Categoria: Anos 90

  • O espelho

    O espelho (Ayneh, Irã, 1997), de Jafar Panahi. 

    Na segunda metade do filme, a criança Mina está na parte da frente, próxima ao para-brisa do ônibus. Ela olha para a câmera, tira o gesso de seu braço e diz: “Não vou mais atuar.” Abre o plano e mostra a equipe de cinema atônita, incluindo o diretor Jafar Panahi. A menina desce do ônibus disposta a abandonar as filmagens. 

    O espelho é uma fascinante experiência de Jafar Panahi pelo universo neorrealista, confirmando seu estilo de trabalhar entre a narrativa ficcional e o documentário. No início do filme, Mina sai da escola e não encontra sua mãe. Ela resolve então ir sozinha para casa e começa uma jornada pelas ruas movimentadas e caóticas de Teerã, a pé ou utilizando o transporte público. A câmera segue Mina pelas ruas em longos planos, se permitindo ao improviso necessário em filmagens externas. 

    Na segunda parte, o já consagrado diretor iraniano faz uma escolha ousada: quando Mina abandona o ônibus, não tira o microfone. A equipe passa a filmar a tentativa real da menina de chegar em casa. 

    A atuação, ou não atuação, da amadora atriz mirim Mina Mohammadkhani é fascinante, encantadora. Seu périplo pelas ruas de Teerã é um espelho da sociedade iraniana, demarcada pelo caos das ruas, a precariedade do transporte público, a luta dos cidadãos, incluindo trabalhadores, mães, idosos, crianças, para transitar e sobreviver em meio ao caos de Teerã. Cada um enfrenta sua lida diária, sem tempo para sequer ajudar uma criança a chegar em casa.

  • Sul

    Sul (Sud, França, 1999), de Chantal Akerman. 

    No dia 7 de julho de 1998, James Byrd Jr. morador da comunidade negra de Jaspen / Texas, caminhava pela estrada, de volta para casa, após um dia de trabalho. Três jovens brancos ofereceram carona a ele, mas o levaram para um local deserto onde o espancaram. Depois, amarraram Toe, como era conhecido pelos amigos, pelos tornozelos na traseira da picape. 

    “Aparentemente, de acordo com o Xerife, os três homens pegaram o Sr. Byrd na Rodovia 96, ao norte. Pegaram ele, levaram a um local remoto, onde o tiraram da caminhonete, bateram nele e então o acorrentaram na parte de trás da caminhonete. Então eles arrastaram ele por cerca de três quilômetros pela estrada através da parte negra do condado. Eles o desacorrentaram em frente do cemitério negro. No processo, ao que parece, em algum ponto, ele acertou o tubo de drenagem que arrancou sua cabeça e seu braço direito do torso. E os pedaços de seu corpo foram encontrados espalhados pelos três quilômetros da estrada.” – relato de um dos depoentes.  

    O documentário de Chantal Akerman entrevista pessoas da comunidade, a câmera fixa nos rostos doloridos ao contar esse e outros casos de assassinato que aconteceram por motivações raciais. Os três assassinos de James Byrd Jr. eram jovens supremacistas brancos. 

    Entre os depoimentos, Chantal Akerman filma silenciosamente, em longos planos sequência, a cidade: os bairros, casas, estabelecimentos de comércio. Durante as trajetórias, separadas por região, vislumbra-se a separação entre brancos e negros, tantos em termos físicos quanto em termos econômicos. O bairro dos negros é uma sucessão de casas simples de madeira, gastas pelo tempo. 

    O plano sequência final, também demarcado pelo silêncio, é de uma dor quase inacreditável: a câmera, da traseira do carro, direcionada para o chão, percorre todo o trajeto da estrada na qual James Byrd Jr. foi arrastado. São intermináveis três quilômetros, intermináveis.

  • O balão branco

    O balão branco (Irã, 1995), de Jafar Panahi. 

    Jafar Panahi começou a trabalhar como assistente de direção do mestre dos mestres iranianos Abbas Kiarostami. Em seu primeiro filme como diretor, contou com a colaboração de Kiarostami no roteiro. 

