Categoria: Curta-metragem

  • Namoro à distância

    Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz. 

    No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”

    O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.

    Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.

  • Edifício Tatuapé Mahal

    Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz. 

    A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos. 

    A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.

    Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.

  • O órfão

    O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição. 

    O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.

  • Los huesos

    Los huesos (Chile, 2021), de Cristóbal León e Joaquín Cociña. 

    No início do século XX, uma jovem invoca a ajuda de espíritos para trazer dois cadáveres de volta à vida. Os ressucitados são Diego Portales, um dos responsáveis pela constituição de 1833 que consolidou o Chile como uma república autoritária, privilegiando as altas classes sociais; e Jaime Guzmán, conselheiro político próximo do ditador Augusto Pinochet.  A narrativa mescla humor negro, com fortes críticas políticas e sociais sobre a história e a realidade atual do Chile. 

    Segundo os realizadores, a ideia do filme partiu como uma crítica às crises sociais chilenas, evoluindo para um filme de animação farsesco, colocando o Chile como um dos inventores da animação em stop motion.

    “Um dos pontos de partida foi que estávamos no meio de uma revolta social no Chile em 2019. Chamamos isso de “Estallido Social”, que significa explosão social. Herdamos o sistema político de uma ditadura. A diferença entre pobres e ricos é grande. É um sistema muito injusto. Então, esse foi o contexto em que começamos a pensar sobre esta produção. Pegamos duas figuras da história chilena, uma do século XIX e outra do século XX. Ambas eram defensoras da oligarquia. Queríamos nos livrar desses líderes de alguma forma e libertar o Chile dessa opressão. Não que estejamos nos levando tão a sério. Não é como se achássemos que nosso filme fosse mudar alguma coisa.” – Cristóbal León

    Joaquin Cocina comenta que o outro contexto era a história do cinema, principalmente o primeiro cinema, referenciado por Georges Méliès e os Irmãos Lumiére: “Precisamos criar uma mente criativa falsa por trás do filme que não seja a nossa. Isso nos dá mais liberdade e distanciamento. Também nos interessamos pelo cinema antigo. No início do século XX, havia uma criatividade incrível. Havia Georges Méliès, um mágico que fazia filmes de fantasia; depois, havia uma abordagem mais documental, dos irmãos Lumière. Duas correntes diferentes. Estamos tentando abordar projetos pensando naqueles primeiros anos. Com Los Huesos, a ideia é muito crua. Estamos fingindo que estamos criando o primeiro filme de animação. Achamos engraçado imaginar que o Chile foi o berço da animação. Depois, pensamos nos primeiros filmes de [Ladislas] Starewicz, feitos com cadáveres de animais e insetos. Achamos lindos. Então, imaginamos que estávamos animando cadáveres no início do século XXI. Achamos isso engraçado.”

    O resultado é um filme deslumbrante, com estética do cinema mudo, remetendo às primeiras experimentações na área da animação. “Nós animamos apenas na câmera. Não usamos nenhum software. Eu adoro aquela sala escura da câmera, onde você nunca sabe como vai ficar. Uma câmera de 16 mm é radical porque você não sabe o que está acontecendo. Gostamos de acidentes, de trazer erros para o processo. Eu gostava do mistério de não saber o que sairia da câmera. Também evitamos apressar os cortes. No cinema antigo, as cenas eram mais longas e muitas vezes se prolongavam.” – Acesse a entrevista completa dos realizadores em Cartoon Brew. 

  • Trailer of the film that will never exist: ‘phony wars’

    Trailer of the film that will never exist: ‘phony wars’ (França, 2023), de Jean-Luc Godard, começa com uma colagem de pinturas, frases poéticas desenhadas à mão, imagens de cinema, intituladas trailer de filmes de drones. Tudo fica em tela por intermináveis segundos, amparado pelo silêncio. O primeiro som é a narração em off da teórica de cinema Nicole Brenez: “É como uma imagem que vem de longe. São duas lado a lado. Ao lado dela, sou eu. Nunca a vi antes. Eu me reconheço. Mas não me lembro de nada. Deve estar acontecendo longe daqui. Ou mais tarde.” A abertura demarca o cinema experimentalista de Jean-Luc Godard, que nunca deixou de lado o curta-metragem como exercício de filmes abstratos, não estruturais, imagens e sons tomando conta da mente do espectador. 

