Categoria: Livro

  • Visões da infância

    No episódio Planeta errante, da série Enterprise, o Capitão Jonathan Archer explora um planeta onde é sempre noite. Ele ouve uma mulher chamando seu nome e sai procurando-a pela floresta. Ela desaparece, mas sempre volta, como uma visão. Bonita, delicada, ele tem certeza que a conhece mas não se lembra.

    No final do episódio, Jonathan Archer descobre e revela o mistério para o engenheiro-chefe da Enterprise.

    “Quando eu era criança tinha dificuldade para dormir. Minha mãe recitava um poema para mim. Havia um que eu sempre pedia: ‘The song of the wandering aengus’. Só quando fiquei mais velho soube que ele fora escrito por Yeats. ‘Eu parti para a floresta porque havia um fogo em minha cabeça’. Enfim, o homem no poema pega um peixe e o transforma em uma linda mulher com flores de maçã nos cabelos. Ela diz o nome dele e então desaparece. Ele passa o resto da vida procurando por ela. Sua visão da perfeição, imagino. Algo que ele nunca pôde encontrar.”

    A misteriosa mulher do planeta é transmorfa, capaz de adotar formas variadas. Telepata, ela encontra no subconsciente do capitão a forma que ele desejaria ver. Uma imagem da infância que o capitão guarda. No final, Jonathan agradece a bela transmorfa por lembrá-lo dessa imagem. Ela responde, “nunca deixe de buscar o que parece inatingível” e pede “nunca se esqueça de mim”. Depois que ela desaparece, adquirindo sua forma original, Jonathan Archer responde, sozinho na noite: “Não esquecerei”.

    Em O bosque das ilusões perdidas, livro de Alain Fournier, Augustin Meaulnes está perdido em uma floresta. Ele caminha até uma espécie de curral e, esgotado, se deita sobre uma palha úmida. Fustigado pelo frio ele “recordou-se de um sonho – uma visão, talvez? – que tivera quando criança e de que nunca falara a ninguém: uma manhã, em vez de acordar no seu quarto, onde estavam penduradas suas calças e paletós, ele se encontrara em uma imensa sala verde, onde o forro da parede se assemelhava àquela folhagem. Aí, a luz era tão suave que dava vontade de saboreá-la. Junto da primeira janela uma moça cosia, de costas voltadas, mas parecendo esperar que ele despertasse …. . Augustin não tivera forças para saltar da cama e caminhar por aquela casa encantada. Voltara a adormecer …. Mas da próxima vez jurava a si mesmo que iria se levantar. Quem sabe, no dia seguinte.”

    Meaulnes adormece na palha úmida. Ao amanhecer, caminha até um sítio onde é acolhido e passa dois dias. No sítio, acontece uma estranha festa e ele conhece Yvonne de Galais. No final da festa, ele precisa ir embora. Embarca em uma carruagem ao lado de um pierrô, um saltimbanco e um palhaço, personagens da festa. Meaulnes tenta, a todo custo, guardar o caminho por onde passa, mas adormece. Acorda novamente perdido, não tem ideia de onde passara aqueles estranhos dias, naquele “país perdido”. A partir daí, só tem um objetivo na vida: encontrar novamente o bosque, o sítio, encontrar Yvonne. A visão de sua infância.

  • Vende-se em 30 segundos

    É a pior fase da carreira profissional. Você bate na porta de uma agência de propaganda sedento para trabalhar com criação publicitária e ouve a clássica pergunta: “Você trouxe seu portfólio?”. Claro que não, acabei de me formar, deveria responder prontamente o iniciante.

    Ouvi esta pergunta assim que saí da faculdade, em 1986. A agência contratava redator especialista em roteiro para filme publicitário, como se redator pudesse se dar ao luxo de ser especialista em uma mídia ou outra, ainda mais em Belo Horizonte. Mas eram outros tempos e, imagino, a agência deveria criar e produzir vários comerciais que justificassem tal requinte. É claro que meu portfólio não atendia às exigências, nesta época eu ainda estava na fase de roteiros amadores, fase geralmente intuitiva de cinéfilo em busca de formação.

    Havia uma carência de bibliografia sobre o assunto. A referência de formação para redatores é sempre bons livros de roteiros de cinema. No Brasil daqueles anos, me lembro de um único livro que prontamente comprei e deixei na cabeceira: Arte e técnica de escrever para cinema e Televisão, de Doc Comparato.

    Com o tempo, as editoras passaram a lançar livros mais específicos de criação publicitária, a exemplo de Vende-se em 30 segundos. Manual do roteiro para filme publicitário, de Tiago Barreto.

    O autor descreve o processo de criação do filme publicitário, incluindo a análise do briefing, contextualização de ideias, criação de personagens, estrutura do roteiro, aspectos climáticos e rítmicos, cenografia, efeitos de edição, sonorização e avaliação do resultado final.

    É difícil falar sobre técnicas em qualquer processo de criação, até mesmo na formatação, pois o roteiro varia muito em função da ideia, da necessidade de ser mais ou menos específico, de decupar uma cena recorrendo à linguagem cinematográfica para provocar no leitor o efeito dramático. O livro trabalha com exemplos cotidianos das agências de propaganda, roteiros mais simples, descrevendo ideias, sugerindo mais do que especificando.

    A influência vem do cinema, roteiros não decupam mais as cenas, não trazem mais terminologias da linguagem cinematográfica. Apresentam ideias, personagens, soluções visuais. A influência do cinema também está presente em questões fundamentais tratadas pelo autor, como o ponto de virada.

    “Ponto de virada é qualquer incidente, episódio ou evento inesperado que leva a ação dramática para outra direção ou apresenta uma situação que o espectador não esperava. Nem todos os filmes publicitários têm um ponto de virada. Quando existe, no entanto, ele é o clímax da narrativa. É o momento de emoção acentuada, seja surpresa, humor, drama, medo… Qualquer emoção.”

    Vende-se em 30 segundos funciona bem com dicas, sugestões, exemplos, associações entre as diversas influências, música, por exemplo, que interferem no processo de criação e redação de um roteiro. Um livro básico para iniciar nesta complexa tarefa e que todo redator deve completar com a leitura de autores como Doc Comparato, Syd Field, Flávio de Campos, Marcel Martin, John Howard. E partir para o verdadeiro aprendizado das narrativas audiovisuais: assistir a um filme atrás do outro.

