Elaine

Elaine. Corpo miúdo, ainda adolescente saída da infância, pele clara, olhos castanhos em tom quase laranja, nariz afinado, seios despontando sob a camiseta de malha branca, cabelos negros cortados rente à orelha, deixando a descoberto o longo pescoço. Foi como a vi naquele domingo de manhã.

Dezenas de jovens se aglomeravam em pequenos bandos nos arredores do Cemitério da Saudade. Estudantes organizados para uma caminhada pela Serra do Curral. Alguns olhavam a montanha e sentavam-se desolados no meio-fio, imaginando a caminhada. Outros exibiam a disposição em roupas esportivas, marcas famosas estampadas em camisetas e bonés como a anunciar a supremacia da juventude que dava os primeiros passos rumo ao consumo desenfreado que acabou tomando conta das gerações seguintes.

Elaine chegou, cumprimentou adoradores e desafetos conquistados naqueles anos de colégio. Os adoradores, encantados por beijos no rosto e olhares prometidos. Os desafetos, se lembrando das recusas seguidas de cochichos nos ouvidos das amigas, sabe-se lá que desprezos revelando. Eu estava entre os adoradores, olhar se cruzando às vezes.

Foram perto de sete horas de caminhada, atravessando a Serra do Curral até a cidade de Nova Lima. Partimos em fila indiana do cemitério. “É necessário organização, solidariedade, disciplina e nada de aventuras arriscadas como sair da trilha, se embrenhar em matas, rios, se descuidar do companheiro da frente”, disse o professor, seguindo como guia, passo ritmado de quem conhece o caminho e, a julgar pelos longos cabelos amarrados em rabo de cavalo e pela barba chegando quase à barriga, também os descaminhos.

Chegamos ao primeiro topo. À frente, a vista revelava o vazio resultante da mineração: montanhas cortadas até a raiz, substituídas por um imenso vale de poeira e lama se misturando a lagos formados pelo lençol freático. A montanha terminada em dejetos. Descemos. À medida que cruzamos o vale, passamos por gigantescas máquinas cobertas de pó do minério. Escavadeiras, caminhões carregadores com pneus maiores do que quatro de nós empinados. Máquinas assustadoras a demonstrar o terror de que são capazes.

Elaine caminhava a meu lado, feição às vezes séria, outras vezes sorria a um ou outro gracejo dos amigos. Encobríamos o sentimento de destruição aparente com o humor da juventude reunida, certa de poder vencer até mesmo a tristeza do mundo acabado assim, tão à vista.

Após atravessar o vale deserto, começamos a subir a segunda montanha. A picada agora era mais íngreme, acidentada, trilha mal formada emoldurada por galhos, espinhos, em determinados pontos era preciso esperar cada um passar devagar, os meninos segurando galhos para segurança das meninas. Cheguei extenuado ao topo da montanha. Olhei para trás. O vale de poeira ganhava a dimensão alcançada pelo olhar. As máquinas, agora diminutas, pareciam insignificantes como miniaturas em uma maquete. À minha frente, a descida anunciava paisagem contrastante,  coberta de mata, mal se via a trilha, mal podia se encontrar o caminho. Os primeiros da fila já alcançavam o vale embaixo.

Elaine deitou a cabeça em meu ombro, denúncia de cansaço e desalento. Descemos pela encosta. Molhei a boca com a água racionada do cantil, ofereci o resto a Elaine. Eu já pensava na possibilidade em um final seco de jornada, mas o guia conhecia aquelas trilhas. Saindo do meio da mata densa, nos deparamos com uma clareira cortada por um riacho de águas claras correndo entre pedras lisas.

Vários jovens já tomavam banho sem nem mesmo tirar os jeans, muitos deitados nas pedras, deixando a água deslizar pelo corpo. Elaine sentou-se na margem e tirou o tênis. Apertou com as mãos seus pequenos dedos doloridos, massageou o dorso e a sola dos pés, as mãos trabalhando ao mesmo tempo. Dobrou as pernas da calça até abaixo dos joelhos, colocou os pés na superfície rasa do riacho. Debruçou-se, a cabeça deitada sobre as pernas, as mãos brincando de represa. Meus olhos se prenderam naqueles pequenos pés, na insensata beleza da mulher descalça,.

Andamos por cerca de três horas. O caminho agora mais fácil, pequenas subidas e descidas até chegar a uma antiga estrada de terra. Entramos em Nova Lima por volta de duas horas da tarde. Elaine já caminhava cansada, as faces vermelhas de sol, procurando as sombras de marquises ou de muros altos. Os moradores da cidade aproveitavam o domingo. Gente olhava a rua da janela, homens nas calçadas dos bares, crianças corriam, uma turma jogava pelada de rua, velhas senhoras de sombrinha paravam para olhar a multidão de jovens sujos, cansados e sedentos descendo da montanha.

