo em troca de juventude e sucesso. Roland, um pintor fracassado, se apaixona pela ambiciosa Irene (Josseline Gael) que não o aceita devido à sua pobreza. Em um restaurante, Roland é seduzido por um artefato em uma caixa e o compra do dono: a mão do diabo, que lhe traz sucesso, riqueza e o coração corrupto de Irene. No entanto, o preço será cobrado.
A narrativa e a estética da película são claramente influenciadas pelo expressionismo alemão e pelo cinema noir americano. O protagonista é consumido pela ambição e ganância e, depois, pela tentativa de redenção. A mão do diabo foi produzido pela Continental, produtora de capital alemão, durante a ocupação nazista na França. Por meio do terror psicológico, o diretor Maurice Tourneur conseguiu driblar a censura e inserir elementos metafóricos sobre a noite sombria que pairava sobre a França ocupada.
O terceiro homem (The third man, Inglaterra, 1949), de Carol Reed.
Esse inusitado filme noir produzido pelos ingleses e rodado quase inteiramente em locações em Viena, tem uma das frases mais polêmicas e emblemáticas do cinema. Harry Lime (Orson Welles), que estava morto e reaparece, conversa com seu amigo Holly Martins (Joseph Cotten) no sopé de uma roda gigante. Harry convida Holly para trabalhar com ele no contrabando de penicilina adulterada, que causara deficiência e mortes em pacientes, incluindo crianças.
““Não faça essa cara de enterro. Não é tão ruim assim. E lembre-se: a Itália sob o domínio dos Bórgia, viveu 30 anos de terror, guerra e assassinatos, mas gerou MIchelangelo, Leonardo Da Vinci e o Renascimento. Já a Suíça com todo o amor fraternal, viveu 500 anos de paz e democracia. E gerou o que? O relógio cuco. Tchau, Holly.” – argumenta Harry.
O roteiro de O terceiro homem foi escrito pelo escritor Graham Greene, que depois escreveu o livro a partir do filme. No entanto, a frase bombástica foi escrita pelo próprio Orson Welles que, claro, teve que ir a público se desculpar com os suíços.
A trama começa com Holly Martins, escritor fracassado de livros de faroeste, chegando a Viena sem um tostão no bolso, seduzido por um emprego oferecido pelo amigo Harry, que não vê há anos. Grande parte de Viena está em ruínas e a cidade está infestada de estrangeiros que praticam contrabando quase livremente pelas ruas.
“A Viena pós-guerra, com insistente música de cítara ao fundo, estava a um milhão de quilômetros de distância da cidade das valsas leves de Strauss, além de se encontrar dividida em setores francês, britânico, russo e americano. Reed e seu grande diretor de fotografia, Robert Krasker, filmaram a maior parte das cenas com a câmera angulada fora do eixo horizontal. Cineastas alemães da década de 1920 haviam usado essa técnica para indicar desequilíbrio mental. Sua Viena continha tanta loucura quanto os sanatórios de Wiene e Kinugasa, os precursores expressionistas de Reed. Welles escreveu suas próprias cenas e alguns afirmam que ele também foi uma influência no estilo visual do filme.” – Mark Cousins
Logo após desembarcar, Holly descobre que seu amigo foi atropelado em frente a casa onde mora e está sendo enterrado naquele momento. No enterro, personagens determinantes para a trama se cruzam: o inspetor de polícia, Anna Schmidt (Alia Valli), namorada de Harry, e dois amigos que socorreram o atropelado. No entanto, o porteiro, testemunha do acidente, afirma que havia um “terceiro homem” no local. O escritor, estranhando esse terceiro homem que ninguém citara nos depoimentos, começa a investigar o atropelmaneto como um possível caso de assassinato.
“Depois de todos esses anos, não é exatamente uma surpresa, mas o momento em que o Harry de Welles é pego por um facho de luz da rua enquanto um gato se esfrega em seus sapatos ainda é mágico. O tema da cítara inesquecível de Anton Karas se destaca na trilha sonora. Um raro filme inglês que é tecnicamente tão perfeito quanto os melhores clássicos de Hollywood, O terceiro homem é uma extraordinária mistura de thriller político, estranha história de amor, mistério gótico e tormento romântico em preto e branco.” – 1001 filmes para ver antes de morrer
O filme tem duas sequências memoráveis inscritas entre as melhores de todos os tempos no cinema. Primeiro, a perseguição da polícia a Harry nos esgotos de Viena até o confronto final quando o contrabandista, já ferido, passa os dedos pela grade que lhe daria acesso à rua, olha para Holly que está embaixo da escada e faz apenas um leve sinal com a cabeça. Ouve-se o tiro fatal (Orson Welles fica em cena durante cerca de cinco minutos, em uma de suas maiores atuações no cinema).
A segunda, no verdadeiro enterro de Harry Line. Em primeiro plano, vemos Holly Martins encostado em um carrinho, na alameda do cemitério. Ao fundo, em um grande plano aberto, Anna caminha solitária em direção à câmera Ela passa por Holly sem sequer olhar para o lado (Holly já declarara seu amor por Anna). A câmera inverte o ponto de vista e acompanha Anna, agora se afastando. A longa caminhada foi gravada em tempo real, sem cortes. Uma das mais belas, tristes e simbólicas caminhadas do cinema.
