• Na penumbra da sala

    Imagem com IA

    August Brill, 72 anos, é um famoso crítico literário norte-americano. Após sofrer um acidente de carro, vai morar com a filha divorciada. Katya, sua jovem neta, também vai morar com eles após a morte do namorado na guerra do Iraque. Abalada, ela abandona o curso de cinema e se retrai em casa em longas sessões de filmes ao lado do avô. Assistem clássicos um atrás do outro e depois discutem cenas, sequências, sensações provocadas pelos filmes.

    A trama de Homem no escuro, de Paul Auster, não se limita a essa resenha. Há uma história dentro da história sobre uma nova guerra de secessão nos Estados Unidos; as lembranças de August Brill ao lado da esposa Sonia tomam boa parte do livro. Mas são as poucas análises dos filmes compartilhados por avô e neta que tornam esse livro fascinante. A partir de obras como Ladrões de bicicleta, eles elaboram uma bela teoria sobre “objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas.”

    Pensando sobre isso, em uma noite de insônia, August Brill faz uma análise emocionante sobre o filme Era Uma Vez em Tóquio (1953) do cineasta japonês Yasujiro Ozu. No filme, a nora vai visitar o sogro após a morte da esposa dele. Ela recebe do sogro um relógio de presente. Ela agradece mas desaba. A seguir, a análise de August Brill/Paul Auster sobre as emoções humanas a partir deste relógio.

    “Enquanto observa Noriko chorar, ele então faz uma declaração simples, pronuncia suas palavras de um modo tão direto, tão desprovido de sentimentalismo, que faz a moça vir abaixo, num novo ataque de soluços – soluços longos e lancinantes, um lamento de angústia tão fundo e doloroso que é como se aquilo que ela tem de mais profundo em sua pessoa se rompesse e abrisse.”

    “Quero que você seja feliz, diz o velho.”

    “Uma frase curta, e Noriko se desmancha, esmagada pelo peso da sua própria vida. Eu quero ser feliz. Enquanto ela continua chorando, o sogro faz mais um comentário, antes de a cena terminar. É estranho, diz ele, quase sem acreditar. Nós tivemos filhos, mas foi você quem fez mais por nós.”

    (…)

    “Alguns momentos depois disso, estamos dentro de um dos vagões. Noriko está sentada sozinha, olha para o vazio com um ar inexpressivo, sua mente longe dali. Passam-se vários momentos, e então ela ergue o relógio da sogra, que está no seu colo. Abre a tampa de metal, e subitamente ouvimos o estalo do ponteiro de segundos que avança no mostrador. Noriko continua a examinar o relógio, a expressão em seu rosto ao mesmo tempo triste e contemplativa, e, quando olhamos para ela com o relógio na palma da mão, sentimos que estamos olhando o tempo em si mesmo, o tempo que avança ligeiro, enquanto o trem também avança ligeiro e nos empurra para a frente, para dentro da vida, e de mais vida, mas também para o tempo passado, o passado da sogra morta, o passado de Noriko, o passado que vive no presente, o passado que levamos conosco para o futuro.”

    “O apito estridente de um trem ressoa em nossos ouvidos, um barulho cruel e pungente. A vida é frustrante, não é?”

    “Eu quero ser feliz.”

    “E então a cena termina abruptamente.”

  • Poemas adolescentes

    Ilustração com IA

    por Robertson Mayrink

    A freira debruçou-se sobre os meus ombros, olhou as letras no papel e me ordenou que repetisse a lição: a s d f g, a s d f g. Na nossa simplificação, não sabíamos nem mesmo o nome correto da escola. A chamávamos de Cursinho das Freiras. Ficava na Rua das Freiras, fácil de falar como a Rua de Baixo e a Rua de Cima.

    Na década de 70, o trágico desmoronamento da construção da Gameleira soterrou e matou diversos operários na hora do almoço. A construção foi abandonada, ficaram as ruínas e um gigantesco terreno vazio, plano – onde hoje funciona o Expominas. Improvisamos ali um campo de futebol. Terra batida, pedras no lugar das traves, linhas imaginárias marcando as saídas do campo. Nas tardes de sábado, nossa turma se reunia depois do almoço, uns convidando os outros: “Vamos jogar bola no cemitério.” Tudo muito simples para mentes ainda desprovidas de dor e sofrimento.

    Na adolescência, já sabendo da necessidade de trabalhar cedo, me matriculei no curso de datilografia das freiras. Passava uma hora por dia dedilhando as teclas, dedo a dedo, letra a letra, até decorar a sequência correta: a s d f g, ç l k j h. Por conta dessa persistência e do fascínio de ver as palavras se formando a tinta, virei exímio datilógrafo. Quando comecei a trabalhar de office-boy, contei nota a nota o primeiro salário, descontei o dinheiro da condução e gastei todo o resto na compra de uma máquina de escrever portátil, Olivetti Lettera 35, de metal, cinza, fita metade preta metade vermelha para os grifos.

    Abandonei o cursinho e continuei em casa o treinamento diário. Saía do trabalho, ia para o colégio noturno e depois das aulas gastava meia hora na mesa da sala de jantar, batendo a máquina, como a mãe costumava dizer. Às vezes, o barulho acordava a mãe, ela levantava-se, me perguntava se eu tinha jantado e emendava, “O que você está fazendo?” “Escrevendo”, era a invariável resposta. Escrevendo trabalhos de escola, fui dos primeiros da classe a entregar trabalhos datilografados, impecavelmente corrigidos, escrevendo arremedos de contos, crônicas, qualquer coisa que se assemelhasse a um texto. Escrevendo poemas e mais poemas que me ajudaram na difícil arte de conquistar.

    Era a época das discotecas, das festinhas de bairro, cada fim de semana em uma casa diferente. Meninos e meninas chegavam com LPs, compactos, cassetes, o som 3 em 1 no volume máximo. Todo mundo dançando feito John Travolta no filme Os embalos de sábado à noite. Eu não dançava. Ficava encostado na parede da sala. Meus olhos sempre encontravam os olhos de uma menina, mas até me decidir ela tinha sumido, sozinha ou com alguém mais despojado. Restava a máquina de escrever à noite, a mãe assustada pela hora daquele negócio batendo. 

