Bailes de carnaval

Zé de Pio  passou o pequeno pano branco perto do nariz, cheiro de amaciante, ainda o calor do ferro de passar. O amaciante, artigo de luxo na casa beirando a miséria, era reservado para ocasiões marcadas a caneta no calendário: dia do aniversário de um dos seis filhos, quando Donana tirava do armário a roupinha do ano anterior e a levava ao tanque e ao ferro de passar com o carinho de mãe, e nas vésperas dos bailes de carnaval.

Por volta das nove horas da noite, Zé de Pio  começava a perambular pela sala como presidiário em dia da libertação. A cada volta, espreitava Donana a passar as peças brancas: calça e camisa sociais e dois pequenos pedaços de pano.  As roupas vestia solene na frente do espelho, olhar atento para não estragar as dobras do tecido.

Depois, o ritual que repetiria durante quatro noites. Sentado na pequena e corroída mesa de comer, deslizava o primeiro pano branco em cada curva do trompete. Começava pela campana, a mão em gestos circulares até não restar a menor dúvida de partículas de poeira. Seguia por toda a extensão do tubo num vai e vem ritmado, sem sobressaltos. Cada um dos três pistos recebia tratamento igualitário, como se naquele momento Zé de Pio  não quisesse notas diferenciadas, apenas o brilho uniforme.

Por fim, jogava o pano usado de lado e cuidadosamente desdobrava o segundo pano branco. A mão direita em formato de cone recebia o tecido e num gesto ansioso encobria o bocal do trompete, esfregando o pequeno cilindro, às vezes com fúria, às vezes com suavidade, misturando movimentos como em um sopro descontrolado.

Após terminar a operação, colocava o instrumento com cuidado na caixa, se olhava uma última vez no espelho, limpava as gotas de suor que escorriam debaixo dos cabelos pintados de preto, e saía pela porta da casa sem nem mesmo se despedir da mulher. No caminho de apenas quatro quarteirões até o clube, respondia sem olhar as saudações de amigos a erguer copos de cachaça nas portas dos bares. A sensação da bebida estalava no céu da boca, mas Zé de Pio resistia, durante os quatro dias de carnaval resistia e vencia aquelas garrafas que o perseguiam por todos os outros dias de sua vida.

Sempre que saía do bar, pernas em desalinho, batendo o ombro nas paredes das casas, o bêbado ouvia murmúrios de uma ou outra janela “lá vai Zé de Pio, este não tem jeito…”. Mas não em noites de carnaval. Peito esticado, ombros alinhados, pernas firmes, em noites de carnaval ele é José Sandoval Angelini, filho de Pio Angelini.  José Sandoval Angelini, trompetista da Banda da Praça Navona.

Durante quatro noites, ele subiria no modesto palco do clube, trompete nos lábios, olhos fechados, nota a nota destilando as marchinhas de carnaval, o cheiro de suor tomando o lugar da colônia barata, as roupas brancas se encharcando. Até o início das manhãs, José Sandoval Angelini ditava o ritmo do carnaval, recebendo rolos de confete e chuvas de serpentina, partículas de papel que grudavam em seu corpo molhado.

Os jovens pulando no salão pouco se importavam com quem tocava, mal distinguiam o trompetista do tocador de tuba e também pouco se importavam em ouvir, noite após noite, as repetidas e gastas marchinhas de carnaval. Mas nos cantos do salão, sentados à mesa, velhos casais da cidade, embalados pela nostalgia, comentavam quando os olhos paravam no trompetista.

– Nem parece o Zé de Pio.

Sempre aos domingos

Há silêncio dentro do carro. O irmão cochila, rosto encostado no vidro lateral. Nem o fascínio que sente por carros e estradas consegue vencer o cansaço. A irmã dorme desde que o pai engatou a primeira marcha, deitada no banco, a cabeça em meu colo. No banco da frente, a caçula da família se esconde nos seios da mãe, participando inocente da apatia que toma conta de todos naquele final de tarde de verão. A volta para casa transcorre assim, silenciosa.

Naquela manhã, a mãe se levantou antes de todos. Sentada à mesa da sala de jantar, sacola de pães em frente, uma bisnaga de mortadela, ela prepara a comida do dia. A faca parte cada pedaço bem fino, todos da mesma espessura, como uma máquina de padaria. Ela conta os pães, separando três para cada filho. “Os meninos são pequenos, não dão conta de comer isso tudo. E ainda tem o almoço”, diz o pai, saindo do quarto. “Nadar dá fome e pão com salame é gostoso e barato.”, justifica a mãe, enquanto ajeita tudo em uma cesta: panela de arroz, outra com pedaços de frango assado por cima da farofa com linguiça. No isopor, o pai coloca os recipientes de plástico com k-suco, duas garrafas de cerveja, dois litros de água, cobrindo tudo com barras de gelo.