  • Histórias da nova Hollywood

    Em conversa com uma amiga, comentei que os filmes já não provocam aquela sensação que tínhamos ao sair de diversas sessões de cinema nos anos 70. Pensava nos sentimentos, muitos incompreensíveis para um adolescente, que vivenciei em filmes como 2001 – uma odisséia no espaço, Laranja mecânica, O poderoso chefão, O exorcista, Tubarão, Inverno de sangue em Veneza, Taxi driver, O céu pode esperar, All that jazz – o show deve continuar, Contatos imediatos do terceiro grau, Star wars, Hair, Superman, Alien – o oitavo passageiro.

    Muitos destes filmes definiram o cinema contemporâneo americano, uma parcela adotando o conceito de cinema autoral, outros redefinindo o cinema comercial. Em todos os casos eram filmes impactantes, surpreendentes. Viver como espectador o cinema dos anos 70 faz parte da minha formação, influenciando inclusive minhas escolhas profissionais. Talvez isto possa ser entendido com a leitura de Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, de Peter Biskind.

    O autor narra com riqueza de depoimentos a saga dos mais importantes produtores e diretores entre o final dos anos 60 e início dos 80.

    Segundo Susan Sontag: “Foi um momento muito específico nos cem anos da história do cinema, um momento em que ir ao cinema, pensar sobre cinema, falar sobre cinema tornou-se uma verdadeira paixão entre estudantes universitários e outros jovens. Você se apaixonava não pelos atores, mas pelo próprio cinema.”

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  • Homem no escuro

    August Brill, 72 anos, é um famoso crítico literário norte-americano. Após sofrer um acidente de carro, vai morar com a filha divorciada. Katya, sua jovem neta, também vai morar com eles após a morte do namorado na guerra do Iraque. Abalada, ela abandona o curso de cinema e se retrai em casa em longas sessões de filmes ao lado do avô. Assistem clássicos um atrás do outro e depois discutem cenas, seqüências, sensações provocadas pelos filmes.

    A trama de Homem no escuro, de Paul Auster, não se limita a essa resenha. Há uma história dentro da história sobre uma nova guerra de secessão nos Estados Unidos; as lembranças de August Brill ao lado da esposa Sonia tomam boa parte do livro. Mas são as poucas análises dos filmes compartilhados por avô e neta que tornam esse livro fascinante. A partir de obras como Ladrões de bicicleta, eles elaboram uma bela teoria sobre “objetos inanimados como formas de expressar emoções humanas.”

    Pensando sobre isso, em uma noite de insônia, August Brill faz uma análise emocionante sobre o filme Era Uma Vez em Tóquio (1953) do cineasta japonês Yasujiro Ozu. No filme, a nora vai visitar o sogro após a morte da esposa dele. Ela recebe do sogro um relógio de presente. Ela agradece mas desaba. A seguir, a análise de August Brill/Paul Auster sobre as emoções humanas a partir deste relógio.

    “Enquanto observa Noriko chorar, ele então faz uma declaração simples, pronuncia suas palavras de um modo tão direto, tão desprovido de sentimentalismo, que faz a moça vir abaixo, num novo ataque de soluços – soluços longos e lancinantes, um lamento de angústia tão fundo e doloroso que é como se aquilo que ela tem de mais profundo em sua pessoa se rompesse e abrisse.”

    “Quero que você seja feliz, diz o velho.”

    “Uma frase curta, e Noriko se desmancha, esmagada pelo peso da sua própria vida. Eu quero ser feliz. Enquanto ela continua chorando, o sogro faz mais um comentário, antes de a cena terminar. É estranho, diz ele, quase sem acreditar. Nós tivemos filhos, mas foi você quem fez mais por nós.”

    (…)

    “Alguns momentos depois disso, estamos dentro de um dos vagões. Noriko está sentada sozinha, olha para o vazio com um ar inexpressivo, sua mente longe dali. Passam-se vários momentos, e então ela ergue o relógio da sogra, que está no seu colo. Abre a tampa de metal, e subitamente ouvimos o estalo do ponteiro de segundos que avança no mostrador. Noriko continua a examinar o relógio, a expressão em seu rosto ao mesmo tempo triste e contemplativa, e, quando olhamos para ela com o relógio na palma da mão, sentimos que estamos olhando o tempo em si mesmo, o tempo que avança ligeiro, enquanto o trem também avança ligeiro e nos empurra para a frente, para dentro da vida, e de mais vida, mas também para o tempo passado, o passado da sogra morta, o passado de Noriko, o passado que vive no presente, o passado que levamos conosco para o futuro.”

    “O apito estridente de um trem ressoa em nossos ouvidos, um barulho cruel e pungente. A vida é frustrante, não é?”

    “Eu quero ser feliz.”

    “E então a cena termina abruptamente.”

  • Considerações sobre o gênero, sobre o cinema

    A própria Ana Maria Bahiana diz que o livro nasceu do encontro com pessoas de todo o país, frequentadores de seu curso Como ver um filme. A intenção das palestras “é formar plateias informadas, críticas, mais bem-habilitadas a compreender o que veem e a escolher do que gostam.”

    Neste sentido, o livro funciona como uma espécie de manual, abordando em pequenos capítulos, muitas vezes em tópicos, o processo de construção de um filme. A autora desenvolve fases como a apresentação da ideia a um produtor, o desenvolvimento do roteiro, escolha do diretor, questões estéticas, pré-produção, filmagem e pós-produção.

    No entanto, o melhor do livro são as considerações de Ana Maria Bahiana a respeito do estilo, do gênero cinematográfico. Explorando sua vasta cultura cinematográfica, principalmente do cinema americano, a jornalista passa pelos principais gêneros e sub-gêneros, destacando as características do estilo e exemplificando com uma série  de películas.

