Categoria: Cinema clássico americano

  • O mensageiro do diabo

    O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton. 

    As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto. 

    John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”

    Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente as crianças sabem onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto. 

    O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez. 

    Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio. 

    “Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”

    A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época. 

    Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.  

    A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com a faca na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. O gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio. 

    “Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins

    Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper). 

    Referências: 

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

    O mensageiro do diabo. Livreto do blu-ray da Versátil Home Vídeo.

  • Escândalo

    Escândalo (Scandal sheet, EUA, 1952), de Phil Karlson. 

    Steve McCreary (John Derek) é um jovem e ambicioso jornalista, disposto a transformar o pequeno e decadente jornal em que trabalha em um sucesso de vendas. Seu mentor e espécie de ídolo na profissão é o editor Mark Chapman (Broderick Crawford). Sob a liderança de Mark e a obstinação jornalística de Steve, o jornal começa a publicar notícias sensacionalistas de crimes e assassinatos. 

    O jornal promove um baile na cidade, evento promocional para lucrar com as fotos e histórias dos moradores. Na manhã seguinte, uma das participantes do baile é encontrada assassinada na pensão onde mora. Steve resolve investigar o caso, certo que será notícia de primeira página. Passo a passo, o jornalista descobre e segue as pistas que podem levá-lo ao assassino que está mais perto do que ele imagina. 

    Escândalo é uma forte denúncia sobre a mídia sensacionalista que explora e lucra com tragédias pessoais, produzindo matérias escandalosas e estampando fotos dos envolvidos.  O contraponto ético da trama é Julie Allison (Donna Reed), jornalista idealista que não concorda com os rumos que o jornal está tomando e luta para resgatar as relações humanistas da profissão. Quando Steve descobre o assassino, em uma tensa e empolgante noite na redação do jornal, sua crença profissional desaba. 

    Apesar do pouco destaque no rol dos filmes noir, Escândalo tem uma importante contribuição: o roteiro é baseado em um livro do mestre Samuel Fuller que, antes de escrever e dirigir, foi repórter policial. 

    Elenco: John Derek (Steve McCleary), Donna Reed (Julie Allison), Broderick Crawford (Mark Chapman), Rosemary DeCamp (Charlotte Grant), Henry O’Neill (Charlie Barnes). 

  • Cidade cativa

    Cidade cativa (The captive city, EUA, 1952), de Robert Wise. 

    Um casal está dirigindo em alta velocidade em uma estrada, perseguido por outro carro. Eles conseguem chegar à delegacia de polícia e invadem o ambiente assustados. O jornalista James T. Austin (John Forsythe) diz ao oficial que ele e Marge Austin (Joan Camden), sua esposa, precisam de proteção, pois podem ser assassinados pelos homens que os perseguem. 

    O jornalista precisa chegar ao Capitólio para depor no Comitê do Senado para Investigação de Crimes no Comércio Interestadual. O oficial sugere que eles esperem o xerife chegar. James Austin então pede para usar um gravador da delegacia e, com o microfone em mãos, começa a contar a história que os levou a esse desfecho perigoso. Claro, a referência é Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    O título Cidade cativa resume o tema do filme: uma pequena cidade do interior está sob o comando de criminosos que agem no comércio de apostas ilegais em todo o estado. Estabelecimentos da cidade servem de fachada para as casas de jogos. James Austin é dono do jornal local e recebe uma denúncia de um casal sobre esse mercado. O jornalista passa a investigar e descobre uma intrincada rede, formada por gangsters dos grandes centros, moradores locais e autoridades. 

    A película é um grande estudo sobre o jornalismo investigativo e a ética profissional. James passa a denunciar nas páginas do jornal a relação entre o crime e importantes moradores da cidade, assumindo o risco que justifica o início do filme: ser assassinado para se calar. O final em aberto, com o casal entrando no capitólio para depor, deixa no ar aquilo que todos sabem: a possibilidade de impunidade é real.  

    Elenco: John Forsythe (Jim Autin), Joan Camden (Marge Austin), Harold J. Kennedy. (Don Carey), Marjorie Crossland (Mrs. Sirak), Victor Sutherland (Murray Sirak), Ray Teal (Xerife Gillette).

  • Extorsão

    Extorsão (Shakedown, EUA, 1950), de Joseph Pevney, alerta para uma questão importante ainda nos dias de hoje: o envolvimento em atividades ilícitas, inclusive com manipulação de informações e imagens, para ascender no universo profissional  das mídias e ganhar muito, muito dinheiro. 

    Jack Early (Howard Duff) é um fotógrafo iniciante cujo sonho é ingressar em um grande jornal. A chance acontece quando, por acaso, ele flagra e tira fotos de um atentado criminoso na rua. A fotografia tem potencial para estampar as primeiras páginas dos tablóides, devido ao seu caráter sensacionalista. Jack não só vende a foto para um jornal, mas consegue uma vaga de estagiário.

    Em seu cotidiano nas ruas, o fotógrafo consegue outras fotos de sucesso, na maioria das vezes, manipulando os personagens envolvidos. Passo a passo, ele se sente mais ousado e passa a usar do seu talento para chantagear importantes pessoas do submundo do crime. Jack tem uma ascensão meteórica e julga ter em suas mãos figuras poderosas. 