Paramos em uma praça da cidade. Aos poucos, os estudantes se dispersaram. Muitos já tinham encontro marcado com os pais para voltar de carro. Eu, Elaine e um grupo de amigos, planejamos voltar de ônibus, no final da tarde. Pensamos em andar pela cidade, mas o cansaço acabou nos deixando espalhados pelos bancos e gramas da praça. Sentei-me ao lado de Elaine, costas apoiadas na árvore. Não tínhamos mais o que conversar, se criou entre nós aquele sentimento de pessoas que passam o dia inteiro juntos e de repente se encontram sem mais nada para fazer. Ela deitou-se na grama, usando meu colo como travesseiro. Fechou os olhos e dormiu por quase uma hora. Fiquei olhando seu rosto, as mãos acariciando seus cabelos, ousando um toque suave no pescoço para vê-la estremecer no sono. Às vezes ela abria os olhos, sorria. Em todos esses momentos, adiei o gesto de levantar Elaine, apertá-la em meu peito, beijar seu rosto, encontrar seus lábios.

Deixei o tempo passar. E ainda hoje, tantos anos depois, guardo a sensação de impotência daquele dia diante das máquinas que avançam destruidoras criando o deserto. Diante de Elaine.

Este é Orson Welles

Este é Orson Welles – Orson Welles e Peter Bogdanovich reúne série de entrevistas feita por Peter Bogdanovich com Orson Welles durante cerca de 10 anos, entre o início e final dos anos 70. Meu primeiro contato com o livro aconteceu durante minha pesquisa de mestrado, por volta de 2001. Usei capítulos do livro que narram a mutilação imposta pelos produtores a Soberba (1942), segundo filme de Orson Welles. O tema do meu mestrado foi filmes modificados pelos produtores na sala de montagem.

Aos 25 anos de idade, Welles já era consagrado no teatro e no cinema e conquistou o mundo do cinema com o revolucionário Cidadão Kane. A partir daí, sofreu todo tipo de interferência e cortes em seus filmes. Alguns de seus clássicos, como A marca da maldade e Soberba foram inteiramente remontados por terceiros, imposição imposta por produtores descontentes com a visão de Orson Welles. O diretor chegou ao ponto de não conseguir mais trabalho em Hollywood, mas virou referência para o cinema.

“Para alguns de nós, Orson era uma espécie de consciência artística. Em meu trabalho e em minha vida, a influência dele deixou marca indelével. Como diretor tentou manter a integridade e a pureza e, para poder financiá-las, permitiu a degradação e desvalorização do lado ator/personalidade de sua carreira. Orson Welles eletrizou o palco, transformou e definiu o rádio, apontou os rumos (mas ninguém seguiu) para a televisão e fez filmes que inspiraram mais cineastas do que qualquer outro diretor desde D. W. Griffith. Que este artista norte-americano tenha acabado vendendo vinho em comerciais de televisão é de certa forma um alerta, mais para o declínio cultural de nossa sociedade do que para seus percalços individuais.” – Peter Bogdanovich.

No livro, Jean Cocteau tece um belo comentário sobre o gênio.

“Orson Welles é um gigante com rosto de menino, uma árvore repleta de pássaros e sombras, um cão que se safou da corrente e foi dormir no canteiro de flores. É um mandrião ativo, um louco sábio, uma solidão rodeada de humanidade.”

REFERÊNCIA: Este é Orson Welles. Orson Welles & Peter Bogdanovich. São Paulo: Globo, 1995.

Janelas distantes

Eu tenho que deixar o hotel depois das 12 horas. Meu voo só sai às quatro da tarde. Tenho tempo ainda para a última visita: a Torre de TV. O folheto anuncia, “Tem 224 metros e pesa 378 toneladas. Está assentada numa base em forma de pirâmide deitada. Estão representados ali o triângulo das comunicações e o tríplice do poder.” Tudo em Brasília recende a poder. Penso, folheto nas mãos, subindo o elevador abarrotado de turistas. Nesse momento, só me interessa a vista lá de cima.

Desde criança, tenho fascínio por mirantes. Quando chegava à terra dos meus pais, pequena cidade do interior, nas férias de dezembro e janeiro, corria para o quintal da casa da tia, de onde avistava o Cruzeiro, imponente no alto do morro. No dia seguinte, eu estava subindo as escadas de terra, ofegante, até me postar ao pé da cruz e avistar a cidade. Como os primos não tinham a menor predileção por estas escaladas matutinas – a bem da verdade, monótonas – ia sozinho. Demorava-me olhando a paisagem seca e ensolarada, talvez a mesma de todas essas cidades do interior que morrem aos poucos. Com o tempo, sobrevivem apenas nas lembranças dos que vão embora para nunca mais. Minhas lembranças têm nome: Ana Maria.