Referências:
1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
História do cinema. Dos clássicos mudos ao cinema moderno. Mark Cousins. São Paulo: Martins Fontes, 2013
Adorável vagabundo (Meet John Doe, EUA, 1941), de Frank Capra.
A jornalista Ann Mitchell recebe, logo pela manhã, a notícia de sua demissão do jornal em que trabalha. O diário foi adquirido por um novo proprietário, o milionário D. B. Norton (Edward Arnold), e passará por reestruturações administrativas e editoriais.
Antes de deixar a redação, Ann escreve e publica na edição do dia uma carta em nome de John Doe (João Ninguém). A carta anuncia o suicídio do autor, em protesto contra a situação do país, assolado por corrupção, desemprego e injustiças sociais (a grande depressão): na véspera do natal, John Doe diz que vai pular do último andar do edíficio onde funciona o jornal.
O melodrama de Frank Capra aborda um tema importante na carreira do diretor: as condições de vida precárias do cidadão comum, atingido pela situação econômica e política dos EUA. O diretor tece ainda uma crítica contundente à mídia que se aproveita dessas mazelas para “vender” notícias.
A carta causa uma comoção nacional e Ann convence o novo proprietário do jornal a achar entre os milhões de desempregados alguém que personifique John Doe. John Willoughby (Gary Cooper), ex-jogador de beisebol, desempregado e faminto, é o escolhido. Ann é recontradada e fica responsável por escrever reportagens e cartas do falso John Doe – cujo único objetivo é ganhar dinheiro para tratar de sua contusão e voltar para o esporte.
Assim como em A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder, “os abutres”, expressão usada pelo Coronel (Walter Brennan), se juntam ao redor de John Doe, todos em busca de vantagens. A reviravolta acontece quando D. B. Norton resolve se beneficiar politicamente da farsa.
O final, no alto do edifício, é um primor de enquadramento, demonstrando a capacidade de narrativa visual dos mestres do cinema clássico americano: John Doe/Willoughby, prestes a saltar para a morte, observa, de um lado, Norton e seus asseclas; do outro, cidadãos que seguiram fielmente suas mensagens de fé e esperança. O olhar triste e amargurado de Willoughby é a expressão dessa sociedade eternamente injusta.
Elenco: Gary Cooper (John Doe), Barbara Stanwyck (Ann Mitchell), Edward Arnold (D. B. Norton), Walter Brennan (O coronel), James Cleason (Henry Connell).
A cicatriz (The scar, EUA, 1948), de Steve Sedely.
Um encarregado do presídio lê o dossiê do prisioneiro John Muller (Paul Henreid) que está prestes a deixar a prisão: “Universitário. Faculdade de Medicina. Especialidade: Psicologia, transtornos mentais. Quatro anos de prática. Interrompe seus estudos de repente. Pratica a psicanálise sem licença em Miami, Flórida. Vende ações de poços de petróleo inexistentes em Cincinnati. É detido em Middleton por roubo de lista de nomes de uma empresa. Condenado e preso.”
A abertura anuncia um tema comum em filmes policiais: homens com mentes brilhantes, geralmente com amplos conhecimentos de psicologia, que enveredam pelo crime, como o clássico Dr. Mabuse (1922), de Fritz Lang. O primeiro ato de John Mulher em liberdade é reunir seus antigos comparsas para roubar um cassino. O roubo dá errado, eles são reconhecidos e passam a ser caçados e mortos um a um pelo proprietário, um gangster sanguinário.
John Muller foge para uma cidade pequena e a narrativa ganha um contorno inesperado. Ele descobre que tem um sósia, o Dr. Bartok, psicanalista, cuja única diferença é uma cicatriz na face direita. O verdadeiro tema do filme é revelado: o duplo. Muller mata seu sósia e assume o consultório do doutor. Para se igualar ao médico, Muller mutila seu rosto, no entanto, faz a cicatriz na face esquerda. A ironia é que nem mesmo sua amante Evelyn (Joan Bennett), secretária do Dr. Bartok, percebe que a cicatriz está do lado inverso.
A cicatriz é uma pérola esquecida do cinema noir, produzida bem ao estilo dos filmes B pelo ator Paul Henrich, famoso pelo papel de Viktor Lazlo em Casablanca (1942). A narrativa se aproveita, por meio de um roteiro instigante, de complexos estudos psicanalíticos.
Os dois não se parecem apenas fisicamente, ambos têm mentes brilhantes no ramo da psicanálise. Um deles é criminoso e o outro um honrado e respeitado médico, o bem e o mal coexistem, assim como em histórias de duplos. O final surpreendente revela que John Muller e o Dr. Bartok têm mais coisas em comum.
Sem piedade (Senza pietà, Itália, 1948), de Alberto Lattuada.
Itália, final da Segunda Guerra Mundial. Angela (Carla Del Poggio) está em um vagão de trem como clandestina Ela ruma para Livorno, onde espera reencontrar o irmão. Ao lado do trem, acontece uma perseguição e o foragido salta para o vagão. Jerry (John Kitzmiller) um soldado norte-americano negro também entra e é atingido por tiros. Angela socorre o soldado, cuidando dele até a próxima estação.