    Extorsão é a estreia do diretor Joseph Pevney, que se tornaria famoso, pelo menos para esse trekker, por dirigir alguns episódios da clássica série Jornada nas estrelas (1966 a 1969). A atmosfera noir ronda o ambiente do filme, incluindo a femme fatale: Jacky se apaixona Anne (Nita Palmer), jovem esposa do gangster a quem está chantageando. O filme antecipa clássicos que também se debruçaram sobre esse tema: A montanha dos sete abutres (1951) e Rede de intrigas (1976). 

    O final antecipa também um fato que se tornou corriqueiro nos dias atuais, atingindo digitais influencers e pessoas comuns que arriscam a vida por uma foto e acabam registrando a própria morte. 

    Elenco: Howard Duff (Jack Early), Peggy Dow (Ellen Bennett), Brian Donlevy (Nick Palmer), Lawrence Tierney (Harry Colton), Bruce Bennett (David Glover), Anne Vernon (Nita Palmer).

  • O homem dos olhos esbugalhados

    O homem dos olhos esbugalhados (Stranger on the third floor, EUA, 1940), de Boris Ingster. 

    O sonho de Michael Ward, jovem jornalista, é um primor estético expressionista. Vários homens são mostrados em closes, apenas os rostos iluminados, acusando Michael de ter assassinado um homem. A cena se funde com edições de jornais em ângulos distorcidos, seguida de Michael na prisão, o cenário quadriculado ao fundo, o guarda sentado em uma cadeira alta, diante de um imenso relógio. Fusões sobre fusões se sucedem, com o jornalista sentado em um cenário escuro, luzes entrando pela diagonal e se estendendo por toda a parede e pelo chão.

    A sequência expressionista termina no tribunal, com todos os personagens diante de um cenário lúgubre, gótico, com sombras e símbolos refletindo nas paredes e nos rostos do júri. Após o veredito, Michael é encaminhado para a cadeira elétrica. 

    O homem dos olhos esbugalhados é considerado o filme que anuncia o cinema noir nos Estados Unidos. O diretor Boris Ingster e o diretor de fotografia Nicholas Musuraca foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão, inaugurado no cinema americano com o clássico Aurora (1929), de Murnau. 

    O jornalista Michael Murnau é testemunha num caso de assassinato do dono de um bar e seu depoimento incrimina Joe Briggs. Briggs jura inocência, alegando ter entrado no bar logo após o assassinato. Durante o julgamento, Michael encontra seu vizinho de apartamento morto e vê um estranho descer correndo as escadas. Tudo se complica, pois ele pode ajudar a levar à morte um homem inocente. 

    A narrativa curta, pouco mais de sessenta minutos de duração, tem como marca o estilo visual sombrio, demarcando as questões psicológicas que rondam os principais personagens. Quando o estranho entra em cena – Peter Lorre em mais uma interpretação de um criminoso assolado por problemas psíquicos (como em M. o vampiro de Dusseldorf -1931) a trama ganha a tradicional reviravolta dos filmes noir. 

    O destaque do filme é a sequência do pesadelo que alerta para os intrincados jogos psicológicos e o quase macabro sistema judiciário que pode levar inocentes à morte num piscar de olhos. 

    Elenco: Peter Lorre (O estranho), John McGuire (Michael Ward), Margaret Tallichet (Jane), Elisha Cook Jr. (Joe Briggs).

  • Sob o manto da intriga

    Sob o manto da intriga (The underworld story, EUA, 1950), de Cy Endfield, trata da mesma temático do clássico A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder: a exploração dos tablóides na cobertura de tragédias pessoais, expondo de forma desumana e, até mesmo ilegal, as pessoas envolvidas no caso. 

    Mike Reese (Dan Duryea) trabalha como repórter policial, uma reportagem que publicou é tida como responsável pelo atentado a tiros na porta do tribunal. O tiroteio vitimou um criminoso e feriu o promotor público. Mike perde o emprego e a credibilidade nos grandes jornais. Sem um tostão, Mike pede dinheiro emprestado a um agiota e compra sociedade de um pequeno jornal no interior, cuja proprietária, Catty Harris (Gale Storm) mantém o idealismo da prática do jornalismo ético. 

    O diretor Cy Endfield implanta na narrativa vários elementos do cinema noir e aborda de forma severa a tensão política que assolava os Estados Unidos, incentivada e explorada pela mídia sensacionalista. Endfield seria vítima desses mecanismos: investigado pelo macarthismo, o diretor entrou na Lista Negra de Hollywood, devido ao seu suposto envolvimento com atividades comunistas. 

    O jornalista Mike Reese tem a chance de retomar sua carreira de forma gloriosa quando a jovem esposa de Ralph Munsey, (Michael O’Shea), filho do magnata das comunicações E. J. Stanton (Herbert Marshall), é assassinada. A principal suspeita é Molly, empregada da vítima, de ascendência negra. No entanto, o autor do crime não é segredo para o espectador: em um momento de raiva e ciúmes, Ralph assassinou a esposa e confessou o crime para o pai. 

    A descoberta do criminoso não apresenta grandes reviravoltas, passo a passo o próprio Ralph cuida de se delatar. O que move a trama são as questões sociais e raciais na comunidade. Os endinheirados homens da cidade participam de uma trama para condenar Molly, acobertando a família do poderoso Stanton (que é corroído pelo remorso de proteger o verdadeiro criminoso, seu filho). 

