Começar de novo

A estrutura narrativa do filme é o grande destaque. O início, através de uma montagem rápida, narra a relação entre dois amigos escritores, Erik e Philip, desenvolvendo uma história que poderia ter acontecido. O título Reprise entra e outra história, a verdadeira?, começa. A estratégia é sugerida no final. 

Os dois são amigos desde a infância e dividem o sonho de ser escritores. Enviam manuscritos ao mesmo tempo para a editora. Philip tem seu projeto aprovado, mas o manuscrito de Erik é rejeitado. 

Neste primeiro filme da Trilogia de Oslo, o diretor Joachim Trier trabalha com temas importantes para a juventude: sonhos e desilusões, insegurança, sérias crises depressivas – Philip, após o sucesso de seu primeiro livro, entra em uma espiral descendente, sofrendo com crises depressivas. A amizade afetuosa entre Erik e Philip aponta caminhos para vencer todos esses desafios, por vezes incontornáveis, para esses jovens sonhadores.

Começar de novo (Reprise, Noruega, 2006), de Joachim Trier. Com Anders Danielsen Lie (Philip), Espen Klouman Hoiner (Erik), Viktoria Winge (Kari), Odd Magnus Williamson (Morten), Pal Stokka (Geir), Christian Rubeck (Lars), Henrik Elvestad (Henning), Henrik Mestad (Jan), Silje Hagen (Lilian). 

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The hand

O filme de média-metragem de Wong Kar Wai (cerca de 60 minutos) foi lançado como parte de uma trilogia de contos, Eros, junto com dois outros episódios dirigidos por Antonioni e Steven Soderbergh. A narrativa com forte teor erótico acompanha o jovem alfaiate Zhang que, em linha de sucessão de seu mestre, deve fazer os vestidos da bela Sra. Hu. Logo no primeiro encontro, ele é seduzido por ela, em um jogo que mistura prazer e dominação. 

Este primeiro encontro fascina o espectador pela estética característica de Wong Kar Wai – os planos fechados cobertos de cores quase extravagantes do ambiente, a câmera num misto de sensibilidade e fetiche à medida que as mãos da Sra. Hu provocam o jovem alfaiate. O tema do filme é também o envelhecimento do corpo, não da memória: à medida que a doença consome o corpo da Sra. Hu, os dois vão viver nos desejos daquela primeira noite mágica. 

The hand (China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Gong Li (Miss Hua), Chang Chen (Zhang), Tin Fung (Master Jin). 

24 City

O filme é um misto de documentário e ficção. A narrativa acompanha personagens de três gerações, interpretados por atores profissionais, que trabalharam em uma fábrica de construção de peças para a aeronáutica. A fábrica, desativada e em ruínas, serve como elemento de transição entre os depoimentos que são prestados direto para a câmera, assim como nos documentários mais tradicionais. As histórias pessoais traduzem também as importantes transformações políticas e econômicas que acompanham a China. Em determinado momento, é apresentado a maquete de um empreendimento residencial de luxo que ocupará o espaço da antiga fábrica. 

Realidade e encenação se encontram em momentos emocionantes, a exemplo do encontro entre um funcionário e seu antigo mestre na fábrica, agora um ancião entregue às lembranças de seu trabalho. Outro ponto de destaque é a trilha sonora, recheada de canções pops a embalar a narrativa.

24 City (Er shi si cheng ji I, China, 2008), de Jia Zhangke. Com Joan Chen, Lu Liping, Zhao Tao, Chen Jianbin. 

Os catadores e eu: dois anos depois

Dois anos depois do documentário Os catadores e eu, Agnès Varda volta ao tema, entrevistando novos personagens e revendo catadores do primeiro filme. A novidade é o olhar mais crítico, principalmente de quem depõe para a câmera da cineasta. O impacto do documentário provocou mudanças nas vidas de alguns deles.

Um dos catadores agora vivem em um abrigo, não mais em trailers à mercê de mudanças rotineiras. Jean, o catador professor é quem tem mais espaço, diz que continua com sua militância política contra o desperdício, mas agora tem mais exposição, participa de programas de TV, dá entrevista. A surpresa em seu depoimento é uma crítica ao trabalho de Agnès Varda. Ele comenta que não gostou da forma como a cineasta se expõe no filme, acha desnecessário para a narrativa e o tema suas aparições diante da câmera, quase como se fosse mais importante do que os próprios catadores. 

