Duas narrativas fantásticas

Duas narrativas fantásticas, de Dostoiévski, reúne duas novelas do autor: A dócil e O sonho de um homem ridículo, publicadas em 1876 e 1877, respectivamente, no Diário de um escritor, revista redigida e editada pelo próprio autor. Como em outras narrativas de Dostoiévski, a morte é o tema central. Melhor dizendo, o suicídio.

Em A dócil, um homem de meia-idade está diante do caixão de sua esposa adolescente.

“…Pois enquanto ela ainda está aqui – tudo bem: me aproximo e olho a cada instante, só que amanhã vão levar embora e – como é que eu vou ficar sozinho? Ela agora está na sala sobre a mesa, juntaram duas mesas de jogo, e o caixão vai ser amanhã, branco, um gloss de Naples branco, e, aliás, nem se trata disso…”

A narrativa segue do momento em que se conheceram até a morte da esposa. O objetivo do narrador é expor ao leitor sua culpa diante do suicídio da jovem:

“Senhores, estou longe de ser um literato, e os senhores podem ver isso, mas não importa, vou contar assim como eu mesmo entendo. É aí que está todo o meu horror, eu entendo tudo!”

A narrativa de um homem ridículo segue o mesmo princípio. O narrador afirma logo no primeiro parágrafo o perfeito entendimento de sua situação:

“Eu sou um homem ridículo. Agora eles me chamam de louco. Isso seria uma promoção, se eu não continuasse sendo para eles tão ridículo quanto antes. Mas agora já nem me zango, agora todos eles são queridos para mim, e até quando riem de mim – aí é que são ainda mais queridos. Eu também riria junto – não de mim mesmo, mas por amá-los, se ao olhar para eles não ficasse tão triste. Triste porque eles não conhecem a verdade, e eu conheço a verdade. Ah, como é duro conhecer sozinho a verdade! Mas isso eles não vão entender. Não, não vão entender.”

A narrativa conta os passos do homem em uma noite.

“Porque essa estrelinha me trouxe uma idéia: eu tinha decidido me matar naquela noite. Fazia dois meses que isso já estava firmemente decidido, e, apesar de ser pobre, comprei um belo revólver e carreguei-o naquele mesmo dia.”

São duas narrativas escritas próximas da morte de Dostoiévski, em 1881. Refletem uma fase do autor na qual ele estava usando em sua literatura influências jornalísticas, buscando relatos do cotidiano – A dócil é inspirada em suicídios ocorridos em São Petersburgo. Talvez buscasse através de suas personagens o entendimento para um ato tão extremo. Talvez buscasse ele mesmo a verdade.

“O principal é – ame aos outros como a si mesmo, eis o principal, só isso, não é preciso nem mais nem menos: imediatamente você vai descobrir o modo de se acertar. E no entanto isso é só – uma velha verdade, repetida e lida um bilhão de vezes, e mesmo assim ela não pegou! ‘A consciência da vida é superior à vida, o conhecimento das leis da felicidade – é superior à felicidade” – é contra isso que é preciso lutar! E é o que vou fazer. Basta que todos queiram, e tudo se acerta agora mesmo.”

Publicidade

Manual do roteiro para filme publicitário

É a pior fase da carreira profissional. Você bate na porta de uma agência de propaganda sedento para trabalhar com criação publicitária e ouve a clássica pergunta: “Você trouxe seu portfólio?”. Claro que não, acabei de me formar, deveria responder prontamente o iniciante.

Ouvi esta pergunta assim que saí da faculdade, em 1986. A agência contratava redator especialista em roteiro para filme publicitário, como se redator pudesse se dar ao luxo de ser especialista em uma mídia ou outra, ainda mais em Belo Horizonte. Mas eram outros tempos e, imagino, a agência deveria criar e produzir vários comerciais que justificassem tal requinte. É claro que meu portfólio não atendia às exigências, nesta época eu ainda estava na fase de roteiros amadores, fase geralmente intuitiva de cinéfilo em busca de formação.

Havia uma carência de bibliografia sobre o assunto. A referência de formação para redatores é sempre bons livros de roteiros de cinema. No Brasil daqueles anos, me lembro de um único livro que prontamente comprei e deixei na cabeceira: Arte e técnica de escrever para cinema e Televisão, de Doc Comparato.