A estrada para Sete Lagoas é movimentada, uma pista para cada lado transforma meros quilômetros em uma jornada longa, retardada por fila de caminhões que exercitam a paciência do pai ao volante. Ele vira à direita, logo após a placa indicativa para Pedro Leopoldo. São aproximadamente cinco quilômetros de estrada de terra, poeira cobrindo as laterais do carro.

O pai passava a semana planejando pequenas viagens de um dia. Chegava em casa e logo após o jantar discutia com a mãe o destino. “Fiquei sabendo de uma cachoeira perto de Vespasiano. É dentro de uma fazenda, o pessoal chama de Bem-te-vi.” “É longe?” “Não.” Na outra semana: “O Milton me falou de um lugar muito bom, Jujulândia, estrada de Pedro Leopoldo, perto, tem três cachoeiras.”

Em uma das entradas de Jujulândia, o carro passa dentro do riacho, as rodas afundam, águas quase cobrindo os pneus. Depois, a estrada estreita, cortando um bosque, árvores dos dois lados, galhos atravessando pelo alto, formando uma alameda coberta. Os carros ficam na sombra das árvores, pouco distantes do rio.

A mãe estende uma grande toalha ao lado do carro, ajeita com carinho os utensílios, tomando cuidado de fechar bem as panelas, protegendo a comida contra as formigas com um pano de prato amarrado em cada uma. Coloca um pequeno colchão ao lado. Ela vai passar grande parte do dia à sombra, tomando conta do bebê, enquanto o pai desbrava com os três outros filhos.

“Cada um pega um tronco destes.”, ordena o pai, com dois juncos nos braços. Gastamos cerca de uma hora procurando mais pedaços pelos arredores, entrando em trilhas, passando dentro d’água com os pequenos troncos acima da cabeça. Ele vai até o carro, volta com alguns pedaços de corda: “Uma jangada, vamos fazer uma jangada.”

O pai não embarca na jangada, deixa a aventura para os filhos. Descemos rio abaixo, a jangada batendo em uma pedra ou outra, aos poucos as cordas afrouxam, sensação de que todos os troncos vão se soltar. Quase no final da corredeira, pulamos e deixamos o que restou da jangada seguir seu curso. Olho para o alto, o pai gesticula alegre.

Agora ele também está silencioso. Olhar fixo na estrada, seguindo lento a fila de carros que se forma na volta para casa. A mãe, solidária no cansaço, vigia com o canto dos olhos, atenta ao marido, pronta para um cutucão caso note um cochilo. O sol, já fraco, rastro amarelado no céu, decreta o final do dia.

Eu tento manter os olhos abertos, mas sinto aos poucos o rosto tombar sobre o peito. Antes de adormecer, penso na semana, o pai e a mãe discutindo um novo destino para o domingo. Sempre aos domingos.

Raios e trovões

A história aconteceu em uma pequena cidade da Zona da Mata, interior de Minas. Minha mãe brincava no chão da cozinha, perto do fogão à lenha, com irmãos. O irmão mais velho, de 20 anos, estava deitado na mesa da cozinha, um pequeno rádio elétrico em seu peito, escutando notícias do Botafogo, time do coração.

Era noite de tempestade, relâmpagos e trovões – desses que despertam todos os medos. De repente, o mais ensurdecedor de todos. Todos na cozinha se levantaram em um salto. Menos o irmão que escutava rádio. Ele estava morto. Um raio atingira as imediações e, por uma dessas fatalidades inacreditáveis, o rádio pousado no peito conduziu a descarga, matando-o. Não me questionem das possibilidades científicas ou probabilidades estatísticas,  aconteceu.

A mãe nunca se recuperou do trauma. Em dias de tempestade, acende uma, dependendo da quantidade de raios e trovões, várias velas para Nossa Senhora. Na infância, me acostumei a vê-la andando pela casa escutando a chuva, mãos segurando o coração a cada trepidar de janelas. Chuva forte, ela apertava os filhos no colo dizendo palavras carinhosas e protetoras  – para ela mesma. Rádio ou qualquer coisa ligada na tomada, nem pensar.