    Quando o tempo dava uma oportunidade ao flerte, bem lento no meu caso, ou seja, quando a menina se permitia a olhares furtivos durante dias – em alguns casos meses – eu descobri um jeito. Entregava um pedaço de papel dobrado dentro de um livro, no caderno da escola, ou pedia à minha irmã para se fazer de correio. Depois eu telefonava, convidando para um domingo à tarde no cinema. Sentados, nossos braços roçavam, dedos acariciavam o dorso da mão até se entrelaçar. O filme ficava esquecido na tela a cada beijo. 

    Nessas noites a mãe ouvia a máquina de escrever batendo mais forte.

  • Filmar: um ato de resistência

    por Robertson Mayrink

    Durante a ocupação da França por tropas nazistas, o tenente alemão Werner von Ebrennac (Howard Vernon) é alojado num pequeno vilarejo, na casa de um senhor francês (Jean-Marie Robain) que vive com sua sobrinha (Nicole Stéphane). O silêncio do mar (Le silence de la mer, França, 1949) é considerado precursor da nouvelle vague e marca a estreia de Jean-Pierre Melville na direção. 

    O romance O silêncio do mar foi escrito clandestinamente por Jean Bruller que participava da resistência francesa durante a ocupação nazista. Foi publicado em 1942, assinado com o pseudônimo Vercors. Jean-Pierre Melville leu a publicação clandestina em 1943, quando estava em Londres, e decidiu que a adaptação do livro seria seu primeiro longa-metragem. 

    Melville tentou adquirir os direitos autorais, mas Vercors recusou, dizendo que “não foi escrito para se tornar um filme. Foi um ato de resistência, parte de nossa luta.”  Melville fez uma proposta arriscada, disse ao autor que não queria os direitos naquele momento, mas faria o filme mesmo assim, com dinheiro próprio. Quando o filme estivesse pronto, Melville o mostraria a Vercors e a um comitê de 24 soldados da resistência que o próprio Vercors poderia escolher. “Se apenas um dos 24 não aprovar o filme queimarei o negativo na sua frente.”

    Dessa forma, Melville agiu da mesma forma que Vercors: filmou clandestinamente, adotando também conceitos da resistência, sem trabalhar com membros do sindicato (como era obrigatório na França naquele momento), nem com produtores e distribuidores. Essa rebeldia o coloca como pioneira da nouvelle-vague, segundo historiadores. “No final da década de 1950, quando Truffaut, Godard e Chabrol tentaram fazer filmes simples e diretos, eles tinham um antecessor e um filme como modelo, O silêncio do mar, para mostrar-lhes como poderia ser feito.” – Volker Schlondorff, assistente de Melville.

    Durante as filmagens a equipe  contou com apenas seis pessoas. A narrativa se passa quase inteiramente em uma casa no interior da França, com algumas cenas em Paris (o diretor utilizou imagens de arquivo para as externas) 

    O tenente passa o dia fora, em serviço, volta para casa à noite e tenta inutilmente se aproximar, mas o senhor e a sobrinha mantêm distância. Apenas o tenente fala, o senhor ouve, lendo, fumando seu cachimbo. A sobrinha tece em completo silêncio.  Em uma cena, o senhor da casa, narrador do filme diz: “Num acordo tácito, eu e minha sobrinha decidimos não mudar nada em nossas vidas, nem um pequeno detalhe, como se o oficial não existisse. Como se fosse um fantasma. Por muito tempo, cerca de um mês, a mesma cena se repetia dia após dia. O oficial batia na porta e entrava. Dizia algumas palavras sobre o tempo, a temperatura ou outros temas igualmente banais cuja conexão era o fato de não precisarem de resposta.” 

    Aos poucos, o tenente expressa seu fascínio pela cultura francesa, pelos moradores, pelos costumes, mas continua, diariamente, a praticar os atos para o qual foi designado naquele país, ou seja, a guerra. É um filme sobre o isolamento em meio ao conflito, sobre a frieza e o temor que permeiam as relações entre os inimigos. Sobretudo, é um filme sobre o humanismo rodeado pelo horror.

    Depois de cumprir suas funções, o tenente encontra à noite, naquele lar, uma paz e tranquilidade que nunca sentiu, desenvolvendo afeto e até mesmo amor pela jovem sobrinha. Esse amor aparenta ser recíproco, mas a jovem continua com seu voto de silêncio, não respondendo nem mesmo quando é pedida em casamento, que se realizaria após a guerra. 

    Jean-Pierre Melville gravou o filme em 27 dias, espaçados durante vários meses. O diretor juntava recursos suficientes para um dia de gravação e ao final do dia todos voltavam para Paris espremidos em uma van. Não havia material de iluminação, assim o diretor de fotografia, Henri Decae, desenvolveu um estilo próprio de utilizar a luz natural. As filmagens se estenderam por um ano e meio, contando com sobras de películas de outros filmes.

    Após a edição do filme, feita praticamente à mão em um quarto de hotel, Melville reuniu o júri, como prometido a Vercors. Participaram da sessão fechada o escritor, 24 soldados da resistência e, rompendo o acordo, vários convidados, incluindo celebridades de Paris e membros da imprensa. 

    “Vercors ficou furioso. Foi uma forma de chantagem sutil e bem típica de Melville para perguntar ao júri: ‘vocês me fariam destruir um filme no qual passei 18 meses trabalhando e que fiz estritamente por paixão?’ É uma aposta muito boa, quase certa, de que ninguém teria coragem de obrigá-lo a queimar o negativo. Foi assim que O silêncio do mar recebeu a autorização de Vercors, depois de feito.” – Denitza Bantcheva 

    O filme, feito nestas condições de resistência e baixo orçamento, foi um sucesso de bilheteria. O estilo de Jean-Pierre Melville se desenvolveu a partir de conceitos e técnicas aplicados em O silêncio do mar, como os planos longos, ângulos baixos (influenciados por Cidadão Kane, de Orson Welles) e narrativas cujo silêncio é determinante. 

    Referência: Documentário incluído no DVD Nouvelle Vague 2. Versátil. 

  • Outro rosto, outra vida

    O segundo rosto (Seconds, EUA, 1966), de John Frankenheimer.