    A narrativa de O balão branco transcorre no tempo cronológico de 85 minutos que antecede a chegada da celebração do ano novo iraniano. A menina Razieh está voltando para casa com sua mãe. Ela tenta convencer a mãe a lhe dar dinheiro para comprar um peixinho dourado, bem mais gordinho do que os que eles têm em casa.

    Em casa, Razieh conta com a ajuda do irmão mais velho para vencer a resistência da mãe. Quando finalmente ganha uma nota de 500 tomans, Razieh sai feliz para comprar o peixinho, mas em uma série de contratempos no trajeto, perde o dinheiro e tem pouco tempo para recuperá-lo, antes da loja fechar. 

    “A maior parte do filme é dedicada aos seus esforços para recuperar o dinheiro. O roteiro pode parecer fraquinho, mas o filme prende a atenção e é fascinante com personagens bem delineados e uma narrativa habilidosa. O empenho de Panahi para redefinir nossa noção de tempo durante o processo é notável. Aos poucos, somos seduzidos pela percepção que a menina tem sobre o transcorrer do tempo, evidenciada pelo desejo de ter o peixinho dourado e todos os obstáculos que ela enfrenta para adquiri-lo.” 

    O balão branco venceu a Caméra d’Or do Festival de Cannes, consagrando, logo em sua estreia, Jafar Panahi como mais um mestre do cinema iraniano. Atenção para a sensível e delicada cena final, que justifica o título do filme. 

    Elenco: Aida Mohammadkhani (Razieh), Mohsen Kafili (Ali), Fereshteh Sadre Orafaiy (a mãe). Mohammad Shahani (o soldado).

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A mudança

    A mudança (Le déménagement, França, 1993), de Chantal Akerman. 

    Um homem (Sami Fry) entra em um apartamento, observa o ambiente ainda com coisas para arrumar: “Nem mesmo uma alma, apenas eu. Com uma alma, as coisas nunca acabam bem.” Ele se senta em uma cadeira de frente para a janela, a câmera o enquadra a distância, e bate palma: “Há um eco. É o eco de uma alma desaparecida.”

    Durante todo o curta, Chantal Akerman filma o homem em interações leves com o apartamento. Ele passa grande parte do tempo em frente à janela, às vezes ele anda, medindo os passos para determinar a extensão de sua nova moradia. 

    Em um longo monólogo, o homem reflete sobre sua solidão, sobre seu passado, sobre o silêncio que o espera, demonstrando arrependimento por ter mudado. Em determinado momento, ele relembra um verão na sua antiga residência, quando se apaixonou por três jovens vizinhas, estudantes. “Verão de 1982. Eu estava bem na época. A janela estava aberta, havia uma brisa entrando. A risada de três garotas vinha da casa ao lado. Na manhã, o ar ainda era fresco. Nada. Sem cansaço, um desejo de acordar. Nada. Exceto um homem parado. As suas risadas me davam vida. Um banho frio, uma calça leve, folgada. Camisa aberta, pés descalços. E assim eu vivia.”

    A mudança é um filme sobre memórias, sobre o tempo que passa e deixa marcas e o desejo de repetir ou aproveitar melhor algumas coisas. Como a paixão por três jovens estudantes, em um momento em que você ouve a voz de seu próprio desejo: “Vou ver o mar amanhã.”

  • Homensa brancos estao enlouquecendo

    Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah. 

    Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.” 

    Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução. 

    A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista. 

  • Negócios à parte

    Negócios à parte (Rien ne va plus, França, 1997), de Claude Chabrol.

    Claude Chabrol se destacou entre os famosos cineastas da nouvelle vague, e também críticos da Cahiers Du Cinema, pela sua incursão aos filmes de gênero. Negócios à parte é seu filme de número 50, uma carreira longa e produtiva, com a marca do diretor: homenagens a outros realizadores, gêneros que se implicam, abordagens críticas da burguesia francesa, personagens ambíguos. 