Com o tempo, as editoras passaram a lançar livros mais específicos de criação publicitária, a exemplo de Vende-se em 30 segundos. Manual do roteiro para filme publicitário, de Tiago Barreto.

O autor descreve o processo de criação do filme publicitário, incluindo a análise do briefing, contextualização de ideias, criação de personagens, estrutura do roteiro, aspectos climáticos e rítmicos, cenografia, efeitos de edição, sonorização e avaliação do resultado final.

É difícil falar sobre técnicas em qualquer processo de criação, até mesmo na formatação, pois o roteiro varia muito em função da ideia, da necessidade de ser mais ou menos específico, de decupar uma cena recorrendo à linguagem cinematográfica para provocar no leitor o efeito dramático. O livro trabalha com exemplos cotidianos das agências de propaganda, roteiros mais simples, descrevendo ideias, sugerindo mais do que especificando.

A influência vem do cinema, roteiros não decupam mais as cenas, não trazem mais terminologias da linguagem cinematográfica. Apresentam ideias, personagens, soluções visuais. A influência do cinema também está presente em questões fundamentais tratadas pelo autor, como o ponto de virada.

“Ponto de virada é qualquer incidente, episódio ou evento inesperado que leva a ação dramática para outra direção ou apresenta uma situação que o espectador não esperava. Nem todos os filmes publicitários têm um ponto de virada. Quando existe, no entanto, ele é o clímax da narrativa. É o momento de emoção acentuada, seja surpresa, humor, drama, medo… Qualquer emoção.”

Vende-se em 30 segundos funciona bem com dicas, sugestões, exemplos, associações entre as diversas influências, música, por exemplo, que interferem no processo de criação e redação de um roteiro. Um livro básico para iniciar nesta complexa tarefa e que todo redator deve completar com a leitura de autores como Doc Comparato, Syd Field, Flávio de Campos, Marcel Martin, John Howard. E partir para o verdadeiro aprendizado das narrativas audiovisuais: assistir a um filme atrás do outro.

A revolução das mídias sociais

A criação publicitária passou por uma fase de transição no início dos anos 90. Uso a palavra transição pois acho mais adequada. Nas agências de publicidade, os computadores tomaram o lugar das pranchetas e das máquinas de escrever. Diretor de arte e redator passam a conviver com essa pressão inerente ao desenvolvimento tecnológico que exige mais e mais conhecimento destas áreas.

Começa, neste período, o processo que resulta na chamada revolução das mídias sociais. Da informatização à internet é um pulo, determinando o crescimento vertiginoso de novas mídias, abrindo variadas possibilidades para a criação. Revolução e novo, dois termos que parecem perseguir os profissionais de publicidade dia-a-dia.

A revolução das mídias sociais, de André Telles, coloca em tópicos as principais características e possibilidades que surgiram/surgem mascaradas sobre o termo redes sociais. O próprio autor avisa:

“A ideia de rede social começou a ser usada há cerca de um século para designar um conjunto complexo de relações entre membros de um sistema social a diferentes dimensões. A partir do século XXI, surgiram as redes sociais na internet, e, do ponto de vista sociológico, permanecem os mesmos conceitos. A revolução das mídias sociais aconteceu sem se derramar uma gota de sangue, diferentemente da revolução francesa.”

A ideia, portanto, não é nova, surpreendente seria o impacto que isso causa em profissões como publicidade e marketing. O autor enumera por tópicos algumas das principais mídias sociais, com dicas de seu melhor uso e alguns cases. Twitter, Facebook, Linkedin, MySpace, Orkut, estes termos que o internauta conhece bem pois transita diariamente aqui e ali, buscando este relacionamento social. Mas no mundo dos negócios, onde sofrem publicitários e profissionais de marketing, ainda são universos em formação, se você pensar nas possibilidades criativas de comunicação.

O livro funciona como uma espécie de manual e seu mérito está justamente em enumerar dicas e possibilidades, apontar alguns caminhos, exemplificar com estratégias de sucesso. A partir daí, se abrem as possibilidades e volto à abertura deste texto. Os termos revolução e novo, a princípio, assustam profissionais de criação publicitária. Com o tempo, o talento das ideias passa a ser aplicado para estes direcionamentos. Sobressaem, então, os profissionais talentosos, aqueles que fazem esta transição sem grandes traumas e, de uma forma ou de outra, são os grandes mentores da revolução. É o que acontece hoje com as mídias sociais: começam a aparecer as grandes ideias, os cases de sucesso, os profissionais que entendem verdadeiramente que o termo revolução está diretamente relacionado a ideias.

