O livro do assassino

Não sou leitor assíduo de livros policiais. Comprei, há muitos anos, coleção da Agatha Christie e os livros ficaram empoeirados nas estantes. Até que minha filha descobriu o gênero e leu um por um. De Agatha Christie ela passou a Arthur Connan Coyle, entusiasmada com Sherlock Holmes. Acabou como leitora voraz de romances policiais, uma vez por semana aparece com livro novo, incluindo exemplares da Coleção Negra, livros sedutores, belas encadernações de variados autores do gênero.

O livro do assassino, de Jonathan Kellerman, cumpre com precisão as promessas de uma envolvente narrativa policial. O psicólogo Alex Delaware recebe pelo correio álbum repleto de fotos de cenas de crimes, destas que fazem parte dos arquivos policiais, tiradas logo após os assassinatos. Delaware mostra as fotos para um amigo policial, Milo Sturgis. Ao ver as fotos de uma jovem estuprada e assassinada, o policial se recorda do caso: Jane Ingalls, 17 anos, violentada, estrangulada, queimada e retalhada. Um caso de 20 anos atrás não resolvido por Milo Sturgis e seu parceiro.

O livro fora enviado de propósito, como motivação para Milo reabrir, por conta própria, as investigações. Boa parte das 524 páginas de O livro do assassino transcorre com a dupla investigando o passado das pessoas possivelmente envolvidas no crime. O ângulo principal da narrativa acontece pelos olhos do psicólogo que narra em primeira pessoa o rumo das investigações. Em outros momentos, a terceira pessoa assume a narração para seguir os passos de Milo Sturgis. Este interessante recurso aumenta o suspense, pois provoca no espectador a sensação de montagem paralela, como no cinema.

A técnica é importante também para sugestionar como a homossexualidade do detetive Milo Sturgis poderia ter interferido nas primeiras investigações do assassinato, revelando o preconceito agressivo dentro da polícia de Los Angeles. As revelações caminham para questões comuns no gênero policial: corrupção na polícia, atos criminosos motivados por drogas, o mundo sem limites dos jovens endinheirados na meca do cinema, prostituição e abuso sexual de menores.

A princípio, o leitor fica confuso pois personagens aparecem e desaparecem durante as investigações. Aos poucos, porém, as peças vão se juntando e, se você tiver memória acostumada a este tipo de narrativa, percebe que as conexões são bem maiores do que se imaginava para um crime sexual. Por isso, o clímax não é tão revelador, vale mais pela ação desencadeada nos últimos momentos.

Aí sim, este leitor desacostumado pode ser fisgado pelo gênero que já proporcionou obras primas para o cinema e se tornar frequentador da biblioteca da filha.

Manga ubá

Sinto cheiro de manga ubá. Cheiro doce, cheiro das férias de janeiro da infância. A mãe passeava toda manhã pelo grande quintal da casa do irmão no interior, recolhendo frutas pelo chão, caídas dos quatro, cinco pés de manga. Sentava-se à sombra, fazia um pequeno buraco na casca da manga, espremia com as mãos o suco na boca, um filete amarelo escorrendo pelo canto dos lábios.

Não gosto de manga. Gostava era do cheiro, do prazer nos olhos da mãe. Às vezes, ela fingia me abraçar com as mãos meladas. Eu corria pelo quintal, dividido entre a alegria da fuga e o medo de ser alcançado pelos beijos sujos de manga. Sinto o cheiro do quintal, das galinhas ciscando, do porco escondido em seu chiqueiro lá no fundo, do milho e do café secando no pequeno paiol, do fogão à lenha, de Raquel.

– Essa é Raquel. Ela queria muito te conhecer. – me disse a prima, certa tarde, na porta da casa. Na janela que dava para a rua, eu já a vira passar muitas e muitas vezes do outro lado, nossos olhos se encontrando.

– Oi Raquel. “Você é a menina mais bonita que já conheci em toda a minha vida”. As aspas dizem o que ficou dentro de mim, nesse jogo de linguagem que eu começava a conhecer em pensamento, sem coragem ainda para transformar desejos em palavras.

Nas manhãs de sol, eu acordava cedo e me sentava no coreto da praça principal da cidade, de frente para o sobrado do outro lado da rua, esperando Raquel despertar, abrir a janela e olhar por alguns segundos para a praça. Nas manhãs de chuva, eu ficava na cama, olhos fechados, enxergando o sobrado, a janela, Raquel.

Abro os olhos, Raquel está cada vez mais distante. É como correr pelo quintal, nessa alegre brincadeira dos dias que passam num instante, até se transformarem em lembranças e desejos tardios da infância, da juventude, de ontem.

Sinto cheiro de manga ubá.

Jornalismo no cinema

Difícil conceber um livro que trate de filmes sobre jornalismo sem analisar Cidadão Kane (EUA, 1941), de Orson Welles. A parábola da infância à morte de Kane é a mais contundente analogia entre o jornalismo e as relações de vaidade, megalomania, celebridade, PODER. A justificativa da organizadora Christa Berger para não incluir este filme no livro Jornalismo no cinema, Ed. Universidade/UFRGS, 2002, são os inúmeros textos já publicados sobre o filme. Outra ausência sentida é Reds (EUA, 1981), de Warren Beatty, filme sobre John Reed, jornalista que cobriu a revolução russa e escreveu o antológico livro Os dez dias que abalaram o mundo.

Jornalismo no cinema reúne textos de diversos autores, analisando filmes produzidos entre 1951 e 1999. Do cinema contemporâneo, destaques para O informante (EUA, 1999) e Mera coincidência (EUA, 1997).

O texto de Adriana Schryver Kurtz sobre O informante, de Michael Mann, aborda as relações entre o jornalista Lowell Bergman (Al Pacino) e seu informante, Dr. Jeff Wigand (Russell Crowe). As revelações que devem ir ao ar no programa 60 Minutes, da CBS News, se referem ao trabalho desenvolvido pelo Dr. Wigand na indústria de cigarros, envolvendo substâncias que propositadamente “viciam” o fumante. As perigosas associações entre as funções sociais do jornalismo de informar e o corporativismo empresarial estão delimitadas nas decisões sobre a edição final da matéria.

“Quando, entretanto, a ameaça judicial for dirigida ostensivamente à própria CBS News, Wallace não verá problema nenhum em aceitar uma versão alternativa para a matéria já pronta (inédita, bombástica e de amplo interesse público). Nessa hora, ele ficará ao lado dos executivos do programa e do alto escalão da CBS Corporation.” A versão da matéria que vai ao ar é reeditada, provocando a cólera do jornalista: “Você cortou! Você cortou!. Seu lacaio corporativo. Quem disse que seus dedos corporativos possuem o talento para me editar?”.

Esta sequência traz a tona outra faceta cruel do jornalismo: a manipulação. Além de decisões judiciais e/ou empresariais, o corte significa a intervenção no trabalho investigativo do jornalista, intervindo no material que chega ao leitor/espectador/ouvinte. O tema é tratado sem meios-termos em Mera coincidência, de Barry Levinson. Robert de Niro e Dustin Hoffman interpretam os estrategistas da campanha de reeleição do presidente dos EUA. A campanha se transforma em espetáculo quando, tentando encobrir um escândalo sexual, os comunicadores ”inventam” uma guerra, chegando a criar imagens falsas do conflito.

Segundo Maria Helena Weber, autora do artigo, no filme “sobram provocações ao entendimento sobre as relações estabelecidas entre mídia e política, quando se trata de ganhar o jogo da visibilidade, informando, persuadindo e manipulando opiniões. O filme é representativo dessa era, na qual a circulação estratégica de imagens e a reprodução de índices percentuais de apoio de opiniões públicas, privadas e midiáticas, parecem poder justificar quaisquer atitudes e rompimentos com a ética, a verdade, a realidade.”

Jornalismo no cinema traz ainda análises dos clássicos A doce vida (1960) e Todos os homens do presidente (1976). O representante brasileiro do gênero é Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Completam a edição: A dama de preto (EUA, 1952),  A trama (EUA, 1974), A honra perdida de uma mulher (Alemanha, 1975),  Um dia muito especial (Itália, 1977), Rosa Luxemburgo (Alemanha, 1985), O poder da imagem (EUA, 1990), Ele disse, ela disse (EUA, 1990), Íntimo e pessoal (EUA, 1996), Viva a república(França, 1997).