Quando a chuva diminuía, eu dava um jeito de escapulir para a rua, correr para as brincadeiras de chuva. Tico-tico fuzilado, o perdedor ia para o paredão, braços abertos, rosto voltado para o muro, uma bola de meia molhada deixava uma sádica marca nas costas do pobre condenado; ou simplesmente fazer barricada de pedras e paus na correnteza, pular em poças d’água. Quando voltava para casa, a mãe já tinha esgotado as velas.

Adolescente, no tempo das águas, eu e amigos descíamos a pé do Estadual Central – do Santo Antônio ao Centro da Cidade – sem guarda-chuva. Eu deixava a chuva entrar pelas roupas, encharcar corpo e alma, sensação de jovens em bando despreocupados da vida. Chegava em casa, a mãe dizia “menino, tira essa roupa e toma um banho quente”. Eu tomava, esquecido de tudo.

E beijar namorada debaixo da chuva… Hoje, tenho certo receio da chuva, um resfriado, coisa mais séria, sei lá. Prefiro sentar na varanda para ver a chuva, raios e trovões. A cada barulho penso na mãe acendendo velas, as mãos no peito, o coração na infância.

Quinta série

O vento frio de junho achava seu caminho entre os prédios do campus. Motivado pela estranha nostalgia que manhãs de outono provocam, resolvi caminhar pelos bonitos jardins da universidade. Passei pelo complexo da unidade de saúde. Onde agora é a escola de odontologia, havia campo de terra, quadra de futebol de salão e piscina.

O centro esportivo era aberto à comunidade nos finais de semana e nas manhãs de sábado eu acompanhava o pai para assistir aos jogos do time do bairro. Meu pai era o treinador, mas sempre tive a impressão que ele apenas distribuía as camisas. Ele andava de um lado para o outro na lateral do campo durante o jogo, gritando com os jogadores e com o juiz. Nada que se parecesse com instruções ou táticas de jogo. Pensando bem, parecido com os técnicos profissionais de hoje.

Na quinta série, entrei para o colégio da rede católica que naquela época funcionava dentro da universidade. As aulas começavam a uma da tarde. Antes e depois, os meninos jogavam futebol. Às 12h30 em ponto, nos reuníamos na quadra e dividíamos apressados os times. Era apenas meia hora de pelada. Cerca de quarenta minutos depois, ofegantes e suados, entrávamos na sala. As meninas olhavam com repulsa, os professores repetiam sermões sobre bom comportamento, blábláblá sobre a necessidade de aprender a separar as coisas, hora da escola e hora do futebol. Apenas o professor de português nos olhava complacente.

Depois da aula, era a vez do campo de terra. Onze meninos para cada lado, sem disciplina ou posições definidas, todo mundo indo e voltando como futebol polivalente, correndo atrás da bola até escurecer.

Quando eu chegava em casa, encontrava o olhar desolado da mãe no meu uniforme sujo de poeira e terra. Esperava por um sermão, um puxão de orelha, algo assim. Ela apenas pedia que eu tirasse logo a roupa e corria para o tanque. No outro dia, na hora da escola, havia sempre uma bermuda e camiseta limpas passadas em cima da cama. Ela me mandava para a aula com um beijo quente no rosto e mil recomendações para não sujar o uniforme.

Termino meu passeio pela infância nessa manhã de outono no atual prédio da Faculdade de Direito. Aqui ficavam as salas de aula do velho colégio. Foi bem na porta daquela sala, no começo da minha adolescência, que o professor de português me viu sentado na pequena murada branca que separa as salas do pátio, pouco antes da aula começar, o uniforme limpo e bem passado. No terceiro dia em que me viu na mesma posição perguntou:

– Você parou de jogar futebol?

– Não estou com vontade.

Ele olhou furtivamente para o outro lado do pátio e entrou na sala. Eu fiquei ainda alguns minutos. Os olhos fixos na sala em frente, onde as meninas da sexta série conversavam animadamente. Mariana, encostada na parede, de vez em quando olhava para mim, os lábios ensaiando um sorriso.

Duquesa

A casa está em silêncio nesta noite fria de julho. Todos dormem. Ajeito os travesseiros, o edredom espera esparramado no sofá. Perco-me durante alguns segundos no irritante processo de configurar idioma e legenda do DVD. Apago a luz, me acomodo e num breve instante, antes do filme começar, meus olhos procuram o chão da sala, o hábito de ver ali a almofada cor-de-rosa, Duquesa enrodilhada, o focinho escondido entre as patas, as longas orelhas peludas resvalando no chão.

