Processo de criação, por Ivan Turgueniev

“O germe de uma história, para ele, jamais era uma questão de trama — essa era a última coisa em que pensava: tratava-se da representação de certas pessoas. A primeira forma em que um relato surgia para ele era na figura de um indivíduo, ou numa combinação de indivíduos, que ele desejava ver em ação, convicto de que tais pessoas deveriam fazer algo muito especial e interessante. Elas se erguiam à sua frente bem definidas, nítidas, e ele queria conhecer, e mostrar, o mais possível de sua natureza. O primeiro passo era deixar claro para si mesmo o que de fato conhecia, para começar; e, com essa finalidade, redigia uma espécie de biografia de cada personagem, com tudo o que haviam feito e tudo o que lhes havia acontecido, até o início da história. Tinha o dossiê dos personagens, como dizem os franceses, e como faz a polícia para todos os criminosos notórios. Com esse material em mãos, estava apto a dar seguimento ao trabalho; a história toda se apoiava na pergunta: o que farei com eles? Sempre os levava a fazer algo que os revelava completamente; mas, como dizia, o defeito do seu método e a objeção feita a ele eram sua falta de “arquitetura” — em outras palavras, de composição” (from “Pais e filhos” by Ivan Turguêniev, Rubens Figueiredo)

Curiosidades sobre Star Wars

Trechos extraídos do livro Uma Vida, de Brian Jones.

Aparentemente, a inspiração podia vir de qualquer lugar. Certa tarde, Márcia saiu de casa de carro com o cachorro deles – um enorme malamute do Alasca chamado Indiana – sentado alegremente no banco do carona ao seu lado, a cabeça raspando no teto do carro. Lucas achou que o cachorro, quase do tamanho de uma pessoa, parecia o copiloto de Márcia – uma imagem que acabaria se transformando em Chewbacca, o copiloto da Millennium Falcon. 

Outro personagem importante havia encontrado seu nome em um comentário sem importância feito por Walter Murch enquanto ele e Lucas montavam Loucuras de verão. Os dois haviam desenvolvido um sistema próprio para lidar com as pilhas de rolos de filme e quilômetros de película, dando a cada um dos rolos trilhas de diálogos e trilhas sonoras um número de identificação. Em uma das sessões vespertinas, Murch pediu a Lucas o Rolo 2, Diálogo 2 – mas, para acelerar, disse apenas R2 D2. Lucas adorou o som daquilo – o modo como um nome soava sempre seria algo importante para ele – e, depois de entregar as latas de filme a Murch, anotou depressa R2D2 em seu caderno. “Enquanto escrevia, eu repetia os nomes e, quando tinha dificuldade para lidar foneticamente com um deles, o modificava”, disse ele mais tarde. “Tinha a ver com ouvir o nome muitas vezes, e se eu me acostumava ou não com ele.”

No começo da tarde de quarta-feira, 25 de maio (1977), Lucas saiu com os olhos pesados de outra sessão de trabalho virando a noite no Goldwyn. Enquanto saía, Márcia estava chegando, e os dois decidiram almoçar juntos, indo ao Hamburger Hamlet, no Hollywood Boulevard, em frente ao Grauman ‘s Chinese Theater. De sua mesa nos fundos, ele e Márcia podiam ver pela vitrine que a rua estava ficando cada vez mais cheia de gente. “Era como uma cena de multidão”, lembrou Lucas. “Uma faixa de tráfego estava bloqueada. Havia polícia ai (…) Havia filas, com oito ou nove pessoas de largura, caminhando nos dois sentidos ao redor do quarteirão.” Ele e Márcia terminaram de almoçar e saíram para descobrir o que era tudo aquilo. “Achei que alguém devia estar lançando um filme”, contou Lucas mais tarde.