    A trama acompanha as peripécias do casal de vigaristas Victor (Michel Serrault) e Betty (Isabelle Huppert) – não fica claro durante a narrativa se são amantes, apenas amigos de bandidagem ou pai e filha. Os dois vivem de aplicar pequenos golpes em hóspedes de hotéis de luxo, sempre se precavendo para não provocar qualquer tipo de violência. O turning point acontece quando Betty se envolve com Maurice (François Cluzet), tesoureiro de uma empresa multinacional, que planeja fugir com cinco milhões de francos suíços que estão sob seus cuidados. 

    A partir daí, a trama é uma sucessão de estratagemas bem ao estilo policial farsesco: troca de maletas em um trem; Betty tentando enganar a todos para ficar com o dinheiro; Victor idem; entrada em cena de uma dupla de atrapalhados assassinos profissionais; reunião em uma casa luxuosa onde tudo pode acontecer, incluindo assassinatos escabrosos. 

    Não é o melhor filme de Claude Chabrol, mas é sempre o Chabrol irônico, divertido, contando com grandes estrelas no elenco: Isabelle Huppert, praticamente dona da narrativa.

  • Morango e chocolate

    Morango e chocolate (Fresa y chocolate, Cuba, 1993), de Tomás Gutiérrez Alea, conquistou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim e é o único filme cubano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A narrativa acompanha a relação que se cria entre David (Vladmir Cruz), estudante de ciências políticas, e Diego (Jorge Perugorría), artista homossexual. Enquanto David é militante comunista, defensor da revolução, Diego tem ressalvas sobre os princípios adotados pelo regime, principalmente em questões relacionadas à censura cultural e às perseguições que sofre por sua identidade sexual. 

    O diretor Tomás Gutiérrez Alea, cuja obra mais aclamada mundialmente é Memórias do desenvolvimento (1968), continua com seu olhar crítico sobre as consequências da revolução comunista em Cuba, principalmente, em termos econômicos, sociais e culturais.

    Os debates entre David e Diego representam os olhares distintos sobre o regime. Ambos defendem a justiça social, porém discordam sobre os métodos adotados. O preconceito social também é tema relevante da trama. 

    A princípio, David renega Diego, “um maricón”, mas se deixa envolver cada vez mais pela sensibilidade, delicadeza e inteligência do jovem artista. O gesto final entre os dois é de enternecer até o mais empedernido dos espectadores. 

    Elenco: Jorge Perugorria (Diego), Vladimir Cruz (David), Mirta Ibarra (Nancy), Francisco Gattorno (Miguel). Marilyn Solaya (Vivian). 

  • Cinzas do passado redux

    Cinzas do passado redux (Dung che sai duk, Hong Kong, 2008), de Wong Kar Wai. 

    O filme abre com a câmera percorrendo em travelling um deserto amarelo exuberante. Voz do narrador do filme: “É um ano de eclipse total, a seca assola a terra. Seca significa problemas. Problemas significam bons negócios. Eu sou da Montanha do Camelo Branco. Me chamo Feng. Sou especialista em resolver problemas.” 

    Ou-yang Feng (Leslie Cheung) foi um famoso espadachim, esses artistas das artes marciais que se consagraram no cinema oriental desde Os sete samurais (1954), de Akira Kurosawa. Feng se exila na montanha após ser abandonado pelo seu grande amor. A especialidade em “resolver problemas” a que Feng se refere é intermediar a contratação de assassinos de aluguel. “Matar em si, não é um problema. Tenho um amigo que conhece certas artes marciais. Ele está um pouco sem sorte ultimamente. Por uma pequena taxa ele ficará feliz em livrá-lo dessa pessoa.” Diz Feng a um interlocutor.

    O gênero chinês wuxia ganha contornos estéticos fascinantes nas mãos e olhar de Wong Kar Wai. O ritmo lento, demarcado pela extravagante profusão de cores, closes em momentos tensos, personagens que parecem voar em câmera lenta nas cenas de luta – o estilo Wong Kar Wai. 