Lá do alto, eu sempre procurava a casa onde ela morava, um sobrado na praça, em frente à igreja matriz da cidade. Eu não tinha binóculo nem luneta, mas a imaginava abrindo a janela para deixar o sol da manhã entrar. Via os olhos ainda adormecidos de Ana Maria ofuscados pela luz da manhã, as faces coradas pelo calor das cobertas, as delicadas mãos se protegendo do agressivo ataque de fechaduras corroídas pelo tempo. Ela ficava alguns segundos na janela, o suficiente para deixar o vento afugentar o calor das faces, dar a volta em seus cabelos até o arrepio da nuca e levantar levemente a única peça de roupa que a cobria – a camisola branca de meus sonhos.

Do alto do Cruzeiro, aos pés de Deus, minha imaginação ganhava força e ritmo, ao sabor da estonteante passagem entre a infância e a adolescência. Um ritmo alucinado que nos joga despreparados no mundo separado pelo visível e o invisível. Apenas um sufixo entre os indescritíveis tormentos da puberdade.

Certa manhã, no calor do verão dentro e fora de mim, Ana Maria subiu comigo ao Cruzeiro. Eu a amparava, oferecia a mão nos degraus mais perigosos, esperava com a paciência dos enamorados que ela recuperasse o fôlego, que a respiração em seus seios voltasse ao normal. Sentada ao meu lado no alto do morro, o queixo apoiado nos joelhos, ela disse, “olha a minha casa”. Apontou com o dedo um ponto perto da igreja. “Se você tivesse binóculo, podia ver o meu quarto, me ver abrindo as janelas de manhã”.

Fiquei um tempo parado no alto da Torre de TV, contemplando a imensidão vazia de Brasília, entrecortada pelos frios monumentos de concreto. Ao meu lado, uma jovem ajeita a pequena luneta. Talvez procure bem ao fundo, além do Lago Paranoá, alguma janela se abrindo para o sol da manhã.

Homem no escuro

August Brill, 72 anos, é um famoso crítico literário norte-americano. Após sofrer um acidente de carro, vai morar com a filha divorciada. Katya, sua jovem neta, também vai morar com eles após a morte do namorado na guerra do Iraque. Abalada, ela abandona o curso de cinema e se retrai em casa em longas sessões de filmes ao lado do avô. Assistem clássicos um atrás do outro e depois discutem cenas, seqüências, sensações provocadas pelos filmes.

A trama de Homem no escuro, de Paul Auster, não se limita a essa resenha. Há uma história dentro da história sobre uma nova guerra de secessão nos Estados Unidos; as lembranças de August Brill ao lado da esposa Sonia tomam boa parte do livro. Mas são as poucas análises dos filmes compartilhados por avô e neta que tornam esse livro fascinante. A partir de obras como Ladrões de bicicleta, eles elaboram uma bela teoria sobre “objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas.”

Pensando sobre isso, em uma noite de insônia, August Brill faz uma análise emocionante sobre o filme Era Uma Vez em Tóquio (1953) do cineasta japonês Yasujiro Ozu. No filme, a nora vai visitar o sogro após a morte da esposa dele. Ela recebe do sogro um relógio de presente. Ela agradece mas desaba. A seguir, a análise de August Brill/Paul Auster sobre as emoções humanas a partir deste relógio.

“Enquanto observa Noriko chorar, ele então faz uma declaração simples, pronuncia suas palavras de um modo tão direto, tão desprovido de sentimentalismo, que faz a moça vir abaixo, num novo ataque de soluços – soluços longos e lancinantes, um lamento de angústia tão fundo e doloroso que é como se aquilo que ela tem de mais profundo em sua pessoa se rompesse e abrisse.”

“Quero que você seja feliz, diz o velho.”

“Uma frase curta, e Noriko se desmancha, esmagada pelo peso da sua própria vida. Eu quero ser feliz. Enquanto ela continua chorando, o sogro faz mais um comentário, antes de a cena terminar. É estranho, diz ele, quase sem acreditar. Nós tivemos filhos, mas foi você quem fez mais por nós.”

(…)

“Alguns momentos depois disso, estamos dentro de um dos vagões. Noriko está sentada sozinha, olha para o vazio com um ar inexpressivo, sua mente longe dali. Passam-se vários momentos, e então ela ergue o relógio da sogra, que está no seu colo. Abre a tampa de metal, e subitamente ouvimos o estalo do ponteiro de segundos que avança no mostrador. Noriko continua a examinar o relógio, a expressão em seu rosto ao mesmo tempo triste e contemplativa, e, quando olhamos para ela com o relógio na palma da mão, sentimos que estamos olhando o tempo em si mesmo, o tempo que avança ligeiro, enquanto o trem também avança ligeiro e nos empurra para a frente, para dentro da vida, e de mais vida, mas também para o tempo passado, o passado da sogra morta, o passado de Noriko, o passado que vive no presente, o passado que levamos conosco para o futuro.”

