Categoria: Cinema clássico americano

  • O trapaceiro

    William Wyler nasceu em Mulhouse, região da Alsácia, França. Quando completou 18 anos, sua mãe o levou para conhecer um primo distante, Carl Lemann, que emigrou para os Estados Unidos e fundou a Universal Studios. 

    Wyler se mudou para a América e foi trabalhar com o Tio Carl, como o chamava. Começou em funções básicas, trabalhando como assistente de direção. Um dia, procurou o Tio e disse que queria dirigir. O início foi comum a outros grandes diretores do cinema mudo: realização de curta-metragem do gênero western. Em três anos, Wyler dirigiu 27 faroestes de dois e cinco rolos.

    “Sabe, naqueles tempos era uma escola fazer faroestes, porque os filmes exigiam ação. E a base do cinema é, na verdade, ação. Segunda, terça e quarta-feira, nos falávamos. Às vezes, algumas cenas ficavam para quinta, mas às sextas você dava os negativos. Sábado você escalava o elenco, aí segunda começava a filmar. O orçamento era de dois mil dólares. As histórias eram simples, o vilão, um protagonista, uma garota e nada de sexo, nada disso, ele só podia beijar a garota na última cena do filme.”

    Quando migrou para os filmes longos, enfrentou um desafio que assustava Hollywood: a transição dos filmes mudos para os sonoros. O trapaceiro (The Shakedown, EUA, 1929) foi uma das obras realizadas nesta fase, ainda marcada por experimentos com as novas técnicas.

    Dave Roberts (James Murray) faz parte de uma gangue que percorre pequenas cidades dos Estados Unidos aplicando golpes de falsas lutas de boxe. Dave chega antes à cidade e ganha a simpatia dos moradores. Um tempo depois, seus comparsas desembarcam na mesma cidade, entre eles, Roff (George Kotsonaros), lutador de boxe profissional. Dave e Roff fingem uma briga nas ruas da cidade e marcam uma luta para resolver a diferença. Os moradores apostam em Dave. A farsa se concretiza no ringue: Dave entrega a luta, fingindo um nocaute logo nos primeiros assaltos. 

    Dave inicia o processo de redenção quando se apaixona por Marjorie (Barbara Kent), uma jovem da cidade, e se torna protetor de Clem (Jack Hanlon), um menino abandonado que também vive de pequenos golpes nas ruas, Para ficar livre da gangue, Dave deve finalmente vencer uma luta contra Roff.

    O diretor investe em um tema que percorreu o cinema americano durante décadas: o mercado de apostas ilegais nas lutas de boxe. O trapaceiro foi rodado ainda como um filme mudo, mas sequências foram sincronizadas com diálogos e efeitos sonoros para se adaptar ao cinema sonoro que já causava furor entre os espectadores.

    O talento narrativo e técnico de William Wyler permitiu que ele fizesse a transição do mudo para o sonoro com tranquilidade. Outros diretores, assim como integrantes do star system, não sobreviveram aos filmes falados, história contada em clássicos do cinema, como Crepúsculo dos deuses (1950) e Cantando na chuva (1952).

  • O conselheiro

    O Conselheiro (Counsellor at Law, 1933), de William Wyler. 

    George Simon (John Barrymore) é um famoso advogado criminalista. A narrativa começa com um dia atribulado de trabalho em seu luxuoso escritório, localizado no Empire State Building. O advogado atende clientes, é assediado por uma cliente que ele acabou de inocentar de um crime, troca ideias de trabalho com seu sócio, recebe a mãe que pede, mais uma vez, ajuda para seu irmão problemático. 

    O filme é adaptado por Elmer Rice de sua própria peça teatral. A narrativa transcorre quase inteiramente no conjunto de escritórios de George Simon. O ponto de virada acontece quando um caso do passado vem à tona. Para inocentar o filho de um amigo de pegar prisão perpétua por reincidência em roubos, George usou, de forma consciente, o falso testemunho de um amigo do réu, um álibi decisivo para inocentá-lo. Um advogado inimigo de George ameaça levar o caso à ordem dos advogados e à imprensa. 

    William Wyler era um jovem diretor em ascensão quando teve a oportunidade que impulsionou de vez a sua carreira: dirigir John Barrymore, um dos maiores astros do cinema americano da época. Wyler imprimiu um ritmo ágil, deixando Barrymore à vontade para compor um personagem elétrico, que dispara diálogos em sequência, enquanto transita sem parar pelos interiores de seu escritório. 

    A personalidade complexa do advogado provoca declarações e gestos intempestivos, revelando questões que marcaram a elite conservadora da época: o antisemitismo; glorificação ao império capitalista – George não esconde sua predileção pelo dinheiro, mesmo à custa de jogadas escusas; o conflito de classes; o uso de artimanhas escusas no sistema jurídico; a disputa ideológica com consequências perigosas. Atenção para o embate verbal e psicológico entre George e um jovem comunista, que será julgado por suas atividades políticas.

  • A boa fada

    A boa fada (The good fairy, EUA, 1935) é resultado do trabalho de dois nomes importantes do cinema americano ainda no início de carreira: roteiro de Preston Sturges e direção de William Wyler. O filme é uma comédia romântica ingênua, bem adequada às produções do sistema de estúdio que já exigiam o respeito ao Código Hays, efetivado em 1934. 

    Luisa Ginglebusher (Margareth Sullivan) é uma jovem interna de um orfanato. O proprietário de um grande cinema na cidade vai ao orfanato para contratar uma jovem para trabalhar como “lanterninha”. Luisa é a escolhida. 