    Cinzas do passado foi lançado em 1994 e passou por um longo processo de restauração, O filme original tinha cópias em versões diferentes, todas já em processo de deterioração. O próprio diretor coordenou a restauração que resultou na “versão definitiva”,  aprimorada em seus elementos estéticos, com alterações na estrutura narrativa, incluindo novas músicas. A narrativa, centrada nos sentimentos de frustração e melancolia dos protagonistas,  é entremeada por cenas artísticas de combates entre os guerreiros espadachins, inaugurando um estilo que se consagraria com filmes como O tigre e o dragão (2000), de Ang Lee, e a trilogia de Zhang Yimou: Herói (2002), O clã das adagas voadoras (2004) e A maldição da flor dourada (2006). 

  • Diário para meu pai e minha mãe

    Diário para meu pai e minha mãe (Napló apámnak, anyámnak, Hungria, 1990), de Márta Mészáros. 

    A última parte da trilogia autobiográfica de Márta Mészáros centra a narrativa na fracassada Revolução Húngara de 1956, quando civis tentaram derrubar o governo apoiado por Stálin. Julie está em Moscou e tenta a tudo custo voltar para Budapeste, Magda está foragida e Janos participa ativamente das atividades revolucionárias. Quando consegue voltar para seu país, Julie, já uma diretora de cinema, documenta as conturbadas ruas de Budapeste e inicia um romance com outro diretor de cinema. 

    O estilo da película contínua na mescla de ficção e documentário, com amplo espaço para a repressão oficial do governo. Outro ponto forte é a luta pela liberdade artística, o cinema verdade dos documentários de Julie e seu namorado se contrapondo às manipulações da mídia governista. O final do filme, após a prisão e julgamento de Janos, é de uma verdade dolorosa, revelando a crueldade dos porões das ditaduras. Ficção também é documentário. 

    Elenco: Com Zsuzsa Czinkóczi (Juli), Jan Nowicki (Janos), Mari Torocsik (Vera), Ildiko Bánsági (Ildi), Anna Polony (Magda). 

  • Túmulo dos vagalumes

    Túmulo dos vagalumes (Japão, 1988), de Isao Takahata, é um dos animes mais tristes do Studio Ghibli. O filme é adaptado do conto semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka, que perdeu sua irmã durante a Segunda Guerra Mundial. O diretor Takahata, co-fundador do estúdio, também sofreu com os horrores da guerra, sobrevivendo a um bombardeio durante a infância. 

    Os irmãos Seita e Setsuko tentam sobreviver aos últimos meses da guerra, quando o Japão sofre bombardeios constantes. A mãe morre em um desses ataques, o pai está lutando na guerra e os irmãos se refugiam nos arredores da cidade de Kobe. Lutam contra o abandono, a falta de moradia, a fome e a ameaça constante da morte. A poesia visual marca a narrativa, com cenas noturnas iluminadas pelos vagalumes, quando fantasmas observam a tragédia que acompanha o cotidiano de Seita e Setsuko em sua jornada pela sobrevivência.

    A temática que salta aos olhos é a negligência do governo e da própria sociedade, deixando as crianças abandonadas nas ruas, a ponto de roubar alimentos (e serem punidas). Túmulo dos vagalumes é de estraçalhar o coração. 

  • The protagonists

    The protagonists (Itália, 1999), de Luca Guadagnino.

    Em 1994, dois adolescentes chegam a Londres dispostos a cometer um assassinato. Eles andam pela cidade procurando um travesti, mas mudam de ideia e invadem o carro de Mohammed El-Sayed e o matam a facadas. O crime é rapidamente desvendado pela polícia e atinge repercussão na mídia, pois os jovens, de classe média alta, demonstram frieza pelo ato cometido sem nenhum motivo, a não ser experimentar o “prazer de matar”. 

    O primeiro filme de Luca Guadagnino mistura documentário e ficção na investigação e reconstituição do crime. Tilda Swinton, no papel de uma atriz/jornalista, lidera uma equipe de filmagem italiana que percorre os cenários da tragédia, o tribunal onde ocorreu o julgamento, entrevista especialistas, a esposa da vítima e pessoas próximas ao crime.  

    O diretor italiano compôs um suposto documentário encenando as cenas e não definindo se os entrevistados são atores ou as pessoas reais que vivenciaram o assassinato. Mesmo percorrendo diversos festivais, The protagonists passou despercebido pelo público e crítica (sequer foi exibido nos cinemas), mas depois da consagração de Luca Gudagnino passou a ser revisto como um filme experimental, já com as marcas do diretor.

