Merry-go-round

O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos. 

A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.

Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley). 

Documenteur

Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade. 

A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda. 

Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).

De repente, num domingo

De repente, num domingo é o 21° primeiro e último filme de François Truffaut. É uma adaptação do romance The long saturday night, de Charles Williams, autor com quem Truffaut flertava desde os anos 60. A ideia do diretor foi fazer um filme mais leve, despretensioso, um romance ambientado durante uma série de crimes que acontecem envolvendo o protagonista, Julien Vercel. Primeiro, ele é o principal suspeito de matar o amante de sua esposa, durante um dia de caça no lago. Depois, de assassinar a própria esposa, em sua casa. 

A secretária de Julien, Bárbara, assume as investigações do crime, disposta a inocentar seu chefe, por quem nutre uma paixão secreta. A narrativa assume o tom dos filmes policiais noir, gênero que Truffaut já experimentara em quatro filmes: Atirem no pianista, A noiva estava de preto, A sereia do Mississipi e Uma jovem tão bela como eu. 

A escolha pelo preto e branco partiu naturalmente, com Nestor Almendros assumindo a responsabilidade de recriar através da fotografia todo o ambiente dos bons filmes noir. Almendros se disse surpreendido ainda por um pedido de Truffaut: filmar rapidamente (em sete semanas) para que a obra ficasse parecida com um filme B. Outra escolha condizente com o gênero noir foi situar a narrativa quase toda à noite e com chuva. Vale destacar ainda uma das grandes marcas do cinema do diretor francês: a narrativa ser conduzida pela protagonista.  

“Quando escrevo um roteiro, as coisas se encaixam assim. A ação pertence às mulheres. Pode ser errado, no absoluto, mas assim vejo as coisas.” – François Truffaut. 

Sobre a leveza do filme, um policial sem grandes pretensões, até mesmo com incoerências nas soluções dos crimes, Truffaut escreveu: “É um filme para sábado à noite, concebido para entreter, sem segundas intenções.”

De repente, num domingo (Vivement dimanche!, França, 1983), de François Truffaut. Com Jean-Louis Trintignant (Julien Vercel), Fanny Ardant (Barbara Becker).

Melô

O casal Pierre e Romaine recebem Marcel, um famoso violinista, para jantar. Em certo momento, Marcel relembra uma triste história de amor de seu passado. Romaine ouve a narração fascinada. No dia seguinte, ela vai a casa de Marcel, os dois tocam juntos uma sonata – é o início de um relacionamento amoroso que mudará o destino, de forma trágica, dos três amigos. 

Melô é uma adaptação fiel da peça de Henri Bernstein. Alain Resnais filma longos planos estáticos, centrados nos protagonistas, evita a interpretação naturalista e usa como elemento de transição as cortinas cerradas de um teatro. A experimentação de Resnais, teatro mais do que cinema, potencializa a força do texto, os belos diálogos e a música, elemento que direciona os rumos do trágico triângulo amoroso. 

Melô (França, 1986), de Alain Resnais. Com Sabine Azéma (Romaine), Fanny Ardant (Christiane), Pierre Arditi (Pierre), André Dussollier (Marcel). 

Você tem belas escadarias, sabia?

Em apenas quatro minutos, Agnès Varda faz uma bela homenagem à história do cinema. O curta usa as escadas da Cinemateca Francesa que conduzem ao Museu do Cinema. A montagem alternada intercala pessoas descendo as escadas com cenas de diversas obras filmadas em escadas. É uma sucessão de imagens que remetem à história do cinema, filmes que marcaram gerações, o fascínio irrompe em cada take. 

O curta-metragem celebrou os 50 anos da Cinemateca Francesa e, por coincidência, a escadaria tem exatamente 50 degraus. Agnès Varda recortou cenas dos seguintes filmes: Juve contre fantômas – Louis Feuillade, Pépé le moko – Julien Duvivier, O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, A imperatriz vermelha – Josef von Sternberg, Cidadão Kane – Orson Welles, Ran – Akira Kurosawa, Le coup du parapluie – Gérard Oury, O desprezo – Jean-Luc Godard, Modelos – Charles Vidor, A história de Adele H – François Truffaut. 

Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986), de Agnès Varda. 

Diva: paixão perigosa

No início dos anos 80, jovens cineastas franceses realizaram alguns filmes que foram classificados, pejorativamente a princípio, como Cinéma du Look. A expressão foi cunhada pelo crítico Raphael Bassan, analisando que os filmes priorizavam o estilo em detrimento do conteúdo. Os principais expoentes dessa espécie de movimento transitório foram Jean-Jacques Beineix (Diva), Luc Besson (Metrô) e Leo Carax (Garoto conhece garota). 