    Em seu primeiro dia de trabalho, a jovem se defronta com pequenos incidentes em cadeia. Ao sair do cinema, ela é assediada por um homem e se agarra nos braços de Detlaf (Reginald Owen), um passante, fingindo ser esposa dele. Detlaf a convida para jantar à noite no restaurante do hotel onde trabalha. Luisa aceita e, nessa noite, é assediada por Konrad (Frank Morgan), um milionário sedutor, porém desastrado. Para escapar do assédio, ela inventa  novamente ser casada.  

    O filme, baseado na peça teatral de Ferenc Molnár, assume o estilo de comédia screwball. A sucessão de eventos provoca reviravoltas em sequência, com gags verbais sucedidas de atos nonsense, principalmente quando Detlaf entra em cena para proteger Luísa das investidas amorosas. A virada final acontece quando ela conhece o advogado Max Sporum (Herbert Marshall), um de seus falsos maridos.

    Nos bastidores, um enredo extra-filme também passa por uma sucessão de eventos atribulados. William Wyler e Margaret Sullavan viviam às turras, pois Sullavan tentava impor mudanças no roteiro e no estilo de interpretação,  condições que o diretor não aceitava. Segundo William Wyler, “ela era uma estrela importante na Universal e eu era um diretor muito novo. Ela tinha um talento natural em ser muito atraente.”

    A equipe declarou que eles faziam as pazes a cada noite. O resultado foi o casamento de Wyler e Margaret.

     

  • O mensageiro do diabo

    O mensageiro do diabo (The night of the hunter, EUA, 1955), de Charles Laughton. 

    As crianças John Harper e Pearl Harper estão no quarto à noite, iluminadas apenas pela luz que entra pela janela e deixa suas marcas na parede. Pearl pede ao irmão que conte uma história. John começa a contar a história de um rei enquanto olha para a parede, as sombras da janela e de folhas da árvore demarcando a fotografia expressionista. De repente, a sombra de um homem com chapéu compõe as imagens da janela que jogam suas sombras dentro do quarto. 

    John chega até a janela e vê Harry Powell (Robert Mitchum) parado perto da cerca da rua, embaixo de um poste de luz. Harry caminha lentamente e sai de cena. John se deita ao lado de Pearl e diz: “Não se preocupe, é apenas um homem.”

    Esse homem se passa por reverendo para conquistar jovens mulheres, geralmente viúvas, para ficar com o dinheiro que herdaram. O fim das mulheres remete à clássica história do Barba Azul. Harry cumpriu pena com o pai das crianças e descobriu que, depois de roubar um banco, ele escondeu o dinheiro na propriedade. O plano de Harry agora é conquistar Willa Harper (Shelley Winters) e se apossar do dinheiro. Somente as crianças sabem onde o pai, que morreu na prisão, escondeu o fruto do assalto. 

    O mensageiro do diabo é o único filme dirigido pelo lendário ator Charles Laughton. Um clássico do cinema noir, com fortes referências expressionistas que tomam conta de toda a narrativa, resultado do trabalho primoroso do diretor de fotografia Stanley Cortez. 

    Harry conquista não só a mãe das crianças, mas toda a comunidade, que passa a adorar seu fervor religioso, seu carisma e simpatia. As cenas diurnas, passadas em comunhão entre os moradores à beira do rio, nas ruas da cidade, nos estabelecimentos comerciais, é tomada pela luz natural do dia, representando a harmonia, a amizade e o romance que se inicia. Ao escurecer, o terror expressionista se anuncia nas sombras e na transformação do pastor no verdadeiro demônio. 

    “Mitchum interpreta aqui um vilão comprometido com seu ofício, fazendo hora-extra como serial killer de mulheres liberadas, mas sexualmente obcecado pelo dinheiro, do qual acredita precisar para custear sua cruzada sangrenta. A fuga noturno rio abaixo, com sua fotografia monocromática expressionista, é uma sequência mágica, com closes de uma estranha fauna e flora pantanosa.”

    A segunda parte do filme, quando Harry mata a esposa e as crianças fogem descendo de barco o rio, transforma a película em um thriller, colocando duas ingênuas crianças na mira de um psicopata assassino. A entrada em cena de outra lenda do cinema, Lillian Gish, que interpreta Rachel Cooper, idosa que usa sua casa para abrigar crianças órfãs, provoca o embate entre o bem e o mal, Rachel x Harry, em ações repletas de tensão, com sugestões, inclusive, de pedofilia, ousadia de Charles Laugton para a época. 

    Outra cena ousada, que levantou polêmicas, aconteceu quando Harry está na plateia de um teatro, assistindo a uma performance erótica de uma dançarina. Ele tem no bolso dianteiro da calça a sua faca que dispara como um canivete. Em determinado momento do show, o mecanismo da faca aciona a lâmina. A imagem a seguir é a lâmina da faca que levantou e rasgou a calça de Harry, claramente simulando a ereção.  

    A cena mais impactante do filme é um exercício de terror gótico. Harry mata a mãe das crianças quando ela está deitada na cama, os braços cruzados como a esperar o ato final. Harry, em pé, olha para o teto com o braço disposto como em uma oração divina. Ele se debruça sobre a mulher e levanta novamente o braço, agora com a faca na mão. Corta para folhagens esvoaçando debaixo d ‘água, como se fossem longos cabelos. Em segundo plano, aparece o corpo de Rachel, os cabelos também esvoaçando, o volante do carro à frente. O gancho de uma linha de pesca se prende no retrovisor, a câmera sobe lentamente e mostra o reflexo de um barco na superfície do rio. 

