Nu (Canadá, 2022), de Olivier Labonté LeMoyne. Com Étienne Galloy e Roxane Tremblay-Marcotte.
A premissa do curta de terror do diretor canadense segue o clichê básico do gênero: um casal de namorados, durante um passeio de carro, procura um lugar ermo, em uma floresta, para uma noite de sexo. Trafegam durante um longo tempo, sempre inquietos com o isolamento provocado pela densa floresta e pela escuridão. Quando encontram um local e o erotismo toma conta da tela, aparições momentâneas do lado de fora assombram o casal.
Uma das grandes características do cinema de gênero é não se rebelar contra as convenções. Nu segue a cartilha mas fascina (de uma maneira provocante) com o jogo erótico entre dois jovens que se entregam aos seus instintos. As consequências, bem, coloque dois jovens sozinhos em um bosque em um filme de terror.
Les patins (Canadá, 2023), de Halima Ouardiri. Com Sophie Cadieux (a mãe), Ines Feghouli (Mina), Mani Solymanlou (o pai).
A adolescente Mina sonha em ser patinadora artística. No dia em que se passa a narrativa, o pai de Mina a observa durante a aula de patinação. Na volta para casa, ele esquece de propósito os patins dentro do ônibus, deflagrando o conflito: ele acusa a jovem de ter perdido os patins, revelando seu caráter vingativo contra a ex-esposa, incentivadora da filha no esporte.
A diretora Halima Ouardiri, nascida em Genebra (filha de mãe suiça e pai marroquino) explora com sensibilidade o drama familiar. A troca de olhares entre o ex-casal, no final do filme – o do pai irônico, da mãe, rancoroso (enquanto MIna está quieta, envergonhada) – diz mais do que todas as palavras possíveis.
Não chore na mesa de jantar (No crying at the dinner table, Canadá, 2019), de Carol Nguyen. Com Thao Nguyen, Ngoc Nguyen, Michelle Nguyen.
O filme abre em plano fechado dos três membros da família de Carol Nguyen em uma pequena mesa de cozinha. A diretora explica a eles em off:, Mamãe, papai e Michelle (sua irmã). Na quinta-feira, cada um de vocês fez entrevistas individuais. Quando vocês concordarem em fazer este projeto, todos sabiam que todos ouviremos as entrevistas da nossa família. Mas hoje quero reproduzir as entrevistas para vocês. Então, vamos ouvir.”
A abertura revela o tom intimista, corajoso e desafiador do documentário. Em uma mesa de jantar, os três vão se defrontar com lembranças, revelações simples de uma família que provocam o emocional.
Neste ano de 2019, Carol Nguyen teve dois filmes incluídos na lista dos dez melhores curtas do Canadá: Nanitic e Não chore na mesa de jantar.
Delphine (Canadá, 2019), de Chloé Robichaud, é narrado por Nicole, já adulta. Ela lembra de suas experiências na infância quando estudou em uma escola particular em Ville Saint-Laurent: “A minha mãe me mandou para lá porque os primos também foram para lá. É reconfortante para pais imigrantes saber que os seus filhos frequentam escolas particulares com os primos. Foi lá que conheci Delphine.”
Delphine é uma criança libanesa que acabara de se mudar para o Canadá. Segundo Nicole, ela ainda não falava francês e dizia “sim” para tudo. As outras crianças da escola praticam bullying com Delphine, dizendo coisas como “você fede a cogumelo”, se divertindo quando ela diz “sim”.
O curta-metragem é um olhar cruel, sincero e sensível sobre o preconceito, o pesadelo que atitudes de bullying podem transformar a vida de uma criança. A sensibilidade de Nicole a coloca ao lado de Delphine, que se torna cada vez mais introspectiva. As atuações das estrelas infantis Daria Oliel-Sabbag (Delphine) e Ines Feghouli Bozon (Nicole) – que depois vão ser representadas por outras atrizes na adolescência – conferem à narrativa esse olhar doce, compreensível, que se transforma em colaboração mútua entre crianças e adolescentes.