    “Cinema é uma arte viva – tudo nele tem um claro ciclo natural – e, como ele, seus gêneros. Temas e estilos que rapidamente encontram eco junto ao público logo se tornam ‘gêneros’ menores no espaço aproximado de uma década. Seus elementos principais passam a ser copiados, reinterpretados, respondidos por outras visões, outros realizadores. A certa altura da repetição, o gênero se cristaliza, torna-se plenamente um clichê, pronto para ser criticado, destroçado, ironizado, satirizado e, eventualmente, esquecido. Mas nada permanece morto durante muito tempo neste ecossistema – tudo o que foi clássico vinte anos atrás pode ser novidade de novo, resgatado e reinterpretado por um novo olhar.”

    Como manual, o livro apresenta passo a passo questões importantes para conhecer e entender os processos da construção de um filme. Como referência, lista uma série de filmes e suas principais características de técnica e estilo.

    Como ver um filme. Ana Maria Bahiana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

  • Cinema em poucas palavras

    Alerto os alunos no primeiro dia de aula da minha disciplina História do Cinema Mundial: a história do cinema merece um curso de graduação inteiro, teremos apenas um recorte, os principais movimentos, diretores, filmes…. É a mesma proposta do livro A história do cinema para quem tem pressa, do crítico e professor Celso Sabadin – autor do ótimo Vocês ainda não ouviram nada, a barulhenta história do cinema mudo.

    O autor adverte os leitores: “Como o próprio nome já diz, A história do Cinema para Quem Tem Pressa propõe uma abordagem histórica, rápida e objetiva sobre o tema. Usando uma linguagem cinematográfica, trata-se mais de uma visão panorâmica, um travelling, do que um estudo em close.”

    Os capítulos do livro seguem a linha cronológica, começando pela pré-história das imagens em movimento e os pioneiros. Na primeira parte, destaco o capítulo sobre o impressionismo francês, Sabadin dedica análise mais apurada sobre o movimento marcado pelas obras de diretores como Abel Gance, Louis Delluc e Jean Epstein.

    A partir do nascimento do cinema sonoro, o livro versa sobre os principais movimentos: neo-realismo italiano, nouvelle-vague, nova hollywood, passando ainda pela ascensão e decadência do sistema de estúdios americano. O cinema nacional é contemplado com panorama histórico sobre o cinema novo e um subtítulo no capítulo final sobre a retomada do cinema brasileiro.

    Livro de leitura rápida, com listagem de importantes filmografias, abre perspectivas para futuras pesquisas, imersão em um ou outro movimento de preferência para a leitura de obras mais densas. Como sugestão, ainda o melhor livro sobre história do cinema, um clássico: História do cinema mundial, de Georges Sadoul, publicado nos anos 60, três volumes com a mais completa retrospectiva da sétima arte até aquele momento.

    A história do cinema para quem tem pressa. Dos irmãos Lumière ao século 21 em 200 páginas! Celso Sabadin. Rio de Janeiro: Valentina, 2018.

  • Uma aula de cinema

    O livro foi publicado na década de 80 se tornando, de imediato, clássico na literatura de roteiros para cinema. A edição do livro surgiu a partir da proposta da criação de um curso de roteiro. Na apresentação da edição brasileira, o autor Michel Chion adverte: “Muitos dizem que roteiro não se ensina, e têm razão… em princípio. Os bons roteiros não surgem por geração espontânea: em geral, nascem de certo domínio do ofício, ou da intuição de certas leis, que o roteirista decide respeitar ou ignorar. Esse ofício, essa intuição, adquirem-se em grande parte com a experiência e um pouco através do estudo.”

    Visando contribuir para esse estudo, Michel Chion divide o seu livro em três partes. Na primeira, analisa roteiros de obras-primas do cinema, como Uma aventura na MartinicaO testamento do Doutor Mabuse Sansho Dayu. A seguir, segue o padrão dos manuais de roteiros, descrevendo as técnicas: criação de personagens, procedimentos de narração e um interessante capítulo sobre “os erros de roteiro (para melhor cometê-los)”. A terceira parte apresenta a estrutura do roteiro: ideia, sinopse, tratamento, continuidade dialogada, decupagem técnica e “story-board”.

    Livro primoroso, Michel Chion vai além de descrição de técnicas de roteirização. As análises do autor enriquecem, orientando o trabalho de roteiristas no uso da linguagem de cinema, na construção de cenários, na composição de personagem, na busca de soluções dramáticas, na inserção de pistas para o espectador, nas funções do diálogo, na construção cênica e dramática usando acessórios, no uso dos clichês, no domínio do tempo narrativo.

    A advertência de Michel Chion na apresentação é válida, talvez roteiro não se ensine, no entanto, seu livro é verdadeira aula de cinema.

    O roteiro de cinema. Michel Chion. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

  • Escritores diante da tela muda

    O espectador noturno. Os escritores e o cinema, livro organizado por Jérôme Prieur, reúne textos de escritores sobre os primórdios do cinema. Não tratam dos filmes especificamente: são registros das impressões, sensações, sentimentos dentro da sala escura, diante dessa arte para eles nova e fascinante.

    Fascínio que, em alguns casos, beira a confusão entre ficção e realidade. Em A linha de fogo, o escritor Fernand Fleurel conta a história da primeira sessão de cinema assistida por Vitorine, empregada da família. Era um filme mudo sobre a guerra e, em determinada sequência, Vitorine enxerga seu filho em um soldado no campo de batalha. O jovem estava verdadeiramente combatendo na guerra mundial e quando o ator foi atingido por disparos a empregada entrega-se tragicamente no cinema, acreditando ver a morte do filho.

    Narrativas que se imbricam. O exagero desta história ilustra bem a tese apresentada por Jacques Audiberti em um texto mais didático intitulado A parede de fundo. “Entre as razões estéticas ou intelectuais propostas ao olhar humano, nenhuma exige a presença, a colaboração do espectador como o cinema.” Para o autor, o fascínio do cinema reside na capacidade de praticar “pelas vias das falhas, dos defeitos, muito mais do que pela virtude de uma vontade explícita, seus dois jogos fundamentais: o movimento e o fantástico.”

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  • Este é Orson Welles

    Este é Orson Welles – Orson Welles e Peter Bogdanovich reúne série de entrevistas feita por Peter Bogdanovich com Orson Welles durante cerca de 10 anos, entre o início e final dos anos 70. Meu primeiro contato com o livro aconteceu durante minha pesquisa de mestrado, por volta de 2001. Usei capítulos do livro que narram a mutilação imposta pelos produtores a Soberba (1942), segundo filme de Orson Welles. O tema do meu mestrado foi filmes modificados pelos produtores na sala de montagem.

    Aos 25 anos de idade, Welles já era consagrado no teatro e no cinema e conquistou o mundo do cinema com o revolucionário Cidadão Kane. A partir daí, sofreu todo tipo de interferência e cortes em seus filmes. Alguns de seus clássicos, como A marca da maldade e Soberba foram inteiramente remontados por terceiros, imposição imposta por produtores descontentes com a visão de Orson Welles. O diretor chegou ao ponto de não conseguir mais trabalho em Hollywood, mas virou referência para o cinema.

    “Para alguns de nós, Orson era uma espécie de consciência artística. Em meu trabalho e em minha vida, a influência dele deixou marca indelével. Como diretor tentou manter a integridade e a pureza e, para poder financiá-las, permitiu a degradação e desvalorização do lado ator/personalidade de sua carreira. Orson Welles eletrizou o palco, transformou e definiu o rádio, apontou os rumos (mas ninguém seguiu) para a televisão e fez filmes que inspiraram mais cineastas do que qualquer outro diretor desde D. W. Griffith. Que este artista norte-americano tenha acabado vendendo vinho em comerciais de televisão é de certa forma um alerta, mais para o declínio cultural de nossa sociedade do que para seus percalços individuais.” – Peter Bogdanovich.

    No livro, Jean Cocteau tece um belo comentário sobre o gênio.

    “Orson Welles é um gigante com rosto de menino, uma árvore repleta de pássaros e sombras, um cão que se safou da corrente e foi dormir no canteiro de flores. É um mandrião ativo, um louco sábio, uma solidão rodeada de humanidade.”

    REFERÊNCIA: Este é Orson Welles. Orson Welles & Peter Bogdanovich. São Paulo: Globo, 1995.

  • Sobre Clint Eastwood

    O clube do filme, de David Gilmour, trata da relação entre pai e o filho adolescente, abordando problemas comuns à geração: a falta de perspectiva, envolvimentos amorosos, drogas, sexo. Tudo narrado de forma fria e direta, sem o objetivo de incutir no leitor lições de moral, são apenas relatos pontuados pelas dúvidas de pai. Os diálogos são secos, sinceros. A sinopse: Jesse, adolescente, não se dá bem na escola, suas notas são medíocres. O pai propõe a Jesse que abandone a escola desde que assistam juntos a pelo menos três filmes por semana, escolhidos pelo pai. É o clube do filme. A partir desses encontros, a relação entre os dois assume um caráter mais íntimo.

    A seguir, trechos do livro sobre Clint Eastwood, diretor e ator que faz parte da minha seleta lista de nomes favoritos do cinema.

    Dava para passar um bocado de tempo vendo os filmes de Clint. Comecei listando cinco coisas que admirava nele.

    1. Adoro o jeito como ele mostra quatro dedos para o fabricante de caixões, em Por um punhado de dólares, e diz: “Me enganei. São quatro caixões’”.
    2. Adorei, como ressaltou o crítico britânico David Thomson, a postura de Clint ao lado do príncipe Charles no National Film Theatre, em Londres, em 1993. Para todo o mundo na platéia, ficou claro quem era o príncipe de verdade.
    3. Adoro o fato de Clint nunca dizer “Ação!” quando dirige um filme. Ele diz calmamente, em voz baixa: “Quando estiverem prontos.”
    4. Adoro ver Clint caindo de seu cavalo em Os imperdoáveis (1992).
    5. Adoro a imagem de Clint, no papel do detetive Dirty Harry, descendo a pé uma rua de São Francisco com uma arma em uma das mãos e um cachorro-quente na outra.

    Contei a Jesse uma breve conversa que tive certa vez com William Goldman, que escreveu o roteiro de Butch Cassidy (1969) e, mais tarde, o de Poder absoluto (1997), para Eastwood. Goldman o adorava: “Clint é o melhor”, ele me dissera. “Um profissional completo, num mundo dominado pelo ego. Com Eastwood, você chega, faz seu trabalho e volta para casa; geralmente volta cedo, porque ele quer jogar golfe. E ele almoça na lanchonete do estúdio, como todo mundo.

  • Cinema ou sardinha

    O cubano Guillermo Cabrera Infante, além de escritor e roteirista, foi importante crítico de cinema. Sua infância, nas palavras do próprio autor, foi marcado por uma escolha. “Na minha cidadezinha, quando éramos crianças, minha mãe perguntava a mim e a meu irmão se preferíamos ir ao cinema ou comer, com a frase festiva: Cinema ou sardinha? Nunca escolhemos a sardinha”.

    O livro Cinema ou sardinha. 1. Pompas fúnebres reúne artigos de Cabrera Infante. A influência do cinema americano é evidente em grande parte dos textos, escritos com o estilo do escritor e a língua afiada do crítico.

    O livro se divide entre artigos específicos, incluindo na primeira parte textos sobre Georges Méliès, música no cinema (o autor desfila seu impecável conhecimento sobre compositores e trilhas sonoras), o cinema sonoro, o filme B, além de homenagens aos atores e atrizes latino-americanos. A segunda parte traz pequenas biografias de astros de Hollywood, “Biografias íntimas”, nas quais o crítico apura sua ironia a respeito do trabalho e da vida pessoal das celebridades.

    “O canário coxo” apresenta uma Judy Garland dominada pelos produtores e diretores, entregue ao vício e ao estrelato, que não se furtava a fazer sexo com pessoas influentes em Hollywood para conseguir seus objetivos.

    “Marlene contra o tango” é o relato sem pudor de Marlene Dietrich. “Era meio máscara meio franqueza excessiva. Embora praticamente inventada por um diretor Joseph Von Sternberg, que por sua vez tinha inventado a si mesmo: até seu nome era artificial.”

    John Ford , um dos melhores diretores de todos os tempos, também sofre com a pena do escritor Cubano. “…John Ford, cuja técnica favorita como diretor consistia em insultar o elenco e a equipe técnica. Ford filmava com ajuda de um pelotão de fuzilamento, e seu paredão era o deserto. Num dia mau de No tempo das diligências, Ford já tinha humilhado quase todo o mundo.”

