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    • O autor

robertson mayrink

  • O relógio verde

    maio 16th, 2026

    O início de O relógio verde (The big clock, EUA, 1948), de John Farrow, define bem a estrutura narrativa comum dos filmes noir. É noite. O jornalista George Stroud (Ray Milland) está no saguão do prédio onde trabalha e se esconde do vigia. A escuridão toma conta do ambiente, com pequenos flashes iluminando o personagem. Voz interior de George: “Essa foi por pouco. E se eu entrar no relógio e o vigilante estiver lá? Pense rápido, George. Que sorte. Ele está de folga.” O jornalista sobe as escadas e entra no enorme relógio que decora o salão do prédio. “Mais guardas. O saguão está sendo vigiado e há ordens de atirar para matar. Matar você, George. Você. Como me meti nessa corrida de ratos? Eu não sou bandido. O que aconteceu? Quando começou? Apenas 36 horas atrás, eu estava lá embaixo, atravessando o saguão para ir trabalhar, cuidando de minha vida, ansioso pelas primeiras férias que eu teria em anos. Há 36 horas eu era um cidadão decente, respeitável e que respeitava a lei, com uma esposa, um filho e um bom emprego. Há apenas 36 horas, de acordo com o grande relógio.”

    Corta para flashback que narra os acontecimentos a partir de exatos 36 horas antes. A voz interior que remete ao que aconteceu até aquele momento é marca do cinema noir. Basta citar o clássicos dos clássicos do gênero: Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    George Stroud é reconhecido por sua perícia no jornalismo investigativo – ele descobre o paradeiro de suspeitos de crimes antes da própria polícia. George se envolve em uma intrincada teia quando conhece no bar a sedutora Pauline York (Rita Jonson ) – a femme fatalle. 

    Pauline é amante de Earl Janoth (Charles Laughton), dono do império de comunicações onde George trabalha. Sem crime não há filme noir. Pauline é assassinada em seu apartamento por Janoth, atingida na cabeça por um relógio verde de porcelana. Para tentar encobrir o crime, o magnata conta com seu funcionário de confiança Steve Hagen (George Macready). 

    No entanto, uma série de pequenos incidentes pode incriminar Janoth. A solução é obrigar o jornalista George Stroud a descobrir o criminoso antes da polícia. O problema é que o principal suspeito é o próprio jornalista: foi ele quem comprou o relógio verde e o esqueceu no apartamento de Pauline, onde esteve minutos antes do assassinato.  

    O jogo de gato e rato apresenta algumas reviravoltas, a principal: todos ficam detidos no prédio, à noite, pois uma testemunha vê o provável criminoso – George  entrando no prédio. O grande embate acontece entre George e Janoth, dois atores consagrados que, dizem, não se deram bem durante as filmagens. Relatos indicam que Ray Milligan, notório galã e ultra conservador, não aceitava a homossexualidade de Charles Laughton. 

    O grande destaque do filme é o roteiro, com reviravoltas precisas e personagens coadjuvantes que são decisivos no decorrer da trama. Atenção para a participação de Elsa Lanchester como a pintora Louise Patterson: ela insere humor em suas interações, principalmente ao interpretar os diálogos, verdadeiras tiradas, outra marca dos filmes noir. 

  • A trágica farsa

    maio 15th, 2026

    O lendário ator Humphrey Bogart faleceu em 14 de janeiro de 1957, vítima de câncer no esôfago. Meses antes, ele estava filmando A trágica farsa (The harder they fall, EUA, 1956), de Mark Robson. Relatos indicam que Bogart, já bastante debilitado, tinha dificuldades em cumprir a jornada de trabalho nos sets, mas persistiu até a última tomada. 

    Ele interpreta Eddie Willis, um famoso jornalista esportivo que se vê desempregado. Precisando de dinheiro, Eddie aceita a proposta de um promotor de lutas de boxe, que precisa descobrir e criar um novo talento no esporte. A tarefa de Eddie é atuar como relações públicas e promover o lutador. 

    O gigante argentino Toro Moreno (Mike Lane), com músculos assustadores mas uma ingenuidade infantil, é o escolhido. A promoção do lutador rapidamente se torna um trabalho quase impossível: Toro não tem talento algum, é derrubado pelo mais franzino dos atletas. 