Deixo por último, o favorito: A montanha dos sete abutres (EUA, 1951), de Billy Wilder. Charles Tatum (Kirk Douglas), jornalista decadente que já passara por grandes jornais dos EUA, aceita emprego no pequeno e interiorano Albuquerque Sun. Acontece um acidente nas imediações da cidade, caçador de relíquias indígenas fica preso em uma mina. O repórter é o primeiro a chegar ao local e imediatamente começa a produzir matérias sensacionalistas. Com a ajuda de lideranças locais, Tatum arma um circo, retardando ao máximo o resgate da vítima para continuar “vendendo” suas matérias.

Segundo Giba Assis Brasil, o título escolhido por Billy Wilder seria Ace in the hole (Ás na manga). “No entanto, poucos dias antes do lançamento, a distribuidora mudou o título em inglês para The big carnival (O grande carnaval), numa referência ao imenso parque de diversões em que se transforma a área em volta da montanha durante os sete dias do resgate. E é este talvez o aspecto mais atual do filme, passados cinquenta anos de sua estréia: a espetacularização da notícia – ou, segundo o ensaísta Neal Gabler em Vida, o Filme, a transformação da própria realidade em entretenimento.”

O show comandado por jornalistas nunca foi tão atual. “Meio século depois, não há dúvida de que se trata de um grande filme, com uma visão devastadora (e, de certa forma, premonitória) sobre a ‘sociedade do espetáculo’, e com elementos essenciais para qualquer discussão sobre a ética do jornalismo. Não apenas os limites que devem ou não ser respeitados pelos jornalistas, ou pelos editores, pauteiros, proprietários de jornal: o que é notícia, o que é interesse público, que tipo de interferência pode ser aceitável e até que ponto.”

Diante da luta desesperada pela audiência (ver Rede de intrigas, outro ausente da edição), jornalistas, principalmente da avassaladora mídia TV, parecem assumir a máxima de Charles Tatum: “Sou um ótimo repórter, para grandes e pequenas histórias. E, se não houver história nenhuma, eu saio pra rua e mordo um cachorro.”

Daqui a pouco

Acordei com o verso de Shelley na cabeça, I can give not what men call love.  Eram quatro horas da manhã. O ar condicionado esfriara o quarto, apesar do calor de outubro. Tirei os braços de Tânia de meu peito. Levantei-me com cuidado, temendo acordá-la.

– Onde você vai? – ela perguntou ao me ver vestindo a bermuda e a camiseta.

– Pensei em ver o nascer do sol. Vamos? – ela abraçou com força o travesseiro e voltou a dormir.

Sentei-me durante alguns minutos na varanda do quarto, sentindo a brisa do mar. Pensei em ficar por ali mesmo, afinal, todo amanhecer na praia é sempre o mesmo e costuma ter  aquela nuvem no horizonte exatamente quando o sol vai aparecer. Caminhei até a praia. Bem longe, à esquerda, enxerguei as luzes da cidade. Imaginei casais voltando de festas, bares, noitadas, casais se beijando, casais se amando entre declarações.

– Você me ama? – estávamos deitados na rede, na varanda do quarto do hotel. Olhávamos o mar, o vento trazia o barulho das ondas, insistente. Tânia voltou a perguntar. – Você me ama?

– Sim.

– Sim? Só isso? – respondi com um beijo delicado, lento, os lábios quase não se tocando.

– Hum. Assim é melhor.

Antes de dormir, resolvi trabalhar um pouco mais na tradução, uma coletânea de poetas ingleses que a editora encomendara. Esbarrei na frase de Shelley. Tânia chegou por trás e me abraçou, o rosto encostado em meu pescoço. Escreveu a lápis, ao lado de minhas anotações, I love you.  Tomei o lápis de sua mão e escrevi, logo abaixo, She speaks. O, speak again, bright angel!. Ela sorriu e se despediu com um beijo em meu pescoço, se entregando ao sono. Fiquei ainda um tempo, a tela do notebook aberta, a frase de Shelley parada à minha frente.

O dia começava a clarear. Andei uns cinqüenta metros pela areia, depois voltei para a frente do hotel. Andei para o outro lado, voltei novamente. A praia estava deserta e de repente toda aquela melancolia me pareceu pequena.  Daqui a pouco, todos vão acordar. É domingo. Casais de idosos vão caminhar pela praia, um pai vai brincar de futebol com seu filho, um cocker spaniel vai passar latindo para as ondas, namorados vão espalhar protetor solar nas costas das namoradas, crianças vão partir aos berros em direção ao mar, um senhor protegido por seus óculos escuros vai seguir com os olhos as jovens.

