Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska.
Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde.
Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação.
No início dos anos 70, Hayao Miyazaki trabalhou em uma série de projetos de animação para a televisão, conciliando os projetos com suas intensas publicações de mangás. O curta-metragem O sol de Yuki foi realizado como um episódio piloto para um desses projetos, no entanto, a série não foi produzida. O curta ficou praticamente esquecido durante décadas, mas no início do século XXI foi resgatado e apontado como um precursor temático e estilístico da carreira de Miyazaki no Studio Ghibli.
A recém-nascida Yuki é abandonada na porta de um orfanato, em Hokkaido. Cresce com um espírito rebelde, livre, se divertindo em meio a natureza, até que é adotada por uma família rica. A partir daí, sua vida se torna uma aventura em busca de seus pais biológicos.
Com apenas cinco minutos de duração, a marca do mestre japonês se mostra: “Os trabalhos de Miyazaki são caracterizados pela recorrência de diversos temas, como a relação da humanidade com a natureza e a tecnologia, a preservação de padrões de vida naturais e tradicionais, a importância da arte e da perícia, e a dificuldade de manter uma ética pacifista em um mundo violento. Suas protagonistas são frequentemente meninas ou jovens mulheres fortes, com muitos de seus trabalhos apresentando antagonistas ambíguos, que possuem qualidades redentoras.” – Studio Ghibli Brasil.
Sophie é uma menina que trabalha em uma chapelaria. A Bruxa das Terras Devastadas entra na loja e lança uma maldição sobre Sophie: no dia seguinte, ela acorda como uma senhora de 90 anos. Em sua jornada para tentar quebrar o feitiço, em meio a dois reinos em guerra, a velha Sophie descobre um mundo fantástico, cruzando com personagens surreais: o espantalho Cabeça de Nabo que a segue aos pulos; a assustadora feiticeira Suliman; o jovem Markl; o mago Howl, que se transforma, como uma espécie de O médico e o monstro; e Calcifer, labaredas de fogo que move o grande trunfo da animação: O castelo animado.
“O Castelo Animado é algo inacreditável, uma daquelas criações audiovisuais que eu poderia ficar observando os detalhes por horas e horas a fio sem me cansar. Misturando estruturas de castelo, casa, aparências de seres biológicos e mais uma infinidade de partes móveis em um simulacro steampunk que maravilhosamente colide e combina com os cenários citadinos no estilo europeu do começo do século XX, o grande artifício chamativo do longa é um delicioso e triunfal Frankenstein tecnomágico de se tirar o chapéu.” – Ritter Fan (Plano Crítico).
Miyasaki usou como base o livro de fantasia homônimo de Diana Wynne Jones para construir uma trama antibelicista, uma forma de protesto contra a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. O diretor esperava que o filme fosse mal recebido nos EUA, mas acabou sendo indicado ao Oscar de Melhor Animação.
Túmulo dos vagalumes (Japão, 1988), de Isao Takahata, é um dos animes mais tristes do Studio Ghibli. O filme é adaptado do conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que perdeu sua irmã durante a Segunda Guerra Mundial. O diretor Takahata, co-fundador do estúdio, também sofreu com os horrores da guerra, sobrevivendo a um bombardeio durante a infância.
Os irmãos Seita e Setsuko tentam sobreviver aos últimos meses da guerra, quando o Japão sofre bombardeios constantes. A mãe morre em um desses ataques, o pai está lutando na guerra e os irmãos se refugiam nos arredores da cidade de Kobe. Lutam contra o abandono, a falta de moradia, a fome e a ameaça constante da morte. A poesia visual marca a narrativa, com cenas noturnas iluminadas pelos vagalumes, quando fantasmas observam a tragédia que acompanha o cotidiano de Seita e Setsuko em sua jornada pela sobrevivência.
A temática que salta aos olhos é a negligência do governo e da própria sociedade, deixando as crianças abandonadas nas ruas, a ponto de roubar alimentos (e serem punidas). Túmulo dos vagalumes é de estraçalhar o coração.
Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz.
No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”
O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.
Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.
Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz.
A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos.
A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.
Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.
Los huesos (Chile, 2021), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.
No início do século XX, uma jovem invoca a ajuda de espíritos para trazer dois cadáveres de volta à vida. Os ressucitados são Diego Portales, um dos responsáveis pela constituição de 1833 que consolidou o Chile como uma república autoritária, privilegiando as altas classes sociais; e Jaime Guzmán, conselheiro político próximo do ditador Augusto Pinochet. A narrativa mescla humor negro, com fortes críticas políticas e sociais sobre a história e a realidade atual do Chile.