    Os filmes noir eram praticamente obrigados a punir os criminosos no final, seguindo determinações do famigerado Código Hays. Portanto, não é surpresa a redenção de Eddie e o trágico fim de Ralph. Diferente do mundo real quando se trata dos poderosos homens da mídia.

  • O relógio verde

    O início de O relógio verde (The big clock, EUA, 1948), de John Farrow, define bem a estrutura narrativa comum dos filmes noir. É noite. O jornalista George Stroud (Ray Milland) está no saguão do prédio onde trabalha e se esconde do vigia. A escuridão toma conta do ambiente, com pequenos flashes iluminando o personagem. Voz interior de George: “Essa foi por pouco. E se eu entrar no relógio e o vigilante estiver lá? Pense rápido, George. Que sorte. Ele está de folga.” O jornalista sobe as escadas e entra no enorme relógio que decora o salão do prédio. “Mais guardas. O saguão está sendo vigiado e há ordens de atirar para matar. Matar você, George. Você. Como me meti nessa corrida de ratos? Eu não sou bandido. O que aconteceu? Quando começou? Apenas 36 horas atrás eu estava lá embaixo, atravessando o saguão para ir trabalhar, cuidando de minha vida, ansioso pelas primeiras férias que eu teria em anos. Há 36 horas eu era um cidadão decente, respeitável e que respeitava a lei, com uma esposa, um filho e um bom emprego. Há apenas 36 horas, de acordo com o grande relógio.”

    Corta para flashback que narra os acontecimentos a partir de exatos 36 horas antes. A voz interior que remete ao que aconteceu até aquele momento é marca do cinema noir. Basta citar o clássicos dos clássicos do gênero: Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    George Stroud é reconhecido por sua perícia no jornalismo investigativo – ele descobre o paradeiro de suspeitos de crimes antes da própria polícia. George se envolve em uma intrincada teia quando conhece no bar a sedutora Pauline York (Rita Jonson ) – a femme fatalle

    Pauline é amante de Earl Janoth (Charles Laughton), dono do império de comunicações onde George trabalha. Sem crime não há filme noir. Pauline é assassinada em seu apartamento por Janoth, atingida na cabeça por um relógio verde de porcelana. Para tentar encobrir o crime, o magnata conta com seu funcionário de confiança Steve Hagen (George Macready). 

    No entanto, uma série de pequenos incidentes pode incriminar Janoth. A solução é obrigar o jornalista George Stroud a descobrir o criminoso antes da polícia. O problema é que o principal suspeito é o próprio jornalista: foi ele quem comprou o relógio verde e o esqueceu no apartamento de Pauline, onde esteve minutos antes do assassinato.  

    O jogo de gato e rato apresenta algumas reviravoltas, a principal: todos ficam detidos no prédio à noite, pois uma testemunha vê o provável criminoso – George  entrando no prédio. O grande embate acontece entre George e Janoth, dois atores consagrados que, dizem, não se deram bem durante as filmagens. Relatos indicam que Ray Milligan, notório galã e ultra conservador, não aceitava a homossexualidade de Charles Laughton. 

    O grande destaque do filme é o roteiro, com reviravoltas precisas e personagens coadjuvantes que são decisivos no decorrer da trama. Atenção para a participação de Elsa Lanchester como a pintora Louise Patterson: ela insere humor em suas interações, principalmente ao interpretar os diálogos, verdadeiras tiradas, outra marca dos filmes noir

  • A trágica farsa

    O lendário ator Humphrey Bogart faleceu em 14 de janeiro de 1957, vítima de câncer no esôfago. Meses antes, ele estava filmando A trágica farsa (The harder they fall, EUA, 1956), de Mark Robson. Relatos indicam que Bogart, já bastante debilitado, tinha dificuldades em cumprir a jornada de trabalho nos sets, mas persistiu até a última tomada. 

    Ele interpreta Eddie Willis, um famoso jornalista esportivo que se vê desempregado. Precisando de dinheiro, Eddie aceita a proposta de um promotor de lutas de boxe, que precisa descobrir e criar um novo talento no esporte. A tarefa de Eddie é atuar como relações públicas e promover o lutador. 

    O gigante argentino Toro Moreno (Mike Lane), com músculos assustadores mas uma ingenuidade infantil, é o escolhido. A promoção do lutador rapidamente se torna um trabalho quase impossível: Toro não tem talento algum, é derrubado pelo mais franzino dos atletas. 

    O filme é baseado no romance de Budd Schulberg, que escreveu também Sindicato de ladrões. O escritor se baseou na história real de Primo Carrera para denunciar a criminalidade que movia os eventos de boxe: assim como Carrera, o empresário compra os adversários de Toro Moreno que vão caindo um a um em rounds determinados. 

    Eddie Willis participa da farsa, mas se consume pelo remorso, por uma certa humanidade ao entender o destino de Toro Moreno, cujo único sonho é ganhar dinheiro para comprar uma casa para sua mãe. O final revela o que todos sempre souberam: vida e dignidade dos lutadores são destruídas no submundo das lutas manipuladas, enquanto os promotores enriquecem sem o menor escrúpulo. Atenção para a sequência quando Eddie Willis cobra o dinheiro ganho por Toro, que deseja voltar para casa.

  • O homem do braço de ouro

    O homem do braço de ouro (The man with golden arm, EUA, 1955), de Otto Preminger. 

