O tubarão de borracha

Pior que isso, o tubarão era ridículo. Nas palavras de Cohen: “Ele parecia um troço de borracha, completamente falso”. Tomou-se a decisão de sumir com o tubarão – na verdade, cortá-lo do filme, na montagem, adiando a primeira aparição do tubarão até o terceiro ato. Segundo Cohen, a ideia foi de Fields. “Verna foi a pessoa-chave em tudo o que aconteceu na finalização.” Ele diz que Spielberg ia tentar consertar o fracasso dos tubarões mecânicos usando cenas extraídas de documentários, intercalando-as com o material do filme. Mas “ela começou a perceber que aquilo que se imagina é pior do que o que se vê”. Cohen continua: “Ela meteu a tesoura no filme, arrancou tudo o que tinha tubarão e deixou só o resultado, as reações. Era muito mais elétrico.” Mas depois Spielberg alegou que já na filmagem ele percebera que precisaria fazer isso. “Os efeitos especiais não funcionavam, então eu tinha que pensar rápido e fazer um filme que não dependia de efeitos para contar a história”, ele diz. “Joguei fora a maior parte dos meus storyboards e apenas sugeri o tubarão.” Gottlieb concorda. “A decisão foi coletiva, com Spielberg na liderança. No início, um dos nossos modelos era O Monstro do Ártico, um grande filme de horror no qual você só vê o monstro no último rolo. Pensamos: ‘Vamos fazer isso’”.

O parágrafo acima, extraído do livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, é exemplo das polêmicas que cercam a história de grandes sucessos do cinema a respeito da autoria. Um dos motivos do sucesso de Tubarão (Jaws,EUA, 1975) é a famosa música-tema de John Williams que anuncia a aparição do tubarão, criando um suspense estarrecedor. Na sequência final do filme, em algumas cenas do ataque ao barco, o tubarão aparece repentinamente, sem a música, quebrando a premissa já arraigada no espectador. O susto é inevitável.

Uma das versões no livro de Peter Biskind é de que a solução de não mostrar o tubarão é da montadora Verna Fields que cortou todas as cenas em que o monstro aparece devido a precariedade dos efeitos especiais. Nos extras do DVD, Spielberg declara que desde o momento em que resolveu fazer o filme já decidira que a aparição do tubarão seria apenas sugerida. A estratégia, segundo o diretor, ganhou conotação definitiva quando John Williams apresentou a música, pois as notas aceleram à medida que o tubarão se aproxima das vítimas, marcando o ritmo do suspense.

O que se sabe ao certo, pois neste ponto todos concordam, é que o tubarão-mecânico construído para o filme foi um verdadeiro desastre. Durante meses, diretor, produtores e elenco acompanhavam a luta da equipe de efeitos especiais para fazer a traquitana funcionar. Richard Dreyfuss diz que a frase que mais escutava era “tubarão não funciona, tubarão não funciona….”. Steven Spielberg pensou até mesmo em abandonar as filmagens.

Com relação aos atores, há ainda uma história interessante. Uma das cenas mais emocionantes do filme, o discurso de Quint (Robert Shaw) sobre o naufrágio do Indianápolis durante a Segunda Grande Guerra, foi reescrita pelo próprio ator. Grande parte do monólogo foi idéia de Shaw. E uma das frases famosas do cinema também foi idéia de ator. Na cena em que vê o tubarão pela primeira vez, Roy Scheider (que interpreta o chefe Martin Brody) improvisou a célebre frase “vamos precisar de um barco maior”.

Referência: Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood. Peter Biskind. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009

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Perdas de guerra

Orgulho e Paixão (The Pride and the Passion, EUA, 1957), de Stanley Kramer. Em 1810, as tropas francesas de Napoleão invadem a Espanha. Um grupo de rebeldes, liderados por Miguel (Frank Sinatra), atravessa 100 quilômetros do país transportando um canhão gigante para tomar Ávila, cidade ocupada pelos franceses e protegida por muros intransponíveis. Em Ávila, um oficial francês tenta obter informações dos moradores sobre o paradeiro de Miguel. O oficial está à frente de um grupo de civis. Diante da recusa dos moradores em colaborar, ele ameaça:

– Muito bem, um exemplo deve ser estabelecido. Eu vou começar enforcando 10 de vocês. Depois de um dia, enforcarei mais 10 e mais 10. Se necessário, as mulheres e as crianças de Ávila. Até que uma língua se solte e me digam onde está o canhão. – os moradores continuam silenciosos, um espanhol cuspe no chão.