    O filme é baseado no romance de Budd Schulberg, que escreveu também Sindicato de ladrões. O escritor se baseou na história real de Primo Carrera para denunciar a criminalidade que movia os eventos de boxe: assim como Carrera, o empresário compra os adversários de Toro Moreno que vão caindo um a um em rounds determinados. 

    Eddie Willis participa da farsa, mas se consume pelo remorso, por uma certa humanidade ao entender o destino de Toro Moreno, cujo único sonho é ganhar dinheiro para comprar uma casa para sua mãe. O final revela o que todos sempre souberam: vida e dignidades dos lutadores são destruídas no submundo das lutas manipuladas, enquanto os promotores enriquecem sem o menor escrúpulo. Atenção para a sequência quando Eddie Willis cobra o dinheiro ganho por Toro, que deseja voltar para casa.

  • Isto não é um filme

    maio 14th, 2026

    Isto não é um filme (Irã, 2011), de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahasebi.

    Jafar Panahi está tomando um chá na cozinha de sua casa. Olha para a câmera, manuseada por Mojtaba Mirtahasebii. Segue o diálogo entre os dois: “Por isso pedi que viesse para me ajudar, neste local, para conseguir contar o roteiro. Com a câmera me acompanhando, em vez de ficar num triplê, consigo contar o roteiro com mais facilidade.” “Então você vai contar o seu último roteiro que não foi realizado?” “Sim, mas não aqui. Se eu sentar aqui e ler, vai entediar a todos. Mas se formos para aquela área lá, podemos criar as condições para explicar mais facilmente. Ótimo. Então vamos para o outro lado. Muito bem, corta.” “Você não está dirigindo. É uma infração. Só vai ler o roteiro.” “Então não sou mais diretor. A propósito, atuar e ler o roteiro vão ser considerados infrações? Até agora consta: proibição de 20 anos de fazer filmes, proibição de 20 anos de escrever roteiros, de deixar o país, de dar entrevistas. Atuar e ler roteiros não foram mencionados. Graças a Deus!”

    Driblando as imposições impostas pelo regime iraniano, Jafar Panahi filmou um dia de sua vida em casa, cumprindo a prisão domiciliar. O amigo e documentarista Mojtaba Mirtahasebi cuidou da câmera, deixando Jafar à vontade em suas reflexões sobre as condições do país, a sociedade e, principalmente, sobre o processo de fazer cinema.

    No final, Jafar parece não resistir e, quando se despede do amigo na porta, pega a câmera e passa a filmar o jovem zelador do prédio, que para de andar em andar recolhendo o lixo. Agora é o zelador quem reflete sobre seu dia, sua profissão, seus sonhos estudantis. 

    Jafar Panahi contou com amigos para contrabandear o filme para o Festival de Cannes de Cinema. Isto não é um filme conquistou o prêmio Carrosse d’Or no festival, se consagrando como uma das mais importantes obras que usa da metalinguagem para refletir sobre a arte e o artista, sobre fazer cinema. 

  • Foi apenas um acidente

    maio 13th, 2026

    Foi apenas um acidente (Yek Tasadof-E Sadeh, França/Irã, 2025), de Jafar Panahi.

    No início do filme, um homem de meia-idade, junto com a mulher e a filha ainda criança, está dirigindo em uma estrada escura. O carro bate em alguma coisa, o motorista desce e descobre que atropelou um cachorro. De volta ao volante, assume um ar taciturno.

    No dia seguinte, já em casa, o homem vai a uma oficina mecânica consertar a pequena avaria do carro. Vahid, um dos mecânicos, ouve do andar de cima o som de algo metálico batendo no chão à medida que o estranho anda. 

    Esses pequenos incidentes acendem um alerta explosivo na narrativa: Vahid passa a acreditar que esse homem foi o seu torturador na prisão, quando esteve preso por manifestações de rua contra o regime iraniano. Vahid nunca viu o torturador na prisão, mas o som de sua perna proteica batendo no chão ficou marcado em suas memórias. Sedento de vingança, o mecânico sequestra seu provável algoz. Quando está prestes a enterrá-lo vivo em uma região desértica, ele fica em dúvida sobre a real identidade do torturador. 