Nem sempre ela foi serena assim. Na juventude raivosa, ela levantava-se rápido e corria da sala até o quintal, deixando no rastro latidos curtos e roucos. Parava, ouvidos atentos, olhos procurando suspeitos. Ao menor sinal, latia para essas ameaças encobertas que alegram a vida do cão doméstico. Atrás da proteção dos muros da casa, latem para o vento.

Duquesa mostrava garras também para os visitantes. Certa feita, se agarrou à barra da calça do entregador de gás. Observava atenta da varanda, sentada no alto da escada, o leiturista da Copasa – olhos sedentos, dentes em prontidão. Pedreiros, pintores, marceneiros, freqüentadores da infinda reforma de minha casa, tomavam sempre o cuidado de saber o paradeiro da cocker antes de entrar. “É pequena mas brava.” – diziam. Até mesmo a diarista de tantos anos olhava ressabiada ao entrar. Duquesa levantava a cabeça discretamente, rosnava por dois ou três segundos e, desapontada por ver gente conhecida, voltava a deitar o focinho entre as patas peludas.

Seu jeito de comer também era ruidoso. Colocava alguns grãos de ração na boca e os espalhava pelo chão. Depois pegava grão a grão e antes de mastigar latia para o alto.

Com o tempo, os latidos diminuíram, a maturidade serenou pouco a pouco a revolta contra o vazio. A diarista entrava, Duquesa levantava discretamente a cabeça, nada de rosnados. Assistia tranqüila o entregador de gás deixar o botijão. Do alto da escada, não levantava mais os olhos para o leiturista da Copasa. Passou a marcar os lugares da casa com sua serenidade avançada.

Durante os almoços em família, ficava enrodilhada na almofada cor-de-rosa no canto. Andava perdida pela casa até se aconchegar na presença de um dos moradores. Se minha filha dormia à tarde, Duquesa deitava aos pés da cama. Se minha esposa passava a tarde trabalhando no jardim, Duquesa deitava na varanda, em vigília adormecida. Perto da cadeira de minha escrivaninha, ela ocupava um pequeno espaço. Só não entrava no quarto do meu filho: arredio a cães, ele a enxotava. A cachorra dava então algumas voltas, chegava o focinho no limite do ambiente proibido, se voltava e deitava na soleira da porta em solene protesto.

A idade a vencia. Não latia mais. Os visitantes a quem tanto amedrontava agora se referiam a um pequeno bicho de pelúcia estendido em algum canto da casa, o focinho entre as patas, a respiração tranqüila, protegida finalmente de todas as ameaças que tanto perseguiu.

Nesta noite fria de inverno, meus olhos procuram em vão a almofada cor-de-rosa no centro da sala antes do filme começar. Penso que não é uma boa noite para filme. Vou ao computador me despedir de Duquesa contando sua breve história. História que começou quatorze anos atrás, quando minha filha chegou em casa com um filhote parecido com um pequeno bicho de pelúcia, remexendo em suas mãos, tentando se soltar para correr pela casa com seus latidos curtos e roucos.

Elaine

Elaine. Corpo miúdo, ainda adolescente saída da infância, pele clara, olhos castanhos em tom quase laranja, nariz afinado, seios despontando sob a camiseta de malha branca, cabelos negros cortados rente à orelha, deixando a descoberto o longo pescoço. Foi como a vi naquele domingo de manhã.

Dezenas de jovens se aglomeravam em pequenos bandos nos arredores do Cemitério da Saudade. Estudantes organizados para uma caminhada pela Serra do Curral. Alguns olhavam a montanha e sentavam-se desolados no meio-fio, imaginando a caminhada. Outros exibiam a disposição em roupas esportivas, marcas famosas estampadas em camisetas e bonés como a anunciar a supremacia da juventude que dava os primeiros passos rumo ao consumo desenfreado que acabou tomando conta das gerações seguintes.

Elaine chegou, cumprimentou adoradores e desafetos conquistados naqueles anos de colégio. Os adoradores, encantados por beijos no rosto e olhares prometidos. Os desafetos, se lembrando das recusas seguidas de cochichos nos ouvidos das amigas, sabe-se lá que desprezos revelando. Eu estava entre os adoradores, olhar se cruzando às vezes.

Foram perto de sete horas de caminhada, atravessando a Serra do Curral até a cidade de Nova Lima. Partimos em fila indiana do cemitério. “É necessário organização, solidariedade, disciplina e nada de aventuras arriscadas como sair da trilha, se embrenhar em matas, rios, se descuidar do companheiro da frente”, disse o professor, seguindo como guia, passo ritmado de quem conhece o caminho e, a julgar pelos longos cabelos amarrados em rabo de cavalo e pela barba chegando quase à barriga, também os descaminhos.