A polícia envia Angela para um abrigo, sob a jurisdição de freiras, onde também está Marcella (Giulietta Masina). As duas ficam amigas e, após uma rebelião, fogem e começam uma jornada pela sobrevivência, se envolvendo com mafiosos, cafetões e a marginalidade da cidade. Jerry e Angela se reencontram e o soldado, movido por uma paixão quase obsessiva, resolve cuidar de Angela, enfrentando os perigos desse submundo da sociedade.
Alberto Lattuada começou a filmar Sem piedade em 1942, durante a ocupação nazista na Itália. O filme conta com a participação decisiva de Federico Fellini, como roteirista e assistente de direção.
Sem piedade é um dos grandes representantes do neorrealismo italiano, expondo com crueldade as consequências da guerra, principalmente no tocante às pessoas e instituições que exploram a miséria e a degradação da população, principalmente das mulheres. O relacionamento inter-racial entre Jerry e Angela demonstra a ousadia dos realizadores italianos num contexto social e político ainda demarcado pelo fascismo. O final trágico também é uma marca do movimento: não há esperança para os miseráveis sobreviventes nesta sociedade em ruínas.
Dias de ira (Vredens dag, Dinamarca, 1943), de Carl Dreyer.
Em uma vila dinamarquesa no início de 1600, a jovem Anne (Lisbeth Movin) é casada com o idoso pastor Absalon (Thorkild Roose). Um passado atormenta a relação do casal: a mãe de Anne foi considerada bruxa, mas o caso foi encoberto por Absalon, assim ele poderia desposar a jovem. O filho de Absalon retorna a casa e se apaixona por Anne, dando início a um ousado e perigoso romance.
Os horrores da inquisição rondam a Europa e Marte (Sigrid Neiiendam), uma idosa, é acusada de bruxaria, torturada e condenada à morte no fogueira. Marte, conhecedora do passado, ameaça Absalon: se o pastor não a salvar da morte, o clero será informado do acobertamento.
Dias de ira foi responsável pelo exílio do diretor Carl Dreyer. O filme foi produzido e exibido durante a ocupação nazista na Dinamarca, que aderiu ao regime de Hitler pacificamente. A sequência da tortura de Marte, acompanhada com um sádico interesse pelos clérigos é um dos grandes momentos de terror psicológico do cinema. A inquisição delegava aos religiosos, homens, o poder de aplicar o “dia da ira de Deus”. Os nazistas entenderam o recado do mestre Carl Theodor Dreyer.
A incrível Suzana (The major and the minor, EUA, 1942), de Billy Wilder.
No primeiro ato da narrativa, Susan Applegate (Ginger Rogers) está na estação de trem já disfarçada de uma criança de doze anos. Ela está sem dinheiro para pagar o bilhete cobrado para adultos no trem – com o disfarce ela pode pagar meia entrada e voltar para casa, abandonando a vida sem perspectivas que leva em Nova York. Susan espreita uma mãe e dois filhos em frente a uma banca de revistas. O menino pega uma revista de cinema e lê o título na capa: “Porque odeio as mulheres, de Charles Boyer.”
Segundo o crítico e historiador de cinema Neil Sinyard a inserção dessa frase aparentemente sem sentido na história nasce de um conflito entre Billy Wilder e o ator Charles Boyer. Billy Wilder, junto com Charles Brackett, estava escrevendo o roteiro de A porta de ouro (1941), dirigido por Mitchell Leisen e protagonizado por Charles Boyer. No filme, Boyer interpreta um gigolô romeno que fica preso no México. Em uma entrevista com o oficial de imigração, seu visto de entrada nos EUA é negado. Ele volta para seu quarto no hotel e precisa interpretar uma das cenas favoritas escritas por Billy Wilder para o filme: há uma barata no quarto e Boyer começa a conversar com ela, repetindo com ironia as perguntas feitas pelo oficial de imigração.
O filme estava sendo rodado, mas os roteiristas ainda não haviam terminado o roteiro. Wilder se encontrou com Charles Boyer no set e perguntou, “Você já gravou a cena da barata?”, Boyer disse: “Nós tiramos essa cena. Um ator não fala com baratas”.
“Wilder ficou furioso. Ele voltou ao escritório, contou a Brackett o que havia acontecido e perguntou: ‘Quanto tempo falta para terminar esse roteiro?’ ‘Uns vinte minutos’, respondeu Brackett. E Wilder disse: ‘Certo. Se ele não vai falar com baratas, não vamos deixá-lo falar com mais ninguém.’ E se você já viu o filme, por 90 minutos ele não para de falar e, de repente, ele para de falar nos últimos vinte minutos. Há um momento em que tenta falar algo e outro personagem o manda sentar e calar a boca. Acho que Wilder ainda não havia perdoado Boyer em A incrível Suzana.” – Neil Sinyard
Após a cena da revista, Susan embarca no trem disfarçada de criança e é descoberta pelos responsáveis por conferir os bilhetes. Ela corre pelos vagões e se refugia em uma cabine, onde é surpreendida pelo Major Philip Kirby (Ray Milland), homem já perto dos 40 anos de idade.
