Mulheres sedutoras e fatais

Cinco bandidos estão em um quarto de hotel combinando o grande golpe. Batidas na porta. Sweed (Burt Lancaster) entra, a câmera o enquadra em plano fechado. Ele cumprimenta os bandidos um a um. Ouve-se voz feminina:

– Olá, Sweed. – plano de segundos mostra Kitty Collins (Ava Gardner) sentada na cama, os cabelos negros caindo sobre o ombro esquerdo, as duas mãos apoiadas no colchão, as pernas dobradas à frente em posição horizontal, o vestido pouco acima dos joelhos, deixando à mostra pernas e pés descalços da atriz. Sweed se surpreende com a presença de Kitty e se senta na cama. A câmera enquadra o ator em primeiro plano. Kitty está agora deitada com o cotovelo apoiado na cama, olhando Sweed. Folheia displicentemente uma revista, seu olhar alternando entre as páginas e o bandido à sua frente.

Uma das magias do cinema em casa é poder parar as cenas em determinados momentos. Visualizar por tempo indefinido os detalhes que ajudaram a criar a femme fatale, das personagens mais provocativas da história do cinema: olhar sedutor, decotes insinuantes, posições em camas e cadeiras libertando a imaginação erótica, braços, pernas e pés nus (bastava isso), jeito de fumar com conotações que você conhece bem.

Assassinos (The killers, EUA, 1946), direção de Robert Siodmak. O ex-boxeador Sweed se entrega ao mundo do crime após conhecer Kitty. Ela é namorada de famoso bandido e vive de aplicar pequenos golpes. Na cena do quarto, o boxeador acabara de cumprir três anos de prisão após acobertar um roubo de Kitty.

O filme, baseado em história de Ernest Hemingway, é dos grandes representantes do film noir, gênero que marcou a cinematografia americana dos  anos 40. Fotografia em preto e branco com tons escuros (influência do expressionismo alemão), grande parte das filmagens realizadas em interiores, narrativas policiais marcadas por personagens cínicos, sarcásticos – mostrando o frio e sádico submundo do crime. A femme fatale predomina em três clássicos do film noir, todos da década de 40. Um deles é Assassinos, os outros são Gilda (1946) e Pacto de sangue (1944).

Gilda, direção de Charles Vidor. Rita Hayworth é a sedutora cantora de cabaré que motiva um dos triângulos amorosos mais complexos da história do cinema, passível de interpretações hetero e homossexuais. Johnny Farrell (Glenn Ford) trabalha para Ballin Mundson (George Macready), dono de cassino em Buenos Aires. Mundson viaja a negócios e volta casado com Gilda, que fora amante de Johnny. A história do filme não é grande coisa, mas cada frame e cada frase de Rita Hayworth ajudam a entender a expressão mulher fatal. Ruy Castro define o fascínio de gerações por Gilda:

“E não se tratava apenas de imitar o seu jeito quase imoral de jogar o cabelo, de transformar inocentes saboneteiras numa tentação erótica ou de fumar como se cada lenta baforada contivesse um secreto significado. Era algo mais profundo e complexo: tentar apossar-se do seu fogo gelado, se se pode chamá-lo assim – a capacidade de inflamar uma paixão e, ao mesmo tempo, esnobar o ser inflamado a ponto de reduzi-lo à servidão total, ao nada.”

Pacto de sangue, direção de Billy Wilder. Barbara Stanwyck seduz um honesto vendedor de seguros, levando-o a assassinar seu marido para que ela  receba a milionária apólice de seguros. No bem comportado cinema americano da época, fiscalizado por censores que cortavam até casais vestidos deitados na cama, história assim só poderia ser concebida no film noir:  “O pacato e simpático vendedor transforma-se em um assassino frio e calculista, quando, no final do mês de maio, conhece a loura fatal Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck).” – Ana Lúcia Andrade.

Você pode perguntar porque não se fazem mais filmes assim, com todo esse glamour irresistivelmente sedutor e fatal. Porque não existem mais atrizes como Rita Hayworth, Ava Gardner e Barbara Stanwyck. E nem mulheres como Gilda.