Nathalie Doummar, roteirista, adaptou sua própria peça teatral Delphine de Ville Saint-Laurent. A película estreou no Festival de Cinema de Veneza e ganhou o prêmio de melhor curta-metragem do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Entrou, ainda, para a lista anual dos dez melhores curtas do Canadá, país que, tradicionalmente, incentiva a produção de filmes neste formato.
Duas crianças olham para o segundo andar. Elas sobem engatinhando, furtivamente, a escada e, em frente à porta aberta do quarto, olham intrigadas para o interior. Uma mulher de meia-idade está cuidando da avó das crianças. Ela sofre com um câncer terminal. A mulher, após jogar a urina contida em uma bolsa no vaso sanitário, explica às crianças que a bexiga da avó não funciona mais.
O curta-metragem dirigido pela vietnamita canadense Carol Nguyen é um reflexivo olhar das crianças sobre a finitude. O título é uma referência às formigas operárias que assumem a responsabilidade de cuidar da colônia, pois a morte da rainha significa a morte da colônia.
As duas crianças mantêm em segredo uma colônia de formigas escondidas em um pote. A esperada morte da matriarca da família remete à possibilidade de desestruturação da família. Nanitic é uma obra curta, densa em reflexões.
O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô. No entanto, o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.
O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia.
Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial.
O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.
Saco de pulgas (Pytel blech, República Tcheca, 1963), de Vera Chytilová.
O filme começa com a jovem Jana (Helga Cocková) chegando no dormitório da fábrica onde vai trabalhar. Não vemos a personagem, apenas o grupo de garotas que dividem o espaço a tratando de forma jocosa, ironizando seu jeito e sua aparência. Nesse momento, conhecemos Jana pelos comentários que ela faz em off.
A abertura irreverente pontua o estilo da cineasta Vera Chytilová, uma das mais influentes da renascença do cinema Tcheco nos anos 60. Jana, aos poucos, demonstra sua personalidade combativa, se rebelando contras as regras rígidas do internato e da fábrica, regida por um comitê de homens, membros do partido socialista. Saco de pulgas representa o cinema contestador, feminista, de uma das principais diretoras do cinema theco.
La chambre (França, 1972), um dos filmes da fase inicial de Chantal Akerman, ainda na sua fase de curta-metragista, é uma experiência radical em plano sequência. Durante cerca de 11 minutos, a câmera gira em uma panorâmica de 360° por um quarto. O cenário é composto por móveis e objetos dispersos ao acaso e, a cada final do giro, Chantal Akerman está deitada na cama, em situações diferentes: está debaixo das cobertas, come uma fruta, lê um livro, está ligeiramente sentada.
É, de certa forma, um tema recorrente na obra da diretora belga: a câmera lenta, planos longos em ambientes fechados; a cozinha em Saute ma ville, o quarto em La Chambre, o apartamento em Eu, tu, ele, ela os ambientes do Hotel Monterey. Experimentalismo, palavra determinante no cinema de Chantal.
Saute ma ville (França, 1971) é o primeiro curta-metragem de Chantal Akerman, realizado quando ela tinha 18 anos e estava cursando o primeiro período da faculdade de cinema em Bruxelas (Chantal abandonou o curso logo no primeiro período para seguir na carreira como autodidata).
A própria diretora interpreta uma jovem que chega em seu apartamento com as compras do dia e começa uma série de atividades rebeldes: abre e esvazia gavetas, espalha coisas pelo chão, joga água no piso, expulsa seu gato para a varanda. É um filme silencioso que termina com a jovem vedando todas as frestas de janelas e portas e ligando o gás de cozinha. Impactante e perturbador curta de estreia de Chantal Akerman.
A voz humana (The human voice, Espanha, 2020), de Pedro Almodóvar. Uma mulher (Tilda Swinton) está sozinha em seu apartamento, observando as malas de seu namorado que nunca retorna. Com ela, está o cão do homem, que não sabe que também foi abandonado.
O curta minimalista de Almodóvar se passa dentro deste apartamento, ancorando a narrativa em um longo monólogo da mulher enquanto transita pelo ambiente vazio, de cores extravagantes (bem ao estilo Almodóvar). Tilda Swinton é o filme, sua interpretação da mulher obcecada, desesperada, vulnerável e sem destino, transforma o monólogo em uma intensa exposição da intimidade.
É o primeiro filme de Almodóvar falado em língua inglesa, baseado na peça de Jean Cocteau. Assim como em Estranha forma de vida, o diretor espanhol trabalha com as características principais dos filmes de curta-metragem: poucos personagens em cena, cenários minimalistas, tempo de narrativa concentrado, conflitos intimistas. A força dos dois filmes, acima de tudo, está na complexidade das relações humanas, da intimidade entre as pessoas.
Estranha forma de vida (Espanha, 2023). Só mesmo o espanhol Pedro Almodóvar conseguiria homenagear o clássico filme de faroeste, respeitando os elementos narrativos e estéticos do gênero, mas subvertendo de forma ousada as relações entre dois ícones do velho oeste: o xerife e o pistoleiro.
Silva (Pedro Pascal) entra na cidade à procura de Jacke (Ethan Hawke), atual xerife. É um reencontro após 25 anos, os dois foram amigos e amantes na juventude. A paixão reacende, os dois passam a noite juntos, mas no dia seguinte a verdade sobre o reencontro vêm à tona: Jacke está na caça de um assassino – o jovem é filho de Silva.
Estranha forma de vida foi produzido pela grife de luxo Yves Saint Laurent, tornando o curta-metragem também uma estratégia de storytelling. Almodóvar, claro, teve liberdade para compor uma trama que oscila entre a paixão queer, a rusticidade e a violência do oeste americano. Ethan Hawke e Pedro Pascal estão perfeitos, assumindo com naturalidade e tristeza o belo caso de amor que vivem no filme.
No final, Pedro Almodóvar não desaponta o espectador amante dos faroestes: o duelo acontece, de forma brutal, porém terna.
A idade da pedra (França/Brasil, 2013), curta-metragem de Ana Vaz, foi filmado nos arredores de Brasília, focando em uma estrutura monumental, petrificado no meio da paisagem do cerrado. Em torno do monumento, trabalhadores da construção civil buscam o seu sustento sob o sol incremente.
A ausência de narração é uma marca nos filmes de Ana Vaz. Em A idade da pedra, o som é responsável por pontuar de forma estridente, outras vezes suave, esta interação desprovida de harmonia entre o homem e a natureza. As imagens e sons levam o espectador a um estado contemplativo, motivando um olhar sensorial nesta intervenção cruel e suicida dos humanos sobre a natureza.
Blue jeans (França, 1958), de Jacques Rozier. Com Rene Ferro (Rene), Francis De Peretti (Francis), Elizabeth Klar (Elisabeth), Laure Coretti (Laure).
O final dos anos 50 ficou demarcado na França por filmes que finalmente dialogaram com o público jovem que perambulava pelas ruas de Paris e pelas praias e campos: La Pointe Courte (1955), de Agnés Varda, Os primos (1959), de Claude Chabrol, Os incompreendidos (1959), de François Truffaut, Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. Em todos esses filmes, o objetivo diário dos jovens é se divertir, alguns inocentemente, outros praticando pequenos delitos ou, no caso de Michel, um assassinato acidental.
Jacques Rozier não ficou tão famoso quanto seus contemporâneos que lançaram e consolidaram a nouvelle-vague francesa, mas dirigiu pelo menos um clássico deste período: Adieu Philippine (1963). No curta Blue jeans, aclamado por Godard, Francis e Rene, dois jovens de 17 anos, passam as férias de verão em Cannes e redondezas, andando de Vespa pelas praias, tentando desajeitadamente conquistar garotas. Até que conhecem duas meninas e os quatro passam alguns dias despretensiosamente em cafés, bares e praias.