    “Além de um bálsamo aos ouvidos, O mensageiro do Diabo é também um colírio para os olhos, pois apresenta o que talvez seja o melhor uso do preto e branco em alto contraste da história do cinema. Sua fotografia barroca, assinada por Stanley Cortez, que também colaborou com Orson Welles em Soberba (1942) explora no limite da perfeição as sombras e ângulos do expressionismo alemão, de onde o corpo lânguido de Robert Mitchum acaba por mimetizar movimentos afetados, assinalando a tendência ao fantástico em detrimento do realismo que marca toda a projeção. Cortez chegou a afirmar que Welles e Laughton foram os únicos diretores com quem colaborou que sabiam exatamente como utilizar a luz nas filmagens.” Vinicius Lins

    Elenco: Robert Mitchum (Harry Powell), Shelley Winters (Willa Harper). Lillian Gish (Rachel Cooper), James Gleason (Tio Birdie), Evelyn Varden (Icey Spoon), Peter Graves (Ben Harper), Billy Chapin (John Harper), Sally Jane Bruce (Pearl Harper). 

    Referências: 

    100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. 

    O mensageiro do diabo. Livreto do blu-ray da Versátil Home Vídeo.

  • Escândalo

    Escândalo (Scandal sheet, EUA, 1952), de Phil Karlson. 

    Steve McCreary (John Derek) é um jovem e ambicioso jornalista, disposto a transformar o pequeno e decadente jornal em que trabalha em um sucesso de vendas. Seu mentor e espécie de ídolo na profissão é o editor Mark Chapman (Broderick Crawford). Sob a liderança de Mark e a obstinação jornalística de Steve, o jornal começa a publicar notícias sensacionalistas de crimes e assassinatos. 

    O jornal promove um baile na cidade, evento promocional para lucrar com as fotos e histórias dos moradores. Na manhã seguinte, uma das participantes do baile é encontrada assassinada na pensão onde mora. Steve resolve investigar o caso, certo que será notícia de primeira página. Passo a passo, o jornalista descobre e segue as pistas que podem levá-lo ao assassino que está mais perto do que ele imagina. 

    Escândalo é uma forte denúncia sobre a mídia sensacionalista que explora e lucra com tragédias pessoais, produzindo matérias escandalosas e estampando fotos dos envolvidos.  O contraponto ético da trama é Julie Allison (Donna Reed), jornalista idealista que não concorda com os rumos que o jornal está tomando e luta para resgatar as relações humanistas da profissão. Quando Steve descobre o assassino, em uma tensa e empolgante noite na redação do jornal, sua crença profissional desaba. 

    Apesar do pouco destaque no rol dos filmes noir, Escândalo tem uma importante contribuição: o roteiro é baseado em um livro do mestre Samuel Fuller que, antes de escrever e dirigir, foi repórter policial. 

    Elenco: John Derek (Steve McCleary), Donna Reed (Julie Allison), Broderick Crawford (Mark Chapman), Rosemary DeCamp (Charlotte Grant), Henry O’Neill (Charlie Barnes). 

  • Cidade cativa

    Cidade cativa (The captive city, EUA, 1952), de Robert Wise. 

    Um casal está dirigindo em alta velocidade em uma estrada, perseguido por outro carro. Eles conseguem chegar à delegacia de polícia e invadem o ambiente assustados. O jornalista James T. Austin (John Forsythe) diz ao oficial que ele e Marge Austin (Joan Camden), sua esposa, precisam de proteção, pois podem ser assassinados pelos homens que os perseguem. 

    O jornalista precisa chegar ao Capitólio para depor no Comitê do Senado para Investigação de Crimes no Comércio Interestadual. O oficial sugere que eles esperem o xerife chegar. James Austin então pede para usar um gravador da delegacia e, com o microfone em mãos, começa a contar a história que os levou a esse desfecho perigoso. Claro, a referência é Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    O título Cidade cativa resume o tema do filme: uma pequena cidade do interior está sob o comando de criminosos que agem no comércio de apostas ilegais em todo o estado. Estabelecimentos da cidade servem de fachada para as casas de jogos. James Austin é dono do jornal local e recebe uma denúncia de um casal sobre esse mercado. O jornalista passa a investigar e descobre uma intrincada rede, formada por gangsters dos grandes centros, moradores locais e autoridades. 

    A película é um grande estudo sobre o jornalismo investigativo e a ética profissional. James passa a denunciar nas páginas do jornal a relação entre o crime e importantes moradores da cidade, assumindo o risco que justifica o início do filme: ser assassinado para se calar. O final em aberto, com o casal entrando no capitólio para depor, deixa no ar aquilo que todos sabem: a possibilidade de impunidade é real.  

    Elenco: John Forsythe (Jim Autin), Joan Camden (Marge Austin), Harold J. Kennedy. (Don Carey), Marjorie Crossland (Mrs. Sirak), Victor Sutherland (Murray Sirak), Ray Teal (Xerife Gillette).

  • Extorsão

    Extorsão (Shakedown, EUA, 1950), de Joseph Pevney, alerta para uma questão importante ainda nos dias de hoje: o envolvimento em atividades ilícitas, inclusive com manipulação de informações e imagens, para ascender no universo profissional  das mídias e ganhar muito, muito dinheiro. 