    O destaque do livro são mesmo as histórias de Hollywood. Cabrera Infante conheceu este mundo que criou e destruiu mitos da noite para o dia. “De repente Lupe, que estava longe de agonizar, sentiu uma incontrolável ânsia de vômito. Era o efeito não só da tequila com seconal, mas também de sua extraordinária energia. Correu para o banheiro – e esta salvação foi sua perdição. Com os mariachis tocando, ninguém ouviu os gritos de socorro da atriz, que acabou se afogando no vaso. Nem sua morte foi levada a sério. Maria Guadalupe Villalobos Vélez só tinha 36 anos ao morrer. A mesma idade de outra atriz que também queria ser séria e, para provar que não brincava, tomou uma overdose de outro sonífero da moda. Esta se chamava, ou dizia se chamar, Marilyn Monroe.”

    Referência: Cinema ou sardinha. 1. Pompas fúnebres. Guillermo Cabrera Infante. Rio de Janeiro: Gryphus, 2013.

  • Jornalismo no cinema

    Difícil conceber um livro que trate de filmes sobre jornalismo sem analisar Cidadão Kane (EUA, 1941), de Orson Welles. A parábola da infância à morte de Kane é a mais contundente analogia entre o jornalismo e as relações de vaidade, megalomania, celebridade, PODER. A justificativa da organizadora Christa Berger para não incluir este filme no livro Jornalismo no cinema, Ed. Universidade/UFRGS, 2002, são os inúmeros textos já publicados sobre o filme. Outra ausência sentida é Reds (EUA, 1981), de Warren Beatty, filme sobre John Reed, jornalista que cobriu a revolução russa e escreveu o antológico livro Os dez dias que abalaram o mundo.

    Jornalismo no cinema reúne textos de diversos autores, analisando filmes produzidos entre 1951 e 1999. Do cinema contemporâneo, destaques para O informante (EUA, 1999) e Mera coincidência (EUA, 1997).

    O texto de Adriana Schryver Kurtz sobre O informante, de Michael Mann, aborda as relações entre o jornalista Lowell Bergman (Al Pacino) e seu informante, Dr. Jeff Wigand (Russell Crowe). As revelações que devem ir ao ar no programa 60 Minutes, da CBS News, se referem ao trabalho desenvolvido pelo Dr. Wigand na indústria de cigarros, envolvendo substâncias que propositadamente “viciam” o fumante. As perigosas associações entre as funções sociais do jornalismo de informar e o corporativismo empresarial estão delimitadas nas decisões sobre a edição final da matéria.

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  • História do cinema mundial

    Grande parte dos livros de história do cinema se concentram nas cinematografias fortes, tradicionais, que se consolidaram logo nos primeiros anos do cinema: EUA, França, Rússia, Alemanha, Itália, países escandinavos e do leste europeu. Nestes países, nasceram importantes diretores e diretoras que dominam o repertório de obras importantes da cinematografia. É onde surgiram também os alardeados movimentos, como vanguarda russa, expressionismo alemão, impressionismo francês, neorrealismo italiano, nouvelle vague francesa, nova hollywood. O Brasil entra com destaque em publicações de autores nacionais. 

    Tudo isto está no livro de Franthiesco Ballerini, História do Cinema Mundial, publicado em 2020. O mérito do livro está também no fato do autor abrir espaço para cinematografias, principalmente contemporâneas, de países que ficaram sempre à margem em outras publicações de destaque. São dedicados capítulos à cinemas da Ásia; África; Américas – incluindo países menos relevantes como Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela; Oceania, entre outros. As três grandes forças do cinema contemporâneo, que se apropriaram de parte do sistema produtivo americano, são tratados com mais vigor: Chinawood, Bollywood (Índia) e Nollywood (Nigéria). 

    O livro traça um panorama de filmes importantes de cada região, bem como de diretores e diretoras. Ao final da cada cinematografia, lista de filmes ajuda o leitor em termos de pesquisas, de garimpagem em busca dos títulos, pois sabe-se que são filmes de difícil acesso, com certeza não estão nos catálogos de streaming. 

    História do Cinema mundial. Franthiesco Ballerini. São Paulo: Summus, 2020. 

  • Da biblioteca da filha

    Não sou leitor assíduo de livros policiais. Comprei, há muitos anos, coleção da Agatha Christie e os livros ficaram empoeirados nas estantes. Até que minha filha descobriu o gênero e leu um por um. De Agatha Christie ela passou a Arthur Connan Coyle, entusiasmada com Sherlock Holmes. Acabou como leitora voraz de romances policiais, uma vez por semana aparece com livro novo, incluindo exemplares da Coleção Negra, livros sedutores, belas encadernações de variados autores do gênero.

    O livro do assassino, de Jonathan Kellerman, cumpre com precisão as promessas de uma envolvente narrativa policial. O psicólogo Alex Delaware recebe pelo correio álbum repleto de fotos de cenas de crimes, destas que fazem parte dos arquivos policiais, tiradas logo após os assassinatos. Delaware mostra as fotos para um amigo policial, Milo Sturgis. Ao ver as fotos de uma jovem estuprada e assassinada, o policial se recorda do caso: Jane Ingalls, 17 anos, violentada, estrangulada, queimada e retalhada. Um caso de 20 anos atrás não resolvido por Milo Sturgis e seu parceiro.

    O livro fora enviado de propósito, como motivação para Milo reabrir, por conta própria, as investigações. Boa parte das 524 páginas de O livro do assassino transcorre com a dupla investigando o passado das pessoas possivelmente envolvidas no crime. O ângulo principal da narrativa acontece pelos olhos do psicólogo que narra em primeira pessoa o rumo das investigações. Em outros momentos, a terceira pessoa assume a narração para seguir os passos de Milo Sturgis. Este interessante recurso aumenta o suspense, pois provoca no espectador a sensação de montagem paralela, como no cinema.

    A técnica é importante também para sugestionar como a homossexualidade do detetive Milo Sturgis poderia ter interferido nas primeiras investigações do assassinato, revelando o preconceito agressivo dentro da polícia de Los Angeles. As revelações caminham para questões comuns no gênero policial: corrupção na polícia, atos criminosos motivados por drogas, o mundo sem limites dos jovens endinheirados na meca do cinema, prostituição e abuso sexual de menores.