    Arthur Hamilton é um pacato bancário que aspira ser presidente do banco. Leva a rotineira vida de um homem casado, com uma filha que já saiu de casa. Um dia, recebe a ligação de um amigo que morrera há alguns anos. Sem acreditar, se recusa a conversar, mas as ligações se sucedem, e a voz incute uma ideia em sua cabeça: e se você pudesse renascer como outro homem. Arthur não resiste e visita o local sugerido por seu amigo. 

    “Arthur Hamilton (John Randolph) ganha a chance de deixar seu isolamento emocional de classe média e partir para uma nova vida desde que passe por uma cirurgia radical e esqueça seu passado. Esse milagre lhe é oferecido por uma organização sinistra conhecida simplesmente como ‘a companhia’, composta por atores que haviam caído na lista negra do macarthismo e estão ali para roubar o filme, com Will Greer no papel do velho com todas as respostas e destacando Jeff Corey, um vendedor do inferno que explica com habilidade como Hamilton será convertido no talentoso pintor, o bonitão Tony Wilson (Rock Hudson). Logo que a transformação é efetuada, o segundo rosto se transforma em um pesadelo de Kafka, enquanto nosso protagonista renascido tem dificuldades para se ajustar ao estilo de vida boêmio, providenciado pela ‘companhia’.” 

    O segundo rosto foi desconsiderado pela crítica na época e, com o tempo, se tornou um cult. Quando assume sua nova vida, Arthur se entrega, como Tony Wilson, à vida fútil, regada de festas e bebidas da classe a qual se torna parte. A sequência de nu coletivo, quando várias pessoas entram em um barril para esmagar as uvas, ao som de canções do Deus Baco, é uma ousadia que prenuncia o nascimento da Nova Hollywood. Destaque também para a direção de fotografia de James Wong Howe que retrata o pesadelo de Tony Wilson dentro da companhia com ângulos inusitados (principalmente em contre-plongée, refletindo o estado mental do protagonista naquele momento), closes perturbadores e profundidade de campo distorcidas.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Diante do sol arrasador

    by Robertson Mayrink

    A morte da cachorra Baleia é uma das cenas mais tristes do cinema brasileiro. Ela olha uma última vez para os roedores à distância, sem disposição para persegui-los. Baleia se deita e fecha os olhos sonolenta. 

    Vidas secas (Brasil, 1963) foi filmado em Mirador do Negrão, município paupérrimo (ainda hoje), próximo a Palmeira dos Índios, onde Graciliano Ramos viveu e foi prefeito. Nelson Pereira dos Santos, pioneiro do cinema novo brasileiro com seu filme Rio 40 graus (1955), fez escolhas técnicas e estéticas para se aproximar ao máximo da narrativa do romance. 

    Os diálogos quase não existem, os personagens, principalmente os protagonistas Fabiano (Átila Iório) e Sinhá Vitória (Maria Ribeiro) trocam frases curtas e inacabadas, como se nada precisasse ser dito diante do sol arrasador. Não há trilha sonora, o som direto capta as sensações do sertão e, em alguns momentos, agride os sentidos do espectador, como o estridente barulho do ranger das rodas do carro de boi. A câmera na mão, tremida, é também um retirante, acompanhando Fabiano e sua família pelas paisagens desertas. A fotografia, feita com luz natural forte, sem filtros, aproveita a inclemência solar para ampliar a sensação de decrepitude dos cenários e dos retirantes. 

    “A fotografia e o som do filme são os exemplos mais claros desse movimento, na base do próprio deslocamento da equipe às locações em Alagoas. Vidas secas, nesse sentido, é um filme de sensações, marcado pelo som e pela luz do sertão, em seu modo de serem incorporados artisticamente na forma cinematográfica. A luz forte das imagens foi um grande achado original de Luiz Carlos Barreto, que concebeu a proposta de fotografia com o apoio de Nelson. É uma luz que machuca os olhos. A luz estourada ao fundo, como bem nota Nelson Pereira, faz com que a composição fotográfica tenha que ser feita nos rostos – é o que sobra como matéria na intensidade do branco do céu, que inunda a imagem e impregna a natureza.” – Fernão Pessoa Ramos. 

    O filme começa e termina de forma semelhante, adotando a clássica estrutura circular das narrativas. “Um atrás do outro, primeiro surgem a cachorra Baleia, então Sinhá Vitória, Fabiano e os dois meninos, seus filhos. Como o filme vai mostrar, eles vêm de um lugar indefinido para chegar em outro.” – André Miranda

    No final, as duas crianças caminham lentamente, atrás vem Sinhá Vitória, por fim, Fabiano, todos carregando pesados pertences e mantimentos apoiados nas cabeças. Ouve-se o som forte de um berrante, a família contorna a cerca que divide a estrada, olha para a paisagem agreste e segue em frente. A câmera não os acompanha, filma os quatro lado a lado de costas (como na bela cena final de Tempos modernos – 1936, de Charles Chaplin) se afastando, se afastando… Falta alguém nesse belo e triste enquadramento.  

    Referências:

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 
    Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman (organização). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018

  • Um olhar para a decadência

    Huzor Roy (Chhabi Biswas) passa os dias sentado no terraço de seu palacete, servido por seus dois últimos criados. Uma manhã, ele ouve música na casa ao lado e fica sabendo que é o ritual de iniciação do filho dos vizinhos. Flashback remete Roy à iniciação de seu filho, quando o palácio ainda vivia na opulência advinda do feudalismo – na época, Roy era um rico proprietário de terras.

    Satyajit Ray realizou A sala de música (Índia, 1958) no intervalo entre o segundo e terceiro filme da famosa trilogia de Apu. O cineasta, motivado por sua paixão pela música clássica (Ray compôs grande parte da trilha sonora de seus filmes), adaptou o conto de Tarasankar Bandyopadhyay, com a intenção de realizar uma espécie de ópera fílmica, usando músicas clássicas indianas. “Fiquei pensando se música e dança poderiam ser temas aceitos no cinema indiano. Esses senhores feudais normalmente eram mecenas das melhores músicas clássicas indianas. Então a música e a dança eram partes essenciais da história. Achei que seria um filme interessante de se fazer. Neste filme temos um homem rico vivendo em um palácio enorme e sua vida está chegando ao fim. Foi por isso que me atraí por esta história, e foi por isso que fiz o filme.” 