    A premissa do filme/trailer é uma adaptação do romance Faux passports, de Charles Plisnier, publicado em 1937: “Eis um cenário (na verdade, uma simples adaptação cinematográfica de um velho romance) que diverge de nomes como Carné ou Palma, ao rejeitar as bilhões de imposições alfabética para libertar as incessantes metamorfoses e metáforas de uma linguagem necessária e verdadeira; retomando aos locais de filmagens passadas, mas levando em contas os tempos modernos. 

    Trailer of the film… foi lançado após a morte de Godard. O próprio diretor narra o seu processo de construção desse filme/colagem que se transmuta em cinema, artes plásticas, poesia, música, literatura, fotografia, filosofia, política e tudo mais que pautou a vida e o cinema de Jean-Luc Godard, o cineasta mais influente do cinema contemporâneo.

  • Depois do amanhecer

    Depois do amanhecer (Après l’aurore, França, 2023), de Yohann Kouam. Com Mexianu Medenou, Chloé Lecerf, Rayan Bourouina. 

    A narrativa acompanha um dia na vida de três personagens que moram em um conjunto habitacional na periferia da cidade. Yves, um artista, acaba de chegar de Berlim, onde morou por alguns anos. Ele tenta se reconectar com a família e antigos amigos do bairro onde cresceu. Hamza, um adolescente surdo, faz parte de um grupo de marginais e se defronta com desafios que podem levá-lo à criminalidade. Déborah, uma treinadora de basquete, vive solitária até que conhece uma jovem com quem começa um relacionamento. 

    O filme é marcado por uma fotografia que destaca a noite e, simbolicamente, deixa a luz do início da manhã tomar conta desta periferia e seus personagens que transitam sem rumo, sem propósito definido, a não ser viver a cada dia depois do amanhecer.

  • Four unloved women, adrift on a purposeless sea, experience the ecstasy of dissection

    Four unloved women, adrift on a purposeless sea, experience the ecstasy of dissection (Candá, 2023), de David Cronenberg. 

    O curta tem pouco mais de quatro minutos intensos e provocativos. A câmera caminha rende a água do mar, vislumbrando corpos femininos deitados ao sol. Sobe pelas pernas bronzeadas até revelar figuras de cera com as barrigas abertas, órgãos expostos, vísceras se confundindo com a beleza das mulheres de David Cronenberg. 

    A trilha sonora envolvente acirra ainda mais a sensação mista de erotismo e horror. O diretor canandense faz uma espécie de releitura de seu próprio filme, Crimes do futuro (2023), buscando inspiração nas esculturas renascentistas do século XVIII. A narrativa visual deixa reflexões sobre a exposição de corpos no mundo contemporâneo. Reflexões perigosas. 

  • Sonhos como barcos de papel

    Sonhos como barcos de papel (Des rêves en bateaux papiers, Haïti, 2024), de Samuel Frantz Suffren. 

    Edouard  mora em Porto Príncipe, Haiti, com a filha Zara. Ele tem uma barraca de sucos naturais e divide seu tempo entre o trabalho e o cuidado carinhoso da filha. Sua esposa emigrou cinco anos atrás para os Estados Unidos, de forma clandestina. Seu único contato com ela, desde então, é uma fita cassete com a narrativa da perigosa travessia. 

    Sonhos como barcos de papel faz parte da trilogia de curtas de Samuel Frantz Suffren, junto com Agwe (2022) e Coeur bleu (2025), inspirados no sonho de seu pai em migrar para os Estados Unidos. A narrativa é uma delicada história de solidão, dedicação, busca dos sonhos e luta para sobreviver em uma sociedade marcada pela desigualdade e pela miséria. 