    Jack Early (Howard Duff) é um fotógrafo iniciante cujo sonho é ingressar em um grande jornal. A chance acontece quando, por acaso, ele flagra e tira fotos de um atentado criminoso na rua. A fotografia tem potencial para estampar as primeiras páginas dos tablóides, devido ao seu caráter sensacionalista. Jack não só vende a foto para um jornal, mas consegue uma vaga de estagiário.

    Em seu cotidiano nas ruas, o fotógrafo consegue outras fotos de sucesso, na maioria das vezes, manipulando os personagens envolvidos. Passo a passo, ele se sente mais ousado e passa a usar do seu talento para chantagear importantes pessoas do submundo do crime. Jack tem uma ascensão meteórica e julga ter em suas mãos figuras poderosas. 

    Extorsão é a estreia do diretor Joseph Pevney, que se tornaria famoso, pelo menos para esse trekker, por dirigir alguns episódios da clássica série Jornada nas estrelas (1966 a 1969). A atmosfera noir ronda o ambiente do filme, incluindo a femme fatale: Jacky se apaixona Anne (Nita Palmer), jovem esposa do gangster a quem está chantageando. O filme antecipa clássicos que também se debruçaram sobre esse tema: A montanha dos sete abutres (1951) e Rede de intrigas (1976). 

    O final antecipa também um fato que se tornou corriqueiro nos dias atuais, atingindo digitais influencers e pessoas comuns que arriscam a vida por uma foto e acabam registrando a própria morte. 

    Elenco: Howard Duff (Jack Early), Peggy Dow (Ellen Bennett), Brian Donlevy (Nick Palmer), Lawrence Tierney (Harry Colton), Bruce Bennett (David Glover), Anne Vernon (Nita Palmer).

  • O homem dos olhos esbugalhados

    O homem dos olhos esbugalhados (Stranger on the third floor, EUA, 1940), de Boris Ingster. 

    O sonho de Michael Ward, jovem jornalista, é um primor estético expressionista. Vários homens são mostrados em closes, apenas os rostos iluminados, acusando Michael de ter assassinado um homem. A cena se funde com edições de jornais em ângulos distorcidos, seguida de Michael na prisão, o cenário quadriculado ao fundo, o guarda sentado em uma cadeira alta, diante de um imenso relógio. Fusões sobre fusões se sucedem, com o jornalista sentado em um cenário escuro, luzes entrando pela diagonal e se estendendo por toda a parede e pelo chão.

    A sequência expressionista termina no tribunal, com todos os personagens diante de um cenário lúgubre, gótico, com sombras e símbolos refletindo nas paredes e nos rostos do júri. Após o veredito, Michael é encaminhado para a cadeira elétrica. 

    O homem dos olhos esbugalhados é considerado o filme que anuncia o cinema noir nos Estados Unidos. O diretor Boris Ingster e o diretor de fotografia Nicholas Musuraca foram fortemente influenciados pelo expressionismo alemão, inaugurado no cinema americano com o clássico Aurora (1929), de Murnau. 

    O jornalista Michael Murnau é testemunha num caso de assassinato do dono de um bar e seu depoimento incrimina Joe Briggs. Briggs jura inocência, alegando ter entrado no bar logo após o assassinato. Durante o julgamento, Michael encontra seu vizinho de apartamento morto e vê um estranho descer correndo as escadas. Tudo se complica, pois ele pode ajudar a levar à morte um homem inocente. 

    A narrativa curta, pouco mais de sessenta minutos de duração, tem como marca o estilo visual sombrio, demarcando as questões psicológicas que rondam os principais personagens. Quando o estranho entra em cena – Peter Lorre em mais uma interpretação de um criminoso assolado por problemas psíquicos (como em M. o vampiro de Dusseldorf -1931) a trama ganha a tradicional reviravolta dos filmes noir. 

    O destaque do filme é a sequência do pesadelo que alerta para os intrincados jogos psicológicos e o quase macabro sistema judiciário que pode levar inocentes à morte num piscar de olhos. 

    Elenco: Peter Lorre (O estranho), John McGuire (Michael Ward), Margaret Tallichet (Jane), Elisha Cook Jr. (Joe Briggs).

  • Sob o manto da intriga

    Sob o manto da intriga (The underworld story, EUA, 1950), de Cy Endfield, trata da mesma temático do clássico A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder: a exploração dos tablóides na cobertura de tragédias pessoais, expondo de forma desumana e, até mesmo ilegal, as pessoas envolvidas no caso. 

    Mike Reese (Dan Duryea) trabalha como repórter policial, uma reportagem que publicou é tida como responsável pelo atentado a tiros na porta do tribunal. O tiroteio vitimou um criminoso e feriu o promotor público. Mike perde o emprego e a credibilidade nos grandes jornais. Sem um tostão, Mike pede dinheiro emprestado a um agiota e compra sociedade de um pequeno jornal no interior, cuja proprietária, Catty Harris (Gale Storm) mantém o idealismo da prática do jornalismo ético. 

    O diretor Cy Endfield implanta na narrativa vários elementos do cinema noir e aborda de forma severa a tensão política que assolava os Estados Unidos, incentivada e explorada pela mídia sensacionalista. Endfield seria vítima desses mecanismos: investigado pelo macarthismo, o diretor entrou na Lista Negra de Hollywood, devido ao seu suposto envolvimento com atividades comunistas. 