    Foi apenas um acidente conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A produção foi realizada no estilo guerrilha – com cenas nas ruas da cidade e em estradas do Irã, sem o conhecimento das autoridades. Jafar Panahi está proibido de filmar em seu país, a obra só chegou à festivais, e ao Oscar, por ser uma coprodução com a França. 

    O estilo da narrativa mescla cenas de forte tensão social e de violência, com pequenos atos de comédia. Quando Vahid fica em dúvida, recorre a quatro conhecidos, também torturados por Eghbal, na esperança de alguém reconhecê-lo. O périplo dos cinco na van do mecânico, com o torturador trancado em uma caixa – algo como o banquete de Festim diabólico (1948), de Alfred Hitchcock, realizado em cima do caixão da vítima de assssinato, rende situações imprevisíveis, repletas de humor negro.

    Atenção para a cena do final em aberto quando a dúvida se instaura de forma dolorosa na mente do espectador.

    Elenco: Vahid Movasseri (Vahid), Mariam Afshari (Shiva), Ebrahim Azizi (Eghbal), Hadis Pakbaten (Golrokh), Majid Panahi (o noivo), Mohamad Ali Elsasmehr (Hamid).

  • O livreiro e o anuário

    maio 12th, 2026

    “Pronto.” “O Humberto está na recepção.” “Hum… pede para ele subir.” 

    O departamento de criação ficava no terceiro andar da agência de publicidade. Uma sala compartilhada pelas duplas de criação, sem paredes, espaço amplo, arejado, que facilitava a troca de ideias e conversas. Quando Humberto saía do elevador, carregando três pastas repletas de livros, passava primeiro na minha mesa, que logo era assediada pelos colegas criativos. 

    Humberto era livreiro, exclusivo de obras das áreas de criação publicitária, design, fotografia e artes. Era o início dos anos 90, seu trabalho consistia em comprar livros em São Paulo, Rio de Janeiro, às vezes até no exterior, e revender para clientes que trabalhavam em áreas criativas. As mais disputadas eram as Revistas Archive que colecionei durante muitos anos. O anuário do Clube de Criação de São Paulo também sempre me fascinou e lembro-me de nunca regatear o preço – eu não me permitia ficar sem o anuário, referência das melhores peças de propaganda veiculadas no país no ano. 

    Com o tempo, as visitas do Humberto foram rareando, até desapareceram. As facilidades da internet sepultaram tantas profissões, entre elas os admiráveis livreiros – alguém se lembra dos vendedores de enciclopédias? Luiz Bigode, amigo de meu pai da Rua Guatambu, sustentou família de quatro filhos vendendo Barsa. 

    Para não perder minhas referências impressas, passei a assinar a Archive e fiquei sócio do Clube de Criação de São Paulo. Com a digitalização das revistas, a versão impressa da Archive foi extinta. 

    Restou o anuário do Clube de Criação que espero com ansiedade , verdadeira obra de arte com direção de arte requintada e de muito bom gosto. Infelizmente, o Anuário não traz mais o DVD com os filmes publicitários e, sejamos sinceros, o conteúdo já não expressa a criatividade que marcou os anos dourados da propaganda brasileira, entre as décadas de 70 e 90 do século passado. 

    Mesmo assim, não abro mão de participar do Festival do Clube, que acontece sempre em outubro em São Paulo – no ano passado comemoramos 50 anos do nascimento do Clube de Criação, e nem de ter o livro impresso. Acabei de receber o 48◦ anuário (por problemas técnicos a produção e entrega do anuário está com dois anos de atraso).

    Hora de fazer uma das coisas de que mais gosto: folhear um livro com todo o carinho e respeito que os impressos merecem. 

  • maio 10th, 2026
  • O círculo

    maio 8th, 2026

    O círculo (Irã, 2000), de Jafar Panahi. 

    O filme começa em uma maternidade, durante o nascimento de uma menina. A mãe da parturiente é informada e demonstra receio ao saber o sexo do neto: “Os sogros vão ficar furiosos e querer a separação. Queriam um menino, minha pobre filha.” Sem coragem de contar à família, a avó desce as escadas do hospital, encontra sua outra filha e pede que ela comunique os tios. A jovem sai do hospital, aborda três jovens mulheres em uma cabine telefônica e sai de cena. 

    O foco agora são as três mulheres: Arezzo, Maedeh e Nargess acabaram de sair da prisão e tentam conseguir algum dinheiro para seguir seus caminhos. Arezzo e Maede desaparecem na confusão das ruas e a câmera passa a acompanhar a jornada de Nargess, cujo desejo é ir para uma cidade do interior: ela acredita que lá é o paraíso. 

    A estrutura narrativa de O círculo segue a tendência inaugurada por Luis Buñuel em O fantasma da liberdade (1974): quando a protagonista se cruza na rua com outra personagem, a história muda de protagonista, assim o espectador acompanha, em um único dia, os conflitos dessas mulheres, em uma cadeia de acontecimentos circulares que determinam o tema do filme: a opressão que as mulheres sofrem diante do sistema patriarcal imposto pelo regime iraniano. 

    Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, O círculo é um dos filmes mais críticos de Jafar Panahi, a narrativa centrada nas mulheres levanta questões que são banidas de discussão na sociedade iraniana: a prisão de mulheres baseadas simplesmente em questões morais; o aborto; o poder indiscriminado do patriarcado que pode deserdar uma jovem apenas porque não concebeu um filho do sexo masculino; a prostituição. 

    Filme após filme, Jafar Panahi se debruça sobre essas perigosas temáticas, o que valeu ao diretor a condenação política a seis anos de prisão e a proibição de filmar durante vinte anos. 

    Elenco: Maryam Palvin Almani, Nargess Mamizadeh, Elham Saboktakin, Monir Arab, Maedeh Tahmasebi.

  • maio 8th, 2026
  • maio 7th, 2026
  • O espelho

    maio 6th, 2026

    O espelho (Ayneh, Irã, 1997), de Jafar Panahi. 

    Na segunda metade do filme, a criança Mina está na parte da frente, próxima ao para-brisa do ônibus. Ela olha para a câmera, tira o gesso de seu braço e diz: “Não vou mais atuar.” Abre o plano e mostra a equipe de cinema atônita, incluindo o diretor Jafar Panahi. A menina desce do ônibus disposta a abandonar as filmagens. 

    O espelho é uma fascinante experiência de Jafar Panahi pelo universo neorrealista, confirmando seu estilo de trabalhar entre a narrativa ficcional e o documentário. No início do filme, Mina sai da escola e não encontra sua mãe. Ela resolve então ir sozinha para casa e começa uma jornada pelas ruas movimentadas e caóticas de Teerã, a pé ou utilizando o transporte público. A câmera segue Mina pelas ruas em longos planos, se permitindo ao improviso necessário em filmagens externas. 

    Na segunda parte, o já consagrado diretor iraniano faz uma escolha ousada: quando Mina abandona o ônibus, não tira o microfone. A equipe passa a filmar a tentativa real da menina de chegar em casa. 

    A atuação, ou não atuação, da amadora atriz mirim Mina Mohammadkhani é fascinante, encantadora. Seu périplo pelas ruas de Teerã é um espelho da sociedade iraniana, demarcada pelo caos das ruas, a precariedade do transporte público, a luta dos cidadãos, incluindo trabalhadores, mães, idosos, crianças, para transitar e sobreviver em meio ao caos de Teerã. Cada um enfrenta sua lida diária, sem tempo para sequer ajudar uma criança a chegar em casa.

  • Amores de apache

    maio 5th, 2026

    Amores de apache (Casque d’or, França, 1952), de Jacques Becker. 

    O roteiro original do filme versava sobre uma disputa de gangues em Paris, conhecidas como “apaches”. O estilo se assemelhava aos westerns americanos, com cenas de embates violentos a tiros. Quando Charles Becker assumiu o projeto, que seria dirigido por Julien Duvivier, trabalhou com o roteirista Jacques Companeez em uma história de amor – um melodrama, ambientada no submundo do crime de Paris.

    O cenário são os subúrbios de Paris durante a Belle Époque, final do século XIX. Marie (Simone Signoret), conhecida como Casque d’or, é uma garota da noite que se relaciona com membros da gangue chefiada por Félix Leca (Claude Dauphin). Em um salão de dança às margens do rio, ela conhece Manda, um ex-criminoso que passou sete anos na cadeia, e agora tenta se regenerar, trabalhando como carpinteiro. A paixão entre os dois é imediata, explosiva, despertando a ira do atual amante de Marie, um membro da gangue de Félix.

    Amores de apache marca a transição do realismo poético francês para o novo cinema dos anos 60. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas foi elogiado pelos jovens críticos da Cahiers Du Cinema, que defendiam um cinema mais realista e moderno, filmado nas ruas, assim como o filme de Jacques Becker – um melodrama com toques de modernidade. 

    A  história de amor de Marie e Manda, cujos destinos caminham para a tragédia, é narrada com belas cenas do romance, com destaque para a beleza e talento de Simone Signoret. É também uma história de amizade, dois amigos que cumpriram pena juntos e agora se veem em lados opostos, mas sacrificam tudo em nome da cumplicidade que construíram.  

  • maio 5th, 2026
  • Fora do jogo

    maio 2nd, 2026

    Fora do jogo (Offside, Irã, 2006), de Jafar Panahi. 

    Uma jovem está vestida como um garoto, dentro de um ônibus lotado de torcedores masculinos. O destino é o estádio Azadi, em Teerã, onde será disputado o jogo entre Irã x Bahrein, valendo a classificação para a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Para o Irã se classificar, basta o empate. 

    Dentro do ônibus, todos reconhecem que ela é uma mulher, mas não se importam. No entanto, na entrada do estádio, ela é reconhecida e presa pelos seguranças: mulheres são proibidas de frequentar estádios de futebol no Irã. A jovem é encaminhada para o andar superior, onde fica sob vigília dos guardas em um cercado de grades. Outras cinco meninas, todas disfarçadas de homens, chegam e também ficam enclausuradas. 

    Jafar Panahi segue, na temática de seus filmes, com críticas severas às leis islâmicas vigentes no país. As meninas são apaixonadas por futebol, entendem do esporte e desejam torcer para a classificação do Irã. O estilo do filme se aproxima do documentário: narrativa linear, filmagens externas, dentro de ônibus, nas ruas, no estádio (o jogo é real), atores e atrizes amadores.

    O embate entre as meninas e os jovens guardas que as vigiam é recheado de humor e tentativas mútuas de compreensão: os guardas seguem ordens, se dependesse deles, elas estariam dentro do estádio; as meninas entendem e até mesmo se enternecem com essa situação. 

    O final (improvisado, pois dependia do resultado do jogo) quando as meninas estão dentro de um micro-ônibus, junto com os guardas e um garoto também preso, em direção à delegacia é tocante, sensível. Torcedores invadem as ruas comemorando a classificação do Irã e, em uma rua completamente tomada, o ônibus é parado e todos descem.  Nesse momento, as meninas se misturam à multidão, não para fugir, apenas para comemorar, junto com os guardas e os demais torcedores. É o olhar esperançoso de Panahi pela igualdade de direitos.  

  • Ao leste com Sonia Wieder-Atherton

    maio 2nd, 2026

    Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009), de Chantal Akerman. 

    A cineasta Chantal Akerman (1950/2015) e a violoncelista Sonia Wieder-Atherton (1961) mantiveram uma relação amorosa e profissional durante cerca de 30 anos. As duas se conheceram nos anos 80, em Paris. Sonia compôs músicas para vários filmes de Chantal; por sua vez, a diretora belga realizou três documentários sobre a vida e a música de sua esposa:  Três estrofes em nome de Sacher (Trois strophes sur le nom de Sacher, França, 1989), Com Sonia Wieder-Atherton (França, 2003) e Ao leste com Sonia Wieder-Atherton (À I’est avec Sonia Wieder-Atherton, França, 2009).

    O projeto deste último nasceu a partir do documentário D’est (1993) realizado por Chantal Akerman em 1993, que retrata cidades, paisagens e pessoas do leste europeu após a queda do muro de Berlim. Sonia criou um concerto a partir do documentário, as músicas dialogam com as imagens. 