Daqui a pouco Tânia vai sair do banho cheirando à manhã. Vai se  vestir sem preocupação, pentear os cabelos com vagar em frente ao espelho, calçar os chinelos de borracha e dizer com seu olhar intraduzível:

– Estou pronta.

Daqui a pouco, Tânia e eu vamos sair para o dia e talvez, pelo menos esta manhã, eu possa amá-la um pouco mais.

Memórias do subsolo

Memórias do subsolo, novela publicada em 1864, é narrada em primeira pessoa por um anônimo. O personagem revela com ironia e desprezo a amargura em que vive. Dostoiévski usa o narrador para caracterizar a decadência de uma geração. Na introdução, o autor alerta:

“Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros.”

Essa geração derradeira é representada por um homem sem esperanças a respeito do mundo e de si mesmo. Começa sua história apresentando-se: “Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado.”

Dostoiévski colocou na mente de seu personagem indagações perturbadoras. O narrador reflete:

“Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas, e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não apenas lembro, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?”

Essa dúvida fecha o longo desabafo inicial do personagem, quando ele resolve contar a sua história. Uma história sobre personagens do subsolo (Érico Veríssimo fez incursão parecida em Noite). Talvez nem uma história, crueldades do mundo jogadas no papel. Narradas desse jeito profundo e simples que fazem de Dostoiévski porto-seguro na escolha de boa leitura.

“Agora está nevando, uma neve quase molhada, amarela, turva. Ontem nevou igualmente e dias atrás, também. Tenho a impressão de que foi justamente a propósito da neve molhada que lembrei esse episódio que não quer agora me deixar em paz. Pois bem, aí vai uma novela. Sobre a neve molhada.”

Interlúdio

O cenário é a sacada do hotel com vista para a praia de Copacabana. Devlin olha o mar, Alicia o puxa pelo braço. Os dois se beijam com ardor. Rostos colados, conversam sobre o clima. Tocam os lábios, voltam a conversar, agora sobre o jantar. Tocam novamente os lábios, a câmera sempre em close, ângulo lateral dos rostos. Os lábios estão quase colados, conversam sobre o frango do jantar. Lábios se tocam, conversam, lábios se tocam, conversam. Não há cortes, é um plano sequência. Entram abraçados no quarto. Caminham, Alícia com o rosto deitado no ombro de Devlin. Ela pega o telefone, disca sem olhar para o teclado, os lábios ainda colados nos de seu amante. Se beijam, agora o fone está abaixo do queixo dos dois. Devlin pergunta “há algum recado para mim?”. Desvia os lábios do fone, toca a boca de Alicia. Todos os beijos são rápidos, sensuais, intercalados por frases cotidianas, uma ou outra alusão ao amor. Devlin se volta para o fone, pede que o atendente leia o recado para ele. Enquanto escuta, beija Alícia. Põe o fone no gancho, conversam sobre a missão de Alícia no Rio de Janeiro. Os lábios não param de se tocar. Caminham até a porta, se despedem, Alícia fecha a porta. Corta. 

O plano sequência tem cerca de três minutos de pura sensualidade, erotismo, em uma época na qual códigos que imperavam entre os anos 30 e 40 impediam que diretores filmassem longos beijos. Hitchcock ludibriou os comitês de ética fazendo com que os amantes se beijassem por alguns segundos, se separassem, se beijassem por mais alguns segundos, assim por diante, sem cortes. A ousadia do diretor se transformou em dos mais famosos planos da história do cinema. Contestador e criativo, atesta o domínio perfeito da técnica cinematográfica a serviço da narrativa, marca indelével de Hitchcock. “Ele jamais escolheu um ângulo arbitrariamente. Sempre havia uma razão. E sempre tinha a ver com o enredo. Ele sempre dizia: esclarecer, esclarecer, esclarecer. Queria tudo muito claro para o público, não queria deixar dúvidas, porque perderia o interesse. A base do suspense é o conhecimento.” – Peter Bogdanovich

A trama, adaptada do conto The song of the dragon, de John Taintor Foote, guarda semelhanças com a história de Mata Hari. Alicia é filha de cientista condenado à prisão por colaboração com o regime de Hitler. Ela é abordada por Devlin, agente secreto do governo americano que tenta seduzi-la para tentar convencê-la a se infiltrar em um grupo de nazistas que atua no Rio de Janeiro. O chefe dos nazistas é Alexander Sebastian que, no passado, foi apaixonado por Alicia. Quando sabe dos planos de Devlin, Alicia diz: “Mata Hari. Ela faz amor em nome dos documentos”.

A trama está posta: espionagem, agentes infiltrados, romance, negação a princípios morais em favor da pátria. O roteiro de Ben Hecht carregou a trama de conotações políticas, inserindo um elemento que colocou Hitchcock na lista de investigados do FBI: o urânio como substância que poderia ser usada pelos alemães na fabricação da bomba atômica. O filme foi lançado cerca de um ano antes da explosão de Hiroshima, quando a construção da bomba ainda era segredo de estado nos Estados Unidos. Hitchcock diria que o urânio era apenas o macguffin da trama, pretexto para guiar a história de casal de espiões apaixonados, sendo que a mulher tem que se casar com o nazista para se infiltrar no grupo e conseguir informações.  

Nesse ponto reside grande parte da ousadia do roteiro e do filme. O produtor David Silznick afirmou que “quando Ingrid Bergman entra na chamada cova do leão e se casa com Sebastian, o filme torna-se dela.” Alicia é dos grandes personagens femininos do cinema. No rascunho do roteiro ela era prostituta e alcoólatra. O alcoolismo foi mantido na versão final, no início do filme ela dirige bêbada na estrada, com Devlin ao lado. Fica claro que ela teve vários casos, motivo para Devlin, tomado por preconceitos, evitar o romance. Ele a considera vulgar e bêbada, sugerindo isso em partes da trama. Quando se apaixona por Devlin, Alicia aceita a missão, como quem caminha para a tragédia pessoal. Ingrid Bergman está perfeita no papel, encarnando com paixão e tristeza seu destino, além de exalar sensualidade em cada cena. 

Interlúdio tem sequências memoráveis: Alícia e Devlin dentro da adega de vinhos na mansão de Sebastian, procurando garrafas com urânio, o suspense hitchcockiano na essência; a incrível cena que começa em um plongée do salão de festas, mostrando todos os presentes, a câmera desce lentamente até fechar na chave da adega que está na mão de Alícia – os produtores tiveram que construir uma grua especial, a câmera colocada dentro de uma gigantesca armação de madeira; o final, quando Sebastian volta para dentro de casa, entra no covil dos nazistas, agora como a vítima, e a porta se fecha. E a famosa sequência que abre esse texto, ideia, que segundo Hitchcock nasceu da observação de uma picante cena que mais parece saída de sua imaginação sem fim. 

“A famosa cena do beijo. Aquilo foi de propósito, porque eu não queria nem cortar. Eu queria que continuassem se abraçando. Minha ideia foi que a câmera também fosse incluída nisso. Eles se abraçam e nós nos unimos a eles. Fui seguindo, sem abandonar o close. Como eu disse, a base de toda a cena foi não interromper o momento romântico. Esse foi o objetivo, não o movimento de câmera. Tive a ideia vários anos antes dentro do trem para Boulogne depois de atravessar da Inglaterra para a França até Paris, no ETAP, que fica nos arredores de Boulogne. Era uma tarde de domingo. Havia uma fábrica de tijolos antiga na estrada e essa fábrica tinha um muro bem alto. Havia duas figuras encostadas no muro, um menino e uma menina, e o menino estava urinando no muro. Mas a menina continuou abraçando-o. Ela olhou para baixo para ver o que ele fazia, olhou para os lados, depois olhou para baixo de novo e tudo o mais. A ideia veio daí: ela não conseguia soltá-lo. Um romance não deve ser interrompido nem para urinar.”

Interlúdio (Notorious, EUA, 1946), de Alfred Hitchcock. Com Cary Grant (Devlin), Ingrid Bergman (Alicia Huberman), Claude Rains (Alexander Sebastian), Louis Calhern (Paul Prescott), Leopoldine Konstantin (Mme. Sebastian), Reinhold Schunzel (Dr. Anderson).