    O tema do filme é a decadência do feudalismo diante da modernidade industrial. Uma cena antológica, primor de narrativa visual, demarca essa passagem. Roy chega à varanda de seu palacete e vislumbra a terra árida, que outrora estava coberta de plantações. Um elefante é visto distante, mas visível em sua opulência. Um caminhão entra em quadro pela direita, trafegando pela estrada entre o palacete e o animal. A poeira levantada pelo veículo cobre inteiramente o elefante. 

    “A atmosfera de decadência e a melancolia do filme são quase inebriantes. Sentimos o fim do mundo de Roy visceralmente e, ainda assim, como o protagonista, desejamos que ele não morra – por mais impossível que isto seja. A observação atenta e a evocação meticulosa de uma época e lugar – características dos filmes neo-realistas de Ray – funcionam bem aqui, porém para fins mais expressionistas. Vemos que os dois criados restantes estão perdendo a batalha para os elementos da natureza à medida que plantas e insetos tomam conta do castelo. As planícies sem vegetação que Roy observa espelham sua morte lenta. Satyajit Ray explora novas idéias e técnicas neste filme – e é fascinante assistir à expansão do seu estilo. A sala de música é um banquete para os sentidos e uma obra-prima essencial do cinema mundial.”

    Elenco: Chhabi Biswas (Huzur Biswarbhar), Gangapada Basu (Mahim Ganguly), Padma Devi (Mahamaya). 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Visões da infância

    by Robertson Mayrink

    No episódio Planeta errante, da série Enterprise, o Capitão Jonathan Archer explora um planeta onde é sempre noite. Ele ouve uma mulher chamando seu nome e sai procurando-a pela floresta. Ela desaparece, mas sempre volta, como uma visão. Bonita, delicada, ele tem certeza que a conhece mas não se lembra.

    No final do episódio, Jonathan Archer descobre e revela o mistério para o engenheiro-chefe da Enterprise.

    “Quando eu era criança tinha dificuldade para dormir. Minha mãe recitava um poema para mim. Havia um que eu sempre pedia: ‘The song of the wandering aengus’. Só quando fiquei mais velho soube que ele fora escrito por Yeats. ‘Eu parti para a floresta porque havia um fogo em minha cabeça’. Enfim, o homem no poema pega um peixe e o transforma em uma linda mulher com flores de maçã nos cabelos. Ela diz o nome dele e então desaparece. Ele passa o resto da vida procurando por ela. Sua visão da perfeição, imagino. Algo que ele nunca pôde encontrar.”

    A misteriosa mulher do planeta é transmorfa, capaz de adotar formas variadas. Telepata, ela encontra no subconsciente do capitão a forma que ele desejaria ver. Uma imagem da infância que o capitão guarda. No final, Jonathan agradece a bela transmorfa por lembrá-lo dessa imagem. Ela responde, “nunca deixe de buscar o que parece inatingível” e pede “nunca se esqueça de mim”. Depois que ela desaparece, adquirindo sua forma original, Jonathan Archer responde, sozinho na noite: “Não esquecerei”.

    Em O bosque das ilusões perdidas, livro de Alain Fournier, Augustin Meaulnes está perdido em uma floresta. Ele caminha até uma espécie de curral e, esgotado, se deita sobre uma palha úmida. Fustigado pelo frio ele “recordou-se de um sonho – uma visão, talvez? – que tivera quando criança e de que nunca falara a ninguém: uma manhã, em vez de acordar no seu quarto, onde estavam penduradas suas calças e paletós, ele se encontrara em uma imensa sala verde, onde o forro da parede se assemelhava àquela folhagem. Aí, a luz era tão suave que dava vontade de saboreá-la. Junto da primeira janela uma moça cosia, de costas voltadas, mas parecendo esperar que ele despertasse …. . Augustin não tivera forças para saltar da cama e caminhar por aquela casa encantada. Voltara a adormecer …. Mas da próxima vez jurava a si mesmo que iria se levantar. Quem sabe, no dia seguinte.”

    Meaulnes adormece na palha úmida. Ao amanhecer, caminha até um sítio onde é acolhido e passa dois dias. No sítio, acontece uma estranha festa e ele conhece Yvonne de Galais. No final da festa, ele precisa ir embora. Embarca em uma carruagem ao lado de um pierrô, um saltimbanco e um palhaço, personagens da festa. Meaulnes tenta, a todo custo, guardar o caminho por onde passa, mas adormece. Acorda novamente perdido, não tem ideia de onde passara aqueles estranhos dias, naquele “país perdido”. A partir daí, só tem um objetivo na vida: encontrar novamente o bosque, o sítio, encontrar Yvonne. A visão de sua infância.

  • Com gosto de morango

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    Por sorte a chuva parou. Deixou o ar da primeira noite de janeiro menos quente, mais gostoso para encontros amorosos. A maioria das barracas está fechada, às escuras, um ou outro lampião com a luz baixa faz imaginar alguém ainda por aí, olhando estrelas ou bebendo, o que costuma dar no mesmo.

    Não sei se Flávia consegue sair a essa hora. “Vou ver”, ela prometera. Para meu coração adolescente. para meus olhos, boca, mãos, braços e tudo que você imaginar, era uma promessa. No pequeno caminho de pedregulhos entre as barracas vem andando uma mulher. Quase, uma menina. Flávia. Longos cabelos morenos encaracolados, olhos entre castanho e amêndoa (ainda não enxergo daqui, mas conheço de cor esses olhos), lábios com gosto de morango em meus sonhos – como Tess do Roman Polanski, o andar como quem pisa na ponta dos pés.

    “Oi, peraí, você não é…”

    “A Flávia pediu para avisar que não vem. O pai, você sabe.”

    “Que pena.”

    “Pois é. Sou a Josi.”

    Eu sei. A prima da Flávia. Cabelos louros, lisos, rosto claro, faces brancas com manchas cor-de-rosa nas bochechas, olhos – está escuro não consigo ver a cor dos olhos. O rosto… tem sua graça.

    “Oi Josi.”

    “Eu preciso ir. Vim só dar o recado.”