REFERÊNCIAS

Entretenimento inteligente. O cinema de Billy Wilder. Ana Lúcia Andrade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinema. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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A história do cinema para quem tem pressa

Alerto os alunos no primeiro dia de aula da minha disciplina História do Cinema Mundial: a história do cinema merece um curso de graduação inteiro, teremos apenas um recorte, os principais movimentos, diretores, filmes…. É a mesma proposta do livro A história do cinema para quem tem pressa, do crítico e professor Celso Sabadin – autor do ótimo Vocês ainda não ouviram nada, a barulhenta história do cinema mudo.

O autor adverte os leitores: “Como o próprio nome já diz, A história do Cinema para Quem Tem Pressa propõe uma abordagem histórica, rápida e objetiva sobre o tema. Usando uma linguagem cinematográfica, trata-se mais de uma visão panorâmica, um travelling, do que um estudo em close.”

Os capítulos do livro seguem a linha cronológica, começando pela pré-história das imagens em movimento e os pioneiros. Na primeira parte, destaco o capítulo sobre o impressionismo francês, Sabadin dedica análise mais apurada sobre o movimento marcado pelas obras de diretores como Abel Gance, Louis Delluc e Jean Epstein.

A partir do nascimento do cinema sonoro, o livro versa sobre os principais movimentos: neo-realismo italiano, nouvelle-vague, nova hollywood, passando ainda pela ascensão e decadência do sistema de estúdios americano. O cinema nacional é contemplado com panorama histórico sobre o cinema novo e um subtítulo no capítulo final sobre a retomada do cinema brasileiro.

Livro de leitura rápida, com listagem de importantes filmografias, abre perspectivas para futuras pesquisas, imersão em um ou outro movimento de preferência para a leitura de obras mais densas. Como sugestão, ainda o melhor livro sobre história do cinema, um clássico: História do cinema mundial, de Georges Sadoul, publicado nos anos 60, três volumes com a mais completa retrospectiva da sétima arte até aquele momento.

A história do cinema para quem tem pressa. Dos irmãos Lumière ao século 21 em 200 páginas! Celso Sabadin. Rio de Janeiro: Valentina, 2018.

Retrato de uma jovem em chamas

A narrativa acompanha de forma linear o relacionamento das duas, a princípio dominado pelo silêncio. As duas caminham pela ilha, contemplando a natureza, se contemplando, deixando-se levar cada vez mais pela afetividade, pela atração de duas jovens solitárias que buscam, cada uma a sua forma, a beleza da arte. Beleza que se revela em imagens sensíveis de Marianne e Héloise, entregues àquele mundo só delas, como se cada momento fosse destinado a este encontro inevitável, enquanto esperam o destino já traçado: deixar a ilha e entrar no cruel mundo determinado pelas convenções sociais da família, dos homens. Atenção para a tocante cena final na ópera, momento em que a arte conversa com essas mulheres a quem não foi permitido se entregar as suas escolhas. 

Retrato de uma jovem em chamas (Portrait de la femme fille en jeu ,França, 2019 ), de Céline Sciamma. Com Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami.

Ameaça profunda

A premissa do filme fascina e aterroriza: o desconhecido que habita as profundezas do mar pode despertar pela cobiça dos homens. Empresa constrói uma torre de acesso a onze mil metros de profundidade, com fins aparentemente de pesquisas. Logo nas primeiros momentos da narrativa, a estação não aguenta a pressão e tem 70% de suas instalações destruídas. Grupo de seis sobreviventes tem que descer até o mais fundo do mar em busca de cápsulas de ejeção para a superfície. 

Kristen Stewart é a estrela do filme. Nora, sua personagem, guia o grupo ao lado do capitão da estação. Seus cabelos curtos e descoloridos, seu físico esguio, sua personalidade frágil e ao mesmo tempo destemida, representa o estranho que tenta se adaptar a ambientes hostis, onde a luta pela sobrevivência é a única alternativa. 

Ameaça profunda (Underwater, EUA, 2019), de William Ewbank. Com Krister Stewart, T. J. Miller, Jessica Henwick, Vicente Casel.

