Toda uma noite (Toute une nuit, França, 1982), de Chantal Akerman.
A câmera de Chantal Akerman acompanha vários casais durante uma noite quente do verão de Bruxelas. A narrativa fragmentada tem como tema o romance, encontros que acontecem em bares, restaurantes, quartos, conversas ao telefone. O silêncio e a atmosfera escura da noite ditam o tom do filme, um mosaico de encontros e conflitos que não se desenvolvem, não se resolvem, apenas anunciam aquilo que atormenta os casais: o sexo, o amor, a rejeição.
Anos dourados (Golden eighties, França, 1986), de Chantal Akerman.
A experimentalista Chantal Akerman faz uma incursão pelo filme de gênero, sem abrir mão de suas ousadas críticas sociais e morais. A narrativa se passa em um shopping, com cenário estilizado, caricatural, cores exuberantes, assim com os personagens que desfilam figurinos, maquiagens e cabelos em estilos extravagantes, bem anos 80.
A trama principal, misto de musical, comédia e drama, segue um triângulo amoroso formado pelos jovens Pascale e Mado. Ele, filho dos proprietários de uma loja de roupas, ela, cabeleireira no irreverente salão de Lili, que integra o triângulo. Os personagens secundários também narram suas desventuras amorosas do passado e do presente, sempre com o tom de desilusão e solidão da consagrada diretora belga, (cujo filme Jeanne Dielman, hoje lidera a lista de melhor de todos os tempo da Revista Sight & Sound).
Trem mistério (Mystery train, EUA, 1989), de Jim Jarmusch, é composto por três histórias que se entrelaçam em um hotel decadente, em Memphis. Na primeira, um jovem casal japonês chega à cidade e visita Graceland. Eles são fanáticos por rock e querem conhecer tudo sobre o legado musical de Elvis Presley.
A segunda história acompanha Luísa, uma viúva italiana que, após despachar o caixão do marido para a Itália, se vê sem rumo na cidade. Ela também se hospeda no hotel, dividindo o quarto com uma moradora local. Durante a noite, a italiana é visitada pelo fantasma de Elvis Presley.
Nesse mesmo hotel, uma gangue de jovens se esconde após praticar um assalto. Johnny, conhecido como Elvis, está em depressão, motivada pelo abandono da namorada. A terceira história é recheada de violência e humor, bem ao estilo Jim Jarmusch.
As três histórias se passam na mesma noite e os hóspedes são recebidos por uma dupla surreal de porteiros. Trem mistério é uma grande homenagem, recheada de nostalgia, à cultura pop dos EUA, representada por Elvis Presley e por Memphis que carregam, assim como o hotel e seus hóspedes, uma certa decadência.
Estranhos no paraíso (Stranger than paradise, EUA, 1984), de Jim Jarmusch, tem um lugar na lembrança de todo cinéfilo que aprendeu a amar os road-movies a partir dos anos 70. A narrativa acompanha a jornada de três jovens, os húngaros Willie (John Lurie) e Eva (Eszter Balint) e o americano Eddie (Richard Edson). Os três embarcam em uma jornada rumo à Califórnia, meio sem rumo e sem dinheiro, bem ao estilo underground da geração perdida dos anos 80.
A história é contada em três capítulos: A Chegada de Eva, Cleveland e Paraíso. O tom de passividade e quase alienação dos jovens é pontuado pela bela fotografia em preto e branco, planos longos, resultando em um ritmo lento, diálogos mínimos entre os três viajantes e trilha sonora composta por música húngara e rock and roll. É o olhar melancólico, porém com um leve bom humor, de Jarmusch sobre o american way of life.
Uma curiosidade genial sobre o filme está no depoimento de Wim Wenders, outro gênio do road-movie, sobre como o acaso fez com que ele ajudasse Jim Jarmusch a realizar Estranhos no paraíso.