    Frankie Machine (Frank Sinatra) sai da prisão e retorna ao bairro onde ganhava a vida como crupiê e se viciou no consumo de heroína. Durante a reabilitação, ele aprendeu a tocar bateria e pretende se tornar músico profissional, mas o traficante e seus antigos comparsas no jogo o espreitam minuto a minuto, provocando a inevitável volta ao submundo das drogas e das jogatinas. 

    O diretor Otto Preminger enfrentou o Código Hays na abordagem de um tema “proibido” pelos censores: o vício em drogas. As cenas explícitas de Frank injetando heroína na veia e a sequência em que está preso em um pequeno quarto, sofrendo com a crise de abstinência, apresentam a cruel realidade desta doença.

    O filme, totalmente rodado em estúdio, traz as características do cinema noir, incluindo uma inusitada femme fatale: Zosch (Eleanor Parker), esposa de Franckie, que finge estar presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro, e praticamente força o marido a desistir da carreira de músico e voltar para a profissão de crupiê. Molly (Kim Novak) é a única esperança neste mundo habitado pela marginalidade. 

    O homem do braço de ouro é famoso na história do cinema por três aspectos: os inovadores créditos de Saul Bass, durante a abertura; a música de Elmer Bernstein – indicada ao Oscar; uma das melhores atuações de Frank Sinatra – também indicado ao Oscar. 

    Elenco: Frank Sinatra (Frankie Machine), Kim Novak (Molly), Eleanor Parker (Zosch Machine), Arnold Stang (Sparrow), Darren McGavin (Louie), Robert Straus (Schwiekfa). 

  • Adorável vagabundo

    Adorável vagabundo (Meet John Doe, EUA, 1941), de Frank Capra.

    A jornalista Ann Mitchell recebe, logo pela manhã, a notícia de sua demissão do jornal em que trabalha. O diário foi adquirido por um novo proprietário, o milionário D. B. Norton (Edward Arnold), e passará por reestruturações administrativas e editoriais. 

    Antes de deixar a redação, Ann escreve e publica na edição do dia uma carta em nome de John Doe (João Ninguém). A carta anuncia o suicídio do autor, em protesto contra a situação do país, assolado por corrupção, desemprego e injustiças sociais (a grande depressão): na véspera do natal, John Doe diz que vai pular do último andar do edíficio onde funciona o jornal. 

    O melodrama de Frank Capra aborda um tema importante na carreira do diretor: as condições de vida precárias do cidadão comum, atingido pela situação econômica e política dos EUA. O diretor tece ainda uma crítica contundente à mídia que se aproveita dessas mazelas para “vender” notícias.

    A carta causa uma comoção nacional e Ann convence o novo proprietário do jornal a achar entre os milhões de desempregados alguém que personifique John Doe. John Willoughby (Gary Cooper), ex-jogador de beisebol, desempregado e faminto, é o escolhido. Ann é recontradada e fica responsável por escrever reportagens e cartas do falso John Doe – cujo único objetivo é ganhar dinheiro para tratar de sua contusão e voltar para o esporte.

    Assim como em A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder, “os abutres”, expressão usada pelo Coronel (Walter Brennan), se juntam ao redor de John Doe, todos em busca de vantagens. A reviravolta acontece quando D. B. Norton resolve se beneficiar politicamente da farsa. 

    O final, no alto do edifício, é um primor de enquadramento, demonstrando a capacidade de narrativa visual dos mestres do cinema clássico americano: John Doe/Willoughby, prestes a saltar para a morte, observa, de um lado, Norton e seus asseclas; do outro, cidadãos que seguiram fielmente suas mensagens de fé e esperança. O olhar triste e amargurado de Willoughby é a expressão dessa sociedade eternamente injusta. 

    Elenco: Gary Cooper (John Doe), Barbara Stanwyck (Ann Mitchell), Edward Arnold (D. B. Norton), Walter Brennan (O coronel), James Cleason (Henry Connell).

  • A morte ronda o cais

    A morte ronda o cais (99 river street, EUA, 1953), de Phil Karlson.

    O ex-boxeador Ernie Driscoll (John Payne) está sentado na sala de sua casa assistindo a reprise de sua última luta na TV. Prestes a ser campeão, ele vencia por pontos, Ernie sofreu nocaute técnico, machucando seriamente o olho. O ferimento acabou com sua carreira. 

    Ernie trabalha como motorista de táxi e é casado com a bela Pauline (Peggie Castle) que não aceita as dificuldades financeiras na qual vivem. Em uma noite, durante uma de suas rondas noturnas, Ernie descobre que Pauline tem um amante. Victor Rawlin (Brad Dexter) é um perigoso bandido, ele precisa vender um colar de diamantes por 50.000 dólares para fugir com sua amante. 

    O roteiro de A morte ronda o caís usa um estratagema simplista para provocar a virada: o negociante de jóias roubadas, quando vê que Rawlins está com Pauline, diz que não negocia com mulheres; Rawlins então mata Pauline e a coloca no carro de Ernie, para incriminá-lo. Ernie precisa provar sua inocência e conta com a ajuda de Linda James (Evelyn Keyes), uma aspirante a atriz (atenção para a sequência de farsa de um assassinato no palco do teatro). 