    A princípio, o leitor fica confuso pois personagens aparecem e desaparecem durante as investigações. Aos poucos, porém, as peças vão se juntando e, se você tiver memória acostumada a este tipo de narrativa, percebe que as conexões são bem maiores do que se imaginava para um crime sexual. Por isso, o clímax não é tão revelador, vale mais pela ação desencadeada nos últimos momentos.

    Aí sim, este leitor desacostumado pode ser fisgado pelo gênero que já proporcionou obras primas para o cinema e se tornar frequentador da biblioteca da filha.

  • Memórias do subsolo

    Memórias do subsolo, novela publicada em 1864, é narrada em primeira pessoa por um anônimo. O personagem revela com ironia e desprezo a amargura em que vive. Dostoiévski usa o narrador para caracterizar a decadência de uma geração. Na introdução, o autor alerta:

    “Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros.”

    Essa geração derradeira é representada por um homem sem esperanças a respeito do mundo e de si mesmo. Começa sua história apresentando-se: “Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado.”

    Dostoiévski colocou na mente de seu personagem indagações perturbadoras. O narrador reflete:

    “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas, e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não apenas lembro, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?”

    Essa dúvida fecha o longo desabafo inicial do personagem, quando ele resolve contar a sua história. Uma história sobre personagens do subsolo (Érico Veríssimo fez incursão parecida em Noite). Talvez nem uma história, crueldades do mundo jogadas no papel. Narradas desse jeito profundo e simples que fazem de Dostoiévski porto-seguro na escolha de boa leitura.

    “Agora está nevando, uma neve quase molhada, amarela, turva. Ontem nevou igualmente e dias atrás, também. Tenho a impressão de que foi justamente a propósito da neve molhada que lembrei esse episódio que não quer agora me deixar em paz. Pois bem, aí vai uma novela. Sobre a neve molhada.”

  • Ressureição

    Ressurreição, primeiro romance de Machado de Assis, foi publicado em 1872. Nas primeiras páginas, já se percebe o estilo: o romantismo, a conversa com o leitor, a refinada ironia, as descrições sedutoras de personagens e situações.

    “Félix contemplou-lhe longo tempo aquele rosto pensativo e grave, e involuntariamente foram-lhe os olhos descendo ao resto da figura. O corpinho apertado desenhava naturalmente os contornos delicados e graciosos do busto. Via-se ondular ligeiramente o seio túrgido, comprimido pelo cetim; o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido, como um fragmento de estátua sobre o musgo de uma ruína. Félix recompôs na imaginação a estátua toda, e estremeceu. Lívia acordou da espécie de letargo em que estava. Como também estremecesse, caiu-lhe o leque da mão. Félix apressou-se em apanhar-lho.”

    O que mais me impressiona neste início da leitura de Ressurreição é o posfácio. Machado de Assis, então com 33 anos, se dirige com humildade à crítica literária, pedindo benevolência e compreensão na leitura de seu primeiro romance.

    “Não sei o que deva pensar deste livro; ignoro sobretudo o que pensará dele o leitor. A benevolência com que foi recebido um volume de contos e novelas, que há dous anos publiquei, me animou a escrevê-lo. É um ensaio. Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer.”

    Não sei se a crítica, o público (e o próprio Machado de Assis) tinham já a noção de estar diante do desenvolvimento de um gênio da literatura. Seria Machado de Assis ainda um autor titubeante, tentando esconder sua insegurança na modéstia? Ou estaria já ensaiando uma de suas marcas literárias: a ironia com seu próprio trabalho e com os dos outros.

    “A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais. Eu fujo e benzo-me três vezes quando encaro alguns desses prefácios contritos e singelos, que trazem os olhos no pó da sua humildade, e o coração nos píncaros da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e lhes diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no conceito do autor, sem embargo da humildade que ele mesmo confessou, e da justiça que pediu.”

    “Ora pois, eu atrevo-me a dizer à boa e sisuda crítica, que este prólogo não se parece com esses prólogos. Venho apresentar-lhe um ensaio em gênero novo para mim, e desejo saber se alguma qualidade me chama para ele, ou se todas me faltam, – em cujo caso, como em outro campo já tenho trabalhado com alguma aprovação, a ele volverei cuidados e esforços. O que eu peço à crítica vem a ser – intenção benévola, mas expressão franca e justa. Aplausos, quando os não fundamenta o mérito, afagam certamente o espírito, e dão algum verniz de celebridade; mas quem tem vontade de aprender e quer fazer alguma cousa, prefere a lição que melhora ao ruído que lisonjeia.”

    Se a crítica leu este prólogo, deve ter se sentido incapaz até mesmo de emitir julgamentos. Deve ter simplesmente manifestado reverência ao nascimento do maior escritor da língua brasileira ou a um operário, como Machado de Assis se definiu.

    “Não quis fazer romance de costumes; tentei de uma situação e o contraste de dous caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela.”

  • A imprensa e o caos na ortografia

    Eu gostaria de falar com a Srª Enyr.

    – O Sr. Enyr não está.

    – Quem está falando?

    – Anna, a esposa dele.

    Meu pai, Enyr com y. Minha mãe, Anna com dupla consoante. Essa situação aconteceu diversas vezes na minha casa e a mãe sempre se divertiu com o nome feminino de meu pai.

    Segundo Marcos de Castro, autor do livro A imprensa e o caos na ortografia, essas estranhas grafias de nomes são resultado da “orgia ortográfica dos cartórios brasileiros” que se submetem aos caprichos dos pais e registram nomes próprios com letras que não existem na língua portuguesa (y e w – ou não existiam antes da reforma ortográfica), nomes com dupla consoante ou os nomes mais esquisitos: “Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, vivia nos anos 1930 um casal em que o marido se chamava Guiomar e a mulher Euclides…”

    As críticas mais contundentes do autor são dirigidas à imprensa que cedeu a essa orgia. Marcos de Castro informa que antes de 1970 havia um compromisso respeitado por todos os jornais brasileiros em escrever os nomes próprios de acordo com a língua portuguesa. Assim, nomes como Ulysses Guimarães (com y na certidão de nascimento) eram rigorosamente escritos na imprensa com i, Ulisses Guimarães. Isso evitava perguntas comuns como: “- Fulano, esse Luís é com s ou com z?”