  • Seguinte

    Christopher Nolan sempre deixou evidente sua paixão pelo cinema noir, inclusive participando de documentários onde analisa os principais elementos estéticos e narrativos do gênero. Em Seguinte (Following, Inglaterra, 1998), o diretor se apropria dessas referências para compor uma narrativa instigante, de complexas camadas psicológicas. 

    Jeremy Theobald interpreta um jovem escritor que segue aleatoriamente pessoas pelas ruas da cidade, em busca de inspiração para um livro. Durante suas andanças, um ladrão o seduz e o escritor passa a segui-lo em seus crimes, geralmente invadindo domicílios e roubando pertences. 

    A trama se complica quando os dois invadem a casa de uma mulher loira (Lucy Russel) – a femme fatale do cinema noir. O escritor fica fascinado e começa um estranho relacionamento oscilando entre o voyeurismo e a sedução.

    Seguinte foi realizado durante um ano, gravado nos finais de semana, pois Christopher Nolan trabalhava em tempo integral em Londres. O custo do filme foi de apenas seis mil dólares e despertou o interesse pelo trabalho do jovem diretor que, na sequência, realizou o aclamado Amnésia (2000). Dois filmes independentes que evidenciaram o talento de Christopher Nolan que se consagraria definitivamente com a trilogia do homem morcego. 

  • Estranhos prazeres

    Estranhos prazeres (EUA, 1995), de Kathryn Bigelow, é ambientado em uma Los Angeles distópica, com cenários sujos, cuja fotografia neo-noir privilegia a vida noturna de marginalizados em clubes, apartamentos, ruelas e becos da cidade – claramente inspirado em Blade Runner – O caçador de androides (1982). 

    O roteiro tem co-autoria de James Cameron, na época casado com a diretora.  O ex-policial Lenny Nero (Ralph Fiennes) vende pequenos discos contendo experiências vividas por pessoas, incluindo práticas sexuais. O dispositivo permite ao usuário vivenciar as experiências dentro de sua própria mente, como projeções de realidade virtual. A virada acontece quando Lenny recebe um disco com a gravação de uma amiga sua, uma prostituta que registrou seu próprio assassinato. 

    O destaque da película é a estética cyberpunk que marcou importantes obras a partir dos anos 80, entre elas Blade Runner, Akira, Ghost in the Shell, Matrix e O Vingador do futuro. Kathryn Bigelow trabalha em seu ambiente de thriller psicológico, com sequências empolgantes e assustadoras, sustentadas por um elenco que se consagraria: Ralph Fiennes, Angela Basset e Juliette Lewis, principalmente. 

  • A cura

    A cura (Cure, Japão, 1997), de Kiyoshi Kurosawa.

    O detetive Takane (Koji Yakusho) investiga uma série de assassinatos cometidos por pessoas aparentemente sem motivação, pessoas de passado íntegro que, de repente, cortam a garganta de pessoas próximas com um X e não conseguem explicar o porquê do ato cometido. São crimes isolados até que se descobre que um jovem esteve em contato com o(a) criminoso(a) momentos antes do crime. 

    A virada do roteiro aponta para um intrigante caso de hipnose e possessão, colocando o detetive e o suspeito em um conflito de consequências imprevisíveis, pois estamos falando de mentes que se conectam. A cura revelou o nome do roteirista e diretor Kiyoshi Kurosawa (sem parentesco com o famoso Akira Kurosawa) como um dos grandes nomes do terror japonês contemporâneo. O final aberto do filme sugere esses meandros inexplicáveis da mente humana. 

  • Jogando as fichas fora

    Jogando as fichas fora (Blue chips, EUA, 1994), de William Friedkin. 

    Peter Belli (Nick Nolte) é treinador de um time de basquete universitário. Após uma série de derrotas, sua carreira entra em declínio e ele revê alguns de seus princípios de ética e honestidade para conseguir um elenco mais talentoso. 