    O jornalista Mike Reese tem a chance de retomar sua carreira de forma gloriosa quando a jovem esposa de Ralph Munsey, (Michael O’Shea), filho do magnata das comunicações E. J. Stanton (Herbert Marshall), é assassinada. A principal suspeita é Molly, empregada da vítima, de ascendência negra. No entanto, o autor do crime não é segredo para o espectador: em um momento de raiva e ciúmes, Ralph assassinou a esposa e confessou o crime para o pai. 

    A descoberta do criminoso não apresenta grandes reviravoltas, passo a passo o próprio Ralph cuida de se delatar. O que move a trama são as questões sociais e raciais na comunidade. Os endinheirados homens da cidade participam de uma trama para condenar Molly, acobertando a família do poderoso Stanton (que é corroído pelo remorso de proteger o verdadeiro criminoso, seu filho). 

    Os filmes noir eram praticamente obrigados a punir os criminosos no final, seguindo determinações do famigerado Código Hays. Portanto, não é surpresa a redenção de Eddie e o trágico fim de Ralph. Diferente do mundo real quando se trata dos poderosos homens da mídia.

  • O relógio verde

    O início de O relógio verde (The big clock, EUA, 1948), de John Farrow, define bem a estrutura narrativa comum dos filmes noir. É noite. O jornalista George Stroud (Ray Milland) está no saguão do prédio onde trabalha e se esconde do vigia. A escuridão toma conta do ambiente, com pequenos flashes iluminando o personagem. Voz interior de George: “Essa foi por pouco. E se eu entrar no relógio e o vigilante estiver lá? Pense rápido, George. Que sorte. Ele está de folga.” O jornalista sobe as escadas e entra no enorme relógio que decora o salão do prédio. “Mais guardas. O saguão está sendo vigiado e há ordens de atirar para matar. Matar você, George. Você. Como me meti nessa corrida de ratos? Eu não sou bandido. O que aconteceu? Quando começou? Apenas 36 horas atrás eu estava lá embaixo, atravessando o saguão para ir trabalhar, cuidando de minha vida, ansioso pelas primeiras férias que eu teria em anos. Há 36 horas eu era um cidadão decente, respeitável e que respeitava a lei, com uma esposa, um filho e um bom emprego. Há apenas 36 horas, de acordo com o grande relógio.”

    Corta para flashback que narra os acontecimentos a partir de exatos 36 horas antes. A voz interior que remete ao que aconteceu até aquele momento é marca do cinema noir. Basta citar o clássicos dos clássicos do gênero: Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder. 

    George Stroud é reconhecido por sua perícia no jornalismo investigativo – ele descobre o paradeiro de suspeitos de crimes antes da própria polícia. George se envolve em uma intrincada teia quando conhece no bar a sedutora Pauline York (Rita Jonson ) – a femme fatalle. 

    Pauline é amante de Earl Janoth (Charles Laughton), dono do império de comunicações onde George trabalha. Sem crime não há filme noir. Pauline é assassinada em seu apartamento por Janoth, atingida na cabeça por um relógio verde de porcelana. Para tentar encobrir o crime, o magnata conta com seu funcionário de confiança Steve Hagen (George Macready). 

    No entanto, uma série de pequenos incidentes pode incriminar Janoth. A solução é obrigar o jornalista George Stroud a descobrir o criminoso antes da polícia. O problema é que o principal suspeito é o próprio jornalista: foi ele quem comprou o relógio verde e o esqueceu no apartamento de Pauline, onde esteve minutos antes do assassinato.  

    O jogo de gato e rato apresenta algumas reviravoltas, a principal: todos ficam detidos no prédio à noite, pois uma testemunha vê o provável criminoso – George  entrando no prédio. O grande embate acontece entre George e Janoth, dois atores consagrados que, dizem, não se deram bem durante as filmagens. Relatos indicam que Ray Milligan, notório galã e ultra conservador, não aceitava a homossexualidade de Charles Laughton. 

    O grande destaque do filme é o roteiro, com reviravoltas precisas e personagens coadjuvantes que são decisivos no decorrer da trama. Atenção para a participação de Elsa Lanchester como a pintora Louise Patterson: ela insere humor em suas interações, principalmente ao interpretar os diálogos, verdadeiras tiradas, outra marca dos filmes noir. 

  • A trágica farsa

    O lendário ator Humphrey Bogart faleceu em 14 de janeiro de 1957, vítima de câncer no esôfago. Meses antes, ele estava filmando A trágica farsa (The harder they fall, EUA, 1956), de Mark Robson. Relatos indicam que Bogart, já bastante debilitado, tinha dificuldades em cumprir a jornada de trabalho nos sets, mas persistiu até a última tomada. 

    Ele interpreta Eddie Willis, um famoso jornalista esportivo que se vê desempregado. Precisando de dinheiro, Eddie aceita a proposta de um promotor de lutas de boxe, que precisa descobrir e criar um novo talento no esporte. A tarefa de Eddie é atuar como relações públicas e promover o lutador. 

    O gigante argentino Toro Moreno (Mike Lane), com músculos assustadores mas uma ingenuidade infantil, é o escolhido. A promoção do lutador rapidamente se torna um trabalho quase impossível: Toro não tem talento algum, é derrubado pelo mais franzino dos atletas. 

    O filme é baseado no romance de Budd Schulberg, que escreveu também Sindicato de ladrões. O escritor se baseou na história real de Primo Carrera para denunciar a criminalidade que movia os eventos de boxe: assim como Carrera, o empresário compra os adversários de Toro Moreno que vão caindo um a um em rounds determinados. 

