Ulisses

Em 1954, Agnès Varda produziu e fotografou a famosa cena em uma praia coberta de pedregulhos no Sul da França. Ulisses é o nome do menino sentado, olhando a cabra morta. 

No curta, realizado na década de 80, a cineasta volta ao local da foto, conversa com os protagonistas, buscando as memórias daquele tempo, daquele registro. Através de imagens passadas e presentes, o curta é uma reflexão sobre a natureza de fotografar, sobre memórias perdidas, resgatadas, sobre pessoas simples que são, em determinados momentos, apenas um flash um suas vidas, eternizadas pela arte.  

Ulisses (Ulysse, França, 1983), de Agnès Varda. 

Ao longo da costa

Ainda no início da carreira como cineasta, Agnès Varda realizou este curta documental para o Escritório Francês do Turismo. A câmera passeia de forma descontraída pelas praias, ruas e monumentos da Riviera Francesa. No início a diretora avisa, vamos deixar o burro e a vaca de lado, alusão aos animais dos simples moradores da costa azul, pois o tema do documentário são os turistas que chegam aos milhares no verão europeu. 

Mesmo sendo uma encomenda oficial, o olhar crítico da diretora se traduz em um texto às vezes irônico e imagens simbólicas da imersão turística nas praias ensolaradas, apinhadas de turistas com seus corpos vermelhos expostos ao sol inclemente. 

Ao longo da costa (Du Côté de la Côte, França, 1958), de Agnès Varda.

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008