    Jogando as fichas fora trata de forma ousada das artimanhas efetuadas por grupos para burlar as regras do esporte e lucrar no mercado de apostas (tema sempre atual). O elenco é composto por figuras reais do basquete, incluindo Shaquille O’Neal, o célebre treinador Bobby Knight e comentaristas esportivos. As cenas dos jogos são emocionantes, um admirável trabalho da equipe de cinegrafistas e da direção de fotografia. 

    Uma curiosidade: a sequência final termina em uma “enterrada” fantástica de Shaquille O’Neal. O cinematógrafo Tom Priestley Jr. conta que Bobby Knight fez de tudo para que seus jogadores impedissem essa jogada, pois não aceitava perder um jogo nem mesmo em uma trama cinematográfica. 

  • Homem morto

    Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch

    Após uma quase interminável viagem de trem, o “almofadinha do leste” William Blake (Johnny Depp) chega a Machine, no Oeste americano, para assumir um cargo de contador. Como demorou muito para chegar, o cargo já havia sido preenchido e, sem dinheiro, Blake passa a noite com uma prostituta. De manhã, o noivo dela aparece no quarto e, após um tiroteio, a prostituta e o noivo morrem. 

    O que Blake não sabe é que seu destino está selado: o homem que matou no quarto é filho do empresário que o contrataria, um violento e sádico homem do Oeste. Em sua fuga, Blake encontra Ninguém, um índio culto que viveu na Inglaterra, que se torna seu único aliado. 

    “ Este filme de Jim Jarmusch é um ensaio sobre a contemplação, que seduz através da cinematografia em preto-e-branco de Robby Muller (influenciado por Ansel Adams), do violão primorosamente simples de Neil Young e da interpretação delicadamente poética de Depp. (…). Muito da narrativa e violência em Homem morto é monótona e indiferente, em especial o comportamento obstinado, quase catatônio de Cole Wilson (Henriksen), que não chega a ser um matador a sangue-frio, mas um que não tem sangue algum. O silêncio que impregna o grande vazio do Oeste, a bétula prateada deslizando enquanto William cavalga pela floresta, a objetividade de Ninguém à medida que pratica rituais não muito compreensíveis para um homem não muito consciente convergem para uma evocação quase ininteligível de pessoa, lugar e momento. Quando, ao final, Ninguém empurra William para dentro de um grande lago, a canoa-espírito desliza para o outro mundo, uma visão que relembra o rei Arthur, morto, sendo levado para Avalon.”

    Homem morto (Dead man, EUA, 1995), de Jim Jarmusch. Com Johnny Depp, Gary Farmer, Lance Henriksen, Michael Wincott, Iggy Pop, Gabriel Byrne, Robert Mitchum. 

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • Uma noite sobre a terra

    Uma noite sobre a terra (Night on earth, EUA, 1992), de Jim Jarmusch, desenvolve a narrativa em formato episódico. São cinco histórias que acontecem dentro de táxis, em cinco cidades: Los Angeles, Nova York, Paris, Roma e Helsinque. 

    Os gêneros das histórias variam entre drama e comédia, principalmente. Em Los Angeles, Winona Ryder vive uma motorista cool, irreverente em seu jeito de vestir, se comportar e falar. O choque acontece quando sua passageira, uma executiva de um estúdio de cinema, se interessa pela jovem motorista e a convida para fazer um teste para um filme. 

    Esse episódio determina o tom dos demais: narrativas baseadas em extensos diálogos dentro dos veículos, às vezes beirando o absurdo, como no ótimo capítulo passado em Roma. Roberto Benigni transporta um padre em seu carro e quase de forma surreal começa a contar ao padre suas experiências sexuais. 

    As outras três narrativa mesclam ações de solidariedade a um imigrante perdido em Nova York em sua primeira viagem como motorista, questões filosóficas e raciais debatidas entre um  motorista negro e a passageira cega (Paris) e uma tragédia pessoal, recheada de aspectos melancólicos e sombrios. Em Helsinque, o motorista conta sua trágica história para um grupo de passageiros bêbados. 