Chegamos ao primeiro topo. À frente, a vista revelava o vazio resultante da mineração: montanhas cortadas até a raiz, substituídas por um imenso vale de poeira e lama se misturando a lagos formados pelo lençol freático. A montanha terminada em dejetos. Descemos. À medida que cruzamos o vale, passamos por gigantescas máquinas cobertas de pó do minério. Escavadeiras, caminhões carregadores com pneus maiores do que quatro de nós empinados. Máquinas assustadoras a demonstrar o terror de que são capazes.

Elaine caminhava a meu lado, feição às vezes séria, outras vezes sorria a um ou outro gracejo dos amigos. Encobríamos o sentimento de destruição aparente com o humor da juventude reunida, certa de poder vencer até mesmo a tristeza do mundo acabado assim, tão à vista.

Após atravessar o vale deserto, começamos a subir a segunda montanha. A picada agora era mais íngreme, acidentada, trilha mal formada emoldurada por galhos, espinhos, em determinados pontos era preciso esperar cada um passar devagar, os meninos segurando galhos para segurança das meninas. Cheguei extenuado ao topo da montanha. Olhei para trás. O vale de poeira ganhava a dimensão alcançada pelo olhar. As máquinas, agora diminutas, pareciam insignificantes como miniaturas em uma maquete. À minha frente, a descida anunciava paisagem contrastante,  coberta de mata, mal se via a trilha, mal podia se encontrar o caminho. Os primeiros da fila já alcançavam o vale embaixo.

Elaine deitou a cabeça em meu ombro, denúncia de cansaço e desalento. Descemos pela encosta. Molhei a boca com a água racionada do cantil, ofereci o resto a Elaine. Eu já pensava na possibilidade em um final seco de jornada, mas o guia conhecia aquelas trilhas. Saindo do meio da mata densa, nos deparamos com uma clareira cortada por um riacho de águas claras correndo entre pedras lisas.

Vários jovens já tomavam banho sem nem mesmo tirar os jeans, muitos deitados nas pedras, deixando a água deslizar pelo corpo. Elaine sentou-se na margem e tirou o tênis. Apertou com as mãos seus pequenos dedos doloridos, massageou o dorso e a sola dos pés, as mãos trabalhando ao mesmo tempo. Dobrou as pernas da calça até abaixo dos joelhos, colocou os pés na superfície rasa do riacho. Debruçou-se, a cabeça deitada sobre as pernas, as mãos brincando de represa. Meus olhos se prenderam naqueles pequenos pés, na insensata beleza da mulher descalça,.

Andamos por cerca de três horas. O caminho agora mais fácil, pequenas subidas e descidas até chegar a uma antiga estrada de terra. Entramos em Nova Lima por volta de duas horas da tarde. Elaine já caminhava cansada, as faces vermelhas de sol, procurando as sombras de marquises ou de muros altos. Os moradores da cidade aproveitavam o domingo. Gente olhava a rua da janela, homens nas calçadas dos bares, crianças corriam, uma turma jogava pelada de rua, velhas senhoras de sombrinha paravam para olhar a multidão de jovens sujos, cansados e sedentos descendo da montanha.

Paramos em uma praça da cidade. Aos poucos, os estudantes se dispersaram. Muitos já tinham encontro marcado com os pais para voltar de carro. Eu, Elaine e um grupo de amigos, planejamos voltar de ônibus, no final da tarde. Pensamos em andar pela cidade, mas o cansaço acabou nos deixando espalhados pelos bancos e gramas da praça. Sentei-me ao lado de Elaine, costas apoiadas na árvore. Não tínhamos mais o que conversar, se criou entre nós aquele sentimento de pessoas que passam o dia inteiro juntos e de repente se encontram sem mais nada para fazer. Ela deitou-se na grama, usando meu colo como travesseiro. Fechou os olhos e dormiu por quase uma hora. Fiquei olhando seu rosto, as mãos acariciando seus cabelos, ousando um toque suave no pescoço para vê-la estremecer no sono. Às vezes ela abria os olhos, sorria. Em todos esses momentos, adiei o gesto de levantar Elaine, apertá-la em meu peito, beijar seu rosto, encontrar seus lábios.

Deixei o tempo passar. E ainda hoje, tantos anos depois, guardo a sensação de impotência daquele dia diante das máquinas que avançam destruidoras criando o deserto. Diante de Elaine.