    Eddie Willis participa da farsa, mas se consume pelo remorso, por uma certa humanidade ao entender o destino de Toro Moreno, cujo único sonho é ganhar dinheiro para comprar uma casa para sua mãe. O final revela o que todos sempre souberam: vida e dignidade dos lutadores são destruídas no submundo das lutas manipuladas, enquanto os promotores enriquecem sem o menor escrúpulo. Atenção para a sequência quando Eddie Willis cobra o dinheiro ganho por Toro, que deseja voltar para casa.

  • O homem do braço de ouro

    O homem do braço de ouro (The man with golden arm, EUA, 1955), de Otto Preminger. 

    Frankie Machine (Frank Sinatra) sai da prisão e retorna ao bairro onde ganhava a vida como crupiê e se viciou no consumo de heroína. Durante a reabilitação, ele aprendeu a tocar bateria e pretende se tornar músico profissional, mas o traficante e seus antigos comparsas no jogo o espreitam minuto a minuto, provocando a inevitável volta ao submundo das drogas e das jogatinas. 

    O diretor Otto Preminger enfrentou o Código Hays na abordagem de um tema “proibido” pelos censores: o vício em drogas. As cenas explícitas de Frank injetando heroína na veia e a sequência em que está preso em um pequeno quarto, sofrendo com a crise de abstinência, apresentam a cruel realidade desta doença.

    O filme, totalmente rodado em estúdio, traz as características do cinema noir, incluindo uma inusitada femme fatale: Zosch (Eleanor Parker), esposa de Franckie, que finge estar presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro, e praticamente força o marido a desistir da carreira de músico e voltar para a profissão de crupiê. Molly (Kim Novak) é a única esperança neste mundo habitado pela marginalidade. 

    O homem do braço de ouro é famoso na história do cinema por três aspectos: os inovadores créditos de Saul Bass, durante a abertura; a música de Elmer Bernstein – indicada ao Oscar; uma das melhores atuações de Frank Sinatra – também indicado ao Oscar. 

    Elenco: Frank Sinatra (Frankie Machine), Kim Novak (Molly), Eleanor Parker (Zosch Machine), Arnold Stang (Sparrow), Darren McGavin (Louie), Robert Straus (Schwiekfa). 

  • Adorável vagabundo

    Adorável vagabundo (Meet John Doe, EUA, 1941), de Frank Capra.

    A jornalista Ann Mitchell recebe, logo pela manhã, a notícia de sua demissão do jornal em que trabalha. O diário foi adquirido por um novo proprietário, o milionário D. B. Norton (Edward Arnold), e passará por reestruturações administrativas e editoriais. 

    Antes de deixar a redação, Ann escreve e publica na edição do dia uma carta em nome de John Doe (João Ninguém). A carta anuncia o suicídio do autor, em protesto contra a situação do país, assolado por corrupção, desemprego e injustiças sociais (a grande depressão): na véspera do natal, John Doe diz que vai pular do último andar do edíficio onde funciona o jornal. 

    O melodrama de Frank Capra aborda um tema importante na carreira do diretor: as condições de vida precárias do cidadão comum, atingido pela situação econômica e política dos EUA. O diretor tece ainda uma crítica contundente à mídia que se aproveita dessas mazelas para “vender” notícias.

    A carta causa uma comoção nacional e Ann convence o novo proprietário do jornal a achar entre os milhões de desempregados alguém que personifique John Doe. John Willoughby (Gary Cooper), ex-jogador de beisebol, desempregado e faminto, é o escolhido. Ann é recontradada e fica responsável por escrever reportagens e cartas do falso John Doe – cujo único objetivo é ganhar dinheiro para tratar de sua contusão e voltar para o esporte.

    Assim como em A montanha dos sete abutres (1951), de Billy Wilder, “os abutres”, expressão usada pelo Coronel (Walter Brennan), se juntam ao redor de John Doe, todos em busca de vantagens. A reviravolta acontece quando D. B. Norton resolve se beneficiar politicamente da farsa. 

    O final, no alto do edifício, é um primor de enquadramento, demonstrando a capacidade de narrativa visual dos mestres do cinema clássico americano: John Doe/Willoughby, prestes a saltar para a morte, observa, de um lado, Norton e seus asseclas; do outro, cidadãos que seguiram fielmente suas mensagens de fé e esperança. O olhar triste e amargurado de Willoughby é a expressão dessa sociedade eternamente injusta. 

    Elenco: Gary Cooper (John Doe), Barbara Stanwyck (Ann Mitchell), Edward Arnold (D. B. Norton), Walter Brennan (O coronel), James Cleason (Henry Connell).

  • A morte ronda o cais

    A morte ronda o cais (99 river street, EUA, 1953), de Phil Karlson.

    O ex-boxeador Ernie Driscoll (John Payne) está sentado na sala de sua casa assistindo a reprise de sua última luta na TV. Prestes a ser campeão, ele vencia por pontos, Ernie sofreu nocaute técnico, machucando seriamente o olho. O ferimento acabou com sua carreira. 

    Ernie trabalha como motorista de táxi e é casado com a bela Pauline (Peggie Castle) que não aceita as dificuldades financeiras na qual vivem. Em uma noite, durante uma de suas rondas noturnas, Ernie descobre que Pauline tem um amante. Victor Rawlin (Brad Dexter) é um perigoso bandido, ele precisa vender um colar de diamantes por 50.000 dólares para fugir com sua amante. 

