As filhas do fogo

Duas namoradas se encontram em Ushuaia, após um longo tempo afastadas. Em um bar, elas namoram livremente e são ofendidas por um homofóbico. Uma jovem as defende e começa uma briga generalizada no estabelecimento. Elas fogem e começam um relacionamento a três que se intensifica quando fazem uma viagem de van pela Terra do Fogo. No caminho, acolhem outras mulheres lésbicas que praticam o amor livre, sem restrições. 

O road-movie pornô lésbico da diretora Albertina Carri é recheado de cenas ousadas, entremeadas pela narração da protagonista que está tentando estruturar um filme pornô. As divagações da jovem passam pela liberdade sexual, pela natureza do corpo feminino, pela incerteza sobre o que é pornográfico ou não.

Contra todas as expectativas, a natureza pornô da narrativa, o filme fez sucesso nas salas comerciais do Brasil. Atenção para a sequência de duas amantes fazendo sexo dentro de uma igreja, enquanto outra jovem em posição de voyeur se masturba e para a longa sequência final, em plano fechado frontal, de uma das jovens se masturbando.

As filhas do fogo (Las hijas del fuego, Argentina, 2018), de Albertina Carri. Com Disturbia Rocío, Mijal Katzowicz, Violeta Valiente, Rana Rzonscinsky, Canela M., Ivanna Colonna Olsen, Mar Morales, Carlos Morales Rios, Cristina Banegas e Érica Rivas. 

Chão

O documentário de Camila Freitas acompanha integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que lutam para terem direito ao território de uma antiga fábrica de cana-de-açúcar. Sem narração ou legendas explicativas, o filme destaca os ativistas em momentos de luta pacífica nas ruas, buscando conscientizar os moradores da região, e em momentos de descontração nos acampamentos. 

O contraponto conservador é expresso em uma sequência nos tribunais, quando, diante de líderes do movimento, os juristas tentam justificar, usando complexos argumentos legais, a negação ao direito dos trabalhadores rurais. Belo em alguns momentos, visualmente encantador quando as lentes da diretora exploram todas as nuances das pessoas em sua luta cotidiana por direitos inegáveis (deveria ser assim), triste em outros, quando a realidade mostra sua face injusta, elitista e cruel.  

Chão (Brasil, 2019), de Camila Freitas.

A ganha pão

Kabul, 2001. O Talibã tomou o poder no Afeganistão e implantou suas extremistas formas de controle. A pré-adolescente Parvana é filha de um professor e de uma escritora, ambos impedidos de trabalhar. Ela acompanha seu pai à feira, onde vendem produtos caseiros. Idress, um jovem que foi aluno do professor, impõe violentamente que Parvana vá para casa e, depois, denuncie o professor. Ele é preso arbitrariamente e sua família, composta pela mulher, outra filha e um menino ainda bebê, não tem mais condições de sequer se alimentar: no regime Talibã, mulheres não podem sair às ruas sem a companhia de um homem, mesmo para comprar comida. 

A narrativa de A ganha pão (a animação foi produzida por Angelina Jolie) mescla realismo e fantasia. A alternativa de sobrevivência da família vem de Parvana: ela corta seus longos cabelos, se veste de menino e sai todos os dias para trabalhar, junto com uma amiga da escola, que também se finge de menino. Diante da violência, da inacreditável crueldade dos membros do regime – praticadas até mesmo por jovens como elas -, Parvana conta histórias de um mundo de fantasia, onde um jovem, Suleyman, luta contra seres endiabrados. 

A triste sequência final, quando as mulheres da família de Parvana enfrentam seus piores pesadelos nas estradas tomadas pela guerra, aponta uma esperança. Sentimento ilusório como demonstrou a recente retomada do poder pelo regime Talibã no Afeganistão. 

A ganha pão (The breadwinner, Irlanda/Canadá, 2017), de Nora Twomey.

Visages Villages

No fim do documentário, Agnès Varda leva JR, seu companheiro de jornada, à casa de Jean-Luc Godard. Ela marcara um encontro com o recluso cineasta, mas encontra a porta fechada. Na porta, um enigmático bilhete deixado por Godard. Tomada pelas lágrimas, Agnès Varda tenta compreender o gesto de seu amigo. 

A inserção desta sequência, desconectada do restante do documentário, ajuda a entender a proposta da viagem empreendida pela cineasta Agnès Varda e pelo fotógrafo JR: buscar a potência da imagem através dos retratos de pessoas comuns colados em muros, paredes de casas, containers. Trata, portanto, do cinema. 

Agnès Varda e JR exploram pequenas cidades da França a bordo de uma van equipada com dispositivos de fotografia. No caminho, fotografam os moradores, os trabalhadores. As fotos são ampliadas e coladas em espaços públicos. 

Visages Villages encanta pela simplicidade das pessoas que posam. As fotos traduzem a poesia do cotidiano registradas pelo olhar sensível, carregado de humanismo, de dois grandes artistas. É o poder da imagem, da arte, capaz de colocar vida em containers de navios, em um bunker alemão abandonado em uma praia da Normandia.  

Visages, Villages (França, 2017), de Agnès Varda e JR.

Nos corredores

Difícil imaginar um filme atraente e fascinante transcorrido quase que inteiramente dentro de uma loja de departamentos. Mas logo no início de Nos corredores essa sensação desaparece. Começa com cenas silenciosas de uma estrada, corta para os corredores vazios da loja de departamentos, entram quadros quase estáticos e ainda silenciosos, imagens de empilhadeiras, prateleiras repletas de produtos, freezers…

Corta para Christian em seu primeiro dia de trabalho, sendo entrevistado por Rudi, responsável pelo turno noturno da empresa. Christian começa como ajudante de Bruno, um experiente operador de empilhadeiras do setor de bebidas. Pouco depois, entra em cena Marion, funcionária de outro setor. É o plot twist da narrativa: os dois desenvolvem um estranho relacionamento marcado também pelo silêncio, pelos gestos, por olhares e frases rápidas na sala de café. Paixão que se anuncia. 