Manuais, livros, técnicas aplicadas às redes sociais são apenas ferramentas. O verdadeiro trabalho do profissional de criação continua tão antigo quanto a própria profissão de publicitário: a busca incessante de boas ideias.

Verdades e mentiras no jornalismo

Sherlock Holmes está investigando o caso do assaltante que invade residências apenas para roubar e depois quebrar bustos de Napoleão Bonaparte. Mr. Harker, jornalista, foi vítima de um dos roubos e tenta escrever sobre o acontecimento. Ele diz ao famoso detetive:

“– É preciso tentar fazer a reportagem de tudo isso, embora, sem dúvida alguma, os jornais desta tarde estejam impressos, contando o fato e carregando nos detalhes. Recordam-se quando as tribunas das corridas tombaram em Doncaster? Era eu o único repórter que estava lá, e o meu jornal foi o único também que não deu uma notícia a respeito, porque experimentei uma tal emoção que me tornei incapaz de escrever. Desta vez serei o último a dar os pormenores sobre um assassinato cometido à minha porta.”

Mais tarde, Sherlock Holmes pede a um policial que dê um recado ao jornalista.

“– Se regressar a Pit Street poderá rever Mr. Horace Harker. Diga-lhe de minha parte que estou certo de que o autor do crime é um louco dominado por um grande ódio a Napoleão. Isso lhe será muito útil para o seu artigo.”

“Lestrade fitou-o bem nos olhos:”

“– O senhor não está falando sério – disse ele.”

“Holmes sorriu:”

“– Talvez. Mas estou seguro de que essa informação será interessante para Mr. Harker e para os assinantes dos jornais.”

No outro dia, Holmes lê a notícia no jornal.

“– Vai tudo bem, Watson – disse ele – ouça isto: ‘Estamos contentes em transmitir aos nossos leitores que as mais autorizadas opiniões são unânimes em estabelecer a solução deste caso. Mr. Lestrade, um dos detetives mais experimentados de Scotland Yard e também Mr. Sherlock Holmes, o conhecido técnico, acreditam que os incidentes que tiveram um epílogo tão trágico são a obra de um louco e não de um criminoso autêntico. Nenhuma outra explicação pode ser dada a fatos semelhantes.’”

“– A Imprensa, veja você Watson, é um instrumento eficiente quando a gente sabe servir-se dela.”

Esse trecho, do conto Os seis bustos de Napoleão, de Conan Doyle, aborda algumas questões no processo jornalístico: a dificuldade de escrever sobre fatos que nos emocionam demais; a prática de publicar notícias sem checar; jornais servindo a interesses variados, principalmente políticos.

Sobre mentiras e verdades no jornalismo, há um conto exemplar de Rudyard Kipling, Uma Questão de Fato. Três jornalistas estão a bordo de um navio. Os jornalistas presenciam uma cena de terror no mar. Dois monstros marinhos, semelhantes a grandes serpentes, lutam pela vida. Os tripulantes do navio assistem a tudo incrédulos, esperando pela morte, mas se salvam ilesos.

“– Precisamos reunir nossas notas – foi a primeira observação coerente de Keller – Somos três jornalistas treinados, temos em mão o maior “furo” de reportagem que jamais se viu. Vamos começar consciensiosamente.”

Os jornalistas começam a trabalhar e escrevem as matérias, cada um a sua maneira, tentando contar a história da serpente marinha. Depois de prontas, discutem o que fazer com as matérias.

“– Você parece não dar valor ao nosso “furo”. É piramidal: a morte da serpente no mar! Homem, é a coisa mais sensacional que já se publicou.”

“– O curioso é pensar que nunca aparecerá em jornal algum, não acha? – disse eu.”

Desembarcam do navio e continuam a viagem por terra, adiando o envio das reportagens.

“Por sinal, Zuyland, naquela madrugada, já rasgara e atirara ao mar o próprio artigo. As razões para esse gesto eram idênticas às minhas. (…)”

“No trem, Keller começou a rever o artigo. (…)”

“– Você não está reduzindo demais? – perguntei, solícito. – Lembre-se que tudo acontece e se imprime nos Estados Unidos, desde uma simples anedota sobre botões de calça até uma história fantástica sobre águias de duas cabeças.”