Segundo os realizadores, a ideia do filme partiu como uma crítica às crises sociais chilenas, evoluindo para um filme de animação farsesco, colocando o Chile como um dos inventores da animação em stop motion.
“Um dos pontos de partida foi que estávamos no meio de uma revolta social no Chile em 2019. Chamamos isso de “Estallido Social”, que significa explosão social. Herdamos o sistema político de uma ditadura. A diferença entre pobres e ricos é grande. É um sistema muito injusto. Então, esse foi o contexto em que começamos a pensar sobre esta produção. Pegamos duas figuras da história chilena, uma do século XIX e outra do século XX. Ambas eram defensoras da oligarquia. Queríamos nos livrar desses líderes de alguma forma e libertar o Chile dessa opressão. Não que estejamos nos levando tão a sério. Não é como se achássemos que nosso filme fosse mudar alguma coisa.” – Cristóbal León
Joaquin Cocina comenta que o outro contexto era a história do cinema, principalmente o primeiro cinema, referenciado por Georges Méliès e os Irmãos Lumiére: “Precisamos criar uma mente criativa falsa por trás do filme que não seja a nossa. Isso nos dá mais liberdade e distanciamento. Também nos interessamos pelo cinema antigo. No início do século XX, havia uma criatividade incrível. Havia Georges Méliès, um mágico que fazia filmes de fantasia; depois, havia uma abordagem mais documental, dos irmãos Lumière. Duas correntes diferentes. Estamos tentando abordar projetos pensando naqueles primeiros anos. Com Los Huesos, a ideia é muito crua. Estamos fingindo que estamos criando o primeiro filme de animação. Achamos engraçado imaginar que o Chile foi o berço da animação. Depois, pensamos nos primeiros filmes de [Ladislas] Starewicz, feitos com cadáveres de animais e insetos. Achamos lindos. Então, imaginamos que estávamos animando cadáveres no início do século XXI. Achamos isso engraçado.”
O resultado é um filme deslumbrante, com estética do cinema mudo, remetendo às primeiras experimentações na área da animação. “Nós animamos apenas na câmera. Não usamos nenhum software. Eu adoro aquela sala escura da câmera, onde você nunca sabe como vai ficar. Uma câmera de 16 mm é radical porque você não sabe o que está acontecendo. Gostamos de acidentes, de trazer erros para o processo. Eu gostava do mistério de não saber o que sairia da câmera. Também evitamos apressar os cortes. No cinema antigo, as cenas eram mais longas e muitas vezes se prolongavam.” – Acesse a entrevista completa dos realizadores em Cartoon Brew.
Hermína Týrlová, aclamada diretora alemã de animação, dirige em parceria essa pequena obra-prima, uma manifesto contra o nazismo e o fascismo. Um fabricante de brinquedos de madeira está trabalhando em sua oficina quando se vê ameaçado por um oficial da Gestado. Ele foge pela janela, o policial invade a oficina e começa a vasculhar o ambiente, tentando destruir os brinquedos.
Os brinquedos ganham vida e fazem uma resistência coletiva contra o oficial, usando de inventividade, com recursos criativos de guerrilha, bem ao estilo da resistência tcheca durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Revolução na terra dos brinquedos, de certa forma, é o antecessor de Toy Story, colocando o universo da fantasia contra os horrores do nazismo.
Revolução na terra dos brinquedos (República Tcheca, 1946), de Hermína Týrlová e Šádek František.
Sombras e pinturas que se formam nas paredes de uma casa. Porquinhos que viram crianças. Uma jovem que transita pelos meandros da escuridão, ouvindo a voz do lobo do lado de fora. Ecos de um passado aterrorizante, referências ao horror nazista e ao terror do regime de Pinochet.
A casa lobo, dos chilenos Cristóbal León e Joaquín Cociña, é essa adorável e assustadora animação, misturando técnicas de stop motion e jatos nas paredes. É a história de Maria, uma jovem que foge de uma colônia alemã e se refugia em uma casa abandonada. Seus companheiros são dois porquinhos e a ameaçadora voz do lobo. A releitura dos contos de fada ganha uma estética gótica, trazendo à vida os espectros mais sombrios de nossa imaginação.
A casa lobo (La casa lobo, Chile, 2018), de Cristóbal León e Joaquín Cociña.
A obra cult de René Laloux usa a fascinante animação de recortes, criada por Roland Topor , e uma fascinante trilha sonora de jazz psicodélico. A narrativa se passa no planeta Ygam, habitado pelos gigantes Draags, cuja pele tem coloração azul. Os Draags vivem em processo de meditação constante, mas, apesar deste avanço psicológico, têm seu lado cruel: eles escravizam humanos, adotando-os como animais de estimação. No entanto, humanos “selvagens”, que vivem escondidos, planejam uma rebelião.