Janelas distantes

Eu tenho que deixar o hotel depois das 12 horas. Meu voo só sai às quatro da tarde. Tenho tempo ainda para a última visita: a Torre de TV. O folheto anuncia, “Tem 224 metros e pesa 378 toneladas. Está assentada numa base em forma de pirâmide deitada. Estão representados ali o triângulo das comunicações e o tríplice do poder.” Tudo em Brasília recende a poder. Penso, folheto nas mãos, subindo o elevador abarrotado de turistas. Nesse momento, só me interessa a vista lá de cima.

Desde criança, tenho fascínio por mirantes. Quando chegava à terra dos meus pais, pequena cidade do interior, nas férias de dezembro e janeiro, corria para o quintal da casa da tia, de onde avistava o Cruzeiro, imponente no alto do morro. No dia seguinte, eu estava subindo as escadas de terra, ofegante, até me postar ao pé da cruz e avistar a cidade. Como os primos não tinham a menor predileção por estas escaladas matutinas – a bem da verdade, monótonas – ia sozinho. Demorava-me olhando a paisagem seca e ensolarada, talvez a mesma de todas essas cidades do interior que morrem aos poucos. Com o tempo, sobrevivem apenas nas lembranças dos que vão embora para nunca mais. Minhas lembranças têm nome: Ana Maria.

Lá do alto, eu sempre procurava a casa onde ela morava, um sobrado na praça, em frente à igreja matriz da cidade. Eu não tinha binóculo nem luneta, mas a imaginava abrindo a janela para deixar o sol da manhã entrar. Via os olhos ainda adormecidos de Ana Maria ofuscados pela luz da manhã, as faces coradas pelo calor das cobertas, as delicadas mãos se protegendo do agressivo ataque de fechaduras corroídas pelo tempo. Ela ficava alguns segundos na janela, o suficiente para deixar o vento afugentar o calor das faces, dar a volta em seus cabelos até o arrepio da nuca e levantar levemente a única peça de roupa que a cobria – a camisola branca de meus sonhos.

Do alto do Cruzeiro, aos pés de Deus, minha imaginação ganhava força e ritmo, ao sabor da estonteante passagem entre a infância e a adolescência. Um ritmo alucinado que nos joga despreparados no mundo separado pelo visível e o invisível. Apenas um sufixo entre os indescritíveis tormentos da puberdade.

Certa manhã, no calor do verão dentro e fora de mim, Ana Maria subiu comigo ao Cruzeiro. Eu a amparava, oferecia a mão nos degraus mais perigosos, esperava com a paciência dos enamorados que ela recuperasse o fôlego, que a respiração em seus seios voltasse ao normal. Sentada ao meu lado no alto do morro, o queixo apoiado nos joelhos, ela disse, “olha a minha casa”. Apontou com o dedo um ponto perto da igreja. “Se você tivesse binóculo, podia ver o meu quarto, me ver abrindo as janelas de manhã”.

Fiquei um tempo parado no alto da Torre de TV, contemplando a imensidão vazia de Brasília, entrecortada pelos frios monumentos de concreto. Ao meu lado, uma jovem ajeita a pequena luneta. Talvez procure bem ao fundo, além do Lago Paranoá, alguma janela se abrindo para o sol da manhã.

A menina dos olhos distantes

O vento entrou pela janela aliviando por segundos a temperatura deste setembro quente como há muito não se vê. A sensação térmica parece grudar o ar da noite em minha pele para sempre, como manchas de sol que não se vão. Há um segundo motivo que me prende agora em frente à janela, tentando sentir uma brisa sequer. Ontem à noite, voltando da farmácia do bairro, a lua cheia surpreendeu, despontando acima dos prédios. Imaginei esta vista da sala de jantar de meu apartamento, onde tenho o hábito de me sentar para escrever ou navegar pela internet.

“Tem certeza que teremos lua cheia novamente? Este vento está congelando.”, disse Anne.

Há quase uma hora estávamos sentados em frente ao mar, um pequeno grupo de adolescentes espalhados pela areia, olhos presos na escuridão e na espuma branca das ondas. Eu tinha visto a lua nascer atrás das dunas na noite anterior e chamei o pequeno grupo de amigos para assistir ao espetáculo na praia. Caminhamos cerca de vinte minutos e, quase aos pés das ondas, esperamos. Ficamos cerca de uma hora ali, o vento frio de julho cortando, levantando com agressividade os cabelos de Anne. Ela debruçou o corpo sobre os joelhos, tentando frear o movimento do vento. Seus olhos parados na areia, o dedo riscando imagens sem sentido.