“O apito estridente de um trem ressoa em nossos ouvidos, um barulho cruel e pungente. A vida é frustrante, não é?”

“Eu quero ser feliz.”

“E então a cena termina abruptamente.”

A menina dos olhos distantes

O vento entrou pela janela aliviando por segundos a temperatura deste setembro quente como há muito não se vê. A sensação térmica parece grudar o ar da noite em minha pele para sempre, como manchas de sol que não se vão. Há um segundo motivo que me prende agora em frente à janela, tentando sentir uma brisa sequer. Ontem à noite, voltando da farmácia do bairro, a lua cheia surpreendeu, despontando acima dos prédios. Imaginei esta vista da sala de jantar de meu apartamento, onde tenho o hábito de me sentar para escrever ou navegar pela internet.

“Tem certeza que teremos lua cheia novamente? Este vento está congelando.”, disse Anne.

Há quase uma hora estávamos sentados em frente ao mar, um pequeno grupo de adolescentes espalhados pela areia, olhos presos na escuridão e na espuma branca das ondas. Eu tinha visto a lua nascer atrás das dunas na noite anterior e chamei o pequeno grupo de amigos para assistir ao espetáculo na praia. Caminhamos cerca de vinte minutos e, quase aos pés das ondas, esperamos. Ficamos cerca de uma hora ali, o vento frio de julho cortando, levantando com agressividade os cabelos de Anne. Ela debruçou o corpo sobre os joelhos, tentando frear o movimento do vento. Seus olhos parados na areia, o dedo riscando imagens sem sentido.

Foi nesta mesma posição que a vi pela primeira vez, sentada à minha frente na praia quase deserta de Tucuns, três dias antes, naquela manhã de 1981. Um cachorro pequinês correu em direção a ela. Anne se levantou, jogou os longos cabelos pretos para trás, chegavam quase à cintura de um corpo magro, sem contornos definidos. Era ainda uma menina em formação, a ingenuidade transparecendo no seu jeito de correr em direção à água, nos seus olhos sempre distantes.

Não lembro mais se paixões adolescentes nascem assim, de imediato. Podem ser questões científicas de hormônios, mas prefiro pensar em manhãs à beira-mar, em uma linda menina brincando com seu cachorro, na lua surgindo vermelha, o rastro iluminando o mar, dedos se entrelaçando, roçar de braços, a cabeça caída em meu ombro à medida que a lua deixava às águas e ocupava seu espaço imponente.

Escrevo hoje, contemplando outra lua cheia, pensando em Anne. A menina que brincava com dedos na areia e trocou seu primeiro beijo ao luar, como deveriam ser todos os primeiros beijos.

Mulheres sedutoras e fatais

Cinco bandidos estão em um quarto de hotel combinando o grande golpe. Batidas na porta. Sweed (Burt Lancaster) entra, a câmera o enquadra em plano fechado. Ele cumprimenta os bandidos um a um. Ouve-se voz feminina:

– Olá, Sweed. – plano de segundos mostra Kitty Collins (Ava Gardner) sentada na cama, os cabelos negros caindo sobre o ombro esquerdo, as duas mãos apoiadas no colchão, as pernas dobradas à frente em posição horizontal, o vestido pouco acima dos joelhos, deixando à mostra pernas e pés descalços da atriz. Sweed se surpreende com a presença de Kitty e se senta na cama. A câmera enquadra o ator em primeiro plano. Kitty está agora deitada com o cotovelo apoiado na cama, olhando Sweed. Folheia displicentemente uma revista, seu olhar alternando entre as páginas e o bandido à sua frente.

Uma das magias do cinema em casa é poder parar as cenas em determinados momentos. Visualizar por tempo indefinido os detalhes que ajudaram a criar a femme fatale, das personagens mais provocativas da história do cinema: olhar sedutor, decotes insinuantes, posições em camas e cadeiras libertando a imaginação erótica, braços, pernas e pés nus (bastava isso), jeito de fumar com conotações que você conhece bem.

Assassinos (The killers, EUA, 1946), direção de Robert Siodmak. O ex-boxeador Sweed se entrega ao mundo do crime após conhecer Kitty. Ela é namorada de famoso bandido e vive de aplicar pequenos golpes. Na cena do quarto, o boxeador acabara de cumprir três anos de prisão após acobertar um roubo de Kitty.

O filme, baseado em história de Ernest Hemingway, é dos grandes representantes do film noir, gênero que marcou a cinematografia americana dos  anos 40. Fotografia em preto e branco com tons escuros (influência do expressionismo alemão), grande parte das filmagens realizadas em interiores, narrativas policiais marcadas por personagens cínicos, sarcásticos – mostrando o frio e sádico submundo do crime. A femme fatale predomina em três clássicos do film noir, todos da década de 40. Um deles é Assassinos, os outros são Gilda (1946) e Pacto de sangue (1944).

Gilda, direção de Charles Vidor. Rita Hayworth é a sedutora cantora de cabaré que motiva um dos triângulos amorosos mais complexos da história do cinema, passível de interpretações hetero e homossexuais. Johnny Farrell (Glenn Ford) trabalha para Ballin Mundson (George Macready), dono de cassino em Buenos Aires. Mundson viaja a negócios e volta casado com Gilda, que fora amante de Johnny. A história do filme não é grande coisa, mas cada frame e cada frase de Rita Hayworth ajudam a entender a expressão mulher fatal. Ruy Castro define o fascínio de gerações por Gilda:

“E não se tratava apenas de imitar o seu jeito quase imoral de jogar o cabelo, de transformar inocentes saboneteiras numa tentação erótica ou de fumar como se cada lenta baforada contivesse um secreto significado. Era algo mais profundo e complexo: tentar apossar-se do seu fogo gelado, se se pode chamá-lo assim – a capacidade de inflamar uma paixão e, ao mesmo tempo, esnobar o ser inflamado a ponto de reduzi-lo à servidão total, ao nada.”

Pacto de sangue, direção de Billy Wilder. Barbara Stanwyck seduz um honesto vendedor de seguros, levando-o a assassinar seu marido para que ela  receba a milionária apólice de seguros. No bem comportado cinema americano da época, fiscalizado por censores que cortavam até casais vestidos deitados na cama, história assim só poderia ser concebida no film noir:  “O pacato e simpático vendedor transforma-se em um assassino frio e calculista, quando, no final do mês de maio, conhece a loura fatal Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck).” – Ana Lúcia Andrade.

Você pode perguntar porque não se fazem mais filmes assim, com todo esse glamour irresistivelmente sedutor e fatal. Porque não existem mais atrizes como Rita Hayworth, Ava Gardner e Barbara Stanwyck. E nem mulheres como Gilda.

REFERÊNCIAS

Entretenimento inteligente. O cinema de Billy Wilder. Ana Lúcia Andrade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinema. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Tiros na noite

A mãe deixou a panela cair. O coração disparou, barulho de metal repicando no piso da cozinha sempre a irritava. Conseguiu prender a panela com o pé, parando aquele som que entrava fundo em seus ouvidos. Respirou fundo, abaixou-se lentamente, uma das mãos nas costas, pouco acima das nádegas, a outra recolhendo o utensílio barulhento. Jogou a panela na pia. Meu Deus! mais barulho. Viúva, morava sozinha, na sua rotina, uma cachorra poodle, conversa matinal com as vizinhas, caminhada pelo quarteirão, cochilo depois do almoço, a novela das seis… das sete. Até que a filha e a neta vieram morar junto. Ih, ela acordou! Foi ao quarto da neta, encostou o ouvido na porta. Abriu devagar, descalçou os chinelos, andou lentamente até perto da cama. Dormia. Juro que ouvi um choro. Esses barulhos, sei não, essas coisas da noite. Denise na rua até essa hora. Fechou a porta do quarto, caminhou até a sala. Conferiu se as janelas estavam fechadas, a porta. Foi quando a mãe ouviu o tiro.

Roberto, o ex-marido, contou à polícia que naquela noite ele e Denise tinham finalmente feito as pazes. Comeram pizza se lembrando de velhos tempos. Ele não bebera. Nunca bebo quando estou dirigindo. Na saída, chamei Denise para um motel. É tarde, me leve para casa. A nossa? Não. A casa da mamãe, Dani pode acordar, a mãe não tem mais idade para levantar de noite. No carro, ela deitou o rosto em meu ombro, apertou a minha mão. Foi o que disse.

Paramos no portão da casa da sogra. Uma hora da manhã, a rua deserta. A luz do poste estava queimada. Denise me abraçou, beijou minha boca, assim, beijo mesmo, com saudade, com… Isso entra no depoimento? Ouvi uma batida no vidro do carro, na janela do lado de Denise. Um rapaz com revólver. Apontou a arma. Ele bateu de novo, pensei que fosse quebrar o vidro. Fez sinal para abaixar a janela. Obedeci,  você sabe, a arma na nossa cara. Ele me mandou descer. Eu não sabia o que fazer, fiz gesto de abrir a porta, Denise gritou assustada, fez um movimento descontrolado em minha direção. Foi quando escutei o tiro.

Denise casara-se cedo, aos dezenove. Levava vida de dona-de-casa: filha, casa, marido bem de vida. Com o tempo, perdeu o encanto, o desejo. Quando soube das noitadas do marido, não se importou. Deixou o tempo passar, a filha crescendo. Um dia, como acontece com poucas mulheres que vivem para o lar, acordou. Mudou-se para a casa da mãe, arrumou emprego. Entusiasmou-se. Roberto não. Passou a persegui-la, exigindo a volta. Ele  freqüentava a casa para ver a filha. Ficava até mais tarde, a mãe ressabiada, esse volta não volta, minha liberdade foi embora, nessa idade tomando conta de menina.

O advogado entrou com os papéis. Agora não tem volta. Roberto: tem. Ou você não fica com nada, não põe a mão em um centavo meu. E tem mais, se te pego com outro, é tiro. Denise não levou a sério, conversa fiada, pensou.

Na noite em que voltavam para casa – ideia dele sair para conversar, só comer uma pizza e conversar – Roberto tinha semblante calmo, feliz. Na saída da pizzaria, tentou beijá-la. Ela recusou. Vamos para um motel. Ela recusou. No caminho de casa, pensava na filha, fazia planos, os olhos vendo as ruas, as luzes da cidade. Na porta da casa da mãe, ele parou o carro debaixo do poste. Denise observou a luz queimada, a rua na penumbra. Sem lua, sem luz, o farol do carro apagado.

Assustou-se com barulho no vidro. Um rapaz com arma na mão. Antes dele bater de novo, o vidro desceu lentamente. Ela olhou assustada para Roberto. Ele já estava com a perna para fora do carro. Roberto afastou-se lentamente do carro. Foi quando Denise escutou o tiro.

O cinema poético/experimental de Kieslowski

Gosto do Kieslowski poético da trilogia das cores e, principalmente, do belo Não amarás (1988). Mesmo trabalhando no aspecto político-experimental, o diretor polonês não deixa de lado o cinema de poesia.

Cinemaníaco (Amator, Polônia, 1979) retrata Lodz, cidade do cineasta. Filip, funcionário de uma fábrica, compra uma câmera de cinema e faz filmes caseiros. Os filmes agradam ao diretor da empresa que passa a financiá-lo e também a controlar as produções de Filip. Sugere fitas favoráveis ao partido, à cidade, determina cortes de cenas. Visto assim, Cinemaníaco pode ser um simples filme sobre ditadura e censura no leste europeu. É mais do que isso.

Filip fica aos poucos obcecado com as imagens cotidianas que capta. Trabalhadores em frente a sua casa. Um operário da fábrica – deficiente físico, em seu dia-a-dia de trabalho e lazer. As fachadas de prédios de sua cidade pintadas para impressionar na TV. No momento das filmagens, é um Filip entusiasta, alegre, ingênuo. A câmera na mão, enquadrando as paisagens urbanas e seus personagens. À medida que vê as imagens projetadas, o personagem se transforma em um Filip reflexivo, amargurado. Consciente de sua incapacidade, busca sentido em debates sobre cinema. Aos poucos, a vida tranquila com a qual sonhara desmorona. Sua mulher o abandona e o único gesto de que Filip é capaz, neste momento, é enquadrá-la com as mãos, simulando a câmera de cinema.

Filip pode ser o alter-ego do cineasta, não apenas de Kieslowski, mas de todos os verdadeiros cineastas que conseguem revelar a poesia de imagens brutas, como trabalhadores nas ruas ou operários na fábrica. O anão, quando se vê na tela, abandona a sala de exibição (sala de sua própria casa) e diz a Filip: “é a coisa mais bonita que já vi na vida, eu preciso sair”. Precisa ir para as ruas se defrontar com a sua realidade, não aquela do cinema em que se viu.

“Esse fascínio pela observação da vida cotidiana revela a visão do mundo do cineasta, oferecendo indícios sobre a sua poesia cinematográfica. (…) O cineasta assume um papel como de um observador da realidade (enquanto rede sígnica), utilizando o instrumento próprio do cinema (concreto e onírico, ao mesmo tempo) para tentar reproduzir a ambiguidade, a incerteza e a imprevisibilidade da vida cotidiana e, principalmente, dos seres humanos (transformados em personagens).” Erika Savernini

Krzysztof Kieslowski disse em entrevista que o ambiente político era apenas um cenário de fundo em seus filmes. “Mesmo os documentários em curta-metragem eram sempre sobre pessoas, sobre como são.” Ou como poderiam ser, base da narrativa de  Acaso (Przypadek, Polônia, 1987).