O filme trata dessas relações de trabalho movidas pelo companheirismo, pelo afeto, pela ajuda nas pequenas dificuldades cotidianas, pela amizade. Fora do trabalho, a vida desses personagens é quase desconhecida entre eles, misteriosa, esconde problemas muito mais difíceis de compartilhar. 

O diretor Thomas Stuber trata de tudo com sensibilidade, permitindo ao espectador conhecer lentamente cada um dos personagens. Voltemos ao início do texto. Difícil imaginar um filme atraente e fascinante transcorrido quase que inteiramente dentro de uma loja de departamentos. Bem, assista Nos corredores e se deslumbre com o poder da imagem nas mãos de realizadores sensíveis, como Thomas Stuber, capaz de captar a poesia de uma empilhadeira se movendo pelos corredores. 

Nos corredores (In den gangen, Alemanha, 2018), de Thomas Stuber. Com Franz Rogowski (Christian), Peter Kurth (Bruno), Sandra Huller (Marion), Andreas Leupold (Rudi). 

A mulher de um espião

Kobe, Japão, 1940. Yusaku, um próspero comerciante de tecidos ajuda um de seus clientes ingleses, preso por suspeita de espionagem, a sair da cadeia. Aparentemente, ele não se preocupa com questões políticas, tem por hobby produzir filmes caseiros de gênero protagonizados por Satoko, sua esposa. Os dois vivem um casamento apaixonado e feliz. Tudo muda quando Yusaku volta de uma viagem de negócios à Manchúria, junto com uma mulher que, pouco depois, é assassinada. 

A virada do roteiro transforma A mulher de um espião em uma complexa narrativa envolvendo crimes biológicos perpetrados pelos militares. A trama é baseada em fatos históricos: os militares japoneses mantiveram na Manchúria a Unidade 731, centro de pesquisa médica que praticava experimentos biológicos em prisioneiros de guerra. 

Quando confronta seu marido sobre a viagem e seu possível caso de infidelidade, Satoko assume o protagonismo da trama. A transformação de sua personagem é o grande destaque deste thriller que mistura erotismo, romance, espionagem e atos bárbaros de oficiais nacionalistas. A surpresa próxima ao final traz ainda uma referência às possibilidades narrativas do cinema. 

A mulher de um espião (Supai no tsuma, Japão, 2020), de Kiyoshi Kurosawa. Com Yu Aoi (Satoko Fukuhara), Issey Takanashi (Yusaku Fukuhara), Ryota Bando (Fumio), Masahiro Higashide (Taiji). 

Love steaks

Clemens chega a um hotel de luxo, é inverno, ele acaba de ser contratado como massagista. Lara é ajudante do chef de cozinha, bem-humorada, irreverente, mas é alcoólatra. Os dois jovens começam um relacionamento, a princípio como amigos que se ajudam no cotidiano no trabalho, depois como namorados, relacionamento marcado também pela irreverência, por brincadeiras eróticas nas dependências do hotel. 

O diretor Jakob Lass assume a inspiração no Dogma 95 em seu filme. O casal de protagonistas é interpretado por profissionais, todos os outros atores e atrizes são funcionários do hotel onde a película foi filmada. A linha tênue da narrativa, sem grandes atrativos, é compensada por improvisos e ousadas cenas de nudez. Lara chama a atenção com sua energia e vivacidade,entregando-se ao álcool muito mais como uma proposta de vida. 

Love steaks (Alemanha, 2013), de Jakob Lass. Com Franz Rogowski (Clemens) e Lara Schemelling (Lara).

Tempestade

O documentário reconstitui o pesadelo vivido por duas mulheres mexicanas. Miriam foi presa a caminho do trabalho, acusada de fazer parte de uma gangue de tráfico de pessoas. Ela relata seu cotidiano nas prisões, principalmente quando foi enviada para uma prisão comandada por traficantes de drogas que exigiam pagamento mensal das detentas para que não fossem violentadas. 

Adela, artista de circo, narra o sequestro de sua filha pela mesma gangue de tráfico de pessoas. Seus depoimentos revelam que as investigações apontaram para o envolvimento de importantes  membros da polícia federal, além de jovens filhos de políticos (a filha de Adela namorava um desses jovens). 

À medida que os relatos das duas mulheres acontecem, de forma alternada, as histórias se completam. Na época, forte pressão social exigia das autoridades combate efetivo ao tráfico de mulheres. A prisão de Míriam, junto com outras pessoas, foi uma farsa para tentar apaziguar as pressões. 

A diretora Tatiana Huezo mergulhou na história das duas mulheres, compondo um painel de um México violento, dominado pela corrupção política, pela injustiça e pela impunidade. Os relatos, acompanhados de imagens documentais do cotidiano da sociedade, são profundamente tristes mas, por vezes, anunciam esperança. 

Tempestade (Tempestad, México, 2016), de Tatiana Huezo.

Força maior

O casal Tomas e Ebba passa férias em uma estação de esqui junto com seus dois filhos, as crianças Vera e Harry. Durante um almoço no restaurante do hotel, uma pequena avalanche provoca correria no restaurante. Passado o susto, a relação do casal entra em uma espiral de crise, provocada pela atitude de Tomas durante a avalanche. 

O diretor Ruben Ostlund já conquistou por duas vezes a Palma de Ouro em Cannes com The square: a arte da discórdia (2017) e Triangle of sadness (2022). O apuro visual e os planos lentos, marca do diretor sueco, são o destaque de Força maior, uma profunