Crimes do futuro

O mais recente filme de David Cronenberg exige do espectador estômago, no sentido literal, para acompanhar a trama. Em um futuro desconhecido, o célebre artista Saul Tenser faz performances expondo seus órgãos internos. Os humanos passaram por mutações, novos órgãos foram desenvolvidos. A jovem Caprice acompanha seu namorado nas apresentações, narrando as performances de forma dramática e visceral. 

Prepare-se para cenas absurdamente cronenberguianas: no início do filme, um menino come um balde de plástico no banheiro e, a seguir, é assassinado pela própria mãe; a exposição pública dos órgãos de Saul; simulações sexuais de puro prazer e partir do compartilhamento de órgãos; um casal de assassinas em busca de sangue; a autópsia pública do cadáver de uma criança, manipulada por uma máquina aterradora. Bem, é um filme de David Cronenberg. 

Crimes do futuro (Crimes of the future, Canadá, 2022), de David Cronenberg. Com Viggo Mortensen (Saul Tenser), Léa Seydoux (Caprice), Kristen Stewart (Timlin), Scott Speedman (Lang Dotrice), Don McKellar (Whippet). 

Lar dos esquecidos

O terror parece ser o gênero da segunda década do século XXI. Basta ver a quantidade de produções que são lançadas nos diversos streamings. Lar dos esquecidos, produção alemã disponível na Netflix, segue as normas do gênero, além de fazer referência explícita ao clássico A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. 

A narrativa abre com um brutal assassinato: um idoso mata sua cuidadora, massacrando sua cabeça com um cilindro (referência à aterradora cena de Irreversivel). Corta para Ella dirigindo em uma estrada com seus dois filhos. O destino é a sua cidade natal, um povoado com poucos moradores, a maioria deixou a cidade. Restou aos idosos da cidade uma casa de repouso, onde foram praticamente abandonados pelos parentes. 

Na noite do casamento da irmã de Ella, os idosos se revoltam, acometidos por uma espécie de vírus que os torna violentos e sanguinários. Segue-se um massacre na cidade, com os idosos sitiando a casa onde aconteceu a festa. É a noite dos mortos vivos, no caso, idosos abandonados, relegados a uma vida solitária e sem perspectivas em uma casa de repouso decrépita. Terror e crítica social se misturam em Lar dos esquecidos.  

Lar dos esquecidos (Old people, Alemanha, 2022), de Andy Fetscher. Com Melika Foroutan (Ella), Louie Betton (Alex), Paul Fassnacht (Aike), Ott Emil Koch (Noah), Stephan Luca (Lukas), Anna Unterberger (Kim). 

Argentina, 1985

O jovem advogado Luis Moreno Ocampo tenta convencer o procurador Júlio César Strassera a aceitá-lo como auxiliar no julgamento dos militares na Argentina. No corredor do tribunal, ele argumenta: “Sou de família de militares. Meu tio é coronel. Minha mãe frequenta a mesma igreja que o Videla. Para ela, ele fez a coisa certa. Veja por esse lado. Este é um novo governo. Um governo fraco que sofre pressão de militares. Tomaram a decisão correta de julgá-los. Por isso, acho bom ter advogados jovens em vez dos que apoiam os direitos humanos, que poderiam ser considerados como comunistas. Não só pelos militares, mas também pela classe média, que é aquela que precisamos convencer para termos legitimidade, levando em conta a tendência da classe média de justificar todo golpe militar.

A última frase demonstra a atualidade deste filme. Em 1983, o presidente Raul Alfonsin decidiu julgar os militares que comandaram o país durante a ditadura na Argentina. Eles foram acusados de crimes contra a humanidade. 

A narrativa de Argentina, 1985 acompanha os processos que antecederam o julgamento, quando o procurador Strassera, seu auxiliar Ocampo e um grupo de jovens advogados recolheram centenas de depoimentos de civis que foram presos e torturados arbitrariamente, de pessoas que tiveram familiares desaparecidos durante o regime militar. 

O julgamento abre amplo espaço para depoimentos aterradores, como o de uma jovem grávida que deu à luz no banco do carro dos militares, sem qualquer tipo de ajuda, depois foi torturada durante dias e dias. Ela depõe diante do olhar frio e impassível dos militares sentados no banco dos réus.

Argentina, 1985 é um filme aterrador, por uma questão muito simples: é baseado em fatos reais. Deve servir de alerta para que histórias assim não se repitam, apesar da classe média de certos países aindam insistirem no clamor por golpes militares.

Argentina, 1985  (Argentina, 2022), de Santiago Mitre. Com Ricardo Darín (Júlio César Strassera), Gina Mastronicola (Verónica), Peter Lanzani (Luís Moreno Ocampo), Santiago Armas Este (Javier), Claudio da Passano (Somi).