Documenteur

Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade. 

A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda. 

Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).

Você tem belas escadarias, sabia?

Em apenas quatro minutos, Agnès Varda faz uma bela homenagem à história do cinema. O curta usa as escadas da Cinemateca Francesa que conduzem ao Museu do Cinema. A montagem alternada intercala pessoas descendo as escadas com cenas de diversas obras filmadas em escadas. É uma sucessão de imagens que remetem à história do cinema, filmes que marcaram gerações, o fascínio irrompe em cada take. 

O curta-metragem celebrou os 50 anos da Cinemateca Francesa e, por coincidência, a escadaria tem exatamente 50 degraus. Agnès Varda recortou cenas dos seguintes filmes: Juve contre fantômas – Louis Feuillade, Pépé le moko – Julien Duvivier, O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, A imperatriz vermelha – Josef von Sternberg, Cidadão Kane – Orson Welles, Ran – Akira Kurosawa, Le coup du parapluie – Gérard Oury, O desprezo – Jean-Luc Godard, Modelos – Charles Vidor, A história de Adele H – François Truffaut. 

Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986), de Agnès Varda. 

Os amantes da Ponte Mac Donald

Este curta-metragem mudo, na verdade um mini filme de cerca de quatro minutos de duração, foi inserido no longa Cléo das 5 às 7. É uma grande homenagem aos primórdios do cinema e conta com uma atração à parte: Jean-Luc Godard como protagonista, ainda sem seus marcantes óculos escuros. 

A narrativa segue uma aventura burlesca às margens do Sena, Godard e Anna Karina interpretam um casal que se despede na ponte e um pequeno acidente acontece, de forma repetida, quando a jovem enamorada está de saída. A fotografia em preto e branco, montagem acelerada, interpretações caricatas, é puro cinema mudo, com certeza uma divertida experimentação para os jovens da nouvelle-vague francesa.  

Os amantes da Ponte Mac Donald (Les fiancés du Pont Mac Donald, França, 1961), de Agnès Varda. Com Jean-Luc Godard e Anna Karina.

O leão volátil

Agnes Varda está sentada em um banco de praça, lendo. Ela narra:  “Em 1933 houve uma pesquisa sobre o que poderia ser feito aos monumentos para embelezar Paris. André Breton respondeu: dê ao Leão de Belfort um osso para roer e vire-o ao oeste.”

O tom surrealista consagrado por André Breton está presente na narrativa de O leão volátil. Clarisse é aprendiz de vidente, tem os olhos fascinados pelas predições de sua mentora, Madame Clara. Em alguns dias seguidos, sempre na hora do almoço, ela encontra Lazarus, porteiro que trabalha nas catacumbas parisienses. Os encontros acontecem sempre na Praça Denfert-Rochereau, onde fica a estátua do Leão de Denfert.

Clarisse, sempre com olhar deslumbrado, apaixonado, vê pequenos acontecimentos místicos, surrealistas. Objetos desaparecem nas mãos de Lazarus; o próprio Lazarus desaparece ao atravessar a rua; a sugestão de Breton aparece ante seus olhos: o leão tem um osso na boca, depois é substituído por Zgougou, o gato de Agnès Varda (mascote do Ciné-Tamaris, produtora da cineasta). São os olhos de leitores e espectadores de cinema que, assim como videntes, imaginam coisas o tempo todo. 

O leão volátil (Le lion volatil, França, 2003), de Agnés Varda. Com Julie Depardieu (Clarisse), Frédérick E. Grasser-Hermé (Madame Clara), David Deciron (Lazarus). 

Visages Villages

No fim do documentário, Agnès Varda leva JR, seu companheiro de jornada, à casa de Jean-Luc Godard. Ela marcara um encontro com o recluso cineasta, mas encontra a porta fechada. Na porta, um enigmático bilhete deixado por Godard. Tomada pelas lágrimas, Agnès Varda tenta compreender o gesto de seu amigo. 

A inserção desta sequência, desconectada do restante do documentário, ajuda a entender a proposta da viagem empreendida pela cineasta Agnès Varda e pelo fotógrafo JR: buscar a potência da imagem através dos retratos de pessoas comuns colados em muros, paredes de casas, containers. Trata, portanto, do cinema. 

Agnès Varda e JR exploram pequenas cidades da França a bordo de uma van equipada com dispositivos de fotografia. No caminho, fotografam os moradores, os trabalhadores. As fotos são ampliadas e coladas em espaços públicos. 

Visages Villages encanta pela simplicidade das pessoas que posam. As fotos traduzem a poesia do cotidiano registradas pelo olhar sensível, carregado de humanismo, de dois grandes artistas. É o poder da imagem, da arte, capaz de colocar vida em containers de navios, em um bunker alemão abandonado em uma praia da Normandia.  