Witek é um jovem estudante de medicina. Após a morte do pai, abandona o curso, “perde a vocação”. Resolve ir para Varsóvia e corre atrás do trem na estação, conseguindo entrar no último instante. Esse incidente, a corrida pela estação, é o elo de ligação entre três possíveis destinos para o personagem. E mostra, mais uma vez, o domínio de Kieslowski sobre a narrativa do cinema.

Na primeira parte do filme, Witek consegue pegar o trem, embarca para Varsóvia e encontra sua vocação em um burocrata servidor político do regime. Voltamos então à cena da estação. Witek não consegue pegar o trem, derruba um guarda da estação, é preso e acaba como um subversivo, combatente do regime. Mais uma vez na estação. Witek não consegue pegar o trem, mas não derruba o guarda. Ele encontra na plataforma uma colega de medicina, volta para a universidade e se casa com a estudante, começando uma proeminente carreira de médico.

Mais do que um estudo a respeito dos acasos que podem transformar nossos destinos, Kieslowski experimenta os acasos da narrativa cinematográfica. Se o diretor abrisse o plano na primeira sequência da plataforma da estação de trem, veríamos que os personagens que influem em seus destinos estão presentes em todas as três sequências: o trem, o guarda, a colega de escola. A cada sequência da estação, Kieslowski muda ligeiramente os ângulos, os planos, insere os mesmo inserts, mas com perspectivas diferentes. Nas duas primeiras tentativas de pegar o trem, Witek e os espectadores não vêem a jovem estudante. Na terceira, um corte seco mostra que ela esteve ali, observando-o em todas as tentativas.

O diretor é quem escolhe, através de uma simples mudança de ângulo de visão, o destino de seu personagem. Define as possibilidades perceptivas do espectador, fazendo-o participar do jogo narrativo. Nos três destinos de Witek, os mesmos personagens se cruzam nos mesmos ambientes, porém, com destinos alterados. Cabe ao espectador juntar as peças.

“Quando eu ainda estava na escola de cinema, meus amigos e eu frequentemente fazíamos um jogo que era muito simples, mas que requeria integridade. No caminho para a escola, pela manhã, nós tínhamos que coletar pontos. Se você visse alguém sem um braço você conseguia 1 ponto, sem dois braços 2 pontos… (…) Nós fizemos esse jogo por muitos anos. Existiam outras coisas também que nós observávamos com uma certa paixão. Eu comecei a tirar fotos então…(…) Eu amava tirar fotos. E sempre os objetos das fotos eram pessoas velhas, pessoas contorcidas, olhando ao longe, sonhando ou pensando sobre como as coisas poderiam ter sido, e reconciliadas com o modo como são.” Erika Savernini

Através dessa singular observação da realidade, Kieslowski construiu seu cinema poético. A simplicidade desta construção está no gesto do personagem Filip, de Cinemaníaco: a poesia está nos olhos dele, basta apenas colocar uma câmera entre eles e a realidade.

REFERÊNCIA: Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

Depois do filme

– Desculpe o atraso.

– Não tem problema. Já comprei os ingressos, o filme ainda não deve ter começado. Tem sempre comercial, um curta-metragem antes, é melhor entrar mais tarde.

A sessão de domingo do Cine Roxy era tranquila. O cinema tinha a fama de passar “filmes de arte”, difícil se formar grandes filas. Nem mesmo a pequena bilheteria, uma abertura na parede, com barras de ferro transversais, apresentava problemas. Além de tudo, adquiri desde os meus primeiros encontros o hábito de chegar cedo, cerca de trinta minutos antes das meninas. Eu marcava os encontros para a porta do cinema, ruim só o desconforto de ficar esperando em pé, na rua, às vezes conversando banalidades com o pipoqueiro.

– Vamos entrar? – Marisa tinha a beleza incerta da adolescente em formação. Não sabia ainda o que fazer com os cabelos, cortados em linha reta pouco abaixo dos ombros, enchendo de volume a cabeça a partir do lado direito, caindo ondulados, sem preparo algum. O rosto ovalado não combinava com cabelos assim, as bochechas cheias, levemente rosadas, boca pequena, nariz fino. Também não sabia ainda como se vestir para este ou aquele encontro, estava de tênis, calça jeans e camiseta, roupa mal ajustada … bem, era um encontro. Eu a conhecera duas semanas antes, nestas festas de finais de semana em casa de amigos.

Buscamos cadeiras no meio do cinema. No Roxy não era bom sentar atrás, pois dava para ouvir o barulho de carros da Avenida Augusto de Lima. Assim que o filme começou, Marisa deitou a cabeça em meu ombro, a mão em minha coxa. A sessão estava vazia naquele início de noite do domingo e logo percebi que não estávamos interessados no filme. Era a quinta vez em menos de um mês que eu assistia a Hair.