“Tem um filme que preciso mencionar: Estranhos no Paraíso. Jim Jarmusch era um assistente muito quieto no filme que eu fiz com Nicholas Ray, Um Filme para Nick. Jim tinha uma banda de rock, uma ótima banda, por sinal, mas queria fazer cinema. Ele era muito modesto, quieto, não falava muito. Um dia, no final das gravações, ele veio ao meu escritório, em Nova York. Abriu a geladeira, sem imaginar que não havia uma garrafa de Coca-Cola ali dentro, e sim restos de filme. Particularmente duas grandes caixas de negativos em preto-e-branco, 35 milímetros, que restaram das gravações de O Estado das Coisas. Eu não tinha usado aqueles negativos, o que é estranho, porque sempre uso meus filmes até o último metro. Mas aqui estavam quatro caixas intocadas de sobras de filme. Comecei a perceber que Jim vinha todo dia, sempre abria a geladeira e ficava olhando fixamente para aquelas caixas. Ele não dizia nada, até que um dia finalmente me diz: “o que você vai fazer com estes negativos?” Eu lhe disse: “não tenho um projeto em preto-e-branco agora, então não vou fazer nada por enquanto”. Jim volta para a geladeira, abre a porta, mais uma vez olha fixamente para os filmes e me diz: “você pode dá-los pra mim?”. Disse-lhe: “claro, melhor fazer algo com eles antes que envelheçam aí”. Então ele vai e faz Estranhos no Paraíso. Ele filmou em 1984, e eu só vi o filme uns dois anos depois. Jim ganhou, com este filme, a Câmera de Ouro no Festival de Cannes [para diretores estreantes]. Eu… hum, não deveria dizer isso, mas ganhei a Palma de Ouro com Paris, Texas, e naquela noite nós dois éramos os homens mais felizes deste planeta. Nós jogamos pinball a noite toda, ficamos terrivelmente bêbados, e estávamos tão felizes um pelo outro. Quero dizer, eu estava orgulhoso de ter ganhado a Palma de Ouro, mas o fato de Jim ter ganhado a Câmera de Ouro era algo muito melhor. Jim sentia o mesmo. Ainda o vejo olhando para aquela geladeira. Às vezes, é o que basta.” – Palavras de Cinema
Férias permanentes (EUA, 1980), primeiro longa-metragem de Jim Jarmusch acompanha o jovem Allie (Christopher Parker) em suas andanças por uma Manhattan quase distópica, formada por ruas e prédios vazios, o lixo se aglomerando pelas ruas e um ar decrépito pairando sobre tudo. O filme custou apenas 12 mil dólares e representou uma espécie de divisor de águas para o cinema indie americano, consagrando o diretor.
Parker não estuda, não trabalha, vive deambulando sem rumo, é o típico representante de uma cidade caótica, que entre os anos 70 e 80 atingiu níveis estratosféricos de violência urbana. Jim Jarmusch compôs a deprimente trilha sonora de Férias permanentes, cuja sensação de melancolia e introspecção está presente também na fotografia fria e no estilo de câmera quase documental.
Elemento de um crime (The Element of Crime, Dinamarca, 1984), de Lars von Trier.
O primeiro filme de Lars von Trier apresenta uma Europa distópica, filmada em tons sépia queimados, evocando a temática do filme: fragmentos de memória que se confundem na mente do ex-policial Fisher (Michael Elphick) durante a investigação de uma série de crimes, cometidos por um serial killer que executa meninas que vendem bilhetes de loteria.
O estilo e fotografia noir do filme remetem ao clássico Blade Runner, um dos precursores do estilo neo-noir presente em vários filmes policiais e de ficção contemporâneos. Para investigar os crimes, Fisher se baseia nos métodos de seu mentor Osborne (Esmond Knight), publicados no livro Elementos de um crime.
Durante o desenrolar da trama o espectador se perde nos meandros das mentes perturbadas dos três protagonistas que estão em uma espécie de disputa: Osborne, Kramer (Jerold Wells), o policial chefe da cidade, e Fisher. A Europa decadente, esfacelada, tomada por uma chuva intermitente é o cenário para criminosos sem escrúpulos.
Renomados cineastas mais cedo ou mais tarde realizam filmes reflexivos sobre o processo de fazer cinema. Em Epidemia (Epdemic, Dinamarca, 1987) o diretor Lars von Trier interpreta Lars que, junto com Niels (|Niels Versel) escrevem um roteiro sobre uma possível epidemia. O roteiro deve ser terminado em cinco dias. Durante este tempo, os roteiristas percorrem possíveis locações e se defrontam com uma verdadeira epidemia que começa a assolar a Europa.
