Categoria: 2011 a 2020

  • Cortinas fechadas

    Cortinas fechadas (Pardé, Irã, 2013), de Jafar Panahi e Kambuzia Partovi. Com Kambuzia Partovi, Maryam Moghadam e Jafar Panahi. 

    Em 2010, Jafar Panahi foi condenado pelo regime iraniano a seis anos de prisão. A acusação: “propaganda contra o sistema” e “atividades contra a segurança nacional.” Panahi apoiou a oposição nas eleições de 2009 e tentou filmar os protestos que se seguiram. 

    Em prisão domiciliar, o diretor burlou a proibição de não realizar filme durante o período com duas obras: o premiado Isto não é um filme (2011) e Cortinas fechadas (2010), ambos realizados totalmente dentro das casas onde cumpria a pena. 

    Cortinas fechadas abre com o morador recebendo clandestinamente um cachorro – o regime considera os cães impuros. Em uma cena de gelar o coração, o cão adotado está em frente à TV, onde passam cenas com cães agonizando nas ruas, após serem violentamente agredidos. 

    O homem, um escritor, passa os dias em atividades rotineiras dentro de casa até que, uma noite, dois jovens em fuga da polícia invadem sua residência. A jovem é deixada aos seus cuidados e ela revela conhecer bem o passado do escritor. Em determinado momento, o diretor Jafar Panahi entra em quadro para consertar as cortinas, revelando que está fazendo um filme sobre a clausura do escritor – e também do cineasta. 

    O filme é um poderoso manifesto contra as injustiças do regime iraniano, que pune artistas por suas atividades profissionais, jovens que buscam diversão ou protestam nas ruas e os inocentes animais, violentamente chacinados por serem “impuros”. Cortinas fechadas demarca também um dos principais temas das obras de Jafar Panahi: sempre é necessário e possível fazer um filme, pois a verdade deve ser revelada. 

  • Pussy

    Pussy (Cipka, Polônia, 2016), de Renata Gasiorowska. 

    Uma jovem está em sua casa sozinha, à noite. Ela começa a se acariciar, entra na banheira e continua se entregando ao prazer. Uma reviravolta surreal, à princípio assustadora para a jovem, transforma sua busca em um auto conhecimento dos seus desejos e de seu corpo de forma livre, selvagem, rebelde. 

    Os trabalhos de animação da diretora polonesa Renata Gasiorowska, incluindo filmes e clipes, são sempre muito bem recebidos pela crítica em diversos festivais de cinema. Pussy foi premiado no Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand. A narrativa é ousada, com cenas e insinuações provocativas em relação ao prazer feminino. A passagem da personagem do mundo real para o imaginário, o surrealismo, é um convite à plena libertação. 

  • Harry Dean Stanton: em parte ficção

    Harry Dean Stanton: em parte ficção (Harry Dean Stanton: partly fiction, Suiça, 2012), de Sophie Huber. 

    O diretor Wim Wenders comenta para o documentário que, quando pensou em Harry Dean Stanton (1926 / 2017) para o papel principal de Paris, Texas (1984), se viu diante de um ator que  “esteve nos cinemas por cerca de 30 anos e nunca foi o protagonista”.

    O documentário de Sophie Huber se debruça sobre a carreira do enigmático ator e cantor de músicas folk. A narrativa trabalha com colagem de imagens, trechos das centenas de filmes das quais participou, gravações de Harry em sua casa e no bar que frequentou durante toda a vida e, para completar, depoimentos de importantes profissionais do cinema americano: David Lynch, Wim Wenders, Kris Kristofferson, Sam Shepard, Kris Kristofferson, Debbie Harry.

    Entre depoimentos e colagens, Harry Dean Stanton interpreta canções que, de certa forma, têm relação com a sua história. Ainda segundo Wim Wenders, o grande mérito de Harry como ator foi interpretar ele mesmo: “Harry se permitiu ser bem vulnerável naquele papel e nos deixou olhar para a sua alma. E Harry é frágil. Harry é vulnerável. As pessoas não estão acostumadas com um protagonista que se abre tanto. Acho que Harry tocou o coração de muita gente, porque ele ousou ser frágil.” 

    Perguntado pela diretora do documentário sobre como se preparou para o papel de Travis (Paris, Texas), seu mais aclamado personagem, Harry Dean Stanton respondeu: ““Ele não fala durante cerca de meia hora do filme. Então eu não fiz nada. Eu não me preparei, só não falei. Não dizer nada é um posicionamento impactante. Não falar. Ficar em silêncio. O silêncio é muito poderoso.”

  • Batimentos por Mizu

    Batimentos por Mizu (Japão, 2019), de Miki Tomita.  