Nesta sequência, o filme apresenta mais uma reflexão do trabalho de documentar, no caso de Agnès Varda sem medo de se expor, tanto atrás como diante das câmeras. É um documento pessoal de quem observa, participa, reflete e tece críticas, às vezes sobre seu próprio trabalho. 

Os catadores e eu: dois anos depois (Les glaneurs et la glaneuse… deux ans après, França, 2002), de Agnès Varda.

As praias de Agnês

O documentário pode ser visto como uma espécie de testamento fílmico de Agnès Varda. A narrativa começa com a montagem de um cenário em uma das praias frequentadas pela fotógrafa/cineasta na infância. Encenações na praia se fundem a trechos de seus filmes, amparados por uma sensível e sincera narração em primeira pessoa. 

Parte da história do cinema francês, pouco antes e a partir da nouvelle-vague francesa, está registrado em As praias de Agnès. Os relatos e os filmes se imbricam com a vida pessoal de Varda, em momentos de emocionar, como no momento em que ela vê fotos de amigos mortos e, principalmente, ao comentar seu relacionamento com o também cineasta Jacques Demy. A rua onde ela viveu, em Paris, serve como cenário para a simulação de uma praia em plena capital francesa, com areia, sombrinhas, mesas de trabalho como se fosse uma produtora de cinema ao ar livre. Em um trecho, a cineasta tenta definir cinema: “O que é o cinema? É luz que chega de algum lado e que é retida pelas imagens mais ou menos escuras ou coloridas.” Filme a filme, memória a memória, Agnès Varda revela toda a sua paixão por essas imagens escuras ou coloridas e pela vida.  

As praias de Agnès (Le plages D’Agnès, França, 2008), de Agnès Varda.

Amor à flor da pele

Impossível não entregar todos os sentidos a esta bela história de amor não-concretizado. Chow (Tony Leung) e sua esposa se mudam para uma pequena pensão em Hong Kong no mesmo dia que Li-Zhen (Maggie Cheung) e seu marido. Os dois ocupam quartos vizinhos e se cruzam a todo instante na cozinha, nos corredores, nas ruas molhadas em frente à pensão. Desenvolvem uma fascinante atração mútua a partir de olhares e frases curtas, mas resistem em se entregar, mesmo após desconfiar que seus cônjuges estão tendo um caso. Detalhe: o marido de Li-Zhen e a esposa de Chow nunca aparecem, são vistos de costas, ou em ângulos sinuosos de câmara que não permite ao espectador identificá-los. 

O estilo de Wong Kar Wai, que deixa a improvisação e a câmera traduzirem de forma livre a história, está arrebatador em Amor à flor da pele. Corpos transitam pelos espaços minúsculos como  em uma dança sutil e elegante, a câmera lenta associada à música, à direção de arte, aos figurinos – destaque para os vestidos belos, simples e sedutores de Li-Zhen, tudo colabora para que o espectador se entregue a esses momentos sensoriais de indescritível beleza. 

Amor à flor da pele (I fa yeung nin wa, China, 2000), de Wong Kar Wai. Com Maggie Cheung, Tony Leung, Chiu Wai, Ping Lam Siu. 

A professora de piano

Erika é professora de piano no Conservatório de Viena. Ela vive em um pequeno apartamento com a mãe repressora, que controla sua vida e sua carreira de maneira autoritária e conservadora. As duas vivem em conflito permanente, chegando a agressões físicas. A solidão de Erika é marcada por incursões à cabines onde vê filmes pornográficos e comportamento sadomasoquista, incluindo mutilações.

O aclamado filme de Michael Haneke conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além dos prêmios de melhor atriz para Isabelle Huppert e melhor ator para Benoit Magimel. A relação de dominação e subserviência sexual que Erika vive com seu aluno Walter Klemmer proporciona algumas das cenas de sexo mais deprimentes do cinema.  

A professora de piano (La pianiste, Áustria, 2001), de Michael Haneke. Com Isabelle Huppert (Erika Kohut), Annie Girardot (a mãe), Benoit Magimel (Walter Klemmer), Suzanne Lothar (Madame Schober (Anna Sigalevitch (Anna Scober. 

2046 – Os segredos do amor

A narrativa começa com exuberantes imagens futuristas de um trem em alta velocidade. Narração indica que o expresso leva a 2046, de onde ninguém nunca regressou, apenas um jovem que demonstra imenso sofrimento dentro de um dos vagões, sem saber há quanto tempo está ali. 

Corta para a década de 60, o espectador descobre que 2046 é um livro escrito por Chow Mo-Wan (Tony Leung), o mesmo personagem de Amor à flor da pele. É a sua forma de tentar resgatar suas memórias de amor, principalmente de Li-Zhen. O filme retrata uma sucessão de casos amorosos, a maioria tristes e sem perspectivas, envolvendo Chow, que se entrega às mulheres quase por compulsão. Ele mora em um hotel, é fascinado pelo quarto 2046 e as mulheres que passam pelos seus dias entram em suas histórias. 

2046 – Os segredos do amor faz parte da trilogia de dramas românticos, ou melodramas, de Wong Kar Wai. Completam a série Dias selvagens (1990) e Amor à flor da pele (2000). 

2046 – Os segredos do amor (2046, China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura.

Carta para Elia

Os cineastas da Nova Hollywood fizeram parte da primeira geração de cinéfilos a se aventurarem pela realização cinematográfica. Steven Spielberg e George Lucas deram os primeiros passos na direção influenciados pelos filmes e seriados que assistiram vezes sem conta na infância e adolescência. Spielberg afirma que depois de assistir a Lawrence da Arábia (1962) decidiu que sua vida seria o cinema. George Lucas não nega a influência decisiva dos filmes de Akira Kurosawa, principalmente A fortaleza escondida (1958) na criação de Star Wars

Em Carta para Elia, Martin Scorsese, com certeza o mais apaixonado pela história do cinema entre todos que participaram da Nova Hollywood, faz uma declaração bela, sensível e aficionada ao cinema de Elia Kazan. Scorsese desfila diante da câmera seu conhecimento insaciável sobre Kazan, discorrendo sobre a carreira e filmes do diretor. Dedica a maior parte das análises aos filmes que marcaram sua adolescência e influenciaram sua escolha pelo cinema: Sindicato de ladrões (1954) e Vidas amargas (1955). 

A mancha na carreira de Elia Kazan também é debatida por Scorsese. Na década de 50, Kazan depôs no Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, sob a presidência do senador Joseph McCarthy. Elia Kazan delatou colegas de trabalho, entre eles Lee Strasberg, do Actors Studio, supostamente por participarem de atividades associadas ao comunismo. Martin Scorsese não busca justificativas ou julga a delação de Kazan. 

Nos anos 70, os dois se aproximaram se tornaram amigos, trocaram confidências sobre a paixão em comum pelo cinema. Scorsese comenta que nunca conversou com Elia Kazan sobre o que representaram Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas na sua formação de cineasta. Prefere dizer: “Então, Elia. Isso sempre teve que ficar entre mim e os filmes e a única forma de poder lhe dizer o quanto significou para mim foi fazendo filmes.”

Carta para Elia (A letter to Elia, EUA, 2010), de Kent Jones e Martin Scorsese.  

Os catadores e eu

Um convite à reflexão. Em resumo, é o que instiga a procura do cinema documental. Mais ainda nos documentários de Agnès Varda que não se exime de também refletir sobre os temas e, principalmente, imagens de suas obras. Os catadores e eu, como o próprio título original sugere, é uma incursão em sua própria atividade. Um relógio sem ponteiros, que não marca o tempo, achado no lixo, adorna o escritório da cineasta. 

Assim, Agnès Varda talvez tenha se relacionado com outros catadores e expandiu suas reflexões. Descobriu e expôs o incrível mundo do desperdício, toneladas de alimentos jogados fora diariamente que servem para poucos catadores como alimento diário. 

O ponto de partida e sustentação do documentário é a associação com a arte, pintores célebres que retrataram mulheres catadoras que chegavam após a colheita. Na França, é uma atividade reconhecida por lei, os catadores podem entrar em propriedades privadas e recolher o que sobrou das colheitas. Um advogado catador anda com o código penal em mãos para deixar claro a todos seu direito. Dois outros personagens do documentário catam por ativismo político, têm emprego, mas se alimentam do que acham nas lixeiras. Artistas fazem sua arte com objetos recolhidos nas ruas, assim como Agnès Varda que, com a câmera na mão (deslumbrada com o poder das pequenas câmeras digitais) recolhe as imagens. 

O documentário é também uma reflexão sobre o cinema, como nas belas imagens de caminhões na estrada, enquadrados pelas mãos da diretora. Alguns ficam visíveis entre seus dedos, outros ela esmaga ao fechar a mão. São os caminhões que infestam as estradas, transportando mercadorias que serão consumidas, descartadas, catadas, em um ciclo interminável que separa a sociedade. 

Os catadores e eu (Les glaneurs et la glaneuse, França, 2000), de Agnès Varda.