    Ao leste com Sonia Wieder-Atherton registra os concertos apresentados na Europa Ocidental, Oriental e na Rússia. Durante a performance, imagens de D’est são exibidas numa tela ao fundo.

    “Há muito tempo eu queria reunir trabalhos da Europa Oriental e Central, também conhecida como Mitteleuropa. Essas duas Europas, com fronteiras mutáveis e culturas diferentes, mas imbuídas uma na outra. Talvez lá, do que em outros lugares, as línguas, os sotaques, carregam um si a história do povo. O mesmo vale para a música. Mas também há a Rússia. Para mim, a Rússia é uma história de transmissão. A música diz o que é impossível de descrever. Resistência, portanto. Uma para quebrar a língua e outra para contar o proibido. Um lugar no mundo para o qual eu volto incansavelmente. Voltei a ouvir obras que conhecia e amava. E descobri outras. Obras escritas para voz, coração, violino, violoncelo, orquestra ou até mesmo piano.” – narração de Sonia-Wieder Atherton, sobreposta a imagens da preparação do primeiro concerto, abre o documentário.

  • Sul

    abril 30th, 2026

    Sul (Sud, França, 1999), de Chantal Akerman. 

    No dia 7 de julho de 1998, James Byrd Jr. morador da comunidade negra de Jaspen / Texas, caminhava pela estrada, de volta para casa, após um dia de trabalho. Três jovens brancos ofereceram carona a ele, mas o levaram para um local deserto onde o espancaram. Depois, amarraram Toe, como era conhecido pelos amigos, pelos tornozelos na traseira da picape. 

    “Aparentemente, de acordo com o Xerife, os três homens pegaram o Sr. Byrd na Rodovia 96, ao norte. Pegaram ele, levaram a um local remoto, onde o tiraram da caminhonete, bateram nele e então o acorrentaram na parte de trás da caminhonete. Então eles arrastaram ele por cerca de três quilômetros pela estrada através da parte negra do condado. Eles o desacorrentaram em frente do cemitério negro. No processo, ao que parece, em algum ponto, ele acertou o tubo de drenagem que arrancou sua cabeça e seu braço direito do torso. E os pedaços de seu corpo foram encontrados espalhados pelos três quilômetros da estrada.” – relato de um dos depoentes.  

    O documentário de Chantal Akerman entrevista pessoas da comunidade, a câmera fixa nos rostos doloridos ao contar esse e outros casos de assassinato que aconteceram por motivações raciais. Os três assassinos de James Byrd Jr. eram jovens supremacistas brancos. 

    Entre os depoimentos, Chantal Akerman filma silenciosamente, em longos planos sequência, a cidade: os bairros, casas, estabelecimentos de comércio. Durante as trajetórias, separadas por região, vislumbra-se a separação entre brancos e negros, tantos em termos físicos quanto em termos econômicos. O bairro dos negros é uma sucessão de casas simples de madeira, gastas pelo tempo. 

    O plano sequência final, também demarcado pelo silêncio, é de uma dor quase inacreditável: a câmera, da traseira do carro, direcionada para o chão, percorre todo o trajeto da estrada na qual James Byrd Jr. foi arrastado. São intermináveis três quilômetros, intermináveis.

  • Histórias americanas: comida, família e filosofia

    abril 30th, 2026

    Histórias americanas: comida, família e filosofia (Histoires d’Amérique: food, family and philosophy, França, 1989), de Chantal Akerman.

    Uma jovem diante da câmera conta sua história, o relacionamento que construiu com “um homem tão lindo e afetuoso”. O homem morreu e a deixou com uma filha de 13 anos, a partir daí a narrativa muda para a frustração, solidão e depressão vivida pela viúva. O longo depoimento segue o estilo de um documentário tradicional, pessoas posando para câmera, discorrendo sobre suas relações com a comunidade judaica onde vivem, contando suas histórias. 

    Após dois depoimentos, corta para um homem barbudo entrando em uma porta giratória, acompanhado com o olhar por outro homem na rua. Imediatamente, um homem sem barba sai pela porta giratória. O homem na rua pergunta:: “Senhor, me diga, antes que eu enlouqueça nesse país. Como conseguiu fazer a barba tão rápido?”. Corta para dois idosos, eles se cumprimentam e segue o diálogo: “Você conhece a vida. A vida é como a fonte.” “Porque?” “Está tudo bem. A vida não é como a fonte.”