Referência: Alfred Hitchcock. Interlúdio. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos, Francisco Inácio Araújo Silva Junior e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

Um cão andaluz

Um cão andaluz nasceu da parceria entre Luis Buñuel e Salvador Dalí, espanhóis que formaram, junto com o poeta Federico Garcia Lorca, irreverente trio quando residiram em Madri. Contam que praticavam atos de contestação social bem antes de conhecerem as ideias surrealista. Por exemplo: uma amiga dos três se vestia de prostituta, entrava no metrô. Na estação seguinte, um dos três entrava vestido de padre e começava a molestar a mulher. Na terceira estação, outro entrava vestido de policial e partia para espancar o padre, dizendo que “padres sempre molestam prostitutas”. Depois da conturbada reação das pessoas no metrô, eles desciam e iam beber.

Em Paris, Buñuel trabalhou como assistente de direção para aprender a técnica cinematográfica, enquanto Dalí era apresentado à sociedade das artes.  Entusiasmado com o aprendizado, Buñuel propôs a Dali a realização de um filme. Segundo ele, “O roteiro foi escrito em menos de uma semana, segundo uma regra muito simples adotada de comum acordo: não aceitar nenhuma ideia, nenhuma imagem que pudesse dar ensejo a uma explicação racional, psicológica ou cultural. Abrir todas as portas ao irracional. Não acolher senão as imagens que nos impressionassem, sem procurar saber por quê.”

O filho de Buñuel, Juan-Luis, explica a relação do pai e Dali durante a escrita do roteiro: Dali diria, por exemplo, uma boi ataca a câmera. Meu pai não gostava da ideia e Dali a aceitava imediatamente.  Eles criavam cenas. “Há uma mulher”. “Bom, o que ela faz?” “Pula corda”. “Má ideia”. “Ela está com medo”. “Bem. De que?” “Dois pedaços de corda.” “Interessante. Onde estão?” “São de ouro.” “Não.” “Há um homem puxando.” “Bom. Puxando o que?” “Um trem ou um piano.” “Piano é ótimo.” “O que há no piano?” “Uma corda de pular.” “Não.” “Dois jumentos mortos.” “Grande.” E assim por diante.

Buñuel conseguiu dinheiro com a mãe e, depois de gastar metade do dinheiro em boates, rodou o filme em quinze dias.  O resultado é um filme com continuidade narrativa, princípio básico da linguagem cinematográfica, mas completamente desconectado da lógica.

“Muitas vezes, por conta de sua grande influência sobre os videoclipes de rock, Um cão andaluz foi e continua sendo reciclado e reduzido a uma coleção de imagens desconexas, impactantes e incongruentes: um cavalo morto em um piano, formigas saindo da mão de alguém. Porém essa abordagem ignora o que dá à obra sua força coesiva: o fato de que, em muitos aspectos, Buñuel respeita escrupulosamente certas convenções da continuidade clássica e encadeamento de imagens, criando uma atmosfera narrativa sólida e inquietante entre esses fragmentos do inconsciente. Trata-se de uma dialética entre racionalidade superficial e as forças profundas e revoltas do Id que Buñuel continuaria explorando até o fim de sua carreira.”

Sobre a famosa primeira cena, filmada com o poder do cinema em transformar sonhos em imagens sombrias e aterradoras, Luis Buñuel escreveu: “Para submergir o espectador em um estado que permitisse a livre associação de ideias, era necessário produzir nele quase um choque traumático logo no começo do filme, por essa razão nós o começamos com o plano do olho seccionado, muito eficaz. O espectador entrava no estado catártico necessário para aceitar o desenvolvimento ulterior.”

A primeira exibição pública de Um cão andaluz foi promovida para “a fina flor de Paris”, formada por aristocratas, escritores, pintores e o grupo surrealista. Relembrando a primeira exibição, Buñuel relata que estava muito nervoso e ficou atrás da tela com uma vitrola, trocando discos durante a projeção, alternando entre tangos argentinos e Tristão e Isolda. Ele colocara pedras nos bolsos para atirar na plateia em caso de vaias. No final da projeção, Um cão andaluz foi aplaudido por minutos e as pedras foram jogadas ao chão.

Um cão andaluz (Un chien andalou, França, 1928), de Luis Buñuel.