    Com o tempo, esse acordo deixou de existir e os jornais passaram a registrar os nomes nas matérias e entrevistas da forma que constam nas certidões, ou como as pessoas querem ser chamadas. Marcos de Castro cita um fato marcante no final da década de 70 como provável mudança desse comportamento:

    “Um dia o general (Golbery do Couto e Silva) se queixou ao amigo (o jornalista Elio Gaspari), que diabo, o nome dele era com y no final, e o jornal grafava ‘Golberi’. (…) O General, acostumado desde 1964 ao arbítrio e a subverter o estabelecido, a desconhecer normas que não fossem as dele e de sua tropa no poder, sem dúvida insistiu. Tanto que um dia, por essa época, o copidesque recebeu uma ordem do editor-chefe (…): daquela data em diante, o nome do general passava a ser grafado Golbery, com y final.”

    O livro é uma instrutiva coletânea de erros cometidos pela imprensa na grafia e verbalização de palavras e expressões. Na primeira parte, “A desordem da escrita”, o autor cita erros comuns cometidos pela imprensa e por órgãos públicos ao escrever: Ary Barroso, Theatro Municipal, chopp (marca da cerveja Brahma) ao invés de chope, Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro).

    “A desordem da fala” é o título da segunda parte da livro. Os locutores e repórteres de TV são criticados abertamente neste item, por pronunciarem futê-bol, por exemplo. O mais interessante é o capítulo siglas em inglês:

    “A marca mais famosa era de uma empresa americana conhecida como RCA Victor, ou simplesmente RCA. Pois não havia desde o início um único brasileiro que dissesse ar-ci-ei. (…) A IBM (…) nunca foi ai-bi-ém, mas i-bê-eme. (…) A emissora BBC de Londres – e ninguém dizia bi-bi-ci. O FBI nunca foi éf-bi-ai.”

    “Mas nos anos 90, um canal de televisão (…) resolveu transmitir os jogos de basquete da liga profissional dos Estados Unidos, a NBA. Só que ao ouvir a sigla em inglês ele se entusiasmou (o locutor da TV). E começou a falar ene-bi-ei para o público brasileiro.”

    Marcos de Castro completa afirmando que a farra descambou de vez com a implantação da TV a cabo no Brasil:

    “O canal de televisão da Metro (MGM) se anuncia como em-dgi-ém. Mas ainda não se chegou ao pior de todos, que é um certo canal eitch-bi-ou. Nesse caso, um único brasileiro em mil entenderá essa sigla. Pois bem sabe o caro leitor, que não é obrigado a aprender o alfabeto em inglês, que a tradução disso (HBO) soaria bem simplesinha aos nossos ouvidos, agá-bê-ó. (…) Não vamos nem falar no nome dos programas: i-ar (plantão médico), Ló & Order (Lei e Ordem), dezenas de outros. Realmente, não se fala mais português na rede de TV por assinatura, no Brasil.”

    Na terceira parte, Marcos de Castro edita um pequeno dicionário de batatadas da imprensa.

    “Não se enterra a alma. Ninguém que creia na existência dela discute isso. Por que então a Rede Globo teima em perturbar a paz dos que são enterrados usando a fórmula esdrúxula ‘o corpo de Fulano foi enterrado em…’”

    A imprensa e o caos na ortografia brasileira é um livro que merece um lugar na escrivaninha como material de consulta. Mas em alguns casos é dar murro em ponta de faca. Os termos em inglês invadiram a língua portuguesa sem a menor cerimônia. Após ler o livro, fiz uma pequena pesquisa e percebi o óbvio: não existe mais nenhum título de séries de TV traduzido: Lost, Crossing Jordan, Heroes, Smallville, Star Trek, True Blood, Mad Men, American Idol, Brothers & Sisters, Desperate Housewives, Grey’s Anatomy, Breaking Bad, Game of Thrones…

    Marcos de Castro afirma no seu livro que muito dessa “orgia” se deve a pretensas estratégias de marketing. E critica os publicitários:

    “Tudo previsível, uma vez que os publicitários nunca se deram bem com a língua portuguesa”.

    “E a língua da publicidade, como se sabe, não pode contar muito no espectro dos falantes, pois esse mundo é um mundo fechado, com linguagem própria – e inexpressiva exatamente por ser restrita, uma vez que no círculo específico dos publicitários se fala o portinglês.”

    “Os publicitários não contam quando a referência é o vernáculo”.

    Críticas sérias. É o caso de indagar: quem está exagerando, Marcos de Castro em seus ataques? ou os publicitários/profissionais de marketing em usar descaradamente o inglês para se comunicar com brasileiros

    Referência: A imprensa e o caos na ortografia. Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2008

  • Leitura de aeroporto

    Sou um mineiro exagerado. O voo estava marcado para as cinco da tarde. Cheguei às duas horas. Fui para a livraria procurar uma revista de cinema para passar o tempo. Não sei o que está acabando, livrarias ou revistas de cinema. Livros de autoajuda e misticismo, guias de viagem despencavam pelas prateleiras, nada de revista de cinema. Um ou outro Saramago, Clarice Lispector, é verdade, mas eu queria leitura de aeroporto, sem pretensão, daquelas que você pode levantar o olho para o movimento.

    Lá no canto da livraria, a salvação, uma pilha de pocket-books. E deleite dos deleites para mais de três horas de espera, Assassino Metido a Esperto, livro de contos policiais de Raymond Chandler.

    Raymond Chandler (1888-1959) foi, ao lado de Dashiell Hammett, o mais expressivo dos escritores da geração pulp-fiction. Os personagens de seus contos e romances viviam em prostíbulos, bares, casas de jogos, apartamentos pequenos e bagunçados nas ruas e becos de Los Angeles. Os detetives fumavam e bebiam às vias de fato (o próprio Chandler era alcoólatra), entravam em todo tipo de enrascada por uma bela mulher e cobravam entre 5 e 10 dólares de honorários para resolver os crimes.

    Philip Marlowe, o detetive mais famoso de Chandler, era pouco mais nobre, fez curso superior, gostava de bebida, de mulheres e de trabalhar sozinho. Era um romântico e, às vezes, perdoava a vítima por puro sentimentalismo. Uma mulher com quem passara a noite perguntou-lhe certa vez:

    – Como pode um homem tão duro ser assim tão delicado? – Marlowe respondeu.

    – Se eu não fosse duro, não estaria vivo. Se eu não fosse delicado, não merecia estar vivo.

    Marlowe protagonizou sete romances de Raymond Chandler. O detetive soturno e dúbio gerou pelo menos um clássico no cinema, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks, interpretação primorosa de Humphrey Bogart. Era o melhor do gênero noir que influencia escritores e diretores de cinema até hoje. Exemplos: Acossado (1959), Chinatown (1974), Corpos Ardentes (1981), Blade Runner – O Caçador de Andróides(1982), Pulp Fiction (1994). Em cada um desses filmes, os personagens resvalam entre o crime e a lei, a violência e a compaixão, a ambição e a falta de perspectiva no dia-a-dia. Humanos, como todos nós.

  • Primeiro amor, último sacramento e Entre lençóis

    Primeiro amor, último sacramento e Entre lençóis é coletânea de contos, edição conjunta dos dois primeiros livros do autor inglês Ian McEwan. Os contos alternam narrativas eróticas, incluindo histórias de incesto e pedofilia, com mergulhos na insanidade humana. Perversões sexuais dominam grande parte do livro.

    “O’Byrne foi sendo imperceptivelmente iniciado dos desejos de Lucy. Não era simplesmente que ela quisesse ficar agachada em cima dele. Ela não queria que ele se mexesse. ‘Se você se mexer de novo’, avisou-lhe certa vez, ‘está perdido’. Por simples hábito, O’Byrne fodeu para cima, mais profundamente, e rápido como a língua de uma serpente ela o golpeou várias vezes no rosto com a mão espalmada. No mesmo instante gozou, deitando-se a seguir atravessada na cama, meio soluçando, meio rindo. O’Byrne, com metade do rosto inchado e vermelho, foi embora emburrado. ‘Você é uma pervertida de merda’, gritara ele da porta.”

    Narrativas que não se completam, marcas dos contistas contemporâneos que exploram o universo humano de forma seca, sem aprofundamento nos personagens. São as situações que direcionam as histórias, as personagens transitam por elas com frieza, seus atos parecem soluções naturais. No conto Borboletas, McEwan usa da primeira pessoa para narrar um caso de pedofilia que acontece quase como puro acaso.

    “- Menina boba – disse eu -, não tem borboletas. – Em seguida levantei-a delicadamente, tão delicadamente quanto possível, para não acordá-la, e fi-la deslizar suavemente para dentro do canal.”

    “Ela se inclina de volta para dentro do barco. Sua boca está rindo, porém seus olhos parecem meio secos e apavorados. Ela cai de joelhos, segurando a barriga devido à dor das risadas, e derruba Alice junto com ela. E o barco vira. Vira porque Jenny cai contra o lado, porque Jenny é grande e meu barco pequeno. Vira rápido, como o clique do obturador de minha câmera, e de repente estou no fundo verde do rio tocando a lama fria e macia com as costas da mão e sentindo os juncos no rosto. Posso escutar gargalhadas como pedaços de pedra a afundar junto a meu ouvido. Mas quando dou um impulso para cima e subo à superfície, não sinto ninguém perto de mim.”

    Ian McEwan se consagraria com o premiado Reparação (adaptado para o cinema com relativo sucesso em 2007), também uma história de como olhar os desejos: alguns com perversão, outros com naturalidade. Em Primeiro amor, último sacramento & Entre lençóis, os narradores adotam a naturalidade, o olhar complacente sobre a natureza humana, sem preconceitos ou julgamentos.

  • Histórias do mar

    O fascínio que tenho pelo mar é contemplativo. O sentimento aventureiro de desbravar ondas ficou na adolescência, felizmente. Gosto de me sentar de frente e ficar olhando incompreensível para a beleza. Não passo disso, mas deixo-me embalar pelas histórias de apaixonados que foram além. Basta citar alguns de meus livros favoritos: Moby Dick, de Herman Melville, Lord Jim e Nostromo, de Joseph Conrad, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

    Acabo de ler Histórias do mar – Coletânea de Novas Histórias do National Maritime Museum com esta sensação de voltar às aventuras do mar. O livro reúne contos de autores contemporâneos como Sam Llewellyn, Chris Cleave e Tessa Radley. Histórias que se mesclam entre a aventura dos que enfrentaram oceanos e o cotidiano daqueles que se criaram em frente ao mar. Em ambos os estilos, o fascínio permanece. Às vezes de forma terna, como no conto Devonia.

    Não sei como começou isso. Estou com os meus braços em volta dela. E os braços dela em volta de mim. O sol está se pondo no Atlântico e aqui, tão perto da África, está muito quente. (…) Agora eu posso esquecer tudo, porque esta menina, esta menina linda, quis ficar comigo, bem no momento em que nosso navio está para sair do Oceano Atlântico e entrar no Mediterrâneo.”

    Outras vezes, de forma assustadora, como no conto Batisferas.

    “Quando a porta se abriu mais um pouco, captamos um miasma que ninguém deveria jamais cheirar: o eflúvio de algo inteiramente não humano, abominável, proveniente de um mundo de mucos sugados, absolutamente sem luz, numa umidade asfixiante, abrigo de bocas sôfregas para as quais o corpo humano era um petisco, nada além disso. Negrume encharcado, umidade dos infernos. O metal enferrujado rangeu, e a porta cedeu mais um pouco. O ar fétido escapuliu num silvo e percorreu a multidão; houve quem vomitou. Todos, ao mesmo tempo, deram um passo para trás; alguns saíram correndo. Senti o terror me invadindo. Eu não queria ver o que estava dentro da caixa. O terror subiu rastejando por minha pele e me envolveu, grudento como teia de aranha.”

    O fascínio pelo mar, representado em tantas belas histórias dos escritores clássicos aos contemporâneos, está justamente nesta incompreensão. O mar terno das águas azuis é também capaz de provocar o terror, o mais puro terror.