Planeta fantástico segue uma tendência narrativa comum a partir do final dos anos 60, iniciada com o clássico Planeta dos macacos: os humanos é que são tratados como animais, como escravos. Logo na primeira sequência da animação, a crítica severa dá o tom da narrativa: um grupo de crianças Draags mata, como uma brincadeira, uma humana que foge com seu bebê nos braços. Esse menino, narrador da história, será o líder da rebelião.
Planeta Fantástico (La Planète Sauvage, França, 1973), de René Laloux.
Kabul, 2001. O Talibã tomou o poder no Afeganistão e implantou suas extremistas formas de controle. A pré-adolescente Parvana é filha de um professor e de uma escritora, ambos impedidos de trabalhar. Ela acompanha seu pai à feira, onde vendem produtos caseiros. Idress, um jovem que foi aluno do professor, impõe violentamente que Parvana vá para casa e, depois, denuncie o professor. Ele é preso arbitrariamente e sua família, composta pela mulher, outra filha e um menino ainda bebê, não tem mais condições de sequer se alimentar: no regime Talibã, mulheres não podem sair às ruas sem a companhia de um homem, mesmo para comprar comida.
A narrativa de A ganha pão (a animação foi produzida por Angelina Jolie) mescla realismo e fantasia. A alternativa de sobrevivência da família vem de Parvana: ela corta seus longos cabelos, se veste de menino e sai todos os dias para trabalhar, junto com uma amiga da escola, que também se finge de menino. Diante da violência, da inacreditável crueldade dos membros do regime – praticadas até mesmo por jovens como elas -, Parvana conta histórias de um mundo de fantasia, onde um jovem, Suleyman, luta contra seres endiabrados.
A triste sequência final, quando as mulheres da família de Parvana enfrentam seus piores pesadelos nas estradas tomadas pela guerra, aponta uma esperança. Sentimento ilusório como demonstrou a recente retomada do poder pelo regime Talibã no Afeganistão.
A ganha pão (The breadwinner, Irlanda/Canadá, 2017), de Nora Twomey.
É a primeira animação do lendário Miyazaki, realizada antes da fundação do também lendário Studio Ghibli. A trama é baseada no mangá Lupin III, de Monkey Punch, que Miyazaki já havia adaptado como série de TV. O assaltante Arsene Lupin III rouba notas falsificadas em um cassino em Monte Carlo. Junto com seu fiel aliado Jigen, Lupin parte para o Castelo Cagliostro, pequeno reino onde as notas falsificadas são produzidas. A narrativa envolve desejo de vingança, mas muda de rumo quando Lupin conhece Clarisse, jovem destinada a se casar com o malévolo Conde do castelo.
O castelo Cagliostro é uma divertida história com tons medievais das belas princesas que habitam castelos, transitando pelas narrativas de máfias e gangsteres do século XX, ou seja, uma mistura de tons narrativos bem ao estilo de Miyasaki. A animação é repleta de ação, entremeadas por tiroteios, duelos de samurais e lutas corporais. Logo em seu primeiro longa-metragem, Miyazaki provocou furor no universo da animação, anunciando o que viria na sequência: uma sucessão de clássicos criados e dirigidos pelo mestre dos mestres da animação.
O castelo Cagliostro (Japão, 1979), de Hayao Miyazaki.
A jovem Umi Matsuzaki vive em uma pensão no alto da Colina Kokuriko. Logo de manhã, ela avista um barco de pesca no canal abaixo, trocando olhares com o também jovem Shun Kazama, tripulante do barco. O destino dos dois está selado, pois se encontram na escola de ensino médio, onde estudam. O introspectivo Shun lidera um grupo de estudantes que habita após as aulas um prédio abandonado, nos arredores da escola, o Quartier Latin. O interior do velho prédio reflete o comportamento dos estudantes: espaços caóticos, repletos de livros, experimentos e outras quinquilharias. Quando a direção da escola anuncia a demolição do prédio, Umi e suas amigas se juntam aos outros estudantes para limpar e lutar pela preservação do Quartier Latin.
Da Colina Kokuriko é a imersão de Goro Miyazaki – o roteiro do filme é escrito por seu pai, Hayo, pela história moderna do Japão. A trama acontece em 1963, às vésperas das Olimpíadas de Tóquio, quando diversas construções estavam sendo demolidas para dar lugar a espaços modernos, simbolizando a nova Tóquio das Olímpiadas.