    Sumiko (Ruka Ishikawa) está no último ano da universidade, mas se apresenta como caloura. Ela tem um dom: ouve e consegue mensurar os batimentos cardíacos por minuto de quem está por perto. Durante um show de uma banda pop, ela conhece Mizu (Endo Fumiya)  e passa a ouvir e contar os seus próprios BPM.

    A direção de fotografia e a direção de arte são o destaque do curta. As cores, as ambientações, a fotografia se aproveitando do tom azulado dos dias e da piscina, transmitem um ar de jovialidade estética. A jovem Sumiko não só ouve, mas vê e sente os batimentos cardíacos que mudam de acordo com os encontros, as relações – as sensação da juventude. 

  • Pacarrete

    Pacarrete (Brasil, 2019), de Allan Deberton.

    Pacarrete (Marcélia Cartaxo), 70 anos, é uma professora de balé aposentada. Ele vive com sua irmã, a cadeirante Chiquinha (Zezita Matos), em Russas, pequena cidade do interior do Ceará. A prefeitura está preparando uma grande festa em comemoração ao aniversário da cidade e Pacarrete insiste, junto aos organizadores, em fazer uma apresentação solo de balé. Sua proposta é rejeitada, sob o argumento de ser uma festa planejada somente com atrativos populares.

    A interpretação de Marcélia Cartaxo é o grande trunfo do filme. Sua personagem carrega um rancor cotidiano, irrompendo aos impropérios com todos à sua volta. A exceção é o dono de mercearia Miguel (João Miguel), por quem nutre uma paixão secreta.

    O filme ganhou inúmeros prêmios, incluindo o de Melhor Filme e de Melhor Atriz no Festival de Gramado. Baseado em fatos reais, a narrativa acompanha a jornada de Pacarrete em defesa de sua arte. Por trás de uma mulher amargurada (algo em seu passado como professora na capital), raivosa e agressiva, está a bailarina apaixonada pela dança. 

  • Um dia de verão

    Um dia de verão (Taiwan, 2020), de Wang Yan-ping. Com Min-Hsien Jen (Hsuan), Ting-Yi Lin (Chi), Chien-yu Chou (Yei). . 

    O filme de graduação da diretora Wang Yan-ping se passa durante o verão. Três jovens dividem seu tempo entre os estudos, um parque de diversão e a piscina da cidade. Os irmãos Hsuan e Yei trabalham no parque, passam por pequenos conflitos, principalmente em relação à amiga deles, Chi. 

    O foco central da trama é a amizade entre as duas jovens, até o momento em que Hsuan não consegue mais esconder sua paixão por Chi. A delicadeza, os olhares e gestos sutis, conduzem as revelações que provocam conflitos, como em todas as descobertas adolescentes. 

  • Postergados

    Postergados (Brasil, 2016), de Carolina Markowicz. 

    Três pessoas são entrevistadas em diferentes locais: um médico corrupto que será responsável pela morte de um motorista; um homem já morto que foi induzido por sua esposa a tomar um remédio que provocou sua morte;  uma cartomante charlatã que descobre que pode fazer uma única pergunta antes da passagem para a vida após a morte. 

    A edição fragmentada, cuja montagem alternada confunde o espectador com as histórias dos personagens que transitam entre a vida, a morte e a pós-morte é o grande trunfo do filme. O curta foi filmado em Porto Alegre, com intérpretes uruguaios de renome nos papéis principais: César Bordon, Mirella Pascual e José Luis Arias.  

    O destaque é a história envolvendo a cartomante, que anuncia a Edna, uma cliente,  que ela vai morrer no dia 16 de junho. Durante a consulta, conversando sobre as possibilidades da morte, a cartomante diz a Edna: “Somos cadáveres postergados, como dizia Fernando Pessoa.” Atenção para o belo e sensível conjunto de imagens ao som de Gracias a La Vida.

  • Namoro à distância

    Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz. 

    No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”

    O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.

    Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.

  • Edifício Tatuapé Mahal

    Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz. 

    A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos. 

    A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.

    Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.

  • O órfão

    O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição. 

    O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.

  • Da eternidade

    Da eternidade (About endlessness, Suécia, 2019), de Roy Andersson. 

    A abertura do filme é puro cinema de poesia. Um casal abraçado flutua entre as nuvens. O homem enlaça a mulher por trás, como a protegê-la. Ela acaricia os braços dele. Corta para um casal sentado em um banco, olhando para a cidade. 

    O filme do subversivo diretor sueco é uma série de curtas, retratando momentos comuns do cotidiano: um pai amarra os cadarços da filha, adolescentes dançam em frente a um café, um exército marcha para um campo de prisioneiros, um homem conversa com a câmera na saída do metrô sobre um desafeto que nunca o cumprimenta. O tempo se confunde entre o passado e o presente, uma narradora enigmática diz sobre esses momentos: “Eu vi um homem que queria surpreender sua esposa com um bom jantar.”

    O cinema de Roy Andersson é assim, subversivo, deslumbrante, formado por imagens que parecem saídas dos sonhos. Assim como a poesia. 

  • Terra abençoada

    Terra abençoada (Mot khu dat tot, Vietnã, 2019), de Pham Ngoc Lan. Com Hoàng Hà, Minh Chau, Thuy Anh, Huy Tien. 

    Uma mulher, junto com seu filho adolescente, visita um antigo cemitério, percorrendo-o em vão em busca do túmulo de seu marido. Um pedaço do cemitério foi demolido para dar lugar a um luxuoso campo de golfe, a outra parte está abandonada: os túmulos em estado de decomposição convivem com pântanos e areais. Um pastor também está no local, aproveitando o terreno para alimentar suas vacas. 

    A narrativa curta tece críticas sociais sobre a desigualdade social e sobre como o progresso interfere no meio ambiente e nas tradições sociais. Enquanto a mulher e o filho percorrem o terreno abandonado, do outro lado da colina, um homem joga golfe, acompanhado de sua amante bem mais jovem. O conflito entre as classes é demarcado pela forma como se relacionam com o meio-ambiente, com os recursos naturais, com o terreno que serve de moradia para os mortos e, ao mesmo tempo, como deleite para os homens endinheirados. 

  • O verão e todo o resto

    O verão e todo o resto (L’été et tout le reste, Holanda, 2018), de Sven Bresser. 

    Marc-Antoine (Marc Antoine Innocenti) e Mickael (Mickael Danguis Fasolo) trabalham em uma ilha que, durante o verão, fica repleta de turistas. Com o fim da temporada, a ilha fica vazia e os jovens planejam rumar para o continente em busca de outro tipo de trabalho. O conflito se anuncia quando Marc, contrariando seu amigo, revela que pretende ficar no local. 

    A narrativa debate a busca dos anseios da juventude. Michael não hesita em partir e enfrentar os desafios que se apresentam em uma nova sociedade, enquanto Marc hesita, prefere naquele momento continuar com sua rotina solitária. A sequência da aclamada festa na ilha, frequentada por Marc e meia dúzia de amigos, é o sintoma dessa relação conflituosa entre o esplendor das temporadas de verão e o vazio do dia-a-dia dessas cidades que vão se perdendo no tempo. 

  • Letícia, Monte Bonito, 04

    Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.

    É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto. 

    O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta. 

  • Vaga carne

    Vaga carne (Brasil, 2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.

    A peça Vaga Carne, escrita e encenada por Grace Passô, foi apresentada ao público em 2016. A própria autora trabalhou na adaptação para o cinema, em conjunto com Ricardo Alves Jr.. O princípio conceitual é basicamente o mesmo: uma estranha voz toma posse do corpo de uma mulher. O monólogo, uma interação entre voz e corpo, percorre a narrativa, transitando entre reflexões sobre pertencimento, papeis dentro da sociedade, questões estruturais de gênero e preconceito racial. 

    “Ao levar a peça para o Cinema, em 2018, (…) Grace, por outro lado, possuía uma diferente forma de provocação: uma dramaturgia própria a se traduzir em roteiro para audiovisual; quarenta e cinco minutos de uma protagonista invisível – a voz – falando a frente de uma tela-imagem. A dualidade, porém, cai por terra à medida que o choque entre personagem-cenário se mostra mais homogêneo do que oposicionista, afinal, se a voz invisível quer ser ouvida, o corpo da mulher negra ali estampado também quer ser visto.” – Antonio Pedroni

    Vaga Carne seria exibido em sessões duplas, junto com outro média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa. No entanto, o isolamento social provocado pela pandemia não permitiu essa estratégia e cada filme foi lançado de forma isolada no streaming. 

    Referência: Vaga carne e a intermidialidade teatro-cinema na história do cinema brasileiro. Antonio Pedroni. Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso. PUC MINAS: Curso de Cinema e Audiovisual, 2021. 

  • Estrela cadente

    Estrela cadente (Comme une comète, Canadá, 2020), de Ariane Louise-Seize. Com Marguerite Bouchard (Chloé), Patrick Hivon (Christopher), Whitney Lafleur (Nathalie).

    Chloé é uma adolescente retraída que passa por uma fase introspectiva. Nathalie, sua mãe, ao contrário é irreverente e descontraída, aproveitando com intensidade e atrevimento seu namoro com Christopher. Os três fazem uma viagem para o litoral com intenção de observar as estrelas. A jornada de Chloé durante o passeio a leva a uma descoberta fascinante e perigosa: ela se sente atraída pelo namorado da mãe. 