Judy: muito além do arco-íris

Judy: muito além do arco-íris se concentra nos meses em que a cantora se apresentou em Londres, pouco antes de morrer. Sem casa para morar, é despejada inclusive de quartos de hotel por falta de pagamento. Ela perde a guarda de seus dois filhos pequenos para o ex-marido e aceita fazer a turnê musical por Londres para tentar se recuperar financeiramente.

A narrativa alterna entre os problemas de Judy em Londres, suas apresentações oscilam entre o sucesso e o completo fiasco em algumas noites, quando se apresenta alcoolizada e agressiva, e seu passado como atriz. São esses flashbacks que trazem à tona a crueldade do sistema de estúdios, cujos produtores exploraram o talento infantil de Judy à custa da saúde da atriz, impondo à ela jornadas excessivas de trabalho, impedindo que exercesse atividades inerentes à infância/adolescência, como ir à escola, sair com amigos, ter relacionamentos não-autorizados pelo estúdio.

Assim como outras importantes componentes do star-system da era de ouro de Hollywood, Judy Garland pagou caro por estar sob controle de homens cuja crueldade parecia não ter limites, tudo em função do negócio chamado cinema. Cada aparição de Louis B. Mayer, todo poderoso da MGM, revela que por trás das telas o mundo mágico de Hollywood era construído através de atitudes desumanas, que destruíam as estrelas que povoavam o imaginário dos espectadores. 

Judy: muito além do arco-íris (Judy, EUA, 2019), de Robert Gould. Com Renée Zellweger (Judy Garland), Jessie Buckley (Rosalyn Wilder), Finn Wittrock (Mickey Deane), Rufus Swell (Sid Luft), Michael Gambon (Bernard Delfont).

Você nunca esteve realmente aqui

O filme traz mais um personagem que vez por outra domina narrativas: assassino de aluguel atormentado pelo passado, no caso de Joe, ex-combatente imerso nas memórias cruéis da guerra. No entanto, Joe aluga seus implacáveis tiros por causa nobre: resgatar menores das mãos de pedófilos, executando-os. 

A trama se complica quando Joe se vê envolvido numa intrincada rede de pedofília envolvendo políticos americanos. Ao resgatar a criança Nina dessa rede, a violência explode em sequências sanguinárias e dolorosas.

Joaquin Phoenix ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes (também prêmio de melhor roteiro para Lynne Ramsay). Sua atuação visceral apresenta um personagem que caminha irreversivelmente para a tragédia pessoal, sufocado pela realidade, pelas memórias, pelo destino, como drogas que dominam seu corpo e sua mente. 

Você nunca esteve realmente aqui (You were never really here, EUA, 2017), de Lynne Ramsay. Com Joaquin Phoenix (Joe),  Ekaterina Samsonov (Nina), Alex Manette (Albert voto). 

Vidas duplas

Ganhei meu kindle de presente de aniversário anos atrás. Relutei no início em ligar o fascinante objeto, comprar meu primeiro e-book e aderir à leitura digital. Amo os livros físicos, admirar as capas, sentir o cheiro de páginas novas, sentar-me no confortável sofá e deitar os olhos nas letras impressas. Às vezes, pago caro por esse prazer, livros no Brasil alcançam preços fora da realidade. 

O tema de Vidas duplas é a revolução digital no mercado editorial. Alain é editor de importante empresa que prepara a transição para o mercado digital, que exige investimentos em e-books, audio livros e outras propostas. Léonard é escritor e reluta em se render a esses tempos. Selena, mulher de Alain, também enfrenta sua crise profissional: interpreta uma especialista em crises em série policial de sucesso e está cansada do trabalho repetitivo. Crises de relacionamento e casos extraconjugais pontuam a trama. 

O interesse da trama está nos conflitos dos personagens, revelados em diálogos reflexivos quando editor, escritores, blogueiros se encontram em bares e jantares e colocam em pauta as mudanças profissionais. “Meu blog tem cinco mil acessos diários, mas ninguém lê meus livros.” ‘Com um kindle, você pode carregar sua biblioteca inteira em uma viagem.” “Eu não quero carregar minha biblioteca inteira, prefiro levar um livro leve.” Outra importante questão desses tempos virtuais aparece quando a responsável pela transição digital da editora dá lições a Alain sobre o poder dos algoritmos também no universo da literatura. 