  • Festa de família

    O cenário é uma mansão no campo, propriedade de Helge, que organiza uma festa para celebrar seu 60° aniversário. Os principais convidados são os três filhos do casal: Christian, Michael e Helene. Completam a celebração, familiares vindos de todas as partes da Dinamarca. Durante um almoço na imensa mesa, repleta dos convidados, o filho mais velho faz uma revelação bombástica que vai abalar as relações familiares. 

    Festa de família é o primeiro filme lançado sob o manifesto Dogma 95, liderado pelos cineastas dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier. O movimento, uma espécie de repúdio à manipulação, favorecida pelas tecnologias digitais,  determinava práticas como: filmagens em locações,  câmeras na mão, som direto, não utilização de efeitos especiais, ausência de trilha sonora a não ser que fizesse parte do ambiente. 

    “Filmado com as menores e mais leves câmeras de vídeo então disponíveis, Festa de família é a crônica de batalhas familiares amargas e violentas que se desenrolam em uma casa de campo na qual o aniversário de 60 anos do patriarca está sendo comemorado pouco tempo após a irmã gêmea do filho mais velho ter cometido suicídio. As formas extremas de comportamento agressivo que emergem desde o início e o estilo dos cortes rápidos e crus de Vinterberg disfarçam o fato de que este filme é, na verdade, uma peça bem escrita, desempenhada e dirigida de psicodrama em vez do experimento revolucionário que dizia ser. Mas a incrível força dramática originária do desvelamento gradual de segredos de família eventual e justificadamente acaba nos envolvendo.”

    Festa de família (Dinamarca, 1998), de Thomas Vinterberg. Com Ulrich Thomsen, Henning Moritzen, Thomas Bo Larsen, Paprika Steen, Birthe Neumann.

    Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.

  • A estrada perdida

    A estrada perdida (Lost highway, EUA, 1997), de David Lynch, começa como um tradicional filme de suspense. Fred Madison (Bill Pullman é um saxofonista de jazz que vive em Los Angeles com sua esposa Renee (Patricia Arquette). O casal começa a receber fitas de vídeo com imagens do exterior e do interior da casa onde moram, uma demonstração clara de que estão sendo vigiados. A polícia é acionada, mas nada se descobre. Quando Fred imagina que sua esposa pode estar em um caso extraconjugal, relacionado às fitas, a narrativa envereda por um thriller violento e surrealista, bem ao estilo David Lynch, 

    A película pode ser dividida em duas histórias, ambas com as características do cinema noir, incluindo as femme fatalles, e trocas de idenditades surrealistas, algo como as narrativas distópicas cujos universos paralelos trocam de posições. 

    A frase de David Lynch “os sonhos não têm lógica, mas nós os entendemos” se adapta às complexas personalidade de Fred/Pete. Medos e desejos reprimidos, sonhos em múltiplas visualizações, mistérios insondáveis da natureza humana, a narrativa e a estética da trama desconexa exigem do espectador uma imersão sensorial em todos esses devaneios lynchianos. 

  • Ondas do destino

    Ondas do destino (Dinamarca, 1996), de Lars von Trier.

    Bess (Emily Watson) vive em uma pequena comunidade litorânea da Escócia, cuja sociedade segue preceitos religiosos rígidos e ortodoxos. Bess desperta de sua ingenuidade e inocência quando conhece Jan (Stellan Skarsgard), trabalhador de uma plataforma de petróleo no oceano. A paixão entre os dois encaminha um rápido casamento. No entanto, um acidente muda o destino dos protagonistas e Bess é motivada a uma espécie de jornada em busca de uma fé salvadora. 

    Ondas do destino faz parte do movimento Dogma 95, fundado por Lars von Trier e Peter Vinterberg. A abordagem realista é intensificada por um estilo visual quase documental, uso de câmera na mão e iluminação natural. A narrativa é dividida em sete capítulos, cada um introduzido por uma vinheta de canções dos anos 70. A relação entre Bess e Jan é o ponto forte da trama, movida a intensas relações sexuais, seja fisicamente ou completamente na imaginação. 

    Ondas do destino foi indicado a diversos prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Atriz para Emily Watson. É um filme perturbador, com uma virada de roteiro final que provoca as crenças religiosas.