– Execute a ordem. – determina o oficial. Dez espanhóis são escolhidos para o primeiro enforcamento.

Cenas como essas são comuns em situações de guerra. O cinema retratou várias delas. Em Dr. Jivago (EUA, 1965), de David Lean, tropas do exército vermelho queimam povoados do interior da Rússia e fuzilam moradores, acusando-os de colaborar com o exército branco. Os militares costumam chamar esses assassinatos de perdas colaterais na guerra.

Durante a segunda guerra mundial, diversas histórias desse tipo se repetiram. Na Iugoslávia ocupada pelos nazistas, o general Mihailovic comandava a resistência.

“Como líder guerrilheiro, Mihailovic sofreu com o fato de muitos de seus seguidores serem pessoas conhecidas, com parentes e amigos na Sérvia, com propriedades e ligações reconhecíveis em outros locais. Os alemães adotaram uma política de chantagem homicida. Retaliavam as atividades guerrilheiras através do fuzilamento de lotes de quatrocentas ou quinhentas pessoas escolhidas a dedo em Belgrado.” – Winston Churchill.

Durante o levante de Varsóvia, em 1944, os alemães fuzilavam civis nas ruas, tentando intimidar os rebeldes. Do livro de Churchill, outro relato aterrorizante, feito por uma testemunha ocular através de um telegrama.

“Os batalhões de tanques alemães, na noite passada (11 de agosto), fizeram esforços decisivos para libertar algumas de suas fortalezas na cidade. Mas essa não é uma tarefa simples, já que em cada esquina ergueram-se enormes barricadas, em sua maioria construídas de pedaços de concreto arrancados do calçamento das ruas especialmente para esse fim. Na maioria dos casos, as tentativas fracassaram, de modo que as guarnições dos tanques deram vazão a seu desapontamento ateando fogo a diversas casas e bombardeando outras à distância. Em muitos casos, também atearam fogo aos mortos, cujos corpos recobrem as ruas em muitos locais. (….) Quando os alemães usaram tanques para levar suprimentos a uma de suas fortalezas, obrigaram quinhentas mulheres e crianças a caminhar na sua frente, para impedir que os soldados (poloneses) lhes dessem combate. Muitas delas foram mortas e feridas. Relatos sobre o mesmo tipo de ação vieram de muitas outras partes da cidade.”

Referência: Memórias da Segunda Guerra Mundial. Winston S. Churchill. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995

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Abandono

Maria entrou no quarto e deixou a toalha cair. Gesto para o flagrante de uma câmara de cinema se ela fosse alguns anos mais jovem. Talvez até seu marido, estendido na cama, a desvendasse com um olhar antigo.

Ela enxugou os cabelos, os olhos cruzando o espelho, o reflexo gasto do corpo. Escolheu na penteadeira um hidratante ainda cheio até a borda. Apoiou a perna na beirada da cama, começou a passar o creme, as mãos deslizando dos pés as coxas. Vai-e-vem, vai-e-vem, como lembranças. Às vezes, olhava seu marido, estendido na embriaguez, um cheiro de suor e álcool.

Cheirou alguns perfumes esquecidos. Este – um cheiro bom de fim de tarde na praia, aquele, leve cheiro de dama da noite ao cair do dia. Perfumou-se no pescoço, braços, seios, barriga. Cheiro de praia, como na noite de hotel em Ipanema – tantos e tantos anos. Ipanema das praias de cinema, dos sonhos. Ipanema. Pés descalços tocando pela primeira vez areias de mar. A primeira vez.

Abriu o guarda-roupa. Será que essa calça ainda me serve? Essa blusa me caía tão bem! Esse vestido estava na moda quando… como é mesmo o nome daquela atriz? daquele filme?

Há mais de dez anos não vou ao cinema. A vida, a vida, tarde da noite, sozinha em casa, ela abaixava os olhos esperando o marido voltar dos bares. A vida.

Maria ligou o secador de cabelos. O barulho despertou o marido. Sonolento, ele notou a mulher pelo espelho. Os cabelos ao vento do secador, lábios ganhando aos poucos a cor do batom. Observou-a vestindo a calcinha, uma blusa branca, uma calça leve de verão, sandálias deixando os pés à mostra.

