
A iluminação expressionista impede que o espectador enxergue com clareza os casebres paupérrimos da vila. O menino Pedro chega ao barraco de madeira caindo aos pedaços onde dorme. Jaibo, um pouco mais velho, o espera. Mesmo sem enxergar na plenitude, o espectador sente a crueldade do que ocorre entre os dois. Jaibo cruza o bairro e, quando chega no armazém abandonado onde dorme, dois policiais o esperam. O adolescente corre e é atingido a tiros pelas costas. Ao ouvir os tiros, o cego grita: “ Um a menos. Um a menos. Eles acabarão com todos. Eles precisam matar todos antes do nascimento.”
Meche e seu avô encontram o cadáver de Pedro. Com medo de serem acusados pelo crime, eles colocam o corpo do menino em um saco de lixo O transporte é feito no lombo de um burro. Quando chegam no alto de um pequeno morro, o avô joga o corpo de Pedro que desce rolando em meio ao lixo e à podridão que ali imperam.
Os esquecidos (Los olvidados, México, 1950) foi o terceiro filme dirigido por Luís Buñuel no México. Os esquecidos citados no título são crianças e adolescentes de um bairro miserável da Cidade do México. Jaibo é o líder de uma gangue de meninos, da qual também faz parte Pedro. O grupo sobrevive de delitos praticados nas ruas da cidade, alguns cercados por violência – atenção para o espancamento praticado por eles contra um homem inválido.
“Como em toda obra de Buñuel, o objetivo é atingir a burguesia, transformada em classe média. Por isso, o espectador, morador da cidade, acostumado a fechar os olhos para a miséria que o cerca, assusta-se com a violência visceral que emerge a todo instante, nas situações mais inesperadas.” – Erika Savernini.
Buñuel se baseou em personagens reais, após suas andanças pelas periferias marginalizadas da cidade. O estilo documental domina a narrativa, com filmagens em locações e uso de elenco não profissional. É a aproximação do diretor ao neorrealismo italiano, movimento que criticara: “A realidade neorrealista é parcial, oficial, acima de tudo sensata, mas faltam nela poesia e mistério.”
A poesia referida, base do cinema surrealista do diretor, se revela nos sonhos, pesadelos dos protagonistas. “Um dos críticos do neorrealismo italiano, Buñuel exigia que o conceito de realismo fosse expandido para incluir elementos essenciais, como o sonho, a poesia e irracionalidade – representados pelo pesadelo de Pedro, no qual um emaranhado de culpa e desejos é deslindado na imagem sensacional de uma peça de carne crua oferecida pela mão do garoto faminto, e pela visão que se apresenta a Jaibo agonizante, na qual o anjo da morte surge como um cão sarnento que o conduz por uma estrada longa e sombria.”
A chocante sequência final, que impede Pedro de seguir em seu processo de abandono do crime, foi um dos motivos das severas críticas que o filme recebeu no México. O filme não deixa margens para o otimismo, para a possibilidade da construção de uma sociedade mais justa, como comprova a realidade das periferias das metrópoles onde ainda vivemos. A visão de Buñuel é ácida e sem compaixão.
“A sequência da morte de Jaibo revela a voz do cineasta por trás da trama documental, registrando sua ligação com os párias que suas personagens representam. Caído no chão, Jaibo agoniza. Fundida ao plano aproximado do seu rost, vê-se a imagem de um cachorro andando por ruas molhadas. Em off, ouve-se o diálogo delirante de Jaibo e uma mulher (sua mãe). Voz de Jaibo: Ya caigo en el agujero negro… Estoy solo… solo… A mulher replica: Como siempre, mi hijito, como siempre… Duérmete, duérmete. Jaibo: Estou solo… El perro sarnoso! Estou solo … solo … Na sequência seguinte, a mãe de Pedro inadvertidamente passa por Meche e seu avô, que carregam o corpo do seu filho sobre o burro. Pedro, que tentara se regenerar, assim como o tentara Julian, tem seu corpo lançado em uma encosta íngreme, como um saco de lixo.” – Erika Savernini
Referências:
1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004