Não há nada a fazer a não ser perambular entre carícias, beijos e romantismo, portanto, nada acontece no filme de Jacques Rozier. O espectador se entrega ao deleite puro de contemplar a beleza dos quatros jovens, emoldurados por uma beleza ainda mais estonteante. Os amigos não têm dinheiro sequer para abastecer as Vespas, mas pouco se preocupam, se preciso largam as motonetas para trás, Querem apenas viver as garotas e vice-versa, aproveitar o sol e os dias luminosos.
Não é difícil imaginar o impacto que esses primeiros filmes da nouvelle-vague francesa provocaram nos jovens que cresceram com os traumas da segunda guerra, que estavam sendo convocados para a Guerra da Argélia enquanto saíam para as ruas em protesto. Viver a cada dia, salve Blue Jeans.
O curta Aribada (Colômbia, 2022), de Simon(e) Jaikiriuma Paetau e Natalia Escobar, filmado na região cafeeira da Colômbia, encantou em festivais, incluindo o prestigiado Festival de Cannes, com suas imagens oníricas, provocativas na união do real, o mágico e o espiritual.
A narrativa acompanha Karmen, uma jovem indígena trans, que retorna a sua comunidade no meio da selva colombiana. Aribada, o monstro ressuscitado, conhece um grupo de mulheres trans indígenas do povo Emberá. O grupo se autodenomina Las Traviesas e as mulheres ganham a vida colhendo café.
O curta, mescla de documentário e ficção, acompanha a dualidade da vida de Karmen, dividida entre o mundo urbano e sua herança indígena. É um reflexivo relato sobre a sexualidade e as questões de gênero dentro do povo indígena Emberá. As imagens induzem a contemplação, com frames que refletem a beleza da região e levam o espectador a se encantar com a leveza espiritual dos indígenas. Sensível, delicado, provocativo, Aribada é uma viagem entre a natureza e as emoções dos personagens.
Simão do deserto (Simón del desierto, México, 1965) faria parte de um filme conjunto entre Luis Bunuel e outros cineastas. No entanto, só o diretor espanhol filmou sua parte, colocando o filme na categoria de curta ou média-metragem, com cerca de 45 minutos de duração.
Simão (Claudio Brook) é um fanático religioso que vive no topo de uma coluna no deserto e é adorado pelos habitantes da região (os representantes legais constroem, inclusive, uma coluna muito mais alta para abrigá-lo). Em alguns de seus intermináveis dias na coluna, Simão é assediado pelo próprio Diabo, interpretado por Silvia Pinal em diversas caracterizações.
A ousadia surrealista de Luis Buñuel confronta os valores religiosos, desnudando a hipocrisia que permeia as atitudes da igreja. Filmado em uma única locação, a coluna e seus arredores áridos, os pontos fortes da película são a relação entre Simão e o Diabo, que assume diferentes formas, entre elas uma jovem mulher que destila erotismo e uma sedutora adolescente.
Terra sem pão (Las Hurdes, Espanha, 1933) foi o terceiro filme de Luis Buñuel, um curta-metragem documental que retrata a vida miserável dos habitantes de Las Hurdes, aldeia localizada no norte da Espanha. Assim como outros documentários, como o clássico Nanook – O esquimó (1922), o diretor espanhol encenou, com a colaboração dos habitantes, grande parte das situações retratadas.
O fato triste e totalmente reprovável dessa estratégia é que a equipe de filmagem provocou as mortes de dois animais – um burro foi lambuzado de mel para que as abelhas o picassem até a morte e um bode foi jogado de um penhasco. As cenas estão no filme.
