
Pompeia: sob as nuvens

Pompeia: sob as nuvens (Pompei: sotto le nuvole, Itália, 2025), de Gianfranco Rosi, venceu o Prêmio Especial do Júri do Festival Internacional de Cinema de Veneza. O documentário é um primor estético, fotografado em preto e branco, com cenas urbanas de Nápoles, do Monte Vesúvio, dos destroços de Pompeia.
A narrativa acompanha o cotidiano de moradores da cidade que vivem sob a imponente ameaça do Vesúvio. Um procurador da justiça empreende uma caça aos ladrões de túmulos. Um professor ajuda jovens em suas lições de casa. Dois arqueólogos catalogam objetos milenares achados nas escavações. Dois marinheiros, ancorados no porto, esperam o desembarque de milhões de toneladas de grãos para voltarem para Odessa, na Ucrânia, outra cidade sob ameaça constante. Na central telefônica, bombeiros atendem chamadas que vão desde o desespero diante de um tremor de terra, uma mulher que está sendo agredida pelo marido, até um senhor que liga rotineiramente para saber as horas.
O diretor Gianfranco Rosi trabalha com a câmera como observadora, acompanhando as pessoas neste cotidiano ameaçador, sem interferir com perguntas ou entrevistas. Em um determinado momento, o procurador, visitando um imenso salão cujos afrescos e ornamentos foram roubados, desabafa: “Imagine a beleza do lugar. Repleto de cor, equivalente às vilas mais famosas de Pompeia. Imagine essas paredes com afrescos, cheias de cores, figuras, que resistiram por 2.000 anos, sobrevivendo à erupção do Vesúvio, a inúmeros terremotos, à passagem do tempo. E bastou que algumas pessoas sem escrúpulos e sem respeito pela história viessem aqui e levassem tudo. E, ao fazer isso, apagaram nossa memória para sempre.”
O último azul

Em Divino amor (2019) o diretor Gabriel Mascaro criou um Brasil futurista, dominado por seitas religiosas. Uma delas, a Divino Amor incentiva a troca de casais que se tornam orgias sexuais consentidas. O último azul (Brasil, 2025) segue a linha ficcional distópica: o governo criou colônias para abrigar os idosos acima de 75 anos que são obrigados a se separar de seus parentes e partir para a clausura.
Tereza, uma mulher trabalhadora, atinge a idade mas se recusa a seguir para a Colônia. Ela começa uma jornada de fuga com um propósito: realizar seu último desejo, voar de avião. No caminho, Tereza se relaciona com Cadu (Rodrigo Santoro), um solitário e desiludido barqueiro; Ludemir (Adanilo), dono de um ultraleve defeituoso e a espanhola Roberta (Miriam Socarras), idosa, dona de um barco, que comprou sua liberdade e não precisa morar na Colônia.
A viagem de Tereza é um mergulho no norte do Brasil, com seus rios caudalosos e o azul infinito dos céus. Misticismo – o caracal Baba Azul que destila um líquido azul alucinógeno nos olhos das pessoas e permite vislumbrar o futuro também é marca da narrativa. Atenção para o enigmático cassino Peixe Dourado, ondas apostas milionárias são feitas em peixes que duelam até a morte.
Quartos vazios

“Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu” (Chico Buarque) é um dos versos mais dolorosos da música brasileira, principalmente na voz de Zizi Possi. Quartos vazios (All the empty rooms, EUA, 2025), de Joshua Seftel é a representação real deste sofrimento.
O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp registram imagens e depoimentos nas casas cujos pais perderam filhos – crianças e adolescentes, em tiroteios nas escolas. O foco das câmeras são os quartos que permanecem intactos e/ou intocáveis das vítimas, um deles até com a roupa suja da criança para que os pais possam preservar o cheiro do filho.
Durante muitos anos, Seteve Hartman cobriu os atentados como repórter nas escolas. Seu principal objetivo era levar alento aos familiares e demais estudantes, tentando estimular as pessoas a seguirem em frente. “Por anos, eu escrevia matérias no fim de cada semana de tiroteio escolar. Às vezes, era sobre um herói, sobre o país se unindo. O que quer que fosse, elas procuravam alguma mensagem positiva. ‘Ela estava em uma reunião, ouviu tiros e correu para ajudar. Fazendo dela uma heroína para muitos de nós.’ Eu já tinha feito tantos destes relatos, que parecia que eu estava me repetindo. Aliás, eu usava as mesmas frases nas reportagens. E percebi que os americanos estavam superando cada tiroteio escolar cada vez mais rápido. Pensei: Preciso fazer algo diferente.”
A frustração do jornalista com seu próprio trabalho foi a base para o filme que ganhou o Oscar de Melhor Documentário em Curta-metragem (2026). E uma de suas reflexões consolidou de vez o projeto: “Sinto que a mídia tem um pouco de culpa por tudo isso.
Alucarda: a filha das trevas

Imagine a cena em um filme de hoje: duas jovens de 15 anos, internas em um convento, estão frente a frente, completamente nuas; lentamente seus rostos se aproximam e elas se beijam, um beijo longo e ardoroso. Alucarda: a filha das trevas (Alucarda: the daughter of darkness, México, 1977), de Juan López Moctezuma, provocou polêmicas e repúdio não só por imagens como esta. Em um bosque, um grupo de homens e mulheres, em uma espécie de ritual satânico, praticam uma orgia. A estética da violência, comum no cinema dos anos 70, está em imagens de corpos mutilados, pessoas sendo queimadas, tentativas de exorcismo.
No início do filme, uma jovem dá à luz uma menina em um ambiente dominado por estátuas malignas. Ela morre e a menina é encaminhada ao convento. Quinze anos depois, Alucarda (Tina Romero) recebe uma nova companheira de quarto, Justine (Susana Kamini). Durante um passeio no bosque, as duas entram no local de nascimento de Alucarda. A partir daí, se tornam cada vez mais agressivas e violentas, demonstrando comportamentos típicos de quem está sob possessão demoníaca.
A estética, influenciada pelo expressionismo, associada a uma narrativa que assume o surrealismo, são os grandes destaques do filme. O diretor Juan López Moctezuma trabalha com cores agressivas, o vermelho se impondo de forma satânica sobre as vestimentas brancas das freiras. A ousadia da obra é expor a repressão e incriminação religiosa das freiras e do padre diante do despertar do desejo das jovens adolescentes – coisas de Satã.