Foi nesta mesma posição que a vi pela primeira vez, sentada à minha frente na praia quase deserta de Tucuns, três dias antes, naquela manhã de 1981. Um cachorro pequinês correu em direção a ela. Anne se levantou, jogou os longos cabelos pretos para trás, chegavam quase à cintura de um corpo magro, sem contornos definidos. Era ainda uma menina em formação, a ingenuidade transparecendo no seu jeito de correr em direção à água, nos seus olhos sempre distantes.

Não lembro mais se paixões adolescentes nascem assim, de imediato. Podem ser questões científicas de hormônios, mas prefiro pensar em manhãs à beira-mar, em uma linda menina brincando com seu cachorro, na lua surgindo vermelha, o rastro iluminando o mar, dedos se entrelaçando, roçar de braços, a cabeça caída em meu ombro à medida que a lua deixava às águas e ocupava seu espaço imponente.

Escrevo hoje, contemplando outra lua cheia, pensando em Anne. A menina que brincava com dedos na areia e trocou seu primeiro beijo ao luar, como deveriam ser todos os primeiros beijos.

Tiros na noite

A mãe deixou a panela cair. O coração disparou, barulho de metal repicando no piso da cozinha sempre a irritava. Conseguiu prender a panela com o pé, parando aquele som que entrava fundo em seus ouvidos. Respirou fundo, abaixou-se lentamente, uma das mãos nas costas, pouco acima das nádegas, a outra recolhendo o utensílio barulhento. Jogou a panela na pia. Meu Deus! mais barulho. Viúva, morava sozinha, na sua rotina, uma cachorra poodle, conversa matinal com as vizinhas, caminhada pelo quarteirão, cochilo depois do almoço, a novela das seis… das sete. Até que a filha e a neta vieram morar junto. Ih, ela acordou! Foi ao quarto da neta, encostou o ouvido na porta. Abriu devagar, descalçou os chinelos, andou lentamente até perto da cama. Dormia. Juro que ouvi um choro. Esses barulhos, sei não, essas coisas da noite. Denise na rua até essa hora. Fechou a porta do quarto, caminhou até a sala. Conferiu se as janelas estavam fechadas, a porta. Foi quando a mãe ouviu o tiro.

Roberto, o ex-marido, contou à polícia que naquela noite ele e Denise tinham finalmente feito as pazes. Comeram pizza se lembrando de velhos tempos. Ele não bebera. Nunca bebo quando estou dirigindo. Na saída, chamei Denise para um motel. É tarde, me leve para casa. A nossa? Não. A casa da mamãe, Dani pode acordar, a mãe não tem mais idade para levantar de noite. No carro, ela deitou o rosto em meu ombro, apertou a minha mão. Foi o que disse.

Paramos no portão da casa da sogra. Uma hora da manhã, a rua deserta. A luz do poste estava queimada. Denise me abraçou, beijou minha boca, assim, beijo mesmo, com saudade, com… Isso entra no depoimento? Ouvi uma batida no vidro do carro, na janela do lado de Denise. Um rapaz com revólver. Apontou a arma. Ele bateu de novo, pensei que fosse quebrar o vidro. Fez sinal para abaixar a janela. Obedeci,  você sabe, a arma na nossa cara. Ele me mandou descer. Eu não sabia o que fazer, fiz gesto de abrir a porta, Denise gritou assustada, fez um movimento descontrolado em minha direção. Foi quando escutei o tiro.

Denise casara-se cedo, aos dezenove. Levava vida de dona-de-casa: filha, casa, marido bem de vida. Com o tempo, perdeu o encanto, o desejo. Quando soube das noitadas do marido, não se importou. Deixou o tempo passar, a filha crescendo. Um dia, como acontece com poucas mulheres que vivem para o lar, acordou. Mudou-se para a casa da mãe, arrumou emprego. Entusiasmou-se. Roberto não. Passou a persegui-la, exigindo a volta. Ele  freqüentava a casa para ver a filha. Ficava até mais tarde, a mãe ressabiada, esse volta não volta, minha liberdade foi embora, nessa idade tomando conta de menina.

O advogado entrou com os papéis. Agora não tem volta. Roberto: tem. Ou você não fica com nada, não põe a mão em um centavo meu. E tem mais, se te pego com outro, é tiro. Denise não levou a sério, conversa fiada, pensou.

Na noite em que voltavam para casa – ideia dele sair para conversar, só comer uma pizza e conversar – Roberto tinha semblante calmo, feliz. Na saída da pizzaria, tentou beijá-la. Ela recusou. Vamos para um motel. Ela recusou. No caminho de casa, pensava na filha, fazia planos, os olhos vendo as ruas, as luzes da cidade. Na porta da casa da mãe, ele parou o carro debaixo do poste. Denise observou a luz queimada, a rua na penumbra. Sem lua, sem luz, o farol do carro apagado.