Diva é o primeiro filme a apresentar as principais características do movimento. A trama acompanha o carteiro Jules, fascinado pela cantora lírica Cynthia Hawkins. Ela se recusa a gravar discos, mas Jules faz uma gravação clandestina durante um show que circula em versões piratas. Um assassinato de uma garota de programa nas ruas de Paris coloca Jules em confronto direto com uma gangue de tráfico de mulheres chefiada pelo comissário de polícia (antes de morrer, a vítima esconde uma fita cassete com revelações na moto do jovem carteiro).

O visual extravagante da película é responsável por ambientações deslumbrantes, como a garagem onde Jules mora e o reduto dos marginais Serge e Abba. A pop art está presente em grande parte da narrativa, acompanhando os personagens pelas ruas e metrôs da cidade. Preste atenção na ousada sequência de perseguição: um policial persegue Jules, primeiro pelas ruas da cidade, depois pelas estações do metrô, uma elaborada combinação de movimentos incluindo carro, moto e corridas a pé. Outro ponto de destaque da narrativa é a caricatural dupla de assassinos, sempre de óculos escuros e cigarros nas mães, exalando um charme artificial. 

Diva: paixão perigosa (Diva, França, 1981), de Jean-Jacques Beineix. Com Frédéric Andréi (Jules), Wihelmenia Fernandez (Cynthia Hawkins), Richard Bohringer (Serge), Thuy An Luu (Abba), Jacques Fabbri (Comissário Jean).

Bagdad Café

A canção I’m calling you já vale o filme. Ela entra no espectador e fica, apenas fica. No entanto, o filme tem muito mais. É uma emocionante história de perda e renascimento pessoal, movida pela relações pessoais entre duas mulheres que começam com estranheza, beiram a agressividade, passam pela compreensão até se transformarem na mais sincera amizade. 

A alemã Marianne está de férias com seu marido nos EUA. Eles se desentendem e ele a abandona em uma estrada deserta e árida. Ela caminha por um longo tempo até encontrar o Bagdad Café, restaurante e pousada de beira de estrada. É recebida pela proprietária Brenda, se hospeda e vai ficando por ali. 

Os tipos que moram e trabalham no Bagdad Café compõem um painel de personagens excêntricos, exóticos, que passam os dias entre desentendimentos e reconciliações. A transformação de Marianne começa quando ela decide organizar o local, ajudando Brenda primeiro na limpeza, depois no atendimento aos clientes, oferecendo divertidas apresentações de mágica. O que fica, no final, além da música, é essa simplicidade da vida que pode e deve ser sentida dia-a-dia através das ternas relações entre as pessoas. 

Bagdad Café (Out of Rosenheim, Alemanha, 1987), de Percy Adlon. Com Marianne Sagebrecht (Jasmin), CCH Pounder (Brenda), Jack Palance (Rudi Cox), Christine Kaufmann (Debby), Monica Calhoun (Phyllis), Darron Flagg (Salomo), George Aguilar (Cahuenga), G. Smokey Campbell (Sal). 

Dirigido por Andrei Tarkovski

O documentário foi realizado durante as filmagens de O sacrifício (1986), na Suécia. É um retrato fascinante do processo de criação e realização de um dos diretores mais autorais, intimistas, do cinema. As cenas mostram Tarkovski envolvido em todas as etapas da produção: discutindo aspectos da direção de arte, do cenário, conversando com os atores, às vezes, simulando ele mesmo cenas para expressar seu desejo na interpretação. 

As sequências das filmagens são intercaladas com depoimentos de Larissa Tarkovskaja, esposa do diretor, que lê trechos do diário do marido, de conversas do diretor em palestras que proferiu, de suas reflexões sobre o cinema e a vida, deixando claro que nos filmes do cineasta russo não existe separação entre a arte e sua vida.