A comédia de Billy Wilder, sua estreia como diretor em Hollywood, progride em uma série de pequenos conflitos que colocam em risco o disfarce de Susan e a aproxima cada vez mais do major. Susan é levada pelo major para a academia militar, onde provoca um rebuliço entre os cadetes mirins.
A incrível Suzana é um dos filmes mais ousados de Billy Wilder, chega a ser difícil acreditar que foi realizado em plena vigência do Código Hays em Hollywood. O major Phillip Kirby claramente fica interessado em Susan, para ele, uma criança de doze anos. Outro ponto polêmico é que Susan também se relaciona furtivamente com os meninos da academia, provocando o desejo deles. Em uma cena, um dos garotos tenta beijá-la, em outras, dançam com ela no baile de forma sugestivamente erótica. É o contrário, uma mulher de cerca de 30 anos, provocando, mesmo que sem intenção, garotos.
Tudo fica por conta da sugestão, das intenções não concretizadas. É importante destacar outra ousadia de Billy Wilder: é um dos importantes filmes cujo protagonismo é inteiramente de uma mulher, Ginger Rogers, numa época em que os atores interpretavam todos os papéis fortes nos filmes. Ray Milland é quase um coadjuvante, fazendo um militar abobado e dominado pela sua noiva Pamela Hill (Rita Johnson). O arco da narrativa é direcionado por Susan que provoca e tem que resolver os conflitos. É uma personagem forte e decidida que se diverte com as situações criadas exatamente porque sabe que está no controle de um mundo comandado pelos homens – a academia militar.
O final na estação de trem, à noite (como os cineastas de Hollywood souberam fazer belos finais em estações de trem) é o momento da revelação, que acontece de forma sutil. As máscaras finalmente caem depois de um diálogo e olhares sugestivos.
Referência: Extras do DVD A arte de Billy Wilder, Versátil Home Vídeo.
O diabo disse não (Heaven can wait, EUA, 1943), de Ernst Lubitsch.
O rico e aristocrático Henry Van Cleve (Don Ameche) morre aos 70 anos. Em seu caminho para a eternidade ele é recebido por Sua Excelência O Diabo, Henry tem certeza que deve pagar por seus pecados de forma cruel.
O diabo disse não é uma deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, o mestre do gênero no cinema clássico hollywoodiano. Lubitsch conseguia tratar com leveza e bom humor as situações mais dramáticas, como nesta história marcada por abandono dos pais, adultério, frustrações nos relacionamentos amorosos e morte.
O próprio Henry conta sua história ao diabo, tentando mostrar que não merece ir para o reino dos céus. Foi um jovem relapso na escola, só se interessando pelas meninas, passou a juventude em noitadas, aproveitando o dinheiro dos país sem se preocupar com trabalho. A vida de Henry muda quando conhece Martha (Gene Tierney), noiva de seu primo. Os dois se apaixonam e, nessa mesma noite, durante a festa de noivado, fogem, provocando um escândalo na família.
Durante cerca de 30 anos, o relacionamento do casal é marcado pelas idas e vindas, frustrações e incertezas diante do relacionamento que se esperava para a vida inteira. A abordagem revela muito da ideologia de Hollywood, cujos filmes, amparados pelo Código Hays, aceitavam e perdoavam atitudes machistas e dominadoras dos homens, enquanto às mulheres cabia perdoar e voltar para os braços dos maridos. Atenção para a cena no início do filme quando o diabo abre o alçapão, jogando uma senhora no inferno porque ela não tem mais pernas bonitas.
O pecado de Cluny Brown (Cluny Brown, EUA, 1946) é o último filme dirigido por Ernst Lubitsch. O diretor marcou o cinema clássico americano com suas comédias e se consagrou por uma marca conhecida por “toque Lubitsch” que influenciou outros grandes nomes do cinema, principalmente Billy Wilder.
Cluny Brown (Jennifer Jones) é uma jovem de classe baixa, irreverente, ingênua e atrevida que, após protagonizar uma hilária intervenção em uma aristocrática festa londrina, é enviada por seu tio para trabalhar em uma suntuosa casa de campo no interior da Inglaterra. Como empregada, ela reencontra o refugiado escritor theco Adam Belinski (Charles Boyer) – a narrativa se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Os dois passam por um relacionamento marcado pela irreverência de ambos e por situações de confronto com a conservadora e preconceituosa sociedade inglesa.
Um dos grandes momentos do filme é quando Cluny Brown é apresentado ao casal Carmel, donos da residência. Confundida com uma ilustre visitante, Cluny é tratada com regalias durante o chá até que se anuncia como a nova empregada. A reação do casal, evidenciada pela sutileza visual do “toque Lubitsch”, demarca o grande tema dessa comédia recheada de críticas sociais.
Que se faça luz (Let there be light, EUA, 1980), de John Huston.
Durante a Segunda Guerra Mundial, cinco grandes diretores de Hollywood embarcaram para a Europa: John Huston, William Wyler, John Ford, George Stevens e Frank Capra. O objetivo era participar do esforço de guerra, documentando os combates no continente europeu. A série Five came back narra a odisseia dos diretores e traz depoimentos de importantes cineastas contemporâneos sobre o processo e as obras documentais criadas sobre a guerra.