Visages, Villages (França, 2017), de Agnès Varda e JR.

Os Panteras Negras

O curta-metragem de Agnès Varda foi filmado durante o verão de 1968, quando os Panteras Negras se reuniram em manifestações em Oakland, Califórnia. O motivo das manifestações foi chamar a atenção para o julgamento de Huey Newton, um dos fundadores da organização. Huey Newton respondia pela acusação de homicídio de um policial branco durante uma batida policial em um bairro negro de Oakland.

Agnès Varda não se isenta de tomar partido, focando nas manifestações de rua e nos discursos dos líderes dos Panteras Negras. É um documentário sóbrio, tradicional, mas provocativo. A câmera a serviço do real, a edição pontuada por imagens e frases precisas, transformaram o filme em um dos mais importantes registros históricos deste revoltante contexto racista da década de 60 nos EUA. 

Os panteras negras (Black panthers, França, 1968), de Agnès Varda.

Saudações, cubanos!

Em dezembro de 1962, Agnès Varda visitou Cuba a convite do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos. Sua estada de pouco mais de um mês no país de Fidel Castro, logo após a revolução, resultou em cerca de quatro mil fotos tiradas por Varda. As fotos foram expostas em Paris, depois a diretora se debruçou em um trabalho minucioso para fazer esta espécie de documentário animado a partir de fotografias. 

É o retrato vivo da Cuba ainda imberbe da revolução, o próprio título determina o olhar de Agnès Varda: o que interessa são as pessoas, os moradores dessa ilha explorada durante décadas pela ditadura de Fulgencio Batista e pela elite americana. Arte, cultura, com destaque para os movimentos musicais, a vida simples de moradores e trabalhadores, as imagens fascinam, encantam, deixam em cada frame a sensação de um sonho, uma utopia. 

Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1963), de Agnès Varda.

Mur murs

A câmera de Agnés Varda, neste documentário em curta-metragem, percorre as ruas da grande Los Angeles, mostrando murais pintados por artistas anônimos. Os diversos temas traçam um retrato da cidade dos sonhos dos anos 80: violência de gangues, movimentos culturais das ruas, seitas religiosas, marginalizados… 

Como é comum em seus documentários, a cineasta tece comentários sobre as imagens, provocando a reflexão sobre a arte desses artistas anônimos, muitos deles também marginalizados que encontram nas paredes e muros das grandes cidades a possibilidade de se expressar. Muros e murmúrios ecoa como um grito pela beleza e vivacidade das obras. 

Mur murs (França, 1981), de Agnès Varda. 

Ulisses

Em 1954, Agnès Varda produziu e fotografou a famosa cena em uma praia coberta de pedregulhos no Sul da França. Ulisses é o nome do menino sentado, olhando a cabra morta. 

No curta, realizado na década de 80, a cineasta volta ao local da foto, conversa com os protagonistas, buscando as memórias daquele tempo, daquele registro. Através de imagens passadas e presentes, o curta é uma reflexão sobre a natureza de fotografar, sobre memórias perdidas, resgatadas, sobre pessoas simples que são, em determinados momentos, apenas um flash um suas vidas, eternizadas pela arte.  

Ulisses (Ulysse, França, 1983), de Agnès Varda. 

Os catadores e eu: dois anos depois

Dois anos depois do documentário Os catadores e eu, Agnès Varda volta ao tema, entrevistando novos personagens e revendo catadores do primeiro filme. A novidade é o olhar mais crítico, principalmente de quem depõe para a câmera da cineasta. O impacto do documentário provocou mudanças nas vidas de alguns deles.

Um dos catadores agora vivem em um abrigo, não mais em trailers à mercê de mudanças rotineiras. Jean, o catador professor é quem tem mais espaço, diz que continua com sua militância política contra o desperdício, mas agora tem mais exposição, participa de programas de TV, dá entrevista. A surpresa em seu depoimento é uma crítica ao trabalho de Agnès Varda. Ele comenta que não gostou da forma como a cineasta se expõe no filme, acha desnecessário para a narrativa e o tema suas aparições diante da câmera, quase como se fosse mais importante do que os próprios catadores. 

Nesta sequência, o filme apresenta mais uma reflexão do trabalho de documentar, no caso de Agnès Varda sem medo de se expor, tanto atrás como diante das câmeras. É um documento pessoal de quem observa, participa, reflete e tece críticas, às vezes sobre seu próprio trabalho. 

Os catadores e eu: dois anos depois (Les glaneurs et la glaneuse… deux ans après, França, 2002), de Agnès Varda.