Hoje ligo meu kindle e leio também com prazer, no mesmo sofá confortável, afinal, “as letras são maiores”, como diz um personagem de Vidas duplas

Vidas duplas (Doubles vies, França, 2018), de Olivier Assayas. Com Juliette Binoche (Selena), Guillaume Canet (Alain), Vincent Macaigne Léonard), Nora Hamzawi (Valérie). 

Lili – Minha adorável espiã

O musical de Black Edwards gira em torno do envolvimento de Lili e Larrabee, com toques de comédia, romance, cenas de batalhas aéreas, tudo pontuado por belas canções, a maioria na inesquecível voz de Julie Andrews. O roteiro não apresenta novidades ao gênero, melhor mesmo é se entregar às canções e ao belo final, quando Lili repete o número de abertura. Impossível não se emocionar ao ouvir a música, cuja belíssima letra simboliza os obscuros tempos de guerra:

Penso sempre que este mundo velho e triste
Está assobiando na escuridão
Como uma criança que sai tarde da escola 
E bravamente atravessa o parque ao voltar para casa
Para criar coragem e manter a noite à distância
Sem saber exatamente o caminho a tomar
Cantando para afugentar as sombras

Penso sempre que o meu pobre coração 
Desistiu de vez até que eu vejo um novo rosto
Ou vislumbro uma nova vizinhança
Então, me leve para casa meu amor
Diga que os sonhos se realizam de fato
Assobiando, assobiando, aqui no escuro com você. 

Lili – Minha adorável espiã (Darling Lili, EUA, 1970), de Black Edwards. Com Julie Andrews, Rock Hudson, Jeremy Kemp

Um assunto de mulheres

Segunda guerra mundial. Em pequena cidade do interior da França ocupada, Marie cuida de seus dois filhos pequenos enquanto seu marido está em combate. Ela é bem sucedida ao ajudar sua vizinha a fazer um aborto. Quando seu marido é dispensado devido a ferimentos, Marie tem que se virar para sustentar a família e passa a ganhar dinheiro com abortos e com aluguel de um quarto para a amiga prostituta receber seus clientes. 

Isabelle Huppert foi premiada em festivais pelo desempenho como a jovem impetuosa e inconsequente que tenta não apenas sobreviver, mas ascender socialmente durante a guerra com atividades clandestinas. Não se vê como delinquente, é apenas seu modo de ganhar a vida e ajudar as mulheres. Em contrapartida, seu marido fecha os olhos para tudo, aceitando sem questionar o dinheiro de Marie. A crueldade e hipocrisia da guerra afloram no final, quando os homens decidem que Marie deve ser punida exemplarmente, enquanto eles mesmos enviam e executam crianças judias nos campos de concentração. 

Um assunto de mulheres (Une affaire de femmes, França, 1988), de Claude Chabrol. Com Isabelle Huppert (Marie Latour), François Cluzet (Paul), Nils Tavernier (Lucien), Marie Brunel (Ginette).  

High life – Uma nova vida

Grupo de criminosos, todos condenados à morte ou prisão perpétua, aceita participar de exploração espacial. O destino da nave é encontrar um buraco negro nos confins da galáxia. O filme é contado sob o ponto de vista de Monte (Robert Pattinson) que no início da trama está sozinho na nave com uma bebê. Narrativa em flash back elucida o destino dos outros tripulantes. 

O olhar da diretora Claire Denis se volta para os instintos que dominam homens e mulheres enclausurados, cujo passado violento aflora e precisa ser controlado através do uso de drogas. Os tripulantes são manipulados pela inescrupulosa médica Dibbs (Juliette Binoche), cujo crime que cometeu, segundo ela mesma, é o único digno do nome. O final enigmático faz referência clara ao maior filme de ficção científica de todos os tempos: 2001 – Uma odisséia no espaço.  

High life – Uma nova vida (High life, EUA, 2018), de Claire Denis. Com Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin. Mia Goth, Agata Buzek.