“– Isto é que atrapalha – murmurou Keller – Escrevemos tantas vezes tolices, que quando se trata da cristalina verdade….”

Dos três jornalistas, apenas Keller, o americano, tenta publicar a história, sem sucesso, em um jornal inglês. No final, o narrador do conto conversa com Keller sobre como publicar a reportagem.

“– Não faça conta, Keller. (…) Se você fosse setecentos anos mais velho, teria feito o que eu vou fazer.”

“– Que você vai fazer?”

“– Fazer como se se tratasse de uma mentira.”

“– Uma fantasia? – disse com um desprezo ardente pela fantasia, filha ilegítima da profissão.”

“– Pode chamar assim se quiser. Eu chamo de mentira.”

“E mentira ficou sendo. Porque a Verdade é uma dama nua. E se, por acaso, for arrancada do fundo do oceano, a um gentleman só cabe dar-lhe uma saia ou virar o rosto para a parede e jurar que não viu nada.”

Correspondências Dostoiévski

P… abriu a porta da sala intempestivamente, mas não assustou redatores e diretores de arte sentados na sala contígua. Já estávamos acostumados a estes rompantes, resultados da insatisfação consigo mesmo que P… expressava quase diariamente. Acontecia no início da tarde, geralmente em dias de muito calor. Após horas isolado dentro da sala, ele abria a porta de sopetão, caminhava alguns segundos pelo departamento de criação, parava em frente à janela por mais alguns segundos, se voltava para um de nós e disparava:

– S… devia me mandar embora hoje mesmo. Não consigo escrever uma linha. Sou o mais completo idiota, não sei por que diabos trabalho com criação.

S… era o dono da agência de publicidade, P… o diretor de criação. Depois da explosão, ele se fechava na sala e só saía no início da noite, maleta na mão, olhar sereno, se despedindo de todos. Era a senha: no outro dia, bem cedinho, os mais criativos títulos, textos, roteiros, estariam na mesa de um dos diretores de arte para formatação.

A crise criativa que afeta o trabalho de quem lida no mundo das ideias é realidade desde quando o homem inventou de se expressar. Basta ligar o computador e ficar olhando indefinidamente para a tela em branco e você entende esse desespero. No caso do escritor russo Dostoiévski, a crise acontecia com folhas dispersas na mesa.

“Meu irmão, é tão triste viver sem esperança! Quando olho para adiante, tenho medo do futuro. Transporto-me para uma atmosfera fria como o Ártico, na qual nenhum raio de sol jamais penetrou. Por um longo tempo eu não tenho um instante de inspiração sequer. Sinto-me, assim, como o Prisioneiro de Chillon após a morte de seu irmão. A ave-do-paraíso da poesia nunca, nunca mais, irá me visitar novamente – nunca mais irá aquecer minha alma congelada. Você diz que sou reservado; mas todos os meus sonhos de antes me abandonaram e, naqueles arabescos dos quais um dia eu me encantei, todo o brilho desapareceu. Os pensamentos que costumavam acender minha alma e meu coração perderam o fulgor e a força; ou então meu coração está entorpecido, ou então… Tenho medo de terminar essa frase. Não vou admitir que todo o passado foi um sonho, um reluzente sonho dourado.”

O trecho é do livro Correspondências Dostoiévski, coletânea de cartas escritas pelo escritor a amigos e, principalmente, ao irmão. Dostoiévski escrevia diariamente pressionado por problemas financeiros. Ele passou grande parte da vida assolado por dívidas, credores ameaçando enviá-lo para a prisão. Diferente de outros autores de seu tempo – como Tolstói que era independente financeiramente e escrevia com vagar – Dostoiévski tirava o sustento de seus romances. O autor trabalhava por encomenda, publicando capítulo a capítulo em jornais e revistas, sujeito a rigorosos prazos de entrega. Recebia adiantamentos por livros que ainda não escrevera o que agravava sua obrigação diária de escrever.

Dostoiévski passou seis anos na prisão e esteve a um minuto de ser fuzilado. Realizou trabalhos forçados no Cazaquistão, sofria de epilepsia, era viciado em jogos de azar. Viveu anos em exílio na Europa, pulando de cidade em cidade, fugindo de seus credores. Perdeu uma filha, perdeu o irmão querido, mas nunca deixou de escrever, produzindo clássicos da literatura mundial, como Crime e castigo, Os irmãos Karamazov, Os demônios, Memórias do subsolo.