    “Não, fica. Vamos conversar um pouquinho. Tenho reparado em você.”

    “Eu também. Também reparo em você.”

    No canto, separada da turma, ela ficava me olhando, lembro agora. Meninos e meninas se reuniam todas as noites perto da quadra de vôlei, conversando, flertando. Josi, retraída, ficava em silêncio, abaixava a cabeça quando se falava uma ou outra bobagem. A gente bebia vinho Chapinha escondido dos pais e ela com aquele olhar assim, recriminando. Alguém acendia um cigarro e ela logo dava um jeito de ir embora. Voltava o rosto uma ou duas vezes e desaparecia no meio das barracas.

    Agora, encolhida no canto do banco, os olhos baixos, os pés brincando com as pedras no chão, as mãos sem saber direito onde ficar… Passaram-se alguns minutos, apenas o barulho da cachoeira, das águas convidativas de janeiro.

    “Tenho que ir embora.”

    “Não. Espera.” Levantei-me e a puxei pelo braço. Josi encostou a cabeça em meu peito. Senti o cheiro de seus cabelos morenos, minha mão abriu caminho entre os fios encaracolados até o seu pescoço. Ela olhou para cima, seus olhos castanho-amêndoas parados nos meus. Um sorriso moldou suas faces morenas. Nossos lábios e línguas se juntaram. Ela tem gosto de morango.

    Naquela noite, eu era apenas um adolescente beijando uma menina pensando em outra. Apenas um adolescente.

  • Um beijo nas alturas

    Carrossel do amor (Körhinta, Hungria, 1958), de Zoltán Fábri.  

    Início do filme. Uma multidão transita por uma rua, rodeada por barracas. Panorâmica revela o parque de diversões, crianças e jovens se divertem em um brinquedo, os assentos pendurados por correntes, girando em alta velocidade. A câmera gira em sentido contrário ao carrossel. Volta para a ruela, um palhaço e uma trupe de músicos entretêm a multidão. Corta para Mari Pataki, jovem recém saída da adolescência. Ela tem o olhar deslumbrado, expressão feliz no rosto, seu pai, István Pataki de ar austero e carrancudo está logo atrás dela. As risadas de Mari ao ver as estripulias do palhaço é de encher os olhos do espectador. 

    Esse momento de felicidade ingênua acontece no outono de 1953, durante a estada do Circo Esztrád neste vilarejo agrícola no interior da Hungria. Na festa, Mari e Máté se reencontram. Os dois se apaixonaram durante o trabalho coletivo nos campos agrícolas. Mari e Matè se divertem nos brinquedos e seus olhares e gestos demonstram a felicidade do casal apaixonado. A ruptura entre sonho e realidade acontece quando o pai de Mari vê os dois, a chama e determina: “Não quero vê-la novamente com aquele sujeito e sua gangue. Estou farto deles, você também deveria estar.”

    A narrativa, com forte teor melodramático, aborda a realidade húngara durante a intervenção soviética e a implantação do comunismo. István é proprietário de terras que foram divididas pelo regime, Ele  acerta o casamento de sua filha com Sandor Farkas, também proprietário de terras, assim os dois recuperam parte de suas propriedades. A gangue da qual Máté faz parte, segundo o patriarca, é a Cooperativa formada por pequenos agricultores e pecuaristas. István e Sandor representam a resistência, insistem no trabalho individual do proprietário em sua terra. Máté defende o novo sistema, a coletividade e a divisão de rendimentos.  

    Carrossel do amor foi recebido com louvor crítico no Festival de Cannes. François Truffaut,  jovem crítico da revista Cahiers Du Cinéma, protestou de forma veemente pelo filme não ter sido premiado: “A heroína do maravilhoso filme de Zoltán Fábri deveria ganhar o prêmio de melhor atriz. Esta é a grande vencedora. Está é minha Palma de Ouro.”

    A longa sequência de abertura no parque de diversões é um marco da técnica cinematográfica. Zoltán Fábri filma os brinquedos giratórios de ângulos diversos, em movimentos acelerados, recortados por planos glamourosos no rosto de Mari, fazendo o espectador entrar nas sensações da jovem enquanto se diverte. Assim como Abel Gance em Napoleão (1927), Fabri surpreende com a câmera em movimento pendular, acompanhando Mari e Maté em um barco suspenso por cabos de aço que se movimenta também de forma pendular, em uma velocidade estonteante.  

    No final do filme, no carrossel de cadeiras suspensas (estrutura circular), o diretor húngaro usa sua técnica inovadora em uma cena que comprova que os dispositivos do cinema, por mais avançados que sejam, servem a um único fim, enlevar os olhos e a alma do espectador nestes breves momentos definidores do CINEMA: o beijo do casal de enamorados.  

    Elenco: Mari Torocsik (Mari Pataki), Imre Soós (Biró Máté), Ádám Szirtes (Farkas Sandor), Béla Barsi (István Pataki).

  • Sara Gomez: a rebelde cubana das telas

    by Robertson Mayrink

    O início do documentário Minha contribuição (Mi aporte, Cuba, 1969), de Sara Gómez, segue um tom institucional, com uma citação de Che Guevara: “O proletariado não tem gênero, é a união de todos os homens e mulheres que, em todos os trabalhos do país, lutam conscientemente por um bem comum.” Os créditos são acompanhados por ilustrações de campanhas enaltecendo o trabalho das mulheres e uma música patriótica. 

    O estilo jornalístico define a estrutura a seguir. Uma repórter entrevista um grupo de trabalhadoras na usina de açúcar Camilo Cienfuegos. “Aqui nós podemos ver o papel das mulheres na produção, fazendo trabalhos que antes eram realizados apenas por homens e que, através do processo revolucionário, agora foram herdados pelas mulheres.”

    O documentário atendeu a uma encomenda da Federação das Mulheres Cubanas (FMC) como forma de destacar a contribuição das mulheres para a colheita da cana-de-açúcar. O financiamento ficou por conta do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. A relação institucional com os princípios da revolução cubana fica clara, pois são dois institutos com ligações políticas.