Na primeira sessão, no Palladium, não consegui me levantar ao final. À medida que os hippies invadiam o gramado à frente do Capitólio, em Washington, cantando Let the sunshine in, sensação indefinida tomou conta. Fiquei sentado olhando para a tela, sem prestar atenção nos créditos, esperando a sessão seguinte. Voltei na outra semana e na outra com o fascínio de quem está assistindo ao filme pela primeira vez.

Quando o filme acabou, Marisa se endireitou na cadeira. No caminho para o ponto de ônibus, no centro da cidade, tive a prudência de não perguntar se ela gostara do filme, pouco assistimos, afinal.

– Você pode me deixar aqui no ponto mesmo. Meu bairro é longe…

– Não. Vou com você até em casa.

– Já são quase onze horas…

– Não tem problema, estou acostumado a andar de noite pela cidade.

O Bairro Santa Inês fica perto de Sabará, mas naquela noite não me pareceu tão longe assim. O ônibus vazio permitiu ainda um ou outro arroubo, importunado apenas pelo olhar displicente do trocador. Andamos cerca de quatro quarteirões da avenida principal até a casa de Marisa. A rua mal iluminada e uma grande árvore na porta da casa colaboraram para uma despedida mais longa do que eu imaginava e podia.

– Será que ainda tem ônibus? – ela perguntou olhando o relógio.

– Não sei, deve passar um noturno naquela avenida. – ela ficou calada por alguns instantes, seus olhos procurando alguma coisa.

– Não quer entrar um pouco?

– É tarde, seus pais….

– Estão viajando. Foram ontem para a praia.

– E você?

– Tenho cursinho, o vestibular já é no início do mês. Amanhã vou para a casa da minha tia. Vem, entra um pouco.

O ponto de ônibus já estava cheio. Decerto, gente que pegava trabalho cedo, homens e mulheres com bolsas a tiracolo, as marmitas quadradas de alumínio bem ajeitadas no fundo, apoiadas dos lados para não virarem. 

Preocupada com os vizinhas, Marisa me fizera sair da casa ainda de madrugada. Agora, no ponto de ônibus, fiquei com aquela emoção indefinida, deixando de pegar um ônibus, o outro, mais um, como créditos passando no final da sessão.

John Wayne, o cowboy

John Wayne foi o mais americano dos atores, talvez o mais americano dos americanos. Trabalhou em cerca de 150 filmes e foi protagonista dos melhores faroestes. Pelo menos três filmes, todos dirigidos por John Ford, estão entre os melhores do gênero: No tempo das diligências (1939), Rastros de ódio (1956) e O homem que matou o facínora (1962).

Apesar de inúmeros filmes lendários, John Wayne ganhou o Oscar de melhor ator no final da carreira por Bravura indômita (1969). O prêmio é visto como uma homenagem da academia ao querido ator. Três cenas inesquecíveis provam esse fascínio, essa paixão que John Wayne provocava no público.

No tempo das diligências. A diligência atravessa o Monument Valley, a fotografia em preto e branco do árido oeste. O xerife e o condutor, na boléia, conversam animados. De repente, o condutor freia os cavalos assustado. A câmera se desvia para a estrada à frente. Um zoom descontrolado, tremido, como nas mãos de um cinegrafista também assustado, focaliza o pistoleiro Ringo Kid (John Wayne) parado no meio da estrada com um rifle nas mãos. Foi sua primeira aparição de destaque no cinema. Tomou conta da tela e do imaginário do público.

Rastros de ódio. Ethan Edwards (John Wayne) passa cinco anos procurando sua sobrinha (Natalie Wood) raptada pelos índios. Dominado pelo preconceito, seu objetivo é matar a sobrinha. Não tem condições de aceitá-la após viver tanto tempo com os apaches. Quando a encontra, persegue a menina pelo deserto até acuá-la num buraco entre as rochas. Ela olha para Ethan assustada, o medo estampado em cada feição. Ethan, após alguns segundos, guarda a arma, pega a sobrinha pela cintura e a levanta acima de sua própria cabeça, com a facilidade e leveza de quem brinca com uma criança amada. O rosto voltado para cima, na direção da sobrinha, ele diz, “vamos para casa”.

A terceira cena é também de Rastros de ódio. Ethan deixa a sobrinha na casa de seus parentes. Não entra. Fica do lado de fora da porta, contemplando a alegria do reencontro. Volta-se e desce os degraus da varanda. A câmara, colocada no umbral da porta, filma o pistoleiro se afastando de costas. Solitário, condenado a uma vida errante. Não há mais lugar para o pistoleiro. Não há mais cowboys como JOHN WAYNE.