    Elenco: Kenny Laguerre, Saraiva Ruth-Amma Suffren, Cloretti Jacinthe.

  • Terra abençoada

    Terra abençoada (Mot khu dat tot, Vietnã, 2019), de Pham Ngoc Lan. Com Hoàng Hà, Minh Chau, Thuy Anh, Huy Tien. 

    Uma mulher, junto com seu filho adolescente, visita um antigo cemitério, percorrendo-o em vão em busca do túmulo de seu marido. Um pedaço do cemitério foi demolido para dar lugar a um luxuoso campo de golfe, a outra parte está abandonada: os túmulos em estado de decomposição convivem com pântanos e areais. Um pastor também está no local, aproveitando o terreno para alimentar suas vacas. 

    A narrativa curta tece críticas sociais sobre a desigualdade social e sobre como o progresso interfere no meio ambiente e nas tradições sociais. Enquanto a mulher e o filho percorrem o terreno abandonado, do outro lado da colina, um homem joga golfe, acompanhado de sua amante bem mais jovem. O conflito entre as classes é demarcado pela forma como se relacionam com o meio-ambiente, com os recursos naturais, com o terreno que serve de moradia para os mortos e, ao mesmo tempo, como deleite para os homens endinheirados. 

  • O verão e todo o resto

    O verão e todo o resto (L’été et tout le reste, Holanda, 2018), de Sven Bresser. 

    Marc-Antoine (Marc Antoine Innocenti) e Mickael (Mickael Danguis Fasolo) trabalham em uma ilha que, durante o verão, fica repleta de turistas. Com o fim da temporada, a ilha fica vazia e os jovens planejam rumar para o continente em busca de outro tipo de trabalho. O conflito se anuncia quando Marc, contrariando seu amigo, revela que pretende ficar no local. 

    A narrativa debate a busca dos anseios da juventude. Michael não hesita em partir e enfrentar os desafios que se apresentam em uma nova sociedade, enquanto Marc hesita, prefere naquele momento continuar com sua rotina solitária. A sequência da aclamada festa na ilha, frequentada por Marc e meia dúzia de amigos, é o sintoma dessa relação conflituosa entre o esplendor das temporadas de verão e o vazio do dia-a-dia dessas cidades que vão se perdendo no tempo. 

  • Letícia, Monte Bonito, 04

    Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.

    É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto. 

    O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta. 

  • A garota do capim limão

    A garota do capim limão (Lemongrass girl, Tailândia, 2021), de Pom Bunsermvicha.

    Uma forte chuva ameaça paralisar as filmagens em um set montado na região campestre. O diretor do filme pede a May (Primrin Puarat), uma das jovens da equipe, para plantar uma muda específica de capim-limão. Segundo uma superstição da Tailândia, uma virgem pode impedir a chuva, desde que ela siga algumas condições, como plantar em céu aberto a muda de cabeça para baixo.

    Pom Busnsermivicha insere nesta narrativa simples críticas ao conservadorismo, ao sexismo ainda presente na sociedade tailandesa. É também um alerta sobre o domínio masculino no setor audiovisual, onde as mulheres são relegadas à funções de segundo plano. May, a produtora assistente, acata a ordem e se vê enredada em situações que vão desde a procura pela muda até encarar o desafio de seguir a tradição e plantá-la. 

  • A felicidade do motociclista não cabe em seu traje

    A felicidade do motociclista não cabe em seu traje (Al motociclista no le cabe la felicidad en el traje, México, 2021), de Gabriel Herrera Torres.

    O curta do diretor mexicano Gabriel Herrera Torres faz uma releitura da colonização espanhola na América. Um jovem motociclista (David Illescas) veste seu belo traje, de cores extravagantes, e se sente imponente e orgulhoso, dando voltas em círculo com sua moto. O cenário é a selva, com uma pequena barraca onde seus amigos veem deslumbrados a encenação. À medida que circula, o jovem, que se recusa a emprestar a moto aos amigos, se sente mais e mais bonito, com a certeza que só ele e sua potente motocicleta podem dominar a selva. 