O documentário Que se faça luz, filmado em 1946, se destaca devido à temática e às polêmicas suscitadas. John Huston visitou hospitais psiquiátricos e coletou depoimentos de veteranos da guerra que enfrentavam transtornos psicológicos devido às experiências em frentes de combates. A partir dos anos 70, a doença foi denominada de transtorno do estresse pós-traumático.
John Huston contou com a colaboração de médicos e pacientes, que permitiram que algumas sessões fossem gravadas, incluindo práticas de hipnose. O que se vê nas telas é um retrato doloroso e cruel dos traumas causados pela guerra, não permitindo, às vezes, a reintegração dos soldados à sociedade e à vida familiar.
O governo americano considerou o documentário impróprio para veiculação, alegando que mostrava a condição dos soldados de forma desmoralizante. O filme foi censurado durante mais de 40 anos, ganhando uma restauração em 1980, quando finalmente veio a público como uma contundente denúncia da guerra e seus efeitos permanentes.
O diretor Pietro Germi, nome menos referenciado do aclamado cinema neorrealista italiano, faz uma incursão pelo gênero do faroeste (as influências de John Ford estão presentes na obra), ambientando a trama na Sicília do início do século XX. O juiz Guido Schiavi chega a uma pequena cidade controlada pelo Barão Vasto e pela máfia. Os mafiosos substituem a justiça, cobrando para proteger os nobres da cidade. O juiz, de apenas 26 anos, tem ideais humanistas e justos e tenta impor a lei, se defrontando de forma perigosa com os poderosos que controlam a região com violência, praticando assassinatos impiedosos.
O estilo neorrealista de Em nome da lei é demarcado por algumas características comuns ao movimento: a forte crítica social, retratando uma população miserável e faminta subjugada de forma violenta pelo barão e pela máfia; a narrativa linear, demarcada pela bela fotografia em preto e branco que destaca a aridez e a miséria da ilha; o sentimentalismo, quase melodramático do drama social, com direito a uma história de amor entre os protagonistas Guido e Teresa. O final, após um assassinato triste e doloroso, imprime uma certa esperança pela continuidade da luta por justiça social.
Quando Luigi Zampa realizou Angelina, a deputada (L’onorevole Angelina, Itália, 1947), o neorrealismo italiano estava em sua melhor fase e comprova que trabalhar com atores não-profissionais não era uma marca do movimento. Anna Magnani interpreta Angelina, moradora de uma favela de Roma que passa a liderar as mulheres em uma cruzada contra a fome e a falta de habitação. Sua liderança ganha as manchetes dos jornais e incomoda os magnatas imobiliários quando os moradores da favela ocupam um prédio em construção.
A luta de classes e a miséria, incluindo crianças famintas, é o tema do filme. As moradoras da favela formam um partido e tentam convencer Angelina a se lançar deputada. A narrativa tem um forte teor feminista, as mulheres é que vão à luta, enquanto seus maridos são retratados como ociosos, com sugestões inclusive de violência doméstica.
O final do filme resvala para a esperança, sugerindo uma união entre um dos magnatas imobiliários e os membros da favela. No entanto, a sequência final, que em estrutura circular, recria o movimento da abertura derruba esse sentimento. No início, a câmera entra na casa de Angelina, percorrendo os cômodos onde dormem os cinco filhos até enquadrar Angelina e seu marido na cama, discutindo sobre as precariedades econômicas que levam à incerteza de alimentação da família no dia seguinte. No final, a câmera enquadra o casal discutindo o mesmo assunto do início e a câmera, em movimento contrário, percorre os ambientes até sair da casa.
O silêncio do mar (Le silence de la mer, França, 1949), de Jean-Pierre Melville.
Durante a ocupação da França por tropas nazistas, o tenente alemão Werner von Ebrennac (Howard Vernon) é alojado num pequeno vilarejo, na casa de um senhor francês (Jean-Marie Robain) que vive com sua sobrinha (Nicole Stéphane). O filme é considerado precursor da nouvelle vague e marca a estreia de Melville na direção.
O romance O silêncio do mar foi escrito clandestinamente por Jean Bruller que participava da resistência francesa durante a ocupação nazista. Foi publicado em 1942, assinado com o pseudônimo Vercors. Jean-Pierre Melville leu a publicação clandestina em 1943, quando estava em Londres, e decidiu que a adaptação do livro seria seu primeiro longa-metragem.
Melville tentou adquirir os direitos autorais, mas Vercors recusou, dizendo que “não foi escrito para se tornar um filme. Foi um ato de resistência, parte de nossa luta.” Melville fez uma proposta arriscada, disse ao autor que não queria os direitos naquele momento, mas faria o filme mesmo assim, com dinheiro próprio. Quando o filme estivesse pronto, Melville o mostraria a Vercors e a um comitê de 24 soldados da resistência que o próprio Vercors poderia escolher. “Se apenas um dos 24 não aprovar o filme queimarei o negativo na sua frente.”