A singela história de amor entre Umi e Shun traz belíssimas cenas movidas simplesmente ao olhar, aos gestos sutis, ao espaço cênico dos prédios da escola, da pensão onde a jovem mora, do mar. O conflito entre o velho que precisa ceder seu lugar ao novo é abordado de forma bela e poética nas nuances do relacionamento entre os dois estudantes. Eles tentam manter aquilo que é mais importante: a necessidade perene de lutar pela conservação da beleza, seja de que tempo for.
Da Colina Kokuriko (Japão, 2011), de Goro Miyazaki.
Anna tem 12 anos, é tímida e sofre de asma. Para melhorar a saúde, ela é enviada para uma temporada à beira-mar, na casa de seus tios. Ela passa os dias passeando sozinha pela praia e pelos campos ao redor, buscando inspiração para seus desenhos. Em um desses passeios, conhece a misteriosa Marnie, com quem desenvolve uma amizade que, aos poucos, sugere enigmas do passado e até mesmo uma espécie de ludicidade mágica.
As memórias de Marnie é baseado no romance When Marnie Was There (2014), escrito por Joan G. Robinson. É o último filme do Studio Ghibli antes da reestruturação da empresa, com a saída dos principais animadores do estúdio. A trama remete a memórias da infância que se confundem entre a imaginação e a realidade. O passeio de Anna e Marnie pela praia, pelos campos, a descoberta de um moinho abandonado, imagens que remetem a fragmentos de memórias ou sonhos.
As memórias de Marnie (Japão, 2014), de Hiromasa Yonebayashi.
As imagens são fortes. Homens, mulheres e crianças enfileirados no quintal de uma casa são fuzilados por milicianos libaneses. Escombros escondem corpos mutilados, fogos disparados para o céu de Beirute ajudam a iluminar a noite, facilitando as incursões assassinas dos libaneses por Sabra e Chatila, bairros que serviam como campos de refugiados palestinos. Nos telhados de Beirute, a poucos metros de distância, o exército israelense assiste impassível ao massacre.
É a base da história de Valsa com Bashir. O diretor Ari Folman compôs o filme em caráter biográfico. Folman era soldado do exército israelense e participou da invasão do Líbano no início da década de 80. Seu alter-ego não consegue se lembrar dos acontecimentos em Sabra e Chatila. Mais de vinte anos depois, recorre a ex-combatentes e sobreviventes do massacre para tentar resgatar a memória e se livrar da culpa.
A reconstituição dos fatos é feita primeiro com testemunhas oculares, em forma de depoimentos. As entrevistas são posteriormente animadas no computador, técnica que ganha cada vez mais espaço no cinema contemporâneo, a exemplo de filmes de Richard Linklater e Robert Zemeckis. Mas são as cenas guardadas na memória dos personagens que impressionam: pesadelos surreais, imagens brutais de combates se alternam com passagens líricas, como um soldado dançando uma valsa sozinho no meio de um tiroteio com as imagens do presidente Bashir ao fundo. Em alguns momentos, as cores ofuscam a vista, em outros se transformam num frio contraponto entre amarelo e preto, até o dramático e chocante final, quando o filme ganha uma nova dimensão.
Valsa com Bashir é a composição de memórias que ficariam melhor escondidas. Quando vêm à tona, revelam a crueldade inimaginável de atos criminosos praticados durante as guerras. Filmes assim deveriam servir de exemplo para a construção de um novo tempo, em paz, um mundo em fraternidade religiosa, étnica, civil. Deveriam.
Valsa com Bashir (Vals im Bashir, Israel, 2008), de Ari Folman.
O animador japonês Hayao Miyazaki surpreende o mundo a cada filme que lança. A viagem de Chihiro é sua obra-prima. A pequena Chihiro está em viagem de carro com seus pais. A família se perde na estrada e entra em um parque temático abandonado. Tudo parece deserto, como cidade fantasma. No entanto, os pais encontram refeitório com farta comida. Eles não conseguem resistir, comem até se empanturrarem e, diante dos olhos incrédulos da menina, se transformam em porcos. Cai a noite e espíritos dominam o local, levando Chihiro para uma viagem mágica, perigosa. Nesta viagem, repleta de desafios, Chihiro é guiada por um espírito bom, que ora é menino, ora é dragão.