    O roteiro de A morte ronda o caís usa um estratagema simplista para provocar a virada: o negociante de jóias roubadas, quando vê que Rawlins está com Pauline, diz que não negocia com mulheres; Rawlins então mata Pauline e a coloca no carro de Ernie, para incriminá-lo. Ernie precisa provar sua inocência e conta com a ajuda de Linda James (Evelyn Keyes), uma aspirante a atriz (atenção para a sequência de farsa de um assassinato no palco do teatro). 

    Os produtores de filmes B americanos, de onde saíram boa parte dos filmes noir, não se preocupavam com soluções de roteiros simples, o importante era transformar a história em uma trama de assassinato, recheada de cenas de ação com desfecho rápido. A morte ronda o cais usa dessa estratégia, mas a trama debate uma questão cara ao cinema noir: homens fracassados, sem esperança e perspectivas de ascensão, que são geralmente seduzidos por mulheres que se aproveitam desta condição para encaminhá-los à destruição. O frenético final no pier abre uma nova possibilidade para os trágicos e tristes finais de filmes noir.

  • Trágico destino

    Trágico destino (Where danger lives, EUA, 1950), de John Farrow.

    O Dr. Jeff Cameron (Robert Mitchum) está de saída do plantão noturno do hospital quando é chamado para um caso de emergência. A jovem Margo Lannington (Faith Domergue) está na emergência após uma tentativa de suicídio. 

    Na manhã seguinte, Margo foge do hospital mas deixa um recado para o médico, dizendo que deseja reencontrá-lo. Ela mora em uma mansão e, assim como é tradição nos filmes noir, seduz o médico. Os dois começam um romance apaixonado até que a verdade se revela: Margo é casada com um milionário. Numa noite de confronto, Jeff Cameron mata acidentalmente o marido em uma briga. 

    Uma das principais estratégias dos estúdios na produção de filmes B é trabalhar com baixos orçamentos, que resultam em narrativas ágeis e curtas. Muitos dos filmes noir foram produzidos desta forma. 

    Outra marca dos filmes noir são roteiros que muitas vezes trabalham com soluções implausíveis. Na briga, o Dr. Jeff Cameron sofre uma concussão na cabeça e, progressivamente, vai se debilitando, mental e fisicamente, durante a fuga que o casal empreende rumo ao México. Essa estratégia de roteiro faz com que ele se torne quase uma marionete nas mãos de Margo que revela uma mente doentia. A femme fatale do filme não é apenas a mulher sedutora que induz homens honrados ao crime, ela é, na verdade, uma perigosa psicopata. 

    Elenco: Robert Mitchum (Dr. Jeff Cameron), Faith Domergue (Margo Lannington), Claude Rains (Frederick Lannington), Maureen O’Sullivan (Julie Dorn). 

  • A cicatriz

    A cicatriz (The scar, EUA, 1948), de Steve Sedely.

    Um encarregado do presídio lê o dossiê do prisioneiro John Muller (Paul Henreid) que está prestes a deixar a prisão: “Universitário. Faculdade de Medicina. Especialidade: Psicologia, transtornos mentais. Quatro anos de prática. Interrompe seus estudos de repente. Pratica a psicanálise sem licença em Miami, Flórida. Vende ações de poços de petróleo inexistentes em Cincinnati. É detido em Middleton por roubo de lista de nomes de uma empresa. Condenado e preso.”

    A abertura anuncia um tema comum em filmes policiais: homens com mentes brilhantes, geralmente com amplos conhecimentos de psicologia, que enveredam pelo crime, como o clássico Dr. Mabuse (1922), de Fritz Lang. O primeiro ato de John Mulher em liberdade é reunir seus antigos comparsas para roubar um cassino. O roubo dá errado, eles são reconhecidos e passam a ser caçados e mortos um a um pelo proprietário, um gangster sanguinário. 

    John Muller foge para uma cidade pequena e a narrativa ganha um contorno inesperado. Ele descobre que tem um sósia, o Dr. Bartok, psicanalista, cuja única diferença é uma cicatriz na face direita. O verdadeiro tema do filme é revelado: o duplo. Muller mata seu sósia e assume o consultório do doutor. Para se igualar ao médico, Muller mutila seu rosto, no entanto, faz a cicatriz na face esquerda. A ironia é que nem mesmo sua amante Evelyn (Joan Bennett), secretária do Dr. Bartok, percebe que a cicatriz está do lado inverso.

    A cicatriz é uma pérola esquecida do cinema noir, produzida bem ao estilo dos filmes B pelo ator Paul Henrich, famoso pelo papel de Viktor Lazlo em Casablanca (1942). A narrativa se aproveita, por meio de um roteiro instigante, de complexos estudos psicanalíticos. 

    Os dois não se parecem apenas fisicamente, ambos têm mentes brilhantes no ramo da psicanálise. Um deles é criminoso e o outro um honrado e respeitado médico, o bem e o mal coexistem, assim como em histórias de duplos. O final surpreendente revela que John Muller e o Dr. Bartok têm mais coisas em comum.

  • A confissão de Thelma

    A confissão de Thelma (The file on Thelma Jordon, EUA, 1950), de Robert Siodmak. 

    Depois do clássico Pacto de sangue (1944), de Billy Wilder, Barbara Stanwyck interpreta mais uma femme fatale do cinema noir, a aparentemente ingênua Thelma Jordon. O promotor Cleve Marshall (Wendell Corey) passa por uma crise no casamento e está bêbado no escritório do seu amigo, o detetive Milles Scott (Paul Kelly),  quando é surpreendido pela visita de Thelma. A jovem deseja contratar os serviços do detetive – ela cuida da tia rica e teme um assalto. 