Ainda com cabelos úmidos, ela pegou uma pequena bolsa: colocou um frasco de perfume, batom, espelhinho, contou algum dinheiro, saiu do quarto. Pela janela, o marido a viu subindo a escada da rua. Onde você vai? Maria observou a casa, o olhar desceu pelo telhado colonial, passou pelas paredes recém-pintadas de amarelo, parou nas janelas de madeira, no verniz ainda brilhando que ela fez questão de passar. Me deixa dar o toque final, pedira ao pintor, me deixa depois de tanto tempo terminar com tudo isso, uma pincelada, uma marca no tempo. O tempo.

Onde você vai a essa hora? Repetiu o marido parado na janela, mãos espalhando a ressaca do rosto. Não sei. Talvez eu vá tomar um chopp com uma amiga. Talvez ao cinema. Talvez andar de carro por aí.

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Entre a lágrima e o sorriso

Não consigo evitar os olhos úmidos na cena em que o Capitão Von Trapp (Christopher Plummer) reencontra seus filhos após uma viagem a Viena. Os filhos caem do barco e saem às risadas do lago. Com sua rigidez assustadora, o Capitão os repreende. Após uma discussão, manda Maria (Julie Andrews) de volta para o convento. Quando ouve as crianças cantando dentro de casa para a Baronesa, o Capitão, comovido, se reconcilia com todos. A revelação dos olhos úmidos pode soar ingênua para muitos espectadores e, principalmente, críticos.

A noviça rebelde (The sound of music, EUA, 1965), de Robert Wise, é desses filmes controversos que levanta discussões. Grande parte da crítica acha o filme supervalorizado, principalmente se levarmos em consideração que a década de 60 traz mudanças significativas para o cinema, tratando abertamente de temas como sexo, violência e questões sociais. Até os musicais já não eram mais os mesmos, o próprio Robert Wise é responsável por Amor, sublime amor (West side story, EUA, 1961), filme que define um novo parâmetro para o gênero ao colocar violentas gangues rivais em Nova York brigando e se matando enquanto cantam e dançam.

Neste aspecto, o enredo de A noviça rebelde é quase um retrocesso. Maria, uma noviça, sai do convento para descobrir sua verdadeira vocação. Vai trabalhar como governanta na casa do Capitão Von Trapp, cuidando dos sete filhos do Capitão que são tratados a regime militar. Aos poucos, conquista a confiança das crianças e o amor de Von Trapp. A paisagem de Salzburgo é deslumbrante e as músicas entram em ritmo alucinante durante as três horas de filme. A primeira sequência é citada e recitada das mais diversas formas, como homenagem ou como crítica: Maria cantando The sound of music no topo de uma montanha. Feliz, absolutamente feliz.

Pela revelação no início deste texto, o leitor já percebeu que sou fã a ponto de assistir inúmeras vezes a essa saga musical. Mas não pretendo fazer uma defesa contextualizada do filme. Quando comecei a publicar no blog, decidi que meus textos de cinema seriam impressões, comentários motivados pelas sensações que a obra provoca naquele momento. Uma lágrima, por exemplo.

Penso na estrutura de A noviça rebelde que começa como um dos filmes mais felizes do cinema e termina coberto pela sombra de uma era deprimente da história da humanidade. Durante cerca de 90% do filme, nos deixamos levar pelas paisagens de sonho da Áustria; por aquelas crianças que vivem em uma aura de castelos e fadas, a própria casa é um castelo à beira do lago; pela cativante personalidade musical de Maria, motivada pelos valores de amizade, amor e religiosidade; pelo aparente autoritarismo do capitão Von Trapp. As letras e melodias das músicas são de uma felicidade contagiante. Tudo caminha para esses finais do cinema nos quais o espectador deixa o cinema com um sorriso sincero nos lábios.

Mas no clímax, Hitler invade a Áustria. Não há sequer uma cena violenta no filme, no entanto, A noviça rebelde ganha o ar tenebroso que invade a Europa. O Capitão Von Trapp cantando Edelweiss no Festival de Salzburgo é o retrato desta angústia: a platéia silenciosa, o teatro às escuras, o Capitão no palco envolvido por um círculo de luz, as mãos tirando notas graves do violão, sua voz também grave e embargada cantando pela Áustria. Neste momento, uma lágrima volta aos olhos. Agora, de tristeza.