    Os produtores de filmes B americanos, de onde saíram boa parte dos filmes noir, não se preocupavam com soluções de roteiros simples, o importante era transformar a história em uma trama de assassinato, recheada de cenas de ação com desfecho rápido. A morte ronda o cais usa dessa estratégia, mas a trama debate uma questão cara ao cinema noir: homens fracassados, sem esperança e perspectivas de ascensão, que são geralmente seduzidos por mulheres que se aproveitam desta condição para encaminhá-los à destruição. O frenético final no pier abre uma nova possibilidade para os trágicos e tristes finais de filmes noir.

  • Trágico destino

    Trágico destino (Where danger lives, EUA, 1950), de John Farrow.

    O Dr. Jeff Cameron (Robert Mitchum) está de saída do plantão noturno do hospital quando é chamado para um caso de emergência. A jovem Margo Lannington (Faith Domergue) está na emergência após uma tentativa de suicídio. 

    Na manhã seguinte, Margo foge do hospital mas deixa um recado para o médico, dizendo que deseja reencontrá-lo. Ela mora em uma mansão e, assim como é tradição nos filmes noir, seduz o médico. Os dois começam um romance apaixonado até que a verdade se revela: Margo é casada com um milionário. Numa noite de confronto, Jeff Cameron mata acidentalmente o marido em uma briga. 

    Uma das principais estratégias dos estúdios na produção de filmes B é trabalhar com baixos orçamentos, que resultam em narrativas ágeis e curtas. Muitos dos filmes noir foram produzidos desta forma. 

    Outra marca dos filmes noir são roteiros que muitas vezes trabalham com soluções implausíveis. Na briga, o Dr. Jeff Cameron sofre uma concussão na cabeça e, progressivamente, vai se debilitando, mental e fisicamente, durante a fuga que o casal empreende rumo ao México. Essa estratégia de roteiro faz com que ele se torne quase uma marionete nas mãos de Margo que revela uma mente doentia. A femme fatale do filme não é apenas a mulher sedutora que induz homens honrados ao crime, ela é, na verdade, uma perigosa psicopata. 

    Elenco: Robert Mitchum (Dr. Jeff Cameron), Faith Domergue (Margo Lannington), Claude Rains (Frederick Lannington), Maureen O’Sullivan (Julie Dorn). 

  • A cicatriz

    A cicatriz (The scar, EUA, 1948), de Steve Sedely.

    Um encarregado do presídio lê o dossiê do prisioneiro John Muller (Paul Henreid) que está prestes a deixar a prisão: “Universitário. Faculdade de Medicina. Especialidade: Psicologia, transtornos mentais. Quatro anos de prática. Interrompe seus estudos de repente. Pratica a psicanálise sem licença em Miami, Flórida. Vende ações de poços de petróleo inexistentes em Cincinnati. É detido em Middleton por roubo de lista de nomes de uma empresa. Condenado e preso.”

    A abertura anuncia um tema comum em filmes policiais: homens com mentes brilhantes, geralmente com amplos conhecimentos de psicologia, que enveredam pelo crime, como o clássico Dr. Mabuse (1922), de Fritz Lang. O primeiro ato de John Mulher em liberdade é reunir seus antigos comparsas para roubar um cassino. O roubo dá errado, eles são reconhecidos e passam a ser caçados e mortos um a um pelo proprietário, um gangster sanguinário. 

    John Muller foge para uma cidade pequena e a narrativa ganha um contorno inesperado. Ele descobre que tem um sósia, o Dr. Bartok, psicanalista, cuja única diferença é uma cicatriz na face direita. O verdadeiro tema do filme é revelado: o duplo. Muller mata seu sósia e assume o consultório do doutor. Para se igualar ao médico, Muller mutila seu rosto, no entanto, faz a cicatriz na face esquerda. A ironia é que nem mesmo sua amante Evelyn (Joan Bennett), secretária do Dr. Bartok, percebe que a cicatriz está do lado inverso.

    A cicatriz é uma pérola esquecida do cinema noir, produzida bem ao estilo dos filmes B pelo ator Paul Henrich, famoso pelo papel de Viktor Lazlo em Casablanca (1942). A narrativa se aproveita, por meio de um roteiro instigante, de complexos estudos psicanalíticos. 

    Os dois não se parecem apenas fisicamente, ambos têm mentes brilhantes no ramo da psicanálise. Um deles é criminoso e o outro um honrado e respeitado médico, o bem e o mal coexistem, assim como em histórias de duplos. O final surpreendente revela que John Muller e o Dr. Bartok têm mais coisas em comum.

  • A confissão de Thelma

    A confissão de Thelma (The file on Thelma Jordon, EUA, 1950), de Robert Siodmak. 

    Depois do clássico Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder, Barbara Stanwyck interpreta mais uma femme fatale do cinema noir, a aparentemente ingênua Thelma Jordon. O promotor Cleve Marshall (Wendell Corey) passa por uma crise no casamento e está bêbado no escritório do seu amigo, o detetive Milles Scott (Paul Kelly),  quando é surpreendido pela visita de Thelma. A jovem deseja contratar os serviços do detetive – ela cuida da tia rica e teme um assalto. 

    Nessa noite de bebedeira, Cleve se envolve com Thelma, os dois iniciam um romance apaixonado até que, durante o temido assalto, a tia de Thelma é assassinada. A partir daí, a narrativa envereda para as tradicionais tramas de tribunais. Thelma é acusada do assassinto e seu amante é indicado como promotor do caso. 