Lars von Trier compôs a trilogia Europa, formada por Elementos de um crime (1984), Epidemia (1987) e Europa (1991). Nas três obras, destacam-se o olhar depressivo e amargurado diante de uma Europa devastada pela atividade cruel do próprio homem, provocando guerras, epidemias, condições climáticas adversas, contribuindo cada vez mais para uma sociedade injusta, desequilibrada em questões sociais, econômicas, políticas, cujos habitantes sofrem com as constantes crises psicológicas, de identidade, perdidos em países que parecem não mais existir.
A narrativa de Epidemia segue o tradicional estilo da metalinguagem, com ficção e realidade se alternando através de uma narrativa fragmentada, não-linear. A experiência dentro do cinema provoca a mistura de documentário e ficção, grande reflexão sobre a arte associada ao real.
A abertura do filme é fascinante: um travelling lento pelas ruas de um bairro periférico de Nova Orleans, a fotografia em preto e branco emoldurando a paisagem soturna. O travelling é entrecortado por duas cenas de interior, apresentando os protagonistas Zack (Tom Waits), DJ desempregado e o cafetão Jack (John Lurie) em seus quartos. Ambos são envolvidos em uma armação por desafetos e são encarcerados na mesma cela. Bob (Roberto Benigni), um italiano que mal sabe falar inglês, acusado de matar um homem, se junta aos dois.
O diretor indie americano Jim Jarmusch tece um panorama da América marginal por meio desta tríade de atores em atuações excepcionais. A entrada em cena do italiano muda o panorama da cela, até aquele momento ocupada pela desilusão, pela tristeza agressiva. Um dos mais belos momentos da película é a canção entoada pelos três, uma brincadeira com o inglês atrapalhado de Roberto, que contagia todo o corredor.
O terceiro ato, em um imenso pântano, traz de volta a paisagem desoladora dessa América marginal, agora um deserto pantanoso. Assim como o bairro do início, também uma espécie de submundo habitado não por criminosos, mas por pessoas opostas ao american way of life que apenas andam em círculos.
O primeiro filme da prestigiada Claire Denis é uma volta à infância, memórias da época em que viveu com seus pais em uma fazenda em Camarões. No início da película, a jovem Frances está caminhando por uma estrada litorânea. Um homem, acompanhado de seu pequeno filho, oferece carona a ela. Durante o trajeto, ela se depara com paisagens, moradores das cidades, as lembranças.
Em flashback, a narrativa retoma a infância da menina Frances na fazenda. Seu pai, Marc, vive ausente, pois é responsável pelo gerenciamento da região. Aimée, a mãe, vive reclusa em casa, entregue aos comandos da casa. O personagem motriz da trama é Protée, espécie de mordomo “faz tudo”, inclusive cuidar da menina, com quem desenvolve um relacionamento recíproco de ternura e compreensão.
A relação colônia/colonizador está expressa nesse pequeno contexto familiar e em situações mais amplas. A relação entre Aimée e Protée é marcada pelo imperativo da patroa branca e a submissão (aparente) do empregado negro. No entanto, o conflito se revela no erotismo sugerido entre os dois, em alguns momentos, quase concretizado.
Ao mesmo tempo em que lida com questões políticas complexas, como agradar um grupo preconceituoso de turistas e investidores endinheirados, Marc se vê diante do inevitável conflito posto pela sua família (também simbólico no contexto geral): ficar e caminhar para a ruptura ou partir e deixar a África para os africanos.
Chocolate (Chocolat, França, 1988), de Claire Denis. Com Isaach De Bankolé (Protée), Giulia Boschi (Aimée Dalens), François Cluzet (Marc Dalens), Mireille Perrier (France Dalens).
José Mojica Marins, o Zé do Caixão, filmou A praga em 1980, mas não terminou o filme. Era o início de uma década praticamente perdida para o cinema brasileiro, quando muitos cineastas, sem condições de financiamento, incerraram a carreira.
Em 2007, foram encontrados rolos de filmes super-8 com o material bruto de A praga. O material foi digitalizado, cenas adicionais foram gravadas, mas novamente tudo foi arquivado. Finalmente, em 2021 o filme passou pelo processo de restauração em alta resolução, com tratamento de som e imagem.