    Nessa noite de bebedeira, Cleve se envolve com Thelma, os dois iniciam um romance apaixonado até que, durante o temido assalto, a tia de Thelma é assassinada. A partir daí, a narrativa envereda para as tradicionais tramas de tribunais. Thelma é acusada do assassinto e seu amante é indicado como promotor do caso. 

    O jogo entre promotor e advogado de defesa se torna o grande trunfo do filme, pois ambos precisam inocentar Thelma. O título do filme, A confissão de Thelma,  anuncia o desfecho, marcado por dramas éticos e atos de sacrifícios, pois, mesmo que o cinema noir apresente narrativas polêmicas e ousadas, ninguém pode sair impune. 

  • Na noite do crime

    Na noite do crime (Woman on the run, EUA, 1950), de Norman Foster. 

    Ann Sheridan, uma das contratadas da Warner Bros, não estava satisfeita com sua posição no estúdio. Bette Davis e Ida Lupino eram as grandes estrelas do estúdio e os melhores papéis eram destinados a ela. Ann Sheridan pagou uma vultosa multa e rescindiu o contrato com a Warner, se aliando a uma produtora independente para produzir seus próprios filmes. 

    Na noite do crime é resultado desta estratégia. Sheridan interpreta Eleanor Johnson. Ela é casada com Frank (Ross Elliot), um pintor de talento, porém fracassado. Durante o passeio com o cachorro do casal à noite, Frank presencia um assassinato. A polícia exige que ele fique sob proteção na delegacia por um tempo, pois seu testemunho pode desbaratar uma máfia do crime em São Francisco.

    A narrativa se passa em duas noites. Frank foge da polícia e se esconde nas docas da cidade, mas envia mensagens cifradas para sua esposa. A princípio Eleanor não se importa, pois o casamento passa por um momento tenso, depois, tenta descobrir o esconderijo do marido, junto com Danny Legette (Dennis O’Keefe), um repórter policial que tenta seduzi-la. O inspetor Martin Ferris (Robert Keith) completa a caçada e a trama se transforma em uma engenhosa jornada de perseguição, com direito a uma virada surpreendente (a revelação da identidade do assassino) e uma espetacular sequência final na montanha russa. 

  • Precipícios D’Alma

    Precipícios D’Alma (Sudden fear, EUA, 1952), de David Miller.

    Myra Hudson (Joan Crawford) é uma dramaturga de sucesso e herdeira de uma fortuna. Durante os ensaios de sua nova peça, em Nova York, ela exige que o ator Lester Blaine (Jack Palance) seja demitido, pois não está satisfeita com sua atuação. Um conflito se instaura entre os dois, mas, dias depois, se encontram no mesmo trem com destino a São Francisco. Fazem as pazes e se envolvem amorosamente, caso que resulta no casamento da escritora e do ator. 

    O filme noir, com forte teor melodramático, tem Joan Crawford, indicada ao Oscar de Melhor Atriz, em uma de suas grandes atuações. A virada do roteiro acontece quando Irene Neves (Gloria Grahame), amante de Lester, entra em cena. A tradicional femme fatale do cinema noir encaminha a trama para o assassinato de Myra.

    No entanto, a grande virada acontece quando Myra, por meio de uma engenhosa solução de roteiro, descobre que está prestes a ser assassinada e inverte os planos. O grande momento do filme é o final, uma longa sequência praticamente silenciosa de perseguição pelas ruas de São Francisco, essa cidade que, em questões de cenas de perseguições, se torna sempre protagonista dos filmes. 

  • Cupido não tem bandeira

    Cupido não tem bandeira (One, two, three, EUA, 1961), de Billy Wilder.

    Billy Wilder declarou que faria a comédia mais acelerada de todos os tempos. A narrativa se passa em Berlim, às vésperas da construção do Muro de Berlim. C. R. MacNamara é um executivo da Coca-Cola, responsável por distribuir o refrigerante no leste europeu. Ele recebe um pedido inusitado, que para ele soa como ordem, de Hazeltine, seu superior em Atlanta: cuidar de Scarlett, sua filha recém saída da adolescência,  que deseja passar duas semanas em Berlim. As duas semanas se transformam em dois meses, pois Scarlett  se apaixona por Piff, um comunista radical da Berlim Oriental. 

    As gags, realmente em ritmo acelerado, se sucedem com MacNamara tentando esconder o caso dos jovens amantes do pai capitalista. Perseguições de carros, corridas a pé pelas duas Berlins para desfazer mal-entendidos, uma série de coadjuvantes que entram e saem de forma hilária, três comunistas corruptos e, o ponto forte do filme: os diálogos. 

    A farsa do casamento no final do filme coloca MacNamara, James Cagney em seu melhor estilo, disparando ordens, corrigindo erros, ironizando comunistas e capitalistas, num ritmo frenético, uma verdadeira metralhadora verbal. Várias cenas tiveram que ser repetidas diversas vezes, pois a extensão e o ritmo veloz das falas confundia o ator. É o último filme de James Cagney como protagonista, uma despedida desta lenda de filmes de gangsters.

    Elenco: James Cagney (MacNamara), Horst Buchholz (Piff) , Pamela Tiffin (Scarlett), Arlene Francis (Phyllis MacNamara), Howard St. John (Wendell Hazeltine).