Histórias do mar

O fascínio que tenho pelo mar é contemplativo. O sentimento aventureiro de desbravar ondas ficou na adolescência, felizmente. Gosto de me sentar de frente e ficar olhando incompreensível para a beleza. Não passo disso, mas deixo-me embalar pelas histórias de apaixonados que foram além. Basta citar alguns de meus livros favoritos: Moby Dick, de Herman Melville, Lord Jim e Nostromo, de Joseph Conrad, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

Acabo de ler Histórias do mar – Coletânea de Novas Histórias do National Maritime Museum com esta sensação de voltar às aventuras do mar. O livro reúne contos de autores contemporâneos como Sam Llewellyn, Chris Cleave e Tessa Radley. Histórias que se mesclam entre a aventura dos que enfrentaram oceanos e o cotidiano daqueles que se criaram em frente ao mar. Em ambos os estilos, o fascínio permanece. Às vezes de forma terna, como no conto Devonia.

Não sei como começou isso. Estou com os meus braços em volta dela. E os braços dela em volta de mim. O sol está se pondo no Atlântico e aqui, tão perto da África, está muito quente. (…) Agora eu posso esquecer tudo, porque esta menina, esta menina linda, quis ficar comigo, bem no momento em que nosso navio está para sair do Oceano Atlântico e entrar no Mediterrâneo.”

Outras vezes, de forma assustadora, como no conto Batisferas.

“Quando a porta se abriu mais um pouco, captamos um miasma que ninguém deveria jamais cheirar: o eflúvio de algo inteiramente não humano, abominável, proveniente de um mundo de mucos sugados, absolutamente sem luz, numa umidade asfixiante, abrigo de bocas sôfregas para as quais o corpo humano era um petisco, nada além disso. Negrume encharcado, umidade dos infernos. O metal enferrujado rangeu, e a porta cedeu mais um pouco. O ar fétido escapuliu num silvo e percorreu a multidão; houve quem vomitou. Todos, ao mesmo tempo, deram um passo para trás; alguns saíram correndo. Senti o terror me invadindo. Eu não queria ver o que estava dentro da caixa. O terror subiu rastejando por minha pele e me envolveu, grudento como teia de aranha.”

O fascínio pelo mar, representado em tantas belas histórias dos escritores clássicos aos contemporâneos, está justamente nesta incompreensão. O mar terno das águas azuis é também capaz de provocar o terror, o mais puro terror.

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