    O jogo entre promotor e advogado de defesa se torna o grande trunfo do filme, pois ambos precisam inocentar Thelma. O título do filme, A confissão de Thelma,  anuncia o desfecho, marcado por dramas éticos e atos de sacrifícios, pois, mesmo que o cinema noir apresente narrativas polêmicas e ousadas, ninguém pode sair impune. 

  • Na noite do crime

    Na noite do crime (Woman on the run, EUA, 1950), de Norman Foster. 

    Ann Sheridan, uma das contratadas da Warner Bros, não estava satisfeita com sua posição no estúdio. Bette Davis e Ida Lupino eram as grandes estrelas do estúdio e os melhores papéis eram destinados a ela. Ann Sheridan pagou uma vultosa multa e rescindiu o contrato com a Warner, se aliando a uma produtora independente para produzir seus próprios filmes. 

    Na noite do crime é resultado desta estratégia. Sheridan interpreta Eleanor Johnson. Ela é casada com Frank (Ross Elliot), um pintor de talento, porém fracassado. Durante o passeio com o cachorro do casal à noite, Frank presencia um assassinato. A polícia exige que ele fique sob proteção na delegacia por um tempo, pois seu testemunho pode desbaratar uma máfia do crime em São Francisco.

    A narrativa se passa em duas noites. Frank foge da polícia e se esconde nas docas da cidade, mas envia mensagens cifradas para sua esposa. A princípio Eleanor não se importa, pois o casamento passa por um momento tenso, depois, tenta descobrir o esconderijo do marido, junto com Danny Legette (Dennis O’Keefe), um repórter policial que tenta seduzi-la. O inspetor Martin Ferris (Robert Keith) completa a caçada e a trama se transforma em uma engenhosa jornada de perseguição, com direito a uma virada surpreendente (a revelação da identidade do assassino) e uma espetacular sequência final na montanha russa. 

  • Precipícios D’Alma

    Precipícios D’Alma (Sudden fear, EUA, 1952), de David Miller.

    Myra Hudson (Joan Crawford) é uma dramaturga de sucesso e herdeira de uma fortuna. Durante os ensaios de sua nova peça, em Nova York, ela exige que o ator Lester Blaine (Jack Palance) seja demitido, pois não está satisfeita com sua atuação. Um conflito se instaura entre os dois, mas, dias depois, se encontram no mesmo trem com destino a São Francisco. Fazem as pazes e se envolvem amorosamente, caso que resulta no casamento da escritora e do ator. 

    O filme noir, com forte teor melodramático, tem Joan Crawford, indicada ao Oscar de Melhor Atriz, em uma de suas grandes atuações. A virada do roteiro acontece quando Irene Neves (Gloria Grahame), amante de Lester, entra em cena. A tradicional femme fatale do cinema noir encaminha a trama para o assassinato de Myra.

    No entanto, a grande virada acontece quando Myra, por meio de uma engenhosa solução de roteiro, descobre que está prestes a ser assassinada e inverte os planos. O grande momento do filme é o final, uma longa sequência praticamente silenciosa de perseguição pelas ruas de São Francisco, essa cidade que, em questões de cenas de perseguições, se torna sempre protagonista dos filmes. 

  • Cupido não tem bandeira

    Cupido não tem bandeira (One, two, three, EUA, 1961), de Billy Wilder.

    Billy Wilder declarou que faria a comédia mais acelerada de todos os tempos. A narrativa se passa em Berlim, às vésperas da construção do Muro de Berlim. C. R. MacNamara é um executivo da Coca-Cola, responsável por distribuir o refrigerante no leste europeu. Ele recebe um pedido inusitado, que para ele soa como ordem, de Hazeltine, seu superior em Atlanta: cuidar de Scarlett, sua filha recém saída da adolescência,  que deseja passar duas semanas em Berlim. As duas semanas se transformam em dois meses, pois Scarlett  se apaixona por Piff, um comunista radical da Berlim Oriental. 

    As gags, realmente em ritmo acelerado, se sucedem com MacNamara tentando esconder o caso dos jovens amantes do pai capitalista. Perseguições de carros, corridas a pé pelas duas Berlins para desfazer mal-entendidos, uma série de coadjuvantes que entram e saem de forma hilária, três comunistas corruptos e, o ponto forte do filme: os diálogos. 

    A farsa do casamento no final do filme coloca MacNamara, James Cagney em seu melhor estilo, disparando ordens, corrigindo erros, ironizando comunistas e capitalistas, num ritmo frenético, uma verdadeira metralhadora verbal. Várias cenas tiveram que ser repetidas diversas vezes, pois a extensão e o ritmo veloz das falas confundia o ator. É o último filme de James Cagney como protagonista, uma despedida desta lenda de filmes de gangsters.

    Elenco: James Cagney (MacNamara), Horst Buchholz (Piff) , Pamela Tiffin (Scarlett), Arlene Francis (Phyllis MacNamara), Howard St. John (Wendell Hazeltine). 

  • Amor na tarde

    Amor na tarde (Love in the afternoon, EUA, 1957), de Billy Wilder. 