    No entanto, é um filme de Sara Gómez. A partir da apresentação institucional, a diretora promove uma reflexão sobre as condições de trabalho das mulheres, destacando a necessidade de políticas específicas para que elas possam ocupar os postos conciliando suas prioridades naturais, como a maternidade. O depoimento de um trabalhador masculino deixa claro o conflito de gêneros nas relações de trabalho.

    “Aqui nós temos problemas, às vezes, bem sérios. Já que as companheiras não tem experiência em trabalhos pesados, trabalhos que os homens costumam fazer, elas, às vezes, não se comportam como deveriam. Em alguns casos, elas não vêm trabalhar e muitas vezes exploram seus colegas de trabalho infelizes perto delas, que, por causa do paternalismo, fazem seu trabalho e também parte do trabalho das mulheres. Às vezes ela não aguentam o esforço necessário para realizar o trabalho e aí os homens ajudam elas. A questão da falta ao trabalho ocorre por vários motivos. Um dos problemas, pode-se dizer que a maioria deles, estão relacionados com problemas com os filhos em casa, há problemas com gravidez. Desafios relacionados à falta de tempo para realizar as tarefas de casa.”

    A fala do operário deixa evidente que, naqueles primeiros anos da revolução, o trabalho das mulheres era incentivado e necessário, mas ainda não existiam legislações específicas para protegê-las, principalmente no tocante à maternidade. O próprio trabalhador completa: “Nós sabemos que num futuro não tão distante esses problemas serão resolvidos com creches, e tal, mas, no momento, esses problemas existem e estamos tendo dificuldades de lidar.” 

    A partir daí, a câmera de Sara Gómez se dedica a dar voz às mulheres que sofrem com esse tipo de discriminação e falto de apoio governamental. A diretora acompanha o trabalho da comissão formada para supervisionar e buscar soluções para as mulheres que deixam o trabalho. A comissão visita as mulheres para descobrir as causas do “abandono”. 

    Uma das trabalhadoras abre a porta e debate com a supervisora as possibilidade para retornar ao trabalho.”Eu disse aos camaradas para verem se podiam colocar meu filho na escola. Desse jeito eu posso ir trabalhar cedo e não chegar atrasada e não ter problemas de falta. Na verdade, eu preciso trabalhar. Preciso alimentar três crianças, imagine só. Mas também quero que elas estejam num lugar onde possam aprender. Como pode ver, até conseguir a escola, não posso trabalhar.” 

    Os últimos dez minutos do documentário mostram um grupo de mulheres que estavam assistindo ao filme em uma sala de projeção. “Um relatório sobre um cine-debate” indica a estratégia: analisar e debater os problemas apresentados. As debatedoras, possivelmente, especialistas em questões psicológicas e sociológicas, tecem fortes críticas ao trabalho de apoio oferecido até aquele momento. “Escute, eu estava ouvindo a Lucia (supervisora da comissão). Na verdade, está ferindo outras mulheres. Ela não está ajudando de um ponto de vista social. Como posso dizer… e fisicamente. Ela é uma mulher qualificada, ela é intelectual, mas o tempo em que uma mulher intelectual era intelectual e nada mais, acabou. Em vez de ajudar outra mulher que claramente se sente sobrecarregada, a única solução para ela foi: ‘bem, no meu caso, não vou me casar, por causa disso e daquilo.’”

    A estrutura definida pela rebelde Sara Gómez para Minha contribuição, passando da apresentação institucional para o conflito, para o debate, a reflexão e a crítica, resultou em problemas com a censura. A Federação das Mulheres Cubanas impediu a circulação do documentário em Cuba e fora do país. 

  • A estética do terror

    by Robertson Mayrink

    David Gray (Nicolas de Gunzburg), jovem estudante de ocultismo, chega a uma vila nos arredores de Paris. À medida que lê trechos de um livro sobre vampiros, realidade e sonhos se misturam em sua mente, provocando confusão também na mente do espectador. 

    O vampiro (Vampyr, Dinamarca, 1932), de Carl Dreyer, é uma adaptação livre de Camille, conto de Sheridan Le Fanu. O filme foi financiado pelo barão holandês Nicolas de Gunzburg, que interpreta o protagonista. Muito do clima de terror da película vem da estética e linguagem inovadoras: sombras que se movem sozinhas, imagens fragmentadas de aparições ligeiramente disformes de personagens, o espírito que deixa o corpo de Allan Gray enquanto ele dorme, a impressionante sequência do corpo do protagonista em um caixão com uma pequena janela de vidro deixando vislumbrar apenas seu rosto. 

    “A grandeza do primeiro filme sonoro de Carl Dreyer se deve em parte a sua abordagem do tema do vampiro através da sexualidade e do erotismo e em parte pela sua muito peculiar estética onírica. No entanto, ela também está relacionada à remodelação radical da forma narrativa por parte do diretor. Fazer uma sinopse do filme não significa apenas traí-lo, mas também deturpá-lo. Embora nunca seja menos do que hipnotizante, ele embaralha as convenções do estabelecimento do ponto de vista e continuidade e inventa uma linguagem própria. Algumas das sensações e imagens representadas por essa linguagem são verdadeiramente fantásticas: a longa viagem de um caixão do aparente ponto de vista do cadáver; uma dança de sombras fantasmagóricas dentro de um celeiro; a expressão de desejo carnal de uma vampira por sua frágil irmã; a misteriosa morte por asfixia de um médico cruel dentro de um moinho de trigo; e a prolongada sequência de sonho que consegue imiscuir-se de forma sinistra na própria narrativa.”

    O vampiro foi um fracasso de público, que talvez ainda não estivesse preparado para essa incursão pelo puro terror psicológico. No entanto, assim como a maioria dos filmes saídos da incompreendida mente genial de Carl Theodor Dreyer, ganhou com o tempo o status de cult e se tornou referência para gerações de cineastas que se aventuram pelas obscuras narrativas do gênero terror. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Realidade e simbolismo nas noites de Roma

    by Robertson Mayrink

    Mamma Roma (Anna Magnani) é uma prostituta de meia idade que luta para criar seu filho Ettore (Ettore Garofalo) de forma digna, tentando afastá-lo da má influência da marginalidade adolescente. Os dois se mudam para a periferia de Roma, bairro marcado por construções populares modernistas em meio às ruínas da Roma antiga, onde Mamma monta uma barraca de frutas na feira. Ettore, no entanto, insiste em vadiar, sem trabalhar ou estudar, aventurando-se cada vez mais no caminho da criminalidade. 