O curta é uma experiência terrível de se assistir pois retrata a miséria total de homens, mulheres e crianças, muitos com doenças mentais devido à desnutrição (Buñuel filma essas crianças). Mesmo encenado, o retrato é verdadeiro, o documentário foi baseado no estudo etnográfico Las Hurdes: Étude de Géographie Humaine (1927), de Maurice Legendre. Terra sem pão foi banido da Espanha fascista e praticamente não foi exibido no resto do mundo, seguindo a sina do filme anterior de Luis Buñuel, A idade do ouro (1931), que também foi censurado.
Agustina Comedi monta Playback (Argentina, 2019) com imagens de arquivo, registros pessoais, entrevistas, para documentar a trajetória de um grupo de travestis e transformistas que atuaram na noite de Córdoba, entre 1980 e 1990. La Delpi funciona como um elo de ligação, pois é a única sobrevivente do grupo, muitos vitimados pela AIDS.
O documentário é um potente registro da Argentina ainda marcada pela repressora e violenta ditadura militar. A noite underground e queer de Córdoba reserva momentos alegres, rebeldes, uma intensa luta pela liberdade rodeada pelo terror imposto pela conservadora sociedade e pela epidemia da AIDS.
A narrativa fragmentada, não-linear, ajuda o espectador a transitar pelas memórias das personagens, recheadas de sensibilidade, afeto e fraternidade. Playback é um curta-metragem sensível sobre um momento ao mesmo tempo vibrante e trágico da sociedade argentina.
O curta de Radu Jude centra no debate entre um escultor e uma funcionária do governo, travado em uma praia da Romênia onde foi erguida uma grande escultura. A conversa envereda por uma polêmica envolvendo o clássico O encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein.
A obra termina com o famoso embate entre a esquadra russa e o Encouraçado, com a confraternização entre os soldados no final. O escultor expõe a verdade: os marinheiros revoltosos navegaram para a Romênia, onde pediram asilo político. A maioria ficou no país, trabalhando e tentando sobreviver, os que voltaram para a Rússia foram executados pelo governo.
Os diálogos em torno da escultura misturam crítica, ironia e bom humor, versando sobre o cinema, a memória manipulada e a burocracia imposta aos produtores de arte, que devem criar sob os auspícios das autoridades.
Hermína Týrlová, aclamada diretora alemã de animação, dirige em parceria essa pequena obra-prima, uma manifesto contra o nazismo e o fascismo. Um fabricante de brinquedos de madeira está trabalhando em sua oficina quando se vê ameaçado por um oficial da Gestado. Ele foge pela janela, o policial invade a oficina e começa a vasculhar o ambiente, tentando destruir os brinquedos.
Os brinquedos ganham vida e fazem uma resistência coletiva contra o oficial, usando de inventividade, com recursos criativos de guerrilha, bem ao estilo da resistência tcheca durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial. Revolução na terra dos brinquedos, de certa forma, é o antecessor de Toy Story, colocando o universo da fantasia contra os horrores do nazismo.
Revolução na terra dos brinquedos (República Tcheca, 1946), de Hermína Týrlová e Šádek František.
Agnès Varda tece uma narrativa híbrida, entre o documentário e a ficção. Emile, jovem recém divorciada, vive com seu filho Martin, que tem cerca de 10 anos, em Los Angeles. Ela é imigrante e passa seus dias entre o trabalho como datilógrafa, os cuidados com o filho e andanças pela cidade.
A diretora francesa, única mulher integrante da prestigiada nouvelle-vague francesa, parece ter uma câmera acoplada ao seu corpo. Por onde passa, a diretora produz um filme. Documenteur foi realizada durante sua breve estadia em Los Angeles no início da década de 80. Documentário ou ficção, não importa. É o retrato de uma jovem mulher, Emile, em busca de se integrar a um país que finge abrir as portas para todos os sonhadores, sonhos que se desfazem na luta cotidiana. Atenção para a bela imagem de Emile sentada nua na cama. É uma pura imagem de Agnès Varda.
Documenteur (França, 1981), de Agnès Varda. Com Sabine Mamour (Emile Cooper) e Mathieu Demy (Martin Cooper).