Dessa forma, Melville agiu da mesma forma que Vercors: filmou clandestinamente, adotando também conceitos da resistência, sem trabalhar com membros do sindicato (como era obrigatório na França naquele momento), nem com produtores e distribuidores. Essa rebeldia o coloca como pioneira da nouvelle-vague, segundo historiadores. “No final da década de 1950, quando Truffaut, Godard e Chabrol tentaram fazer filmes simples e diretos, eles tinham um antecessor e um filme como modelo, O silêncio do mar, para mostrar-lhes como poderia ser feito.” – Volker Schlondorff, assistente de Melville.
Durante as filmagens a equipe contou com apenas seis pessoas. A narrativa se passa quase inteiramente em uma casa no interior da França, com algumas cenas em Paris (o diretor utilizou imagens de arquivo para as externas)
O tenente passa o dia fora, em serviço, volta para casa à noite e tenta inutilmente se aproximar, mas o senhor e a sobrinha mantêm distância. Apenas o tenente fala, o senhor ouve lendo, fumando seu cachimbo e a sobrinha tece em completo silêncio. Em uma cena, o senhor da casa, narrador do filme diz: “Num acordo tácito, eu e minha sobrinha decidimos não mudar nada em nossas vidas, nem um pequeno detalhe, como se o oficial não existisse. Como se fosse um fantasma. Por muito tempo, cerca de um mês, a mesma cena se repetia dia após dia. O oficial batia na porta e entrava. Dizia algumas palavras sobre o tempo, a temperatura ou outros temas igualmente banais cuja conexão era o fato de não precisarem de resposta.”
Aos poucos, o tenente expressa seu fascínio pela cultura francesa, pelos moradores, pelos costumes, mas continua, diariamente, a praticar os atos para o qual foi designado naquele país, ou seja, a guerra. É um filme sobre o isolamento em meio ao conflito, sobre a frieza e o temor que permeiam as relações entre os inimigos. Sobretudo, é um filme sobre o humanismo rodeado pelo horror. Depois de cumprir suas funções, o tenente encontra à noite, naquele lar, uma paz e tranquilidade que nunca sentiu, desenvolvendo afeto e até mesmo amor pela jovem sobrinha. Esse amor aparenta ser recíproco, mas a jovem continua com seu voto de silêncio, não respondendo nem mesmo quando é pedida em casamento, que se realizaria após a guerra.
Jean-Pierre Melville gravou o filme em 27 dias, espaçados durante vários meses. O diretor juntava recursos suficientes para um dia de gravação e ao final do dia todos voltavam para Paris espremidos em uma van. Não havia material de iluminação, assim o diretor de fotografia, Henri Decae, desenvolveu um estilo próprio de utilizar a luz natural. As filmagens se estenderam por um ano e meio, contando com sobras de películas de outros filmes.
Após a edição do filme, feita praticamente à mão em um quarto de hotel, Melville reuniu o júri, como prometido a Vercors. Participaram da sessão fechada o escritor, 24 soldados da resistência e, rompendo o acordo, vários convidados, incluindo celebridades de Paris e membros da imprensa.
“Vercors ficou furioso. Foi uma forma de chantagem sutil e bem típica de Melville para perguntar ao júri: ‘vocês me fariam destruir um filme no qual passei 18 meses trabalhando e que fiz estritamente por paixão?’ É uma aposta muito boa, quase certa, de que ninguém teria coragem de obrigá-lo a queimar o negativo. Foi assim que O silêncio do mar recebeu a autorização de Vercors, depois de feito.” – Denitza Bantcheva
O filme, feito nestas condições de resistência e baixo orçamento, foi um sucesso de bilheteria. O estilo de Jean-Pierre Melville se desenvolveu a partir de conceitos e técnicas aplicados em O silêncio do mar, como os planos longos, ângulos baixos (influenciados por Cidadão Kane, de Orson Welles) e narrativas cujo silêncio é determinante.
Referência: Documentário incluído no DVD Nouvelle Vague 2. Versátil.
Há uma sequência em Pai e filha (Banshun, Japão, 1949), de Yasujiro Ozu, que simboliza muito do prestigiado cineasta japonês e do cinema clássico como um todo. Noriko (Setsuko Hara) está assistindo a uma peça de teatro Nô, ao lado do seu pai viúvo, Shukichi (Chishu Ryu). Ele olha para a plateia do outro lado e, sorrindo, acena a cabeça. Noriko também olha e repete o gesto do pai. Vemos a Sra. Miwa (Kuniko MIyake), uma mulher também viúva que retribui os cumprimentos. A câmera agora está centrada em Noriko e Shukichi. Ela volta a olhar para a senhora, depois para seu pai. Agora seu olhar é melancólico, pois ela entendeu que seu pai tem uma pretendente. Ela abaixa a cabeça e os olhos. Essa pura e bela narrativa visual, com a câmera bem ao estilo de Ozu, levemente baixa, dura cerca de sete minutos, sem diálogos, ouvimos somente o cântico dos atores no palco.
Pai e filha trata de um tema recorrente nos filmes de Ozu: a dissolução da família no Japão que adentra a modernidade. Noriko está decidida a cuidar do pai durante toda a vida, recusa inclusive as propostas de casamento arranjadas por sua tia. O pai não aceita essa decisão e insiste para que ela se case. A cena do teatro, quando Noriko sente as trocas de olhares do pai e da Sra. Miwa, é um sinal que o pai pretende se casar novamente e não precisa mais dos cuidados da filha.