A narrativa é simples e provocativa: um fotógrafo é alvo de uma praga de uma senhora durante um final de semana, quando tenta tirar fotos dela em seu sítio. A bruxa passa a atormentar o fotógrafo de forma escabrosa, torturando-o com visões macabras que o fazem consumir carne crua por uma chaga aberta no ventre.
O próprio José Mojica Marins narra a história, pontuada por suas aparições também tenebrosas. A praga é o único filme inédito do cultuado mestre do terror brasileiro.
A praga (Brasil, 1980/2023), de José Mojica Marins. Com Felipe Von Reno, Wanda Kosmo, Sílvia Gless.
Fassbinder conquistou o Urso de Ouro em Berlim com seu penúltimo filme, três meses antes de sua morte. Veronika Voss é uma estrela de sucesso na Alemanha dos anos 50. Ela se torna dependente de drogas e sua carreira entra em decadência. Ela conhece Robert Krohn, num bosque, em uma noite de chuva. A partir daí, Verônica tenta retomar seu lugar no cinema, assim como na própria vida, mas ela se entrega cada vez mais ao vício.
O desespero de Veronika Voss compõe a trilogia de Fassbinder sobre a Alemanha do pós-guerra (os outros são Lola e O casamento de Maria Braun). É um melodrama, gênero que o diretor tanto amou, que aborda as cicatrizes quase incuráveis dessa nação que praticamente se auto destruiu ao assumir o nazismo. Veronika Voss e a Dra. Marianne Katz simbolizam esse país doente, enquanto Robert tenta buscar uma saída para essa degradação generalizada.
O desespero de Veronika Voss (Die sehnsucht der Veronika Voss, Alemanha, 1982), de Rainer Werner Fassbinder. Com Rosel Zech (Veronika Voss), Hilmar Thate (Robert Krohn), Annemarie Duringer (Mariane Katz).
1957. A jovem e bela Lola é cantora e prostituta em um bordel. Seu amante e protetor é Schuckert, importante construtor da região da Baviera que consegue contratos corrompendo os principais políticos, incluindo o prefeito, frequentador assíduo do cabaré. Esse lucrativo esquema ameaça ser rompido com a chega do honesto Von Bohm para assumir o cargo de Secretário de Obras da cidade.
Fassbinder, como uma homenagem, faz a releitura do clássico O anjo azul (1930). Após ser ofendida em uma noite por Schuckert, Lola começa um jogo de sedução com Von Bohm, escondendo sua condição. O honesto cidadão se apaixona pela cantora e as reviravoltas da trama incluem a subversão de seus princípios morais e éticos.
O tema do filme é a Alemanha do pós-guerra que busca se reerguer economicamente, tem que reconstruir suas cidades. O bordel é o símbolo político deste tempo, lugar onde todos se vendem, incluindo políticos, empresários, idealistas como o socialista Esslin e os íntegros como Von Bohm.
Lola (Alemanha, 1981), de Rainer Werner Fassbinder. Com Barbara Sukowa (Lola), Armin Mueller-Stahl (Von Bohm), Mario Adorf (Schuckert), Mathias Fuchs (Esslin).
Após dar baixa em seu treinamento no exército, o jovem Witold consegue emprego como eletricista. No primeiro dia de trabalho, ele revela à Marius, seu chefe imediato, que tem pouca experiência na função. Marius responde que “basta ele ser honesto.” É o tema do mais famoso filme de Zanussi, ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
A honestidade de Witold passa a ser confrontada por seus próprios colegas de trabalho, incluindo Marius, que exigem que o jovem faça pequenas negociações escusas no ambiente de trabalho, proporcionando lucro extra aos trabalhadores.
Em outro ambiente, um hospital, Witold também se depara com a corrupção. Sua mãe é internada devido a um câncer terminal e conseguir vaga em um quarto, assim como medicamentos, depende de “contribuições” para os funcionários do hospital.
Constans é o retrato frio e cruel do fim do sonho comunista na Polônia. Em determinado momento, Marius pergunta a Witold: “Qual o seu preço?”, afirmando que mais dia menos dia o jovem idealista também será corrompido. Witold resiste, sua moral e ética prevalecem, talvez um ingênuo como Cândido, que infelizmente só existam na literatura e no cinema.