Assustou-se com barulho no vidro. Um rapaz com arma na mão. Antes dele bater de novo, o vidro desceu lentamente. Ela olhou assustada para Roberto. Ele já estava com a perna para fora do carro. Roberto afastou-se lentamente do carro. Foi quando Denise escutou o tiro.

Velhos discos de vinil

Ângela levou o copo de vinho aos lábios sem tirar os olhos dos meus. Três horas depois, o corpo dela repousava no meu. Naquela tarde, uma chuva serena esfriara de vez o tempo em Maringá. A neblina encobrira a serra, da janela da casa se viam nuvens baixas passando como fumaça entre as araucárias da serra. Na pousada em frente, um ou outro casal aparecia na varanda por alguns minutos, como a maldizer o tempo que acaba com finais de semana românticos, casos eventuais, passeios aventureiros ou coisa parecida que a paisagem inspira. Aventuras na serra e amores selvagens não combinam com este frio impiedoso.

Há mais de dez minutos eu estava na janela, pensando no telefonema de poucos minutos atrás.

– Meu amor, não posso subir hoje. Dois médicos adoeceram ao mesmo tempo e me escalaram de última hora para o plantão desta noite. Você sabe… início de feriado, estes idiotas morrendo sem parar nas estradas…

Há cerca de dois meses, Cláudia e eu alugamos uma casa na serra para finais de semana. Todos os amigos alertaram da praticidade de ficar em pousadas, ao invés de pagar aluguel, além dos consertos que todas as casas necessitam.

– Vamos ter trabalho, tem certeza que a gente tem disposição para pegar a Dutra todo final de semana? –  Cláudia respondeu que seria como uma aventura, um desafio. Só não teve coragem de completar que talvez fosse a última tentativa para aquele casamento que insistia em sobreviver sem romantismo, o sexo se limitando aos domingos de manhã.

Ela prometera descansar um pouco após o plantão e subir logo depois do almoço.

– Juízo, heim!!! – alerta desnecessário para um homem que não entendia mais o significado de determinados olhares que trocava com uma ou outra mulher.

À tardinha, tomei a decisão sem sentido, com aquela chuva fina, de caminhar pelas ruas da vila. Desisti logo que desci do carro e o vento jogou a garoa fria no meu rosto. Estava em frente a um bar que sempre me atraíra. O proprietário decorara a fachada com discos de vinil, dentro, só tocavam velhos LPs, aquele som chiado tomando conta do ambiente.

Pedi um vinho. O bar estava vazio, com apenas três ou quatro casais mais velhos. Ouvi uma risada alta às minhas costas. Os casais à minha frente olharam em direção à mesa, reprovadores, revelando a imperdoável interrupção do ensimesmar. Despejei um pouco mais de vinho no copo, a vontade incontrolável de me virar e também acusar, dizer do absurdo de naquela noite fria, solitária e sem esperança, alguém rir daquela maneira.

Na segunda risada, ainda mais alta, me voltei em um impulso para a mesa imediatamente atrás da minha, onde três mulheres conversavam. Ângela sentiu de imediato a ferocidade do meu gesto e abaixou os olhos. Por poucos segundos. Passou os dedos pela borda do copo, os lábios se contraíram em um leve sorriso e voltou a levantar os olhos em direção aos meus. Ficamos assim um tempo. Ela se levantou, caminhou até a minha mesa e se sentou à minha frente, sem sequer pedir licença. Um gesto impulsivo, instinto natural de quem sabe que estes olhares não podem se transformar, na manhã seguinte, no arrependimento do que não aconteceu.

Ângela, de rosto anguloso, emoldurado por cabelos castanhos levemente cacheados que caíam até os ombros. Seus olhos amendoados deixavam a sensação de chuva mais evidente, seus dedos finos e longos envolviam o copo de vinho com delicadeza, com a suavidade de alguém que trabalha com carinho nas mãos, talvez uma paisagista, arquiteta, quem sabe artista plástica. Conversamos pouco, Ângela fez a proposta sem rodeios.

Não sei. Hoje, tantos anos depois, envelhecendo ao lado de Cláudia, minhas lembranças daquela noite são as lembranças do olhar. Ângela debruçada em meu peito após o amor, lembrança indelével, como as araucárias embranquecidas pelo inverno rigoroso da serra.