“A consternação de Noriko na cena citada, resume seu dilema. Não quer casar porque não quer se distanciar do pai, porque é feliz com ele. Talvez passe por aí uma série de outras questões, desde o desinteresse por casamentos arranjados até o comodismo em como vive, especialmente depois da instabilidade que foi a guerra; pouco importa. Noriko vê no casamento o fim de seu relacionamento com o pai, a dissolução completa de sua família. Ozu filmou diferentes formas de dissolução, do casamento à sua instabilidade, da mudança de residência à morte de algum parente. Em Pai e Filha, o casamento de Noriko equivale à morte. Não é à toa que Ozu se interessa tanto por esse tema, porque talvez seu cinema possa, afinal, ser resumido a isso, ao ato de filmar as ausências, não somente pelas escolhas formais, mas também como maneira de representar o que há de mais inevitável na vida. Se a morte é a ausência, o casamento de Noriko também o é. Não a vemos se casar, não a vemos depois disso. Vemos apenas seu quarto sem sua presença, vemos o que ficou para trás. Vemos Shukichi só. Ausência, vale dizer, não é o mesmo que vazio, como pode parecer. Ausência é não presença, são equivalentes. Por isso, Noriko reluta tanto, ela antevê o fim e não quer se desapegar. Sentimos sua ausência assim como sua presença.” – Gabriel Carneiro.
Referência: Mestres japoneses. Dez filmes essenciais do cinema clássico nipônico. Fernando Brito (org.). Versátil Home Vídeo: São Paulo, 2022.
Paisà (Itália, 1946), de Roberto Rossellini, retrata, em seis episódios, os últimos momentos da guerra, destacando os horrores cometidos pelos nazistas e a ocupação americana na Itália.
Na Sicília, um soldado americano é encarregado de ficar de vigília em uma caverna. Na mesma caverna está escondida uma jovem da aldeia e os dois não conseguem se comunicar. O fim trágico deles é uma dolorosa abordagem da crueldade da guerra, que dá fim de forma abrupta e repentina à solidariedade e esperança de jovens que não se entendem e não entendem os motivos de estarem ali.
Este episódio aborda, ao mesmo tempo, a miséria que toma conta de uma sociedade que vive nos escombros da guerra e as questões raciais. Um soldado negro perambula bêbado por Nápoles, com a ajuda de um garoto. Em determinado momento, o garoto avisa: “Não durma, senão vou roubar suas botas.” É o que acontece. Dias depois o soldado revê o garoto e o persegue, exigindo suas botas de volta. Quando o soldado se vê diante da miséria na qual o menino vive, lembranças de sua infância, talvez em um gueto, marcada também pela miséria e pelo preconceito racial, vêm à tona.
Em Roma, uma prostitua leva um soldado americano bêbado para seu quarto. Ele não consegue se relacionar com ela e diz em determinado momento: “Roma está cheia de garotas como você. Era diferente quando chegamos. As moças estavam felizes, sorridentes.” Ele conta, então, sua história com a jovem Francesca, por quem se enamorou, sendo correspondido. O soldado não se lembra, mas Francesa é a prostituta que tenta seduzi-lo agora. Este curta evidencia outra espécie de crueldade da guerra: a impossibilidade dos relacionamentos amorosos durante conflitos que não apontam para um amanhã e o triste e cruel destino das mulheres durante a guerra.
Florença. Uma mulher atravessa a cidade, procurando seu marido que luta com a resistência. Um soldado americano tenta ajudá-lo e os dois atravessam barricadas e regiões da cidade que se encontram em confrontos, com tiros e explosões acontecendo a todo momento. No fim, o que resta é o sentimento de inutilidade de ajudar um ao outro em meio a tiros que não poupam ninguém.
Em um monastério secular, na chamada linha gótica, um grupo de padres vive em orações, agradecendo por terem sido poupados da guerra. Três capelães americanos chegam ao convento, deslumbrados com a imponência da arquitetura do lugar, construído “quando a América ainda não tinha sido descoberta.” Os capelães são convidados para jantar, mas não há comida para todos. O relacionamento durante esta noite envereda para as diferenças ideológicas, espirituais e raciais. Quando os padres descobrem que um dos capelães é judeus, o medo se instaura entre eles. Nesta história, não há ações no front de batalhas, tudo fica por conta do terror psicológico, do preconceito que motivou uma das maiores tragédias da história da humanidade.
Muitos críticos e teóricos apontam este episódio como o mais neorrealista de todos os filmes de Roberto Rossellini. Começa com um cadáver sendo levado pela correnteza sustentando por uma boia onde está escrito: partisan. Nas margens, soldados americanos, mulheres e crianças veem o cadáver se afastar. Os membros da resistência estão escondidos nos juncos e resolvem arriscar a vida para buscar o amigo. Outras duas sequências aterradoras compõem essa história de crueldade desmedida. Um menino de cerca de três anos chora em meio aos cadáveres de aldeões executados pelos nazistas por ajudarem a resistência. Os alemães capturam os soldados americanos e membros da resistência. Os americanos são prisioneiros de guerra, os membros da resistência não. Eles são enfileirados na borda de um barco com as mãos amarradas. São empurrados um a um para dentro do rio. É a realidade, nada mais do que a realidade.