Constans (Polônia, 1980), de Krzysztof Zanussi. Com Tadeusz Bradecki (Witold), Zofia Mrozowska (Mãe de Witold), Małgorzata Zajączkowska (Grażyna), Witold Pyrkosz (Marius)
Agnès Varda envereda por um tema ousado, polêmico, diria até mesmo proibido. O amor de uma mulher de cerca de 40 anos por um adolescente. Durante uma festa em sua casa, promovida por sua filha Lucy, Mary-Jane fica encantada por Julien, colega de escola de Lucy. Ela decide que precisa vê-lo novamente e começa uma série de encontros com o garoto, a princípio, despretensiosos, mas que caminham cada vez mais e mais para a paixão mútua. A relação se concretiza durante uma viagem de férias em Londres, depois, Mary-Jane e Julius partem para uma estada em uma ilha na Inglaterra.
Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, mãe e filha na vida real, transpõem essa condição para o filme. A relação entre as duas se anuncia cada vez mais conflituosa, à medida que o caso da mãe se revela. O garoto Julien é interpretado por Mathieu Demy, filho de Agnès Varda e Jacques Demy.
Apesar de controverso, Kung-Fu Master traz a sensibilidade característica da diretora francesa. Em um determinado momento, a mãe de Mary-Jane diz à filha que ela deve se entregar à paixão, apesar de tudo caminhar para a inevitável punição.
Kung-Fu Master! (Kung-Fu Master! Le petit amour, França, 1988), de Agnès Varda. Com Jane Birkin (Mary-Jane), Charlotte Gainsbourg (Lucy), Mathieu Demy (Julien), Lou Doillon (Lou).
Em seu último filme, Robert Bresson retoma princípios básicos de seu cinema, em termos narrativos e estéticos. A trama tem semelhanças com seu clássico extremo, O batedor de carteiras.
Um jovem, em Paris, pede adiantamento da mesada ao seu pai. O pedido é negado, o jovem recorre a um amigo e os dois resolvem passar adiante uma nota falsa de 500 francos. O crime se dá em uma loja de equipamentos fotográficos. No mesmo dia, o dono da loja repassa a nota como pagamento a Yvon, um bombeiro que acaba de prestar serviços na loja.
Essa trama aparentemente simples, de uma nota falsa que circula de mão em mão na cidade, ganha contornos trágicos quando Yvon, sem saber da falcatrua, paga suas despesas em uma lanchonete com a nota. Ele é preso, julgado, perde seu emprego e, sem dinheiro, envereda pelo mundo do crime.
Bresson aplica em O dinheiro (adaptado de um conto de Tolstoi) seu famoso radicalismo na direção de atores. Os personagens agem quase como autômatos, sem demonstrar emoções como tristeza ou raiva. Yvon aceita seu destino trágico com uma resignação fria, sua transformação em um honesto trabalhador, em um adorável pai de família, no mais cruel assassino, acontece de forma natural. A decupagem simples, direta, os cortes secos, uma imagem sucedendo à outra como fotos que passam diante de nossos olhos – estamos diante, pela derradeira vez, da genialidade simples de Robert Bresson.
O dinheiro (L’Argent, França, 1983), de Robert Bresson. Com Christian Patey (Yvon Targe), Vincent Ristenucci (Lucien), Caroline Lang (Elise).
O diretor Jacques Rivette se aventura por uma trama com ar de thriller policial. Elisabeth envia telegramas para o ex-namorado Ben, em Nova York, e para a irmã Léo em Roma. Os dois devem se juntar a ela em Paris para ajudá-la a vender as casas do pai, recém-falecido. No entanto, Elisabeth desaparece assim que Ben e Léo chegam em uma das casas. Os dois começam, então, uma estranha investigação sobre o paradeiro da jovem, passando por várias cidades e por outros relacionamentos também estranhos.
A aventura policial resvala para dramas emocionais, filmados em caráter quase experimental pelo diretor. Tudo se resolve de forma simplista, o que interessa à Rivette é acompanhar as relações que se criam ao longo da narrativa, também sem profundidade. Merry-go-round faz parte de um gênero de sucesso, principalmente a partir dos anos 70: o road-movie. No entanto, o filme foi um fracasso de público e crítica, tendo como único atrativo trazer nos papéis principais duas estrelas: Maria Schneider e Joe Dallesandro.