    Agora o estilo é um filme de ficção? onde os diálogos são construídos e interpretados, revelando comportamentos e falas surrealistas. A experiência de Chantal Akerman subverte princípios elementares da narrativa, tanto em termos documentais quanto ficcionais. 

    O filme foi realizado em locações urbanas de Nova York, ambientado sempre em cenas noturnas. Diversos personagens entram e saem de cena até se reunirem em um jantar à noite: assistem, sentadaos nas mesas, encontros e diálogos que se sucedem – sim, como no teatro.

     A mãe de Chantal Akerman foi uma sobrevivente de Auschwitz. Histórias americanas: comida, família e filosofia é um estudo antropológico sobre imigrantes judeus, no caso nos EUA, que lutam para preservar a cultura, a memória, contando histórias, às vezes trágicas, outras vezes bem humoradas e fantasiosas. Vale lembrar a constatação de Isak Dinesen: “Ser uma pessoa é ter uma história para contar.”

  • abril 30th, 2026
  • Hotel das Acácias

    abril 29th, 2026

    Hotel das Acácias (Hôtel des Acacias, Bélgica/França, 1982), de Chantal Akerman e Michéle Blondeel. 

    Marie desembarca do trem em Bruxelas. Entra no Hotel das Acácias, é atendida por Hans, o recepcionista, e pede um quarto para uma noite. É acompanhada ao quarto por Michel. Antes de entrar no quarto, eles conversam: “Está aqui de férias?” “Não. Não sei.” “Então é uma história de amor.” “Como sabe?” “Essas coisas acontecem. Eu a invejo. É tão bom estar amando. Amanhã achamos seu homem. Boa noite.” 

    Pouco depois, Nathalie, vinda do interior, chega no Hotel e pede um quarto. Ela está à procura de emprego, assim que começar a trabalhar vai buscar seu noivo que ficou no vilarejo. No entanto, Hans se apaixona por ela. 

    A introdução define o tema e narrativa do filme: jovens, hóspedes e funcionários do hotel, começam relações de amizade e paixão, às vezes até mesmo assumindo infidelidades consentidas. A narrativa transcorre inteiramente dentro do hotel, marcada por inserções musicais que pontuam o estado emocional dos personagens, como no baile organizado para comemorar o emprego de Nathalie. A solidão e desilusão amorosa marca todos os personagens. 

    O média-metragem (40 minutos) de Chantal Akerman foi realizado contando com alunos de uma oficina de cinema de Bruxelas. O estilo musical está presente em momentos importantes da narrativa e, mesmo sem a música, é possível perceber movimentos rítmicos e coreógrafos do elenco nos ambientes do hotel. 

    O tempo cronológico não é determinado, em alguns momentos é até mesmo subversivo. Durante o baile, o noivo do interior é avisado e, minutos depois, chega ao hotel. Nem mesmo os nomes dos personagens importam, são citados espaçadamente, dificultando a identificação. Resta ao espectador se entregar à busca pelo amor desses jovens, mesmo que fugaz. 

    Elenco: Philippe Bobsled, Catherine Carrera, Amid Chakir, Mario Gonzales, Katy Guisard, Michel Kartchevsky, Marie Signé Ledoux. 

  • Tenho fome, tenho frio

    abril 28th, 2026

    Tenho fome, tenho frio (J’ai faim, j’ai froid, França, 1984), de Chantal Akerman.

    Duas jovens interpretadas por Maria de Medeiros e Pascale Salkin, chegam a Paris, fugindo de suas casas, na cidade de Bruxelas. A narrativa acompanha as jovens durante duas noites e um dia, em busca de um lugar para dormir e uma forma de ganhar dinheiro para comer. 

    O curta de cerca de dez minutos de duração, fotografado em preto e branco, integra o projeto Paris vu par… 20 ans après (1984), filme que reúne seis curtas de diferentes diretores: Philippe Garrel, Jean-Daniel Pollet, Frédéric Mitterrand, Bernard Dubois e Chantal Akerman. O projeto é uma releitura do filme produzido nos anos 60, Paris vu par… de 1965, dirigido por jovens da nouvelle vague francesa. 

    As meninas, perambulando pelos subúrbios de Paris, reclamando o tempo todo: “Tenho fome, tenho frio.”, com gestos e diálogos repetitivos. Na jornada, entram em um bar e começam a cantar, na esperança de ganhar dinheiro. Um grupo de homens as acolhem na mesa e oferecem comida e bebida à vontade a elas. A noite termina no apartamento de um deles, que aproveita o momento para transar com a que sente frio. Na manhã seguinte, as duas estão novamente nas ruas de Paris, final em aberto que derruba a ilusão romântica que consagrou a cidade luz.

  • Uma mulher descasada

    abril 28th, 2026

    Uma mulher descasada (An unmarried woman, EUA, 1978), de Paul Mazursky.

    A sequência de abertura do filme reflete um estilo que marcou os cineastas da Nova Hollywood, nos anos 70: o fascínio pelas ruas de Nova York, retratada em imagens quase documentais; algo parecido com o que os jovens da Nouvelle Vague fizeram com Paris.

    Erica (Jill Clayburgh) e seu marido Martin (Michael Murphy) estão correndo no calçadão às margens do Rio Hudson. Martin pisa em cocô de cachorro e, entre discussões e risadas, revelam-se um casal típico de classe média, tentando fazer da banalidade do cotidiano (incluindo o sexo) ainda algo prazeroso e divertido. 

    Tudo muda quando mais tarde, Martin confessa, aos prantos, em outra cena de rua, que está apaixonado por uma mulher mais jovem. O filme assume definitivamente o ponto de vista de Erica, tentando se recuperar e refazer sua vida após a separação. Entre sessões de terapia, Erica sai com as três amigas, todas de meia-idade, segue seu trabalho como assistente em uma galeria de arte, divide suas noites com a filha adolescente, até que, finalmente, se permite a fazer sexo com outros homens. 

    É nesse momento que ela conhece e se apaixona por Saul (Alan Bates), pintor modernista que corresponde à sua paixão. Os dois passam a desfrutar de momentos intensos de sexo, se descobrindo, Erica se libertando cada vez mais e mais das amarras adquiridas pelo casamento. 

    “Através das elipses, Mazursky trabalha com o processo de mudança gradual na vida de Erica, de modo que somos levados a imaginar o que ocorreu entre uma cena e outra – por exemplo, quando ela decide voltar a namorar, ou quando o marido sai de casa, momentos que são omitidos. E é interessante como, apesar da sensação constante de que estamos partilhando de seu cotidiano por vezes pacato, a personagem de Jill Clayburgh sofre uma transformação radical. Esta mudança não ocorre de uma cena para outra, mas está em pequenos momentos singelos que demonstram uma evolução da personagem. Chama atenção a cena em que Erica e sua filha estão ao redor do piano cantando desastradamente Maybe I’m Amazed, de Paul McCartney, talvez o momento mais belo do filme. Mesmo sem diálogos, ele expressa um enorme estado de graça e de união entre duas gerações de mulheres, com concepções muito diferentes da vida e do amor, mas que dividem alguns dos mesmos problemas históricos.” – Luca Scupino

    A cena final coloca Nova York novamente como protagonista da história. Erika ganha um enorme quadro de presente de Saul, mas tem que levá-lo a pé para casa. Entre pessoas, carros, prédios, cartazes, o lixo espalhado pelas calçadas, Erika segue sua vida, agora independente. Luca Scupino: “A genialidade de Mazursky está, portanto, em como ele retrata sua personagem frente ao mundo. Parece que, conforme Erica se liberta do casamento e de seu passado, ela vai conhecendo a própria cidade, descobrindo a si mesma a partir do ambiente em que vive, das contradições que co-habitam na cidade de Nova York, ao mesmo tempo moderna e tradicional. O filme é sempre sobre Erica e o mundo: mesmo em seu apartamento, a grande janela permite enquadrá-la em uma vista panorâmica da cidade.”


    Referência: O cinema da Nova Hollywood. Pérolas da coleção. Fernando Brito (org.). São Paulo: Versátil Home Vídeo, 2023

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