    Em seu segundo filme, Mamma Roma (Itália, 1962), Pier Paolo Pasolini preserva o estilo neorrealista de seu filme anterior, Accattone, e mostra sua evolução em direção ao cinema de poesia que defendia. “No cinema de poesia, a história tende a desaparecer, o autor escreve poemas cinematográficos e não mais histórias cinematográficas. No cinema de poesia, o protagonista é o estilo, mais do que as coisas ou os fatos. Meus filmes pertencem a essa categoria.” – Pasolini

    A história de Mamma Roma é pontuada por simbologias pictóricas e a busca da forma cinematográfica como representação dos desejos, anseios e frustrações da protagonista. Na abertura do filme, o diretor de fotografia dispõe os personagens, durante o casamento do antigo cafetão de Mamma, de forma similar ao quadro Santa Ceia, de Leonardo da Vinci. No final, retratando o martírio de Ettore na prisão, a imagem evoca o quadro Lamentação sobre o Cristo morto, de Andrea Mantegna. 

    Pasolini: “Meu gosto cinematográfico não é de origem cinematográfica e sim pictórica. As imagens, os campos visuais que eu tenho na cabeça, são os afrescos de Masaccio, de Giotto, de Pontormo. Não consigo imaginar imagens, paisagens e composições de figuras fora da minha paixão fundamental por essa pintura do século 14, que coloca o homem no centro de toda perspectiva.” 

    Anna Magnani, uma das grandes atrizes e divas do cinema italiano, destila seu talento no papel da prostituta e da grande mãe – seu nome no filme simboliza outra marca do cinema intelectual de Pasolini: a cidade como definidor de personalidades e comportamentos de seus moradores (a Roma que prostitui seus cidadãos nas beiras boêmias de avenidas e pontos turísticos, durante a escuridão da noite). 

    Dois planos sequências de cinco minutos de duração cada são exemplos dessa simbologia, aliados à técnica cinematográfica como representante da poesia do cinema de Pasolini. Nos dois planos, Mamma Roma caminha pelo local onde convive esse universo marginal da cidade. É noite, as luzes ao lado e ao fundo são apenas pontos na escuridão. Durante a caminhada, Mamma reflete sobre sua posição na sociedade, sobre sua vida, sobre a esperança, em diálogos, que mais parecem um monólogo, com outras prostitutas, clientes, que entram e saem de quadro durante a jornada da prostituta. Anna Magnani em seu esplendor visual e artístico domina não só esses planos sequências, mas o filme inteiro. 

    Referência: Coleção Folha Cine Europeu. Pier Paolo Pasolini: Mamma Roma. Carlos Cássio Starling, Pedro Maciel Guimarães e Marcus Mello. São Paulo: Moderna, 2011

  • Jornalistas em ação

    Imagem com IA

    by Robertson Mayrink

    Difícil conceber um livro que trate de filmes sobre jornalismo sem analisar Cidadão Kane (EUA, 1941), de Orson Welles. A parábola da infância à morte de Kane é a mais contundente analogia entre o jornalismo e as relações de vaidade, megalomania, celebridade, PODER. A justificativa da organizadora Christa Berger para não incluir este filme no livro Jornalismo no cinema, Ed. Universidade/UFRGS, 2002, são os inúmeros textos já publicados sobre o filme. Outra ausência sentida é Reds (EUA, 1981), de Warren Beatty, filme sobre John Reed, jornalista que cobriu a revolução russa e escreveu o antológico livro Os dez dias que abalaram o mundo.

    Jornalismo no cinema reúne textos de diversos autores, analisando filmes produzidos entre 1951 e 1999. Do cinema contemporâneo, destaques para O informante (EUA, 1999) e Mera coincidência (EUA, 1997).

    O texto de Adriana Schryver Kurtz sobre O informante, de Michael Mann, aborda as relações entre o jornalista Lowell Bergman (Al Pacino) e seu informante, Dr. Jeff Wigand (Russell Crowe). As revelações que devem ir ao ar no programa 60 Minutes, da CBS News, se referem ao trabalho desenvolvido pelo Dr. Wigand na indústria de cigarros, envolvendo substâncias que propositadamente “viciam” o fumante. As perigosas associações entre as funções sociais do jornalismo de informar e o corporativismo empresarial estão delimitadas nas decisões sobre a edição final da matéria.

    “Quando, entretanto, a ameaça judicial for dirigida ostensivamente à própria CBS News, Wallace não verá problema nenhum em aceitar uma versão alternativa para a matéria já pronta (inédita, bombástica e de amplo interesse público). Nessa hora, ele ficará ao lado dos executivos do programa e do alto escalão da CBS Corporation.” A versão da matéria que vai ao ar é reeditada, provocando a cólera do jornalista: “Você cortou! Você cortou!. Seu lacaio corporativo. Quem disse que seus dedos corporativos possuem o talento para me editar?”.

    Esta sequência traz à tona outra faceta cruel do jornalismo: a manipulação. Além de decisões judiciais e/ou empresariais, o corte significa a intervenção no trabalho investigativo do jornalista, intervindo no material que chega ao leitor/espectador/ouvinte. O tema é tratado sem meios-termos em Mera coincidência, de Barry Levinson. Robert de Niro e Dustin Hoffman interpretam os estrategistas da campanha de reeleição do presidente dos EUA. A campanha se transforma em espetáculo quando, tentando encobrir um escândalo sexual, os comunicadores ”inventam” uma guerra, chegando a criar imagens falsas do conflito.

    Segundo Maria Helena Weber, autora do artigo, no filme “sobram provocações ao entendimento sobre as relações estabelecidas entre mídia e política, quando se trata de ganhar o jogo da visibilidade, informando, persuadindo e manipulando opiniões”. O filme é representativo dessa era, na qual a circulação estratégica de imagens e a reprodução de índices percentuais de apoio de opiniões públicas, privadas e midiáticas, parecem poder justificar quaisquer atitudes e rompimentos com a ética, a verdade, a realidade.”