Merry-go-round (França, 1981), de Jacques Rivette. Com Maria Schneider (Léo), Joe Dalessandro (Ben), Danièle Gégauff (Elisabeth), Sylvie Matton (Shirley).
Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade.
A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda.
Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).
De repente, num domingo é o 21° primeiro e último filme de François Truffaut. É uma adaptação do romance The long saturday night, de Charles Williams, autor com quem Truffaut flertava desde os anos 60. A ideia do diretor foi fazer um filme mais leve, despretensioso, um romance ambientado durante uma série de crimes que acontecem envolvendo o protagonista, Julien Vercel. Primeiro, ele é o principal suspeito de matar o amante de sua esposa, durante um dia de caça no lago. Depois, de assassinar a própria esposa, em sua casa.
A secretária de Julien, Bárbara, assume as investigações do crime, disposta a inocentar seu chefe, por quem nutre uma paixão secreta. A narrativa assume o tom dos filmes policiais noir, gênero que Truffaut já experimentara em quatro filmes: Atirem no pianista, A noiva estava de preto, A sereia do Mississipi e Uma jovem tão bela como eu.
A escolha pelo preto e branco partiu naturalmente, com Nestor Almendros assumindo a responsabilidade de recriar através da fotografia todo o ambiente dos bons filmes noir. Almendros se disse surpreendido ainda por um pedido de Truffaut: filmar rapidamente (em sete semanas) para que a obra ficasse parecida com um filme B. Outra escolha condizente com o gênero noir foi situar a narrativa quase toda à noite e com chuva. Vale destacar ainda uma das grandes marcas do cinema do diretor francês: a narrativa ser conduzida pela protagonista.
“Quando escrevo um roteiro, as coisas se encaixam assim. A ação pertence às mulheres. Pode ser errado, no absoluto, mas assim vejo as coisas.” – François Truffaut.
Sobre a leveza do filme, um policial sem grandes pretensões, até mesmo com incoerências nas soluções dos crimes, Truffaut escreveu: “É um filme para sábado à noite, concebido para entreter, sem segundas intenções.”
De repente, num domingo (Vivement dimanche!, França, 1983), de François Truffaut. Com Jean-Louis Trintignant (Julien Vercel), Fanny Ardant (Barbara Becker).
O casal Pierre e Romaine recebem Marcel, um famoso violinista, para jantar. Em certo momento, Marcel relembra uma triste história de amor de seu passado. Romaine ouve a narração fascinada. No dia seguinte, ela vai a casa de Marcel, os dois tocam juntos uma sonata – é o início de um relacionamento amoroso que mudará o destino, de forma trágica, dos três amigos.
Melô é uma adaptação fiel da peça de Henri Bernstein. Alain Resnais filma longos planos estáticos, centrados nos protagonistas, evita a interpretação naturalista e usa como elemento de transição as cortinas cerradas de um teatro. A experimentação de Resnais, teatro mais do que cinema, potencializa a força do texto, os belos diálogos e a música, elemento que direciona os rumos do trágico triângulo amoroso.
Melô (França, 1986), de Alain Resnais. Com Sabine Azéma (Romaine), Fanny Ardant (Christiane), Pierre Arditi (Pierre), André Dussollier (Marcel).
Em apenas quatro minutos, Agnès Varda faz uma bela homenagem à história do cinema. O curta usa as escadas da Cinemateca Francesa que conduzem ao Museu do Cinema. A montagem alternada intercala pessoas descendo as escadas com cenas de diversas obras filmadas em escadas. É uma sucessão de imagens que remetem à história do cinema, filmes que marcaram gerações, o fascínio irrompe em cada take.
O curta-metragem celebrou os 50 anos da Cinemateca Francesa e, por coincidência, a escadaria tem exatamente 50 degraus. Agnès Varda recortou cenas dos seguintes filmes: Juve contre fantômas – Louis Feuillade, Pépé le moko – Julien Duvivier, O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, A imperatriz vermelha – Josef von Sternberg, Cidadão Kane – Orson Welles, Ran – Akira Kurosawa, Le coup du parapluie – Gérard Oury, O desprezo – Jean-Luc Godard, Modelos – Charles Vidor, A história de Adele H – François Truffaut.
Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986), de Agnès Varda.