Referências:

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Índices de um cinema de poesia. Pier Paolo Pasolini, Luis Buñuel e Krzysztof Kieslowski. Erika Savernini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004

Meu último suspiro. Luis Buñuel. São Paulo: Cosac Naify, 2009

Livrinhos de faroeste

Era sábado, pouco depois do meio-dia. Peguei os chumbinhos, fui até o quintal, encostei no muro uma latinha, voltei para o lado oposto e armei a espingarda. Mirei devagar e aproveitei, por instantes, a sensação do pequeno Joe na clássica primeira seqüência deShane (1953). Puxei o gatilho. O estampido seco ecoou na cozinha, nos ouvidos de minha mãe.

Ouvi o grito às minhas costas: “Menino, onde você arrumou essa coisa?”. “Presente do pai.” Ela olhava sem entender. O que se seguiu foi uma discussão entre pais que varou a tarde e me impediu de dar outros tiros. O pai dizia que avisou a ela sobre a tal espingarda de aniversário. A mãe jurava que  quando ouviu “espingardinha de chumbo” acreditou se tratar de um brinquedo, nunca imaginou que aquilo atirava de verdade.

Mas foi a própria mãe quem me apresentou ao fascinante mundo do western, inclusive me presenteando com revólveres de espoleta. Minha mãe amava filmes de faroeste. Spaghettis italianos então, nem se fala. “Gosto mesmo é quando o mocinho mata três ou quatro de uma vez num duelo”. E emendava dizendo da paixão por Burt Lancaster e Kirk Douglas, notórios galãs de fitas de mocinhos e bandidos.

Ela me passou essa paixão associada a outra grande herança: o gosto pela leitura. Pelo menos uma vez por semana, íamos a casa de seu irmão buscar livrinhos de faroeste para ler. O tio abria o guarda-roupa onde guardava pilhas e pilhas daquela literatura descartável, escrita em série por autores desconhecidos, a maioria assinando com pseudônimo. As tramas giram em torno do mesmo assunto: ladrões de gado, tenentes do exército e índios, vinganças familiares, assalto a bancos, cidades assoladas por bandoleiros e o pistoleiro solitário com sentimentos nobres para salvar a cidade.

Eu e a mãe líamos pelo menos uns dois por semana e voltávamos para buscar mais na casa do tio. Daí para as sessões da tarde que não se cansavam de reprisar sempre os mesmos westerns foi um salto. Assistíamos juntos, fascinados.

Com o tempo, a mãe se acostumou aos meus tiros em latinhas de conserva e tudo o mais inanimado que pudesse servir de tiro ao alvo. Às vezes, após um estrondo maior, eu ouvia um suspiro vindo de dentro da casa e a imaginava no gesto solene do sinal da cruz.

O beijo do androide

A Enterprise atende a comunicado de raça alienígena dizendo que os humanos que habitam um planeta pertencente a esta raça serão exterminados. A Enterprise tem dois dias para retirar os colonos. O planeta é afetado por radiação o que não permite que os humanos da nave desçam até o planeta (os colonos desenvolveram imunidade à radiação).

Data é encarregado da missão e rapidamente descobre que o líder dos colonos não vai deixar ninguém sair do planeta. Moram ali há noventa anos, construíram tudo com as próprias mãos, preferem lutar e morrer se necessário. Data tem de convencer os colonos. Tudo para o androide é frio e racional. Para ele, basta o argumento lógico e incontestável: “se vocês ficarem, vão todos morrer.” Argumento que não convence humanos que se apegam a coisas e bens a ponto de sacrificar a própria vida por algo como a casa. Data trata tudo com objetividade, a lógica comanda  os seus atos e palavras. Ele conta com a ajuda de uma moradora que o admira a ponto de desenvolver uma relação sentimental pelo androide.

Sente-se que os colonos querem ser convencidos, não querem morrer, mas os argumentos emotivos do líder falam mais alto. Ele vence Data em todos os debates. Até que Data descobre a saída e diz para sua admiradora: os humanos se deixam levar por ações, não por palavras. É através da ação, no final do episódio, que ele convence os colonos a deixarem o planeta. A frieza dá lugar à manipulação, a encenação emotiva e convincente sobre os horrores de uma guerra sem sobreviventes. Em menos de um minuto, até o líder se deixa convencer.