    Jornalismo no cinema traz ainda análises dos clássicos A doce vida (1960) e Todos os homens do presidente (1976). O representante brasileiro do gênero é Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Completam a edição: A dama de preto (EUA, 1952),  A trama (EUA, 1974), A honra perdida de uma mulher (Alemanha, 1975),  Um dia muito especial (Itália, 1977), Rosa Luxemburgo (Alemanha, 1985), O poder da imagem (EUA, 1990), Ele disse, ela disse (EUA, 1990), Íntimo e pessoal (EUA, 1996), Viva a república(França, 1997).

    Deixo por último, o favorito: A montanha dos sete abutres (EUA, 1951), de Billy Wilder. Charles Tatum (Kirk Douglas), jornalista decadente que já passara por grandes jornais dos EUA, aceita emprego no pequeno e interiorano Albuquerque Sun. Acontece um acidente nas imediações da cidade, caçador de relíquias indígenas fica preso em uma mina. O repórter é o primeiro a chegar ao local e imediatamente começa a produzir matérias sensacionalistas. Com a ajuda de lideranças locais, Tatum arma um circo, retardando ao máximo o resgate da vítima para continuar “vendendo” suas matérias.

    Segundo Giba Assis Brasil, o título escolhido por Billy Wilder seria Ace in the hole (Ás na manga). “No entanto, poucos dias antes do lançamento, a distribuidora mudou o título em inglês para The big carnival (O grande carnaval), numa referência ao imenso parque de diversões em que se transforma a área em volta da montanha durante os sete dias do resgate. E é este talvez o aspecto mais atual do filme, passados cinquenta anos de sua estréia: a espetacularização da notícia – ou, segundo o ensaísta Neal Gabler em Vida, o Filme, a transformação da própria realidade em entretenimento.”

    O show comandado por jornalistas nunca foi tão atual. “Meio século depois, não há dúvida de que se trata de um grande filme, com uma visão devastadora (e, de certa forma, premonitória) sobre a ‘sociedade do espetáculo’, e com elementos essenciais para qualquer discussão sobre a ética do jornalismo. Não apenas os limites que devem ou não ser respeitados pelos jornalistas, ou pelos editores, pauteiros, proprietários de jornal: o que é notícia, o que é interesse público, que tipo de interferência pode ser aceitável e até que ponto.”

    Diante da luta desesperada pela audiência (ver Rede de intrigas, outro ausente da edição), jornalistas, principalmente da avassaladora mídia TV, parecem assumir a máxima de Charles Tatum: “Sou um ótimo repórter, para grandes e pequenas histórias. E, se não houver história nenhuma, eu saio pra rua e mordo um cachorro.”

    Jornalismo no cinema.  Christa Berger (org.). Ed. Universidade/UFRGS, 2002

  • Confeitaria Colombo

    Ilustração com IA

    by Robertson Mayrink

    “Oi. Chegou há muito tempo?”

    “Não. Acabei de chegar.”

    Pedro olhou para o copo com resto de água turva, mistura de gelo derretido e coca, em cima da mesa.

    “Desculpe. Fiquei perdido, faz tempo que não venho ao Rio, acabei me confundindo ….”

    “Não precisa explicar, eu, eu…. cheguei cedo, eu sempre chego cedo, você me conhece, eu ….”

    Pedro apertou a mão de Ângela levemente. Ela desviou o rosto, escondendo os olhos molhados, escondendo o rosto levemente vermelho de ansiedade, escondendo de si mesma a vontade de olhar fundo nos olhos dele. “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigada eu vinha.”

    “Olavo Bilac freqüentava esse lugar. Todos os dias no final da tarde. Ficava na calçada conversando até não poder mais. Conversava com os amigos, até com estranhos que lhe pediam autógrafos. Ele adorava a fama. Você consegue imaginar a beleza de tudo isso? poetas, escritores, você consegue imaginar as conversas, as ideias, os amores que nasciam nas calçadas. Naquela época as pessoas conversavam, Pedro.”

    O garçom chegou com o bloquinho nas mãos.

    “Um conhaque, por favor.”

    “Ângela! Você não bebe.”

    Ela olhou distraída para a porta de entrada. “Tinhas a alma de sonhos povoada, e a alma de sonhos povoada eu tinha….”

    “É verdade.” Ângela fez um gesto para o garçom.

    “Um capuccino. Sem conhaque.”

    “Dois, por favor.”

    Um casal de idosos entrou, sentaram-se à mesa perto da porta da confeitaria. Um breve ressentimento tomou conta de Ângela. “Era ali que o poeta ficava, sentado nos finais de tarde”. Seus olhos encontraram de passagem os da velha senhora que percorriam o ambiente, como se fosse a primeira vez. Ângela passou a olhar para a decoração que tanto conhecia, envolvida pelo longo silêncio que se interpôs entre ela e Pedro. Ela ficava sempre fascinada com as bancadas de mármore, os lustres, aquela mobília de época, uma belle époque de poesias, de romance. “E paramos de súbito na estrada / Da vida: longos anos, presa à minha / A tua mão, a vista deslumbrada / Tive da luz que teu olhar continha”.

    “Quanto tempo você fica fora dessa vez?”

    Pedro demorou alguns segundos a responder, buscando tempo na colher mexendo o café.

    “Dois anos. Talvez mais. É um grande projeto, a fábrica aprovou a ideia, esse carro, não sei, esse carro é o projeto da minha vida.”

    “Eles não conversam.”

    “O que?”

    “O casal de idosos sentado na mesa de Bilac. Ela fica olhando a decoração, presta atenção nas pessoas que entram. Ele lê uma revista. Existe esse tempo? Basta apenas estar perto um do outro, assim, perto, respirando juntos. Ou é um tempo em que nem a beleza diz mais nada. Sua mulher vai com você?”

    “Vai.” Pedro respondeu rapidamente, largando a colher de súbito dentro da xícara  ”Nós vamos procurar uma casa em Turim. É uma fase nova na minha vida, eu preci….”

    “Nel mezzo del camin….”

    “Como?”

    Ângela tomou um pequeno gole do cappuccino, sentiu o gosto quente e doce tocando sua língua, deixou o líquido deitar na sua boca antes de deixá-lo descer pela garganta. “Na partida / Nem o pranto os teus olhos umedece”.

    “Seu café está esfriando.”