P…, o diretor de criação, achava que Dostoiévski cuidava pouco do texto. Era um dos embates literários que tínhamos, pois o autor é o meu favorito. A analogia que faço neste texto com o trabalho de redação publicitária apareceu devido a esse processo cotidiano de escrever, seja um romance ou um simples anúncio. Pena que hoje, a maioria dos redatores não tem a preocupação de se referenciar com a leitura de grandes escritores. O resultado é uma publicidade cada vez mais pobre em conceito e bons textos.

Um trecho final destas Correspondências, outra lição obrigatória para quem se aventura pelos caminhos da escrita, da publicação de ideias.

“De Pisarski, conheço apenas ‘O Fanfarrão’ e ‘O Rico Pretendente’ – nada mais. Gosto muito de seu trabalho. É inteligente, bem-humorado e quase ingênuo; é um mestre ao contar histórias. Uma coisa é lamentável: escreve rápido demais. Escreve muito rápido e em demasia. Um homem deve ter mais ambição, mais respeito por seu talento e ofício, e mais amor pela arte. Quando se é jovem, as ideias acumulam-se em nossa cabeça; mas não se deve capturar a cada uma delas enquanto bailam em nossa mente, e daí apressar-se para divulgá-la. Deve-se esperar pela síntese, pensar mais; aguardar até que os detalhes tenham se agrupado em torno de um núcleo, em uma ampla e definida imagem; nesse momento, nunca antes, deve-se então escrevê-la. Os personagens colossais, criados pelos autores colossais, em geral nascem do trabalho demorado e persistente. Mas as tentativas e rascunhos que levam àquela imagem não devem jamais ser divulgados.”

Gente pobre

Sinto certo fascínio por estas edições da Editora 34. Na parte superior da capa, todos os livros trazem uma gravura em preto e branco. Na parte inferior, a direção de arte simples, composta por uma tipologia delicada, deixa quase em suspenso esse nome que faz parte da minha formação como leitor: Fiódor Dostoiévski.

Gente pobre é o primeiro livro de Dostoiévski, publicado em 1846. “É provável que não haja outro caso, pelo menos na Rússia, de um escritor que da noite para o dia tenha saído da mais completa obscuridade para a glória antes mesmo de ter sua primeira obra publicada. Em 1845, aos 25 anos de idade e completamente desconhecido, Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski surge no círculo literário de Vissarion Bielínski, o principal crítico da época, trazendo consigo os manuscritos de seu primeiro romance, Gente pobre, prontos para vir à luz. O poeta russo Nikolai Niekrássov (1821-1878) e o escritor Dmitri Gregoróvitch (1822-1899), ao terminar sua leitura, em lágrimas, saíram anunciando que havia surgido um novo Gógol e predizendo um grande futuro ao então jovem escritor.” – Fátima Bianchi.

A estrutura do romance é simples: o funcionário público Makar Aleksievich troca correspondências com a jovem Varvara Alekseyevna. É o típico romance epistolar. Através das cartas, o leitor é aos poucos envolvido pelo drama das duas personagens às voltas com a pobreza que acometia grande parte da população russa daquele final de século. Em algumas cartas, Makar descreve à Varvara seu círculo social, composto por colegas de trabalho e pelos moradores da pensão em que vive. É um tipo de residência comum nos romances de Dostoiévski. Escreve Makar:

“Já lhe descrevi a disposição dos quartos; não há o que dizer, é verdade que é cômoda, mas dentro deles é meio abafado, isto é, não que cheirem mal, mas é como se fosse um ar, se é que posso me exprimir assim, meio podre, penetrante e adocicado. A primeira impressão é desfavorável, mas isso não quer dizer nada, basta ficar uns dois minutos dentro de casa que passa, e a gente nem percebe que passa completamente, porque parece que a gente mesmo fica cheirando mal, a roupa fica com cheiro, as mãos ficam com cheiro, tudo fica com cheiro – e a gente se acostuma.”

Conviver com a miséria e assistir com frieza às desgraças que caem sobre cada um parece ser a única solução para Makar e os moradores da pensão. Para Varvara, a esperança é um casamento ao qual ela busca com a resignação desta gente pobre. “Meu inestimável amigo Makar Alekseyevich! Tudo se cumpriu! Minha sorte está lançada, não sei qual, mas me submeto à vontade do Senhor.”