  • Vaga carne

    Vaga carne (Brasil, 2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

    A peça Vaga Carne, escrita e encenada por Grace Passô, foi apresentada ao público em 2016. A própria autora trabalhou na adaptação para o cinema, em conjunto com Ricardo Alves Jr.. O princípio conceitual é basicamente o mesmo: uma estranha voz toma posse do corpo de uma mulher. O monólogo, uma interação entre voz e corpo, percorre a narrativa, transitando entre reflexões sobre pertencimento, papeis dentro da sociedade, questões estruturais de gênero e preconceito racial. 

    “Ao levar a peça para o Cinema, em 2018, (…) Grace, por outro lado, possuía uma diferente forma de provocação: uma dramaturgia própria a se traduzir em roteiro para audiovisual; quarenta e cinco minutos de uma protagonista invisível – a voz – falando a frente de uma tela-imagem. A dualidade, porém, cai por terra à medida que o choque entre personagem-cenário se mostra mais homogêneo do que oposicionista, afinal, se a voz invisível quer ser ouvida, o corpo da mulher negra ali estampado também quer ser visto.” – Antonio Pedroni

    Vaga Carne seria exibido em sessões duplas, junto com outro média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa. No entanto, o isolamento social provocado pela pandemia não permitiu essa estratégia e cada filme foi lançado de forma isolada no streaming. 

    Referência: Vaga carne e a intermidialidade teatro-cinema na história do cinema brasileiro. Antonio Pedroni. Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso. PUC MINAS: Curso de Cinema e Audiovisual, 2021. 

  • Céu de agosto

    Céu de agosto (Brasil, 2021), de Jasmin Tenucci. 

    Incêndios cobrem o horizonte. É agosto, Lúcia (Badu Morais), uma jovem enfermeira, está grávida. Em uma festa, ela ouve o som lamentoso de um pássaro que, logo a seguir, cai morto diante dela. O sinal de mau agouro a coloca em alerta e, à medida que consulta médicos, frequenta uma igreja evangélica, descobre que algo pode estar errado em sua gravidez. A narrativa segue Lùcia em sua jornada de entendimento de sua gravidez tardia e a atração que ela sente por uma amiga, também frequentadora da igreja da comunidade. 

    A roteirista e diretora Jasmin Tenucci diz que teve a inspiração para o filme em um dia que nuvens de fumaça escureçam a cidade de São Paulo. O curta-metragem recebeu vários prêmios em 2021, entre eles a Menção Especial no Festival de Cannes. 

    Elenco: Badu Morais, Lilian Regina, Luci Pereira, Ernani Sanches. 

  • Verão 2000

    Verão 2000 (Été 2000, Canadá, 2023), de Virginie Nolin e Laurence Olivier. 

    Durante um final de semana no verão de 2000, a adolescente Raphaella tem que cuidar da filha do namorado de sua mãe, Sarah, de 9 anos. Raphaella pratica skate com um grupo de amigos, incluindo Sam, com quem mantém um relacionamento amoroso. Poderia ser um final de semana de verão como tantos adolescentes anseiam, longe dos pais, com o tempo só para eles. Mas as coisas se complicam quando uma suspeita recai sobre o irmão mais novo de Sam. 

    O ponto de vista da narrativa é o de Sarah, que passa o tempo com uma câmera de vídeo. O olhar doce e infantil de Sarah passa por uma descoberta. A dupla de diretores trata deste momento difícil que envolve questões de relacionamento e consentimento com sensibilidade, sem deixar de alertar para as consequências. 

    Elenco: Jeana Arseneau, Millie-Jeanne Drouin, William St-Louis, Dylan Walsh. 

  • Um caroço de abacate

    Um caroço de abacate (Portugal, 2022), de Ary Zara.