    No final do filme, Ariane Chavasse (Audrey Hepburn) se despede de Frank Flanagan (Gary Cooper) na estação de trem. Ele está na porta do trem que começa a se mover lentamente. Ela caminha ao lado, seus olhos marejados, o semblante demonstra uma tristeza profunda. Ariane começa a falar de seus inúmeros amantes: “Houve muitos homens antes e haverá muitos depois. Será mais um ano agitado. Enquanto estiver em Cannes, estarei em Bruxelas com o banqueiro. Ele quer me dar uma Mercedes azul, minha cor preferida. E quando estiver em Atenas, estarei com o duque, na Escócia. Ainda não sei se irei. Outro homem me convidou para passar o verão em Deauville. Ele tem cavalos de corrida, é muito rico. É o item 20, não, 21, 20 é o senhor. Vê como vou ficar bem.” Agora ela já está correndo junto ao trem. Frank enlaça Ariane pela cintura e a puxa para dentro. Na cabine, os dois se beijam. 

    Na plataforma da estação, o detetive Claude Chavasse (Maurice Chevalier), pai de Ariane, observa o veículo se afastar. Voz interior do detetive: “Na segunda-feira, 24 de agosto deste ano, o caso Frank Flanagan e Ariane Chavasse passou pelo juiz de Cannes. Agora, estão casados e cumprem sua sentença em Nova York.”

    Amor na tarde levantou polêmicas e provocou até mesmo furor em parte da sociedade conservadora americana. Ariane é uma jovem que está saindo da adolescência. Um dos casos de seu pai é investigar o multimilionário Frank Flanagan que está tendo um caso com a esposa do cliente que o incumbiu da investigação. Ariane se envolve de forma inocente no assunto, tentando advertir Frank que o marido de sua amante pode matá-lo. Acaba sendo seduzida pelo Dom Juan e passa a se encontrar com Frank às tardes, num luxuoso quarto de hotel em Paris.

    Esta é a grande polêmica disruptiva de Amor na tarde: Ariane possivelmente pratica sexo (tudo é apenas sugerido no filme) às tardes com um homem que tem idade para ser seu pai. Gary Cooper tinha 56 anos quando fez o filme, Audrey Hepburn, 28. 

    O roteiro trabalha com uma importante inversão de valores. Ariane inventa a série de amantes que tem para provocar o solteirão Frank que colecionou mulheres mundo afora. Ela usa os casos investigados pelo pai, detetive especializado em casos de adultério, para compor suas histórias. 

    O filme é baseado no romance de Ariane, jeune file russe, de Claude Anet.  No romance, o tema da perda de virgindade de uma adolescente com um homem mais velho é tratado de forma aberta. O diretor Paul Czinner já havia adaptado o romance nos anos 30, realizando três versões em língua francesa, alemã e inglesa, nas quais também abordou a questão com mais liberdade.   

    “O tema de Amor na tarde foi muito contestado pela censura hollywoodiana na época, isto é, o famoso Código de Produção, de censura, emitiu sérias reservas quanto ao tema do filme. (…) Inicialmente, quando a censura assistiu ao filme, decidiu classificá-lo como C, condenável ou proibido. Foi necessário Wilder fazer pequenas concessões, como acrescentar a voz em off de Maurice Chevalier, que faz o papel do pai de Ariane, para indicar que ela e Flanagan vão se casar e que tudo será legitimado.”

    A narração no final não constava do roteiro e nem da montagem final da película. Billy Wilder se viu forçado a fazer essa concessão para que o filme fosse liberado nos EUA. Segundo o historiador N. T. Binh, a versão com a narração não foi exibida na Europa, foi acrescentada apenas para a versão americana. 

    Amor na tarde narra uma divertida história de amor, marcada por cenas, sons e elipses sugestivas, bem ao estilo Ernst Lubitsch, cineasta idolatrado por Billy Wilder. Mary Pickford disse certa vez que Ernst Lubitsch não era diretor de atrizes, era diretor de portas. Ela fazia alusão ao que mais interessava a Lubitsch: sugerir o que acontece atrás de uma porta fechada. 

    A maior parte da história se passa no Hotel Ritz, em Paris. Os encontros de Frank Flanagan acontecem sempre acompanhados por um quarteto de músicos ciganos que embalam os amantes. Após tocar Fascinação, eles saem do quarto e fecham a porta. O último a sair, pendura o cartão “Não perturbe” na maçaneta. 

    A música Fascinação anuncia o corte, a elipse. O marido no corredor escuta a música e se enfurece, com a arma engatilhada. Ariane está prestes a beijar Frank quando a música termina. Corta para o corredor, camareiras passando, malas nas portas, às vezes, apenas o vazio, suscitando na mente do espectador imagens do que acontece dentro do quarto. 

    Referência: Extras do DVD A arte de Billy Wilder, Versátil Home Vídeo.

  • A incrível Suzana

    A incrível Suzana (The major and the minor, EUA, 1942), de Billy Wilder.

    No primeiro ato da narrativa, Susan Applegate (Ginger Rogers) está na estação de trem já disfarçada de uma criança de doze anos. Ela está sem dinheiro para pagar o bilhete cobrado para adultos no trem – com o disfarce ela pode pagar meia entrada e voltar para casa, abandonando a vida sem perspectivas que leva em Nova York. Susan espreita uma mãe e dois filhos em frente a uma banca de revistas. O menino pega uma revista de cinema e lê o título na capa: “Porque odeio as mulheres, de Charles Boyer.”

    Segundo o crítico e historiador de cinema Neil Sinyard a inserção dessa frase aparentemente sem sentido na história nasce de um conflito entre Billy Wilder e o ator Charles Boyer. Billy Wilder, junto com Charles Brackett, estava escrevendo o roteiro de A porta de ouro (1941), dirigido por Mitchell Leisen e protagonizado por Charles Boyer. No filme, Boyer interpreta um gigolô romeno que fica preso no México. Em uma entrevista com o oficial de imigração, seu visto de entrada nos EUA é negado. Ele volta para seu quarto no hotel e precisa interpretar uma das cenas favoritas escritas por Billy Wilder para o filme: há uma barata no quarto e Boyer começa a conversar com ela, repetindo com ironia as perguntas feitas pelo oficial de imigração. 

    O filme estava sendo rodado, mas os roteiristas ainda não haviam terminado o roteiro. Wilder se encontrou com Charles Boyer no set e perguntou, “Você já gravou a cena da barata?”, Boyer disse: “Nós tiramos essa cena. Um ator não fala com baratas”. 

    “Wilder ficou furioso. Ele voltou ao escritório, contou a Brackett o que havia acontecido e perguntou: ‘Quanto tempo falta para terminar esse roteiro?’ ‘Uns vinte minutos’, respondeu Brackett. E Wilder disse: ‘Certo. Se ele não vai falar com baratas, não vamos deixá-lo falar com mais ninguém.’ E se você já viu o filme, por 90 minutos ele não para de falar e, de repente, ele para de falar nos últimos vinte minutos. Há um momento em que tenta falar algo e outro personagem o manda sentar e calar a boca. Acho que Wilder ainda não havia perdoado Boyer em A incrível Suzana.” – Neil Sinyard

    Após a cena da revista, Susan embarca no trem disfarçada de criança e é descoberta pelos responsáveis por conferir os bilhetes. Ela corre pelos vagões e se refugia em uma cabine, onde é surpreendida pelo Major Philip Kirby (Ray Milland), homem já perto dos 40 anos de idade. 

    A comédia de Billy Wilder, sua estreia como diretor em Hollywood, progride em uma série de pequenos conflitos que colocam em risco o disfarce de Susan e a aproxima cada vez mais do major. Susan é levada pelo major para a academia militar, onde provoca um rebuliço entre os cadetes mirins. 

    A incrível Suzana é um dos filmes mais ousados de Billy Wilder, chega a ser difícil acreditar que foi realizado em plena vigência do Código Hays em Hollywood. O major Phillip Kirby claramente fica interessado em Susan, para ele, uma criança de doze anos. Outro ponto polêmico é que Susan também se relaciona furtivamente com os meninos da academia, provocando o desejo deles. Em uma cena, um dos garotos tenta beijá-la, em outras, dançam com ela no baile de forma sugestivamente erótica. É o contrário, uma mulher de cerca de 30 anos, provocando, mesmo que sem intenção, garotos. 

    Tudo fica por conta da sugestão, das intenções não concretizadas. É importante destacar outra ousadia de Billy Wilder: é um dos importantes filmes cujo protagonismo é inteiramente de uma mulher, Ginger Rogers, numa época em que os atores interpretavam todos os papéis fortes nos filmes. Ray Milland é quase um coadjuvante, fazendo um militar abobado e dominado pela sua noiva Pamela Hill (Rita Johnson). O arco da narrativa é direcionado por Susan que provoca e tem que resolver os conflitos. É uma personagem forte e decidida que se diverte com as situações criadas exatamente porque sabe que está no controle de um mundo comandado pelos homens – a academia militar. 

    O final na estação de trem, à noite (como os cineastas de Hollywood souberam fazer belos finais em estações de trem) é o momento da revelação, que acontece de forma sutil. As máscaras finalmente caem depois de um diálogo e olhares sugestivos.  

    Referência: Extras do DVD A arte de Billy Wilder, Versátil Home Vídeo.

  • Não matarás

    Não matarás (Broken Lullaby, EUA, 1932), é um filme atípico de Ernst Lubitsch, famoso por suas comédias. O melodrama, com forte teor humanista, acompanha a jornada de Paul Renard, músico que lutou na primeira guerra mundial. Em uma trincheira, Paul mata um soldado alemão, Walger Holderlin, e lê a carta da vítima que seria enviada para sua noiva, Elsa. 

    Atormentado pelo assassinato, Paul parte para a Alemanha disposto a pedir perdão aos pais de Walger. É 1919 e os resquícios da guerra ainda pairam assustadoramente no ar, o ódio mútuo entre alemães e franceses impede relacionamentos. Isto fica claro logo no primeiro encontro entre Paul e o Dr. Holderlin, pai de Walger. 

    O filme, feito em 1932, é um forte manifesto de Lubitsch contra a ascensão do fascismo na Europa e os indícios de um novo conflito. Atenção para o desabafo humanista do Dr. Holderlin, em atuação magistral de Lionel Barrymore, em um bar repleto de “homens velhos” que destilam ódio, motivado pelas perdas de filhos na guerra: “Éramos velhos demais para lutar, mas não velhos demais para odiar e mandar nossos filhos para a guerra” 

    Elenco: Lionel Barrymore (Dr. H. Holderlin), Nancy Carroll (Elsa), Phillips Holmes (Paul Renard), Louise Carter (Madame Holderlin), Tom Douglas (Walger Holderlin).