Creio que o fascínio que sinto pela literatura de Dostoiévski está nas personagens que o autor apresenta a cada livro. São sempre reveladores de um país que conserva o ar de tragédia cotidiana. Imagino a beleza enigmática de Moscou, da São Petersburgo de Noites brancas, através de histórias como as de Makar e Varvara, através da pena deste escritor que trabalhava sob a luz de velas, retratando um mundo obscuro.

Ao correr da pena

Antes de sua bem-sucedida carreira de escritor, José de Alencar exerceu o jornalismo. Com 25 anos de idade, trabalhava como folhetinista do Correio da Manhã, no Rio de Janeiro. O folhetim é uma espécie de antecessor da crônica jornalística e, no caso de José de Alencar, escritos com leveza e já antevendo a verve literária-poética.

O livro Ao correr da pena, Editora Martins Fontes, reúne trinta e sete folhetins, escritos por José de Alencar em 1854/1855. São relatos semanais da política, da economia, notícias do exterior, o cotidiano da “corte”, dos teatros, da vida cultural e mundana do Rio de Janeiro daquele final de século. A sociedade se encontrava no teatro, nas festas, nas ruas, e a tudo o escritor assistia com sua pena, às vezes afiada na crítica, às vezes poética.

“É preciso advertir que o olhar estava no Teatro Provisório, e por isso não se deve admirar que falasse italiano; além de que, o olhar é poliglota e sabe todas as línguas melhor do que qualquer diplomata.”

Em um tempo que parece correr sem notícias dignas de nota, José de Alencar critica sua própria profissão, ironizando este trabalho obrigatório do registro, da busca da notícia, do ingrato trabalho de cronista.

“É uma felicidade que não me tenha ainda dado ao trabalho de saber quem foi o inventor deste monstro de Horácio, deste novo Proteu, que chamam – folhetim; senão aproveitaria alguns momentos em que estivesse de candeias às avessas, e escrever-lhe-ia uma biografia, que, com as anotações de certos críticos que eu conheço, havia de fazer o tal sujeito ter um inferno no purgatório onde necessariamente deve estar o inventor de tão desastrada idéia.”

O folhetinista reclama dessa falta de assunto, exaspera-se com a lentidão das notícias vindas pelos paquetes da Europa.

“Façam idéia, estando ainda dominado por estas impressões da véspera, como não fiquei desapontado no dia seguinte, quando me fui esbarrar com a nova da chegada do paquete de Southampton, o qual parece que mesmo de propósito trouxe quanta notícia nova e velha havia lá pela Europa.”

Um paquete chega com notícias da guerra no oriente, a tomada de Sebastopol, uma batalha em campo raso, a morte de um general, e Alencar, com sua crítica apurada, desdenha o velho hábito do jornalismo de interpretar as notícias.

“Passada a primeira impressão, cada um tratou de comentar as notícias a seu modo, de maneira que já ninguém se entende, e não há remédio senão apelar para o vapor seguinte a fim de sabermos a verdadeira solução do negócio.”

Era um tempo sem notícias, ou com notícias velhas tratadas como novidades pela força da palavra. Um trabalho de observador das trivialidades que busca beleza até na maçante atividade das costureiras que começam, naqueles dias, a trabalhar com as revolucionárias máquinas de coser.

“E digam-me ainda que as máquinas despoetizam a arte! Até agora, se tínhamos a ventura de ser admitidos no santuário de algum gabinete de moça, e de passarmos algumas horas a conversar e a vê-la coser, só podíamos gozar dos graciosos movimentos das mãos; porém não se nos concedia o supremo prazer de entrever sob a orla do vestido um pezinho encantador, calçado por alguma botinazinha azul; um pezinho de mulher bonita, que é tudo quanto há de mais poético neste mundo.”

José de Alencar tirava deste cotidiano lento e sem notícias assunto para seus extensos folhetins. Uma visita a Petrópolis, uma noite no teatro, um passeio pela rua do Ouvidor – ele protesta contra a recente iluminação a gás que vai roubar dos namorados a lua – é nesse flanar que o futuro autor de O guarani enxerga romantismo e poesia. E escreve assim,  Ao correr da pena.