    A brasileira trans Larissa (Gaya de Medeiros) está em um ponto de prostituição em Lisboa. Ela observa Cláudio (Ivo Canelas) que está dentro do carro do outro lado da rua. Uma amiga diz a Larissa que ele está parado ali há um tempo, sem se decidir. Larissa caminha até o outro lado da rua disposta a seduzir Carlos. 

    O curta-metragem foi produzido por Elliot Page, com direção da trans Ary Zara. É uma sensível história de conhecimento e descobertas. Larissa e Carlos passam a noite percorrendo a cidade, entrando em bares e em festas em apartamentos. O jogo de sedução é leve, lento, como a anunciar uma frase que Larissa diz no início, quando é chamada de puta: “Tudo bem gata, mas não tem história de amor até no banheirão.”

  • 15 de agosto

    15 de agosto (Le 15/8, Bélgica, 1973), de Chantal Akerman.

    “Esta manhã, tentei ficar bem quieta. Tomei café da manhã na cozinha. Sai e caminhei por horas. Quando voltei, Chantal já havia se levantado. E fiquei na cozinha. Eu ficaria lá. Tive que pegar o mapa e tudo, os endereços das agências e tudo mais. Mas ela me disse para vir aqui e sentar nesta sala.” A narração em off que abre o filme é acompanhada do reflexo da imagem de Chris Myllykoski em um espelho. É agosto e nesse pequeno apartamento em Paris, a atriz passa o filme em um monólogo, refletindo sobre a vida cotidiana composta por pequenos gestos e atitudes. 

    Chantal Akerman prenuncia, de certa forma, em 15 de agosto a sua obra-prima Jeanne Dielman (1975), cuja narrativa também é centrada no cotidiano da personagem Jeanne, em seu apartamento. O estilo da diretora é demarcado em 15 de agosto pelos planos longos, fixos, a estética em preto e branco, a câmera ligeiramente à distância deixando espaço para momentos de silêncio e reflexão das personagens. 

  • Estrela cadente

    Estrela cadente (Comme une comète, Canadá, 2020), de Ariane Louise-Seize. Com Marguerite Bouchard (Chloé), Patrick Hivon (Christopher), Whitney Lafleur (Nathalie).

    Chloé é uma adolescente retraída que passa por uma fase introspectiva. Nathalie, sua mãe, ao contrário é irreverente e descontraída, aproveitando com intensidade e atrevimento seu namoro com Christopher. Os três fazem uma viagem para o litoral com intenção de observar as estrelas. A jornada de Chloé durante o passeio a leva a uma descoberta fascinante e perigosa: ela se sente atraída pelo namorado da mãe. 

    O filme da diretora canadense foi premiado em festivais, incluindo Melhor Curta-Metragem Canadense no prestigiado Festival de Cinema de Whistler. A narrativa aborda essa perigosa fase da adolescência com sensibilidade e ousadia. A história é narrada pela adolescente que passa os dias desenhando (imagens que resvalam para o erotismo). Ela começa relembrando: “você deixou o carro velho na nossa garagem, aquele do nosso final de semana na praia, quando tudo começou e terminou ao mesmo tempo.” A cena em que Chloé e Christopher estão deitados, rostos quase colados, observando o céu noturno, encanta, fascina e provoca.

  • Fazendo um bebê

    Fazendo um bebê (Faire un enfant, Canadá, 2023), de Eric K. Boulianne.

    O filme abre com uma ousada e divertida cena de sexo. Depois de ejacular, Lui (Éric K. Boulianne), pede a sua jovem esposa Elle (Florence Blain Mbaye) que fique com as pernas esticadas para cima. Ela pergunta “até quando vou ficar assim” e ouve a resposta: “não sei, até quando engravidar.”

    O casal resolveu ter um filho e passa os dias praticando sexo, às vezes até a exaustão, e de diversas formas diferentes. A gravidez não acontece e as tentativas acabam minando o relacionamento de Lui e Elle. 

    O tom de humor e erotismo percorre a narrativa neste curta realizado pelo ator, roteirista e diretor canadense Eric K. Boulianne. O final inusitado reforça o bom humor desta obra também dramática.