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Crise criativa

P… abriu a porta da sala intempestivamente, mas não assustou redatores e diretores de arte sentados na sala contígua. Já estávamos acostumados a estes rompantes, resultados da insatisfação consigo mesmo que P… expressava quase diariamente. Acontecia no início da tarde, geralmente em dias de muito calor. Após horas isolado dentro da sala, ele abria a porta de sopetão, caminhava alguns segundos pelo departamento de criação, parava em frente à janela por mais alguns segundos, se voltava para um de nós e disparava:

– S… devia me mandar embora hoje mesmo. Não consigo escrever uma linha. Sou o mais completo idiota, não sei por que diabos trabalho com criação.

S… era o dono da agência de publicidade, P… o diretor de criação. Depois da explosão, ele se fechava na sala e só saía no início da noite, maleta na mão, olhar sereno, se despedindo de todos. Era a senha: no outro dia, bem cedinho, os mais criativos títulos, textos, roteiros, estariam na mesa de um dos diretores de arte para formatação.

A crise criativa que afeta o trabalho de quem lida no mundo das ideias é realidade desde quando o homem inventou de se expressar. Basta ligar o computador e ficar olhando indefinidamente para a tela em branco e você entende esse desespero. No caso do escritor russo Dostoiévski, a crise acontecia com folhas dispersas na mesa.

“Meu irmão, é tão triste viver sem esperança! Quando olho para adiante, tenho medo do futuro. Transporto-me para uma atmosfera fria como o Ártico, na qual nenhum raio de sol jamais penetrou. Por um longo tempo eu não tenho um instante de inspiração sequer. Sinto-me, assim, como o Prisioneiro de Chillon após a morte de seu irmão. A ave-do-paraíso da poesia nunca, nunca mais, irá me visitar novamente – nunca mais irá aquecer minha alma congelada. Você diz que sou reservado; mas todos os meus sonhos de antes me abandonaram e, naqueles arabescos dos quais um dia eu me encantei, todo o brilho desapareceu. Os pensamentos que costumavam acender minha alma e meu coração perderam o fulgor e a força; ou então meu coração está entorpecido, ou então… Tenho medo de terminar essa frase. Não vou admitir que todo o passado foi um sonho, um reluzente sonho dourado.”

O trecho é do livro Correspondências Dostoiévski, coletânea de cartas escritas pelo escritor a amigos e, principalmente, ao irmão. Dostoiévski escrevia diariamente pressionado por problemas financeiros. Ele passou grande parte da vida assolado por dívidas, credores ameaçando enviá-lo para a prisão. Diferente de outros autores de seu tempo – como Tolstói que era independente financeiramente e escrevia com vagar – Dostoiévski tirava o sustento de seus romances. O autor trabalhava por encomenda, publicando capítulo a capítulo em jornais e revistas, sujeito a rigorosos prazos de entrega. Recebia adiantamentos por livros que ainda não escrevera o que agravava sua obrigação diária de escrever.

Dostoiévski passou seis anos na prisão e esteve a um minuto de ser fuzilado. Realizou trabalhos forçados no Cazaquistão, sofria de epilepsia, era viciado em jogos de azar. Viveu anos em exílio na Europa, pulando de cidade em cidade, fugindo de seus credores. Perdeu uma filha, perdeu o irmão querido, mas nunca deixou de escrever, produzindo clássicos da literatura mundial, como Crime e castigo, Os irmãos Karamazov, Os demônios, Memórias do subsolo.

P…, o diretor de criação, achava que Dostoiévski cuidava pouco do texto. Era um dos embates literários que tínhamos, pois o autor é o meu favorito. A analogia que faço neste texto com o trabalho de redação publicitária apareceu devido a esse processo cotidiano de escrever, seja um romance ou um simples anúncio. Pena que hoje, a maioria dos redatores não tem a preocupação de se referenciar com a leitura de grandes escritores. O resultado é uma publicidade cada vez mais pobre em conceito e bons textos.

Um trecho final destas Correspondências, outra lição obrigatória para quem se aventura pelos caminhos da escrita, da publicação de ideias.

“De Pisarski, conheço apenas ‘O Fanfarrão’ e ‘O Rico Pretendente’ – nada mais. Gosto muito de seu trabalho. É inteligente, bem-humorado e quase ingênuo; é um mestre ao contar histórias. Uma coisa é lamentável: escreve rápido demais. Escreve muito rápido e em demasia. Um homem deve ter mais ambição, mais respeito por seu talento e ofício, e mais amor pela arte. Quando se é jovem, as ideias acumulam-se em nossa cabeça; mas não se deve capturar a cada uma delas enquanto bailam em nossa mente, e daí apressar-se para divulgá-la. Deve-se esperar pela síntese, pensar mais; aguardar até que os detalhes tenham se agrupado em torno de um núcleo, em uma ampla e definida imagem; nesse momento, nunca antes, deve-se então escrevê-la. Os personagens colossais, criados pelos autores colossais, em geral nascem do trabalho demorado e persistente. Mas as tentativas e rascunhos que levam àquela imagem não devem jamais ser divulgados.”

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Tempestade

Chovia. Quando entrei no ônibus, o barulho na lataria insinuava uma chuva forte, típica pancada de verão. Da minha casa até o local de encontro com Cristiane, o ônibus gastaria cerca de 10 minutos. Domingo à tarde, o calor afugentava das ruas, o trânsito estava calmo, o ônibus vazio. A água escorrendo no vidro provocou imaginações de cinema: namorados correndo de mãos dadas na chuva, se escondendo em marquises, beijos molhados…

Acordei com um estrondo. As nuvens negras aumentavam em uma velocidade que só me lembro de ver naqueles efeitos visuais que aceleram as imagens. O dia escureceu, as luzes dos postes acenderam em plena três horas da tarde. A poucos metros do ponto em que eu deveria descer, uma pesada, assombrosa tempestade desabou.

Desci do ônibus, pesadas gotas de chuva batendo como pedras em meu rosto, em minhas costas. O vento mudava de sentido rapidamente. Consegui chegar até um abrigo de ônibus na avenida. Cristiane me esperaria no ponto de ônibus do outro lado.

A chuva dificultava a visão. Uma cortina de água cortava o ar quase na horizontal. Em alguns intervalos das rajadas, enxerguei um pequeno grupo de pessoas se escondendo das águas no abrigo do outro lado da avenida. Cris era inconfundível, mesmo à distância. Cabelos castanhos que chegavam quase até a cintura, faces brancas, olhos também castanhos, mas o que a distinguia mesmo naquela distância era a altura incomum em uma jovem daquela geração, cerca de 1,75.

O destino fazia das suas. A enxurrada formou um rio na avenida, impedindo qualquer tentativa de atravessá-la. Alguns carros pararam no meio, motores apagados, a água batendo na altura da porta. Meus pés já estavam submersos, mulheres gritavam no abrigo, uma criança de cerca de dois anos, no colo do pai, assistia a tudo deslumbrada.

Eu não podia ficar ali. Estudei a situação. Poucos metros acima havia um declive na avenida que terminava onde estávamos, lugar em que a água se juntava, formando uma lagoa, favorecida pelos bueiros insuficientes para o escoamento. No declive, o volume de água era grande, mas a enxurrada corria veloz. Talvez eu pudesse atravessar. Andei cerca de 100 metros e me aventurei. Atravessei com a água batendo nos joelho, uma correnteza forte que poderia em um momento ou outro me jogar no meio das águas.

Cheguei do outro lado. Desci até o abrigo, as roupas pesadas, coladas ao meu corpo, os pés imersos na água.  Cris me recebeu com um grito de alívio, um abraço, seu rosto em meu peito encharcado.

– Seu maluco.

– Não podemos ficar aqui.

– O que vamos fazer? Essa chuva.

– Minha casa é perto daqui. Talvez a gente consiga pegar um táxi. A chuva está diminuindo.

Por sorte, um táxi parou ao primeiro sinal que fiz. A altura da água diminuíra um pouco, mesmo assim entramos com dificuldade. O carro andou cerca de trinta metros, patinando na chuva, até que ouvimos barulho de motor engasgando. As luzes do painel se apagaram. O motorista tentou virar a chave na ignição, ouvimos o arranque rateando, rateando…

– Não tem jeito.

– E se eu empurrar. Tem uma descida logo ali.

– Nessa chuva?

– Eu já estou molhado mesmo. – Cris fez menção de ajudar, mas fechei a porta rapidamente ao descer do carro, fazendo gesto pelo vidro de “fica aí”. A chuva voltou a bater forte nas minhas costas enquanto eu empurrava o carro lentamente, meus pés escorregando no asfalto molhado até que o carro chegou no início da descida. Um pequeno embalo e pude ver a fumaça saindo do cano de descarga, sinal que o motor funcionara.

Entrei no carro. Em ponto morto, o motorista pisava fundo no acelerador, o barulho do motor agredindo nossos ouvidos. O motorista engatou primeira, soltou a embreagem, o carro deu dois ou três solavancos e voltou a morrer. Cris me olhou com aqueles olhos de “e agora?”. Desci novamente do carro, empurrei com todas as forças para que ele pegasse embalo na descida. Assim que o motor voltou a funcionar, o motorista andou por mais alguns metros, tentando manter o ritmo do motor. Tive que correr atrás do táxi e assim que entrei o motorista arrancou ferozmente, as rodas deslizando, espalhando água para os lados.

O motorista parou na porta da minha casa. Ele acenou para mim, gesto de negativa ao me ver tirando a carteira do bolso.

– A corrida é por conta. Não posso cobrar, depois desse empurra-empurra. 

Senti um frio intenso ao sair do carro. Chovia fino agora, nuvens negras ainda provocavam a escuridão que confundia tarde com noite. Vi nos olhos de Cris a incerteza de quem se depara pela primeira vez com o risco inesperado da vida. Entramos em casa. Meus pais estavam fora.

– Preciso tomar um banho quente. – ela disse assim que pusemos os pés na sala.

– Vou pegar uma toalha para você.

Tirei as roupas molhadas no quarto, enxuguei meu corpo, vesti roupas secas. Um estranho silêncio tomava conta da casa. Ouvia-se apenas o barulho de goteira lá fora, um tamborilar intermitente em cima de alguma lata no terreiro, ou talvez no teto de zinco da casinha de ferramentas de meu pai. Eu ouvia claramente outro barulho: o chuveiro ligado, imagem da água quente escorrendo pelo corpo de Cris.

Meu ouvido captava cada som dentro do banheiro. O barulho da saboneteira batendo no azulejo, o recipiente de shampoo sendo tirado e colocado no suporte, a pesada água dos cabelos caindo no chão, a torneira girando, cotovelos encostando nas paredes do boxe apertado, barulho de toalha secando o corpo, o trinco da porta sendo desfeito.

Cris apareceu no umbral da porta da sala, a toalha enrolada acima dos seios. Os cabelos molhados, a pele branca de seu rosto com uma sensação de alívio. Ela sorriu meio sem graça, deixando o frescor de sua pele úmida se espalhar pelo ambiente.

Restava apenas uma garoa da chuva. Enquanto Cris se vestia no quarto de minha irmã, cheguei até a janela do meu quarto. Dos telhados das casas vizinhas subia uma névoa, um tom londrino marcado pelas luzes do início da noite. A cena não lembrava em nada a assustadora tempestade.  Essa tarde enevoada de dezembro deixou em mim a imagem inelutável de Cris saindo do banho.

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Os mortos vivos cults de Romero

Durante a visita a um cemitério, dois jovens irmãos são atacados por um estranho. O irmão é morto, mas a jovem consegue fugir no carro, sendo perseguida pelo estranho. Ela consegue se esconder em uma casa nas imediações da estrada. A casa acaba servindo de refúgio para outras pessoas, pois os cadáveres estão se levantando das tumbas naquela noite e perseguindo os vivos em busca de alimento: carne humana.

A noite dos mortos vivos (Night of the living dead, EUA, 1968), de George Romero, se tornou cult e referência, principalmente para a geração de realizadores de filmes de terror dos anos 70/80. A produção barata concentra grande parte da narrativa dentro da casa, em um ambiente claustrofóbico, uma aula do uso da linguagem fílmica em ambiente concentrado. Aos poucos, o espectador percebe que o terror verdadeiro está no comportamento dos enclausurados que voltam-se uns contra os outros em busca da sobrevivência. É uma forte leitura dos dilemas que atingiam a sociedade nos conturbados anos 60, marcada pela violência nas ruas, conflitos racistas, enfim, espécie de guerra civil entre pessoas comuns.

“Este foi o filme de terror que definiu um novo padrão para o gênero na segunda metade do século XX, deslocando as narrativas das antiquadas convenções góticas do passado e trazendo-as para a luz fria e impiedosa do presente. A noite dos mortos vivos, um clássico de George Romero, com seu estilo seco, quase documental, aborda questões que preocupavam os norte-americanos no final dos anos 60: distúrbios civis, racismo, o colapso do núcleo familiar, o medo das massas e o próprio Dia do Juízo final. Tudo é incerto e o bem nem sempre triunfa. Pela primeira vez, um filme de terror refletiu o sentimento de preocupação que permeava a sociedade da época sem oferecer qualquer conforto ou segurança.”

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

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