A taverna do caminho (Road house, EUA, 1948), de Jean Negulesco. Com Ida Lupino (Lily Stevens), Richard Widmark (Jefferson T.), Cornel Wilde (Pete Morgan), Celeste Holm (Susie Smith).
Jefferson T. é o proprietário de uma casa de shows em uma pequena cidade americana. Ele contrata Susie, cantora por quem está apaixonado e com quem pretende se casar. Pete Morgan, o gerente do local e amigo de infância de Jefferson, tenta tirar a cantora da cidade, mas os dois se apaixonam e a trama caminha para um trágico triângulo amoroso.
Ida Lupino é o grande destaque do filme, suas interpretações musicais são encantadoras, revelando um novo talento para a star system e uma das únicas mulheres diretoras do machista sistema de estúdios. O final do filme, quando os quatro personagens principais são levados pelo ciumento Jefferson para uma casa no bosque, é um thriller de tirar o fôlego, com atuação surpreendente de Robert Widmark.
Warren Quimby é um pacato funcionário de farmácia. Admirado pelos seus colegas de trabalho, trata com gentileza todos os clientes e, após o final do expediente, ruma tranquilamente para sua casa, onde espera encontrar Claire (Audrey Totter), sua esposa. Desde o início o espectador sabe que é um casamento praticamente de fachada por parte de Claire que trata o marido com indiferença e agressividade, enquanto se diverte à noite com outros homens.
O casamento termina quando Claire resolve assumir seu amante. Acontece então uma radical mudança de personagem: Warren se disfarça fisicamente e planeja assassinar seu oponente.
A femme fatale vivida por Audrey Totter é o grande destaque da trama. Após o assassinato, ele tenta virar o jogo e voltar para o marido, mas agora é ela quem enfrenta uma oponente: Mary (Cyd Charisse), jovem que se apaixona por Warren e é correspondida. No entanto, a polícia agora está no encalço do farmacêutico, sob acusação de um assassinato que ele planejou mas não cometeu. Ótimo noir de John Berry, responsável por um clássico do gênero: Por amor também se mata (1951).
Almas perversas (Scarlet street, EUA, 1945), de Fritz Lang.
Christopher Cross (Edward G. Robinson) é um homem passivo, dominado pela forte personalidade de sua esposa, uma viúva que ainda mantém, quase como uma ameaça, o retrato de seu primeiro marido na sala de estar. É um casamento de conveniência, cabendo a Chris abaixar a cabeça e seguir em frente com suas frustrações. Tudo muda quando ele conhece Kitty (Joan Bennet), uma prostituta, a tradicional e irresistível femme fatalle dos fimes noir.
Almas perversas é um remake de A cadela (1931), de Jean Renoir. A temática dos dois filmes é a mesma: a opressão que o sistema capitalista, burguês, impõe a seus servos, que caminham resignados enquanto sonham com uma vida diferente, talvez pela arte, talvez vivendo uma paixão. Chris é pintor em suas horas livres, mas não faz nada para seguir nessa carreira, deixa até mesmo roubarem a autoria de seus quadros. Tem admiração por seu chefe, que tem uma amante muito mais nova. Kitty entra em sua vida e a transformação do protagonista é impactante: ele pratica um assassinato e não se importa em ver um inocente pagar pelo seu crime.
“A mudança no local em que se passam os dois filmes serve como parâmetro para a mudança de gênero deles. Em Paris, desejo é poesia; em Nova Iorque, é dinheiro. Chris Cross desliga-se da esposa, é demitido do trabalho, assassina uma mulher, incrimina um homem, transforma-se em um mendigo, mas, ao contrário de Simon, não alcança liberdade alguma. Lang vai, assim, além de Renoir. Os atos do protagonista agora não são contrários ao mundo onde vive, mas impulsionados por ele, pois esse mundo é regido pelo desejo, e desejo, repito, é capital. Desde o início, esta relação fica clara. Na primeira vez em que aparecem juntos, um longo plano mostra Chris, sentado, de costas, enquanto seu chefe, em pé, de frente para a tela, discursa. Pouco depois, Chris comenta que gostaria de ter alguma amante jovem e bonita apaixonada por ele, como tem seu chefe, e como nunca, em sua vida, teve. Quando se apaixona por Kitty, o desejo que sente é apenas fruto daquilo que gostaria de ser: seu chefe, portanto. Mas Lang não deixa dúvidas; a paixão custa caro, em qualquer sentido, e não é qualquer um que tem o direito de desejar. Se para o patrão a questão moral não se coloca (e seria um tanto hipócrita pensar que Chris tem mau destino porque “peca”, quando o chefe também o faz, e mais naturalmente) é porque ele tem dinheiro e poder para comprá-la, como afirma a cena em que assegura a liberdade de seu funcionário subornando os guardas com uma caixa de charutos cubanos.” – Leonardo Levis – Contracampo