O beijo do androide

A Enterprise atende a comunicado de raça alienígena dizendo que os humanos que habitam um planeta pertencente a esta raça serão exterminados. A Enterprise tem dois dias para retirar os colonos. O planeta é afetado por radiação o que não permite que os humanos da nave desçam até o planeta (os colonos desenvolveram imunidade à radiação).

Data é encarregado da missão e rapidamente descobre que o líder dos colonos não vai deixar ninguém sair do planeta. Moram ali há noventa anos, construíram tudo com as próprias mãos, preferem lutar e morrer se necessário. Data tem de convencer os colonos. Tudo para o androide é frio e racional. Para ele, basta o argumento lógico e incontestável: “se vocês ficarem, vão todos morrer.” Argumento que não convence humanos que se apegam a coisas e bens a ponto de sacrificar a própria vida por algo como a casa. Data trata tudo com objetividade, a lógica comanda  os seus atos e palavras. Ele conta com a ajuda de uma moradora que o admira a ponto de desenvolver uma relação sentimental pelo androide.

Sente-se que os colonos querem ser convencidos, não querem morrer, mas os argumentos emotivos do líder falam mais alto. Ele vence Data em todos os debates. Até que Data descobre a saída e diz para sua admiradora: os humanos se deixam levar por ações, não por palavras. É através da ação, no final do episódio, que ele convence os colonos a deixarem o planeta. A frieza dá lugar à manipulação, a encenação emotiva e convincente sobre os horrores de uma guerra sem sobreviventes. Em menos de um minuto, até o líder se deixa convencer.

Durante o conflito, em duas cenas Data se vê diante da verdadeira lógica humana. Ele está confuso, sem esperança de convencer os colonos. A moradora dá um beijo em seus lábios. Ele pergunta: “porque fez isso”. Ela responde: “porque é isso que você está precisando”. No final do episódio, a moradora sente a partida de Data e pergunta: “você não sente nada por mim”. A resposta: “Sou um androide, não tenho sentimentos”. A seguir, ele beija a moradora nos lábios. ”Por que você fez isso” – ela pergunta. ”Por que é disso que você está precisando”. – responde Data com toda a inteligência do mundo.

Os Imperativos do Comando (The Ensigns of Command, episódio 50, 3º temporada) / Star trek: a nova geração.

Jornada nas estrelas – A série

Jornada nas Estrelas (Star Trek) estreou na TV americana em 1966. A história da série parece uma saga. Foram gravados dois episódios pilotos, o capitão da Enterprise mudou entre um piloto e outro, personagens foram afastados, todo mundo corria contra o tempo nas gravações e um fator decisivo: uma série de ficção científica produzida com verbas irrisórias. Esse detalhe provocou soluções inovadoras, como o teletransporte, os personagens se desintegram na espaçonave e reaparecem no planeta. O recurso economizava a verba de produção necessária para mostrar a viagem no espaço por pequenas naves auxiliares. Todos os planetas visitados pela tripulação são Classe M, mesma atmosfera e condições de vida da Terra. Ninguém precisava de roupas e aparatos especiais, mais economia.

Assistir às viagens da nave estelar Enterprise é entrar num mundo visionário, marcado por três personagens. Capitão Kirk (William Shatner), dividido entre a frieza no comando da nave e as paixões incontidas, próprias de seu espírito romântico. Suas decisões são carregadas de pura intuição. Spock (Leonard Nimoy) nasceu do casamento entre um vulcano e uma humana. Orgulha-se de seu raciocínio lógico, herdado do lado vulcano, de suas decisões frias e racionais. Mas seus melhores momentos são quando ele se deixa levar pela emoção, pelo lado humano, a ponto de simplesmente sorrir. Dr. McCoy (DeForest Kelley), médico, humanista convicto, incapaz de disparar o feiser contra qualquer forma de vida. Suplantar a lógica de Spock é seu desafio e sua maior esperança se resume à palavra humanidade. É o personagem mais carismático, cuja bondade o transforma verdadeiramente em um personagem de ficção.

Durante as três temporadas de Jornada nas Estrelas, esses personagens conduziram episódios memoráveis, revolucionários até para os dias de hoje.

Arena. Kirk e o capitão da nave inimiga são obrigados a duelar sozinhos em um planeta deserto. Ao invés das tripulações entrarem em uma guerra sangrenta, basta os dois capitães se baterem até a morte, quem sobreviver, vence a guerra.

O Inimigo Interior. Defeito no teletransporte duplica o capitão Kirk. Um carrega o lado bom, o outro fica com o lado mau. Descobrem que um não consegue viver sem o outro e precisam se juntar novamente.

Lamento por Adônis. O deus Apolo é abandonado sozinho em seu planeta. Apolo obriga os tripulantes da Enterprise a adorá-lo. Deus não sobrevive sem adoradores.

A Coleção. Os talosianos criam um mundo de ilusões. Tudo que os personagens imaginam se transforma em realidade, os sonhos são reais, os desejos se materializam. Até a mais feia condição humana aparenta, no planeta, pura beleza.

O Espelho. Em universo paralelo, os tripulantes da Enterprise são o reverso, cruéis, déspotas e sanguinários.

E para completar, neste curto espaço para escrever sobre Jornada nas Estrelas, o inesquecível episódio A cidade à beira da eternidade. De volta a um passado distante na terra, o Capitão Kirk conhece o amor da sua vida. No final, para não mudar o rumo da história, ele é obrigado a deixá-la morrer diante de seus próprios olhos.

Mais do que ficção científica, o universo criado por Gene Roddenberry é carregado de poesia.

O nascimento de Walter White

Em 2005, o roteirista Vince Gilligan conversava ao telefone com Thomas Schnauz, também roteirista, amigo dos tempos em que trabalharam juntos na série Arquivo X. A conversa era uma espécie de queixa sobre os rumos do cinema, sobre as dificuldades de trabalhar no ramo de longas-metragens. Até que Gilligan sugeriu:

“Talvez a gente pudesse ser recepcionista no Walmart”.

“Talvez a gente pudesse comprar uma van grandona e montar um laboratório para fabricar metanfetamina”, Schnauz rebateu.

“E quando ele disse isso, pipocou uma imagem na minha cabeça de um personagem fazendo exatamente isso: um cara comum que decide ‘virar sangue-ruim’ e se tornar um criminoso”, Gilligan contou. A imagem era tão forte que ele desligou e começou a tomar notas no mesmo instante. O cerne do seriado se desenhou rapidamente.”

Esta história fascinante do nascimento de Walter White, e outras tantas, compõem o livro Homens difíceis – Os bastidores do processo criativo de BREAKING BAD, FAMÍLIA SOPRANO, MAD MEN e outras séries revolucionárias. O autor Brett Martin busca, através de relatos do processo criativo que acompanhou a origem, redação e produção de séries marcantes da TV contemporânea, traçar um retrato do trabalho dos roteiristas, ou showrunners, como são denominados hoje.

A base estrutural do livro é o processo de criação de personagens antológicos, como Don Draper, Walter White, Dr. House e Tony Soprano. São os homens difíceis, assim como seus criadores, personagens que não existiriam em outros tempos.

“Se fossem dar ouvidos às opiniões convencionais ainda em vigor, esses seriam personagens que os americanos nunca permitiriam entrar em sua sala de estar: criaturas infelizes, moralmente incorretas, complicadas, profundamente humanas. Eles se envolviam num jogo sedutor com o espectador, desafiando-o emocionalmente a investir, eventualmente torcer e até amar uma gama de personalidades criminosas cujos delitos acabariam incluindo tudo, de adultérios e poligamia (Mad Men Amor imenso – Big Love) a vampirismo e assassinatos em série (True Blood Dexter). Desde o momento em que Tony Soprano entrou em sua piscina para dar as boas vindas a seu bando de patos geniosos, ficou claro que os espectadores estavam dispostos a ser seduzidos.”

As análises do autor, junto com histórias e relatos dos processos e enredos das séries, colocam Homens difíceis no patamar dos livros fundamentais. Não só para roteiristas e aspirantes a entrar no complexo universo das criações de séries audiovisuais, mas também para apaixonados por estes personagens, estas tramas ousadas, subversivas, instigantes.

Homens difíceis – Os bastidores do processo criativo de BREAKING BAD, FAMÍLIA SOPRANO, MAD MEN e outras séries revolucionárias. Brett Martin. São Paulo: Aleph, 2014.