“A viagem de Chihiro é, de certa maneira, a versão de Miyazaki para Alice no país das maravilhas. As cenas desenhadas à mão pelo diretor e roteirista explodem com energia e inventividade e Miyazaki tira partido da fantástica história para criar dezenas de inimitáveis espíritos e criaturas que vagam por este mundo de regras incompreensíveis e lógica impenetrável. Bebês gigantes fazem pirraça de forma destrutiva. Espíritos maus dão ouro de presente antes de devorar tudo à sua volta. Personagens mudam de forma (e às vezes até de personalidade) sem avisar. Um deles aparece por vezes como menino, dragão e então como espírito do rio. Chihiro demonstra inicialmente perplexidade diante de tais criaturas, mas depois reage com coragem. Logo compreende que precisa se situar nesse estranho mundo para manter as esperanças de voltar para casa. E, assim como os espíritos que ela encontra mudam sua visão sobre a vida, ela também influencia seus comportamento. É uma estranha numa terra estranha, onde os moradores a consideram a mais estranha de todas as criaturas.”
A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, Japão, 2001), de Hayao Miyazaki.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
A animação comprova que é possível ser original no clicherizado universo dos filmes de super heróis. A trama reúne seis versões do Homem-Aranha vindos de outras dimensões. O protagonista é Miles, garoto negro que vive em conflito com o pai policial e idolatra o tio grafiteiro. Durante uma incursão aos metrôs com o tio para grafitar, Miles é picado por aranha radioativa. Um portal é aberto e juntam-se a Miles as outras encarnações do Aranha: um Peter Parker barrigudo e desiludido, separado da mulher; a Mulher-Aranha Gwen Stacy, o Homem-Aranha noir, um incrível Porco-Aranha e Peni Parker, Garota-Aranha.
Bom humor e reviravoltas dominam a trama. Os aracnídeos combatem o Rei do Crime e devem resolver o problema do portal para que cada um volte à sua dimensão de origem. Além de diversão garantida, a animação toca em questões filosóficas e existenciais envolvendo os personagens da infância à maturidade.
Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: into the spider verse, EUA, 2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothmann.
A família Pêra está lutando nas ruas da cidade contra o poderoso Escavador. A destruição é generalizada e no final da batalha os super heróis são proibidos por lei de usar seus poderes e ficam enclausurados em casa. Entra em cena o milionário Winston Deavor e sua irmã Evelyn com uma proposta: Helena Pêra se juntar a ele e seus artefatos tecnológicos em batalha contra o crime. A ideia é resgatar a legião de super heróis. O problema é que, no primeiro momento, Roberto não pode participar das ações. Ele fica em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher se transforma em celebridade, heroína no combate aos criminosos.
A animação continua com o tom ácido de crítica ao universo dos super heróis. A novidade é o controle nas mãos de Helena, enquanto Roberto sofre com as agruras do trabalho no lar. O ponto forte acontece quando o bebê Zezé revela também ser dotado de poderes e protagoniza situações hilárias. Ação frenética e bom humor, receita garantida no universo da animação digital.
Os incríveis 2 (Incredibles 2, EUA, 2018), de Brad Bird.
Wes Anderson toca fundo em questões ambientais e políticas, colocando em evidência temas como totalitarismo, corrupção, lixo tóxico, extermínio de etnias. O cenário é o Japão 20 anos no futuro. Para combater surto de febre entre os cachorros, o prefeito da cidade envia todos os cachorros para uma ilha lixão. Nessa espécie de presídio terminal, os cães formam gangues e duelam entre si por alimento.
Spot, cão de guarda do jovem Atari (sobrinho do prefeito) chega a ilha e se reúne ao bando de Chief. Pouco depois, Atari também desembarca na ilha em busca de seu adorado cachorro. A animação em stop-motion rendeu a Wes Anderson o Urso de Prata de melhor diretor no Festival de Berlim.
A animação, Inspirada no romance de Gilles Paris “Autobiographie D’Une Courgette”, usa a fascinante técnica do stop-motion de massinhas para contar uma história adulta ambientada no universo infantil. O garoto Ícaro (Abobrinha) sofre com os castigos impostos pela mãe alcoólatra. Um dia, escondido no sótão da casa para fugir de uma possível sova, provoca um acidente que resulta na morte da mãe.
Abobrinha é encaminhado para um orfanato onde passa a conviver com outras crianças, todas abandonadas pelas famílias por diversos motivos: uso de drogas por parte dos pais, deportação de uma mãe africana e até um pai que mata a mãe de uma das internas e depois se mata.
O mérito da animação é colocar isto de forma simples, tudo visto pelos olhos das crianças que desenvolvem uma união dentro do orfanato enquanto sofrem solitárias, cada uma à sua maneira. Minha vida de Abobrinha não apresenta as tradicionais viradas na trama, a curta história, cerca de uma hora de duração, é um retrato sensível destas crianças que, mesmo abandonadas, buscam o sentido alegre e infantil da vida.
Minha vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette, França/Suíça, 2016), de Claude Barras.