“Você pergunta que relacionamento ele tinha com a casa dele. A casa era muito importante para ele. E, como  pôde ver, ele colocou nossa casa em cada um de seus filmes. O interior, a sensação, a alma de nossa casa. Não exatamente como uma fotografia. Afinal de contas, isto é arte. Ele usou outras formas e outros personagens além de nós. Mesmo assim, sua vida e sua casa estão presentes em cada filme. Sentimos muita falta de nossa casa durante os cinco anos que ficamos no ocidente. Esta foi nossa primeira casa e ele a adorava e trabalhava muito bem lá. Ele costumava desenhar sempre a casa. Ele escreveu. Estou descansando aqui há três dias, mas sinto que recuperei um ano inteiro. Agora, posso trabalhar. Mas onde há trabalho a ser feito? Em ‘O sacrifício’ ele contou a história de como encontramos a casa. Foi exatamente como o homem contou ao seu filho que, na verdade, é nosso filho mais novo, Andryushka.” – Larissa Tarkovskaja

Um dos grandes destaques do documentário é o conflito que aconteceu após as filmagens da sequência final, o incêndio da casa do protagonista. Preparativos meticulosos foram necessários, pois a casa/cenário foi realmente incendiada para ser gravada em um longo plano-sequência. No entanto, a câmera travou por alguns segundos durante a filmagem. Tarkovski não admitiu editar a sequência, ameaçando, inclusive, que o filme não seria lançado caso não fosse possível repetir a filmagem. A equipe conseguiu financiamento para reconstruir a casa e o diretor de fotografia Sven Nykvist resolveu usar duas câmeras, em dois trilhos, um mais elevado do que outro, como segurança. Tudo deu certo, as imagens mostram a equipe exultante e um Tarkovski pleno de emoções indefiníveis após a palavra “corta”.  

O final, emocionante, mostra Tarkovski durante o processo de tratamento do câncer que o mataria, poucos meses após as conclusões de O sacrifício, já acamado, discutindo com a equipe aspectos de pós-produção do filme, como o tratamento de cor. Com certeza, Dirigido por Tarkovski é um dos melhores documentários sobre o cinema já realizados. 

Dirigido por Andrei Tarkovski (Regi: Andrei Tarkovski, Suécia, 1988), de Michal Leszczylowski.

Pauline na praia

Marion está em processo de separação. Ela viaja de férias para uma praia na Normandia, junto com a sobrinha Pauline, de 15 anos. A estada das duas é marcada por relacionamentos amorosos que se confundem: o surfista Pierre tem uma antiga paixão por Marion; Marion se envolve com Henri, um notório sedutor; Pauline começa um relacionamento com o jovem Sylvain, mas é assediada por Henri; Henri se envolve com a vendedora Rosette, que acaba complicando o namoro de Sylvain…

Da série Comédias e provérbios (Quem muito fala, prejudica a si mesmo) essa espécie de ciranda de relacionamentos tem a marca de Éric Rohmer. As levezas dos belos corpos ao sol e dos romances nas camas são tratados de forma natural, mesmo quando entram em terrenos perigosos, como o fascínio que Pauline exerce sobre os homens mais velhos. O portão da casa de praia que se abre no início e se fecha no final demarca a natureza desses encontros, desses embates amorosos: coisas do verão. 

Pauline na praia (Pauline à la plage, França, 1983), de Éric Rohmer. Com Amanda Langlet (Pauline), Arielle Dombasle (Marion), Pascal Greggory (Pierre), Féodor Atkine (Henri), Simon de La Brosse (Sylvain), Rosette (Louisette). 

As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle

Mirabelle está passeando no campo e conhece Reinette, moradora da região. As duas passam uma noite na casa de Mirabelle e resolvem alugar um apartamento juntas em Paris. As quatro aventuras do título são narradas em episódios. No primeiro, Reinette tenta mostrar a Mirabelle a encantadora hora azul, quando por alguns segundos na madrugada o silêncio toma conta da paisagem campestre. Os três outros episódios acontecem em Paris. 

Reinette tem um confronto com um garçom de um mau humor hilário. As jovens amigas, em andanças por Paris, se deparam com um mendigo, uma pedinte de dinheiro na estação de metrô, e uma cleptomaníaca que rouba alimentos de um supermercado. Por fim, a história mais engraçada e cativante: Reinette, com a ajuda de Mirabelle, tenta vender um de seus quadros a um marchand, dono de uma pequena galeria de arte. 

O humor dita o tom das narrativas nas quatro aventuras. Mirabelle e Reinette se cruzam com uma galeria de personagens bem ao estilo Rohmer, motivando reflexões e diálogos sobre esse fascinante cotidiano dos jovens. 

As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle (4 aventures de Reinette et Mirabelle, França, 1987), de Éric Rohmer. Com Joelle Miguel (Reinette), Jessica Forde (Mirabelle), Fabrice Luchini (Marchand).