Alguém estava. Gravadas em letras enormes no letreiro de ambos os lados da via, acima da multidão barulhenta e agitada, havia duas palavras: STAR WARS. – pg. 272

Nesse ínterim, o confiável Ben Burtt continuava editando os efeitos sonoros, e Lucas ainda tinha várias vozes importantes para mixar. James Earl Jones retornaria para fazer a voz de Vader, incluindo uma frase fundamental de um diálogo – “Não. Eu sou seu pai” – de que apenas Hamill, Kershner e algumas poucas pessoas tinham conhecimento durante as filmagens. (Oculto pela máscara de Vader, Dave Prowse dissera a fala “Obi-Wan matou seu pai”, e só saberia a verdadeira reviravolta na trama ao assistir ao filme no cinema). De sua parte, quando Jones gravou o diálogo de Vader, no inverno de 1980, ele continuava convencido de que Vader estava mentindo. – pg. 318

A divisão de computadores trabalharia de forma diligente, embora lenta, ao longo dos anos seguintes para criar as ferramentas digitais que Lucas imaginou – e, enquanto Catmull e sua equipe divergiam de Lucas acerca dos objetivos finais dos novos equipamentos, eles realmente compartilhavam sua aptidão para pensar depressa em nomes para seu projeto. Uma noite, durante o jantar, um designer sugeriu que chamassem seu novo computador de composição digital de “Fabricante de Imagens”. Alvy Ray Smith sugeriu que criassem algo um pouco mais moderno – talvez fazendo referência ao laser que o computador usava para a maior parte da varredura – e propôs o nome de Pixer. Depois de um pouco mais de discussão, eles decidiram ajustar a palavra ligeiramente, surgindo um nome que todos gostaram um pouco mais: Pixar. 

Lucas também confundiu os críticos – e os fãs – ao adicionar, antes do letreiro de abertura, que o público estava prestes a ver o EPISÓDIO V – O IMPÉRIO CONTRA-ATACA. Aqueles que estavam prestando atenção apontaram que Lucas revelara a intenção de relançar Star Wars, com um novo título em que se lia EPISÓDIO IV – UMA NOVA ESPERANÇA. Desse momento em diante, Lucas sempre afirmaria que pegou a primeira versão extensa de Star Wars, dividiu-a em três e, em seguida, decidiu filmar o terço do meio primeiro, com Uma nova esperança como a quarta parte de uma saga de noves partes. – pg. 322

George Lucas. Uma vida. Brian Jones. Rio de Janeiro: BestSeller, 2017. 

O cinema americano, por Italo Calvino

“Ainda não disse, mas parece ter ficado subentendido que para mim o cinema era americano, a produção de Hollywood. A ‘minha’ época vai mais ou menos de Lanceiros de Bengala, com Gary Cooper, e O grande motim, com Charles Laughton e Clark Gable, até a morte de Jean Harlow (que revivi muitos anos mais tarde, com a morte de Marilyn Monroe, num período mais consciente da carga nervosa dos símbolos), com muitas comédias no meio, aquelas policiais, com Myrna Loy e William Powell e o cachorro Asta, os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers, os suspenses de Charlie Chan, detetive chinês, e os filmes de terror de Boris Karloff. Os nomes dos diretores eram menos importantes, com exceção de alguns como Frank Capra, Gregory La Cava e Frank Borzage, que, em vez de milionários, representavam pessoas pobres, quase sempre com Spencer Tracy. Eram os diretores bonzinhos da época de Roosevelt, que, como deduzi mais tarde, eu engolia sem distinguir uma coisa de outra. O cinema americano do momento consistia numa coleção de rostos de atores jamais vista, nem antes nem depois (pelo menos assim me parece), e as histórias eram simples mecanismos usados para reuni-los (apaixonados, comediantes, atores em geral) em combinações sempre diferentes. Ao redor das tramas convencionais, havia pouco do sabor de uma sociedade e de uma época, mas era exatamente por isto que me atingia sem que soubesse definir no que consistia. Era (como teria aprendido em seguida) a mistificação de alma daquela sociedade, mas era uma mistificação particular, diferente daquela nossa mistificação que aparecia durante o resto do dia. E como para o psicanalista é tão interessante que o paciente minta tanto quanto seja sincero, porque de qualquer forma revela alguma coisa de si, eu, espectador pertencente a outro sistema de mistificação, tinha muito o que aprender, tanto daquele pouco de verdade quanto daquela grande mentira fruto dos produtos de Hollywood. Assim, não carrego nenhum rancor daquelas imagens mentirosas da vida; hoje parece que nunca acreditei que fossem verdadeiras, mas sim que fossem algumas das possíveis imagens artificiais, ainda que não tivesse conseguido explicar isso na época.” – Autobiografia de um espectador. Italo Calvino.

Referência: Fazer um filme. Federico Fellini. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011