Durante o conflito, em duas cenas Data se vê diante da verdadeira lógica humana. Ele está confuso, sem esperança de convencer os colonos. A moradora dá um beijo em seus lábios. Ele pergunta: “porque fez isso”. Ela responde: “porque é isso que você está precisando”. No final do episódio, a moradora sente a partida de Data e pergunta: “você não sente nada por mim”. A resposta: “Sou um androide, não tenho sentimentos”. A seguir, ele beija a moradora nos lábios. ”Por que você fez isso” – ela pergunta. ”Por que é disso que você está precisando”. – responde Data com toda a inteligência do mundo.

Os Imperativos do Comando (The Ensigns of Command, episódio 50, 3º temporada) / Star trek: a nova geração.

Pequeno diário

Cristina caminhou na minha direção com passos arrastados. Pensei que não existia mais essa história de luto, de se guardar em vestes negras enquanto a recordação nos vai consumindo por dentro. Mas elas foram tão amigas, tão próximas, proximidade feita de longas conversas ao telefone, cartas nos momentos de distância, refúgio na casa da outra em noites de angústia. Maria e Cristina. Podia ser um nome composto, Maria Cristina, nem assim seriam tão ligadas como o foram desde o momento em que se conheceram na faculdade de letras.

Trocamos algumas confidências a respeito de Maria, sempre interrompidos por alguém que se aproximava, “meus sentimentos”, como se Cristina fosse ali o parente mais próximo. Consideravam-me apenas para um ligeiro aperto de mão, às vezes um leve aceno de cabeça. “É o escritor, amigo de infância” – ouvi uma mulher dizer para o marido enquanto se afastavam.

Lamentei, como é comum nesses momentos, a ausência de anos repetidos sem trocar uma única palavra com Maria. Vi Maria pela última vez uns três anos atrás, no supermercado. Fiquei olhando para ela, indeciso em me aproximar. Às vezes me sinto estranho com pessoas tão amigas, de histórias comuns que o tempo vai deixando nas prateleiras. Mas ela se aproximou, um longo sorriso no rosto. Ficou a relembrar nossa adolescência, acabei entusiasmado por aquelas risadas e ficamos ali, entre latas de Pomarola, dizendo de brincadeiras ingênuas de rua, da juventude em cinemas e bares, quase falei de desejos não consumados. De repente, Maria se fez séria, baixou os olhos por alguns segundos e voltou a levantá-los repentinamente, como se fosse despejar uma frase de pronto no meu rosto. Suspirou desconcertada e nos despedimos.

Perdemos contato. Às vezes, a mãe me dava notícias: “Maria se separou do segundo marido, diz que tinha um amante, Seu Raimundo nem põe o pé na porta da rua, de vergonha.” Seu Raimundo era o pai, sentado ao lado do caixão com os olhos presos em nada.

– Ela deixou algo para você. – Cristina retirou da bolsa preta um pequeno embrulho.  – Quando a doença se agravou, ela pediu que entregasse a você. “Espero que ele ainda se lembre”, ela me disse.

Afastei-me até o jardim central dos velórios. Era um pequeno caderno de anotações, de capa preta. Media talvez 15 cm de altura por 10 de largura e tinha umas trinta páginas: finas, delicadas, um tom de antiguidade na cor ligeiramente amarela. Gravado em baixo relevo, na contra-capa, quase imperceptível, a palavra Moleskine. Lembrei-me daquele fim de tarde.

Os pais de Maria haviam acabado de se mudar para a minha rua. A mãe me levou a uma visita de boas-vindas. A casa ainda toda desarrumada, caixas de papelão espalhadas pela sala. As mães saíram para o quintal, conversando sobre plantas. Maria, quatorze anos, olhos vivazes que usei em tantas de minhas personagens, estava sentada à mesa. Sem saber direito o que fazer, eu olhava as caixas e caixas de papelão.

– Vem aqui. – ela chamou. Cheguei perto, ela acabava de fechar um pequeno caderno de anotações preto.

– O que é isso? – perguntei.

– Meu diário.

– Mas é muito pequeno para um diário.

– Eu sei. Acabei de escrever algo sobre você.

– Deixa eu ver.

– Seu bobo, nunca peça a alguém para ver o seu diário… Um dia, quem sabe.

Abri o Moleskine. As páginas estavam todas em branco, à exceção da primeira. Apenas uma frase com letras de menina, desenhadas, com pequenos floreios nas iniciais.

8 de março de 1977.

Hoje conheci um menino tímido e bonito. Pela primeira vez, fiquei com vontade de beijar…