    O filme da diretora canadense foi premiado em festivais, incluindo Melhor Curta-Metragem Canadense no prestigiado Festival de Cinema de Whistler. A narrativa aborda essa perigosa fase da adolescência com sensibilidade e ousadia. A história é narrada pela adolescente que passa os dias desenhando (imagens que resvalam para o erotismo). Ela começa relembrando: “você deixou o carro velho na nossa garagem, aquele do nosso final de semana na praia, quando tudo começou e terminou ao mesmo tempo.” A cena em que Chloé e Christopher estão deitados, rostos quase colados, observando o céu noturno, encanta, fascina e provoca.

  • Não chore na mesa de jantar

    Não chore na mesa de jantar (No crying at the dinner table, Canadá, 2019), de Carol Nguyen. Com Thao Nguyen, Ngoc Nguyen, Michelle Nguyen. 

    O filme abre em plano fechado dos três membros da família de Carol Nguyen em uma pequena mesa de cozinha. A diretora explica a eles em off:, Mamãe, papai e Michelle (sua irmã). Na quinta-feira, cada um de vocês fez entrevistas individuais. Quando vocês concordarem em fazer este projeto, todos sabiam que todos ouviremos as entrevistas da nossa família.  Mas hoje quero reproduzir as entrevistas para vocês. Então, vamos ouvir.”

    A abertura revela o tom intimista, corajoso e desafiador do documentário. Em uma mesa de jantar, os três vão se defrontar com lembranças, revelações simples de uma família que provocam o emocional. 

    Neste ano de 2019, Carol Nguyen teve dois filmes  incluídos na lista dos dez melhores curtas do Canadá: Nanitic e Não chore na mesa de jantar

  • Delphine

    Delphine (Canadá, 2019), de Chloé Robichaud, é narrado por Nicole, já adulta. Ela lembra de suas experiências na infância quando estudou em uma escola particular em Ville Saint-Laurent: “A minha mãe me mandou para lá porque os primos também foram para lá. É reconfortante para pais imigrantes saber que os seus filhos frequentam escolas particulares com os primos. Foi lá que conheci Delphine.”

    Delphine é uma criança libanesa que acabara de se mudar para o Canadá. Segundo Nicole, ela ainda não falava francês e dizia “sim” para tudo. As outras crianças da escola praticam bullying com Delphine, dizendo coisas como “você fede a cogumelo”, se divertindo quando ela diz “sim”. 

    O curta-metragem é um olhar cruel, sincero e sensível sobre o preconceito, o pesadelo que atitudes de bullying podem transformar a vida de uma criança. A sensibilidade de Nicole a coloca ao lado de Delphine, que se torna cada vez mais introspectiva. As atuações das estrelas infantis Daria Oliel-Sabbag (Delphine) e Ines Feghouli Bozon (Nicole) – que depois vão ser representadas por outras atrizes na adolescência – conferem à narrativa esse olhar doce, compreensível, que se transforma em colaboração mútua entre crianças e adolescentes.

    Nathalie Doummar, roteirista, adaptou sua própria peça teatral Delphine de Ville Saint-Laurent. A película estreou no Festival de Cinema de Veneza e ganhou o prêmio de melhor curta-metragem do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Entrou, ainda, para a lista anual dos dez melhores curtas  do Canadá, país que, tradicionalmente, incentiva a produção de filmes neste formato. 

  • Sibyl

    Sibyl (França, 2019), de Justine Triet.

    Sybyl é uma terapeuta que planeja abandonar a carreira para seguir seu sonho de ser escritora. Ela dispensa grande parte dos seus pacientes, mas aceita cuidar de Margot, jovem atriz que está grávida de Anton – os dois são protagonistas em um filme que está sendo rodado em Stromboli, com direção de Mika. O conflito de Margot é sua dúvida em relação ao planejado aborto, pois a gravidez atrapalharia sua iniciante carreira de atriz. 

    A narrativa é marcadamente intimista, colocando os personagens em conflito com suas escolhas. Sibyll, frequentadora de um grupo de ex-alcoólatras, se envolve cada vez mais com Margot e com suas próprias experiências, acabando por usar tudo como referência para seu novo livro. 

    O ponto forte da narrativa acontece em Stromboli, quando realidade e ficção se entrelaçam no exercício da metalinguagem. Durante as filmagens do longa-metragem, terapeuta/escritora, ator, atriz e diretora se envolvem em um complexo jogo amoroso com consequências imprevisíveis. 

    Elenco: Virginie Efira (Sibyl), Adele Exarchopoulos (Margot), Gaspard Ulliel (Anton), Sandra Huller (Mika). 

  • Sete anos em maio

    O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô.  No entanto,  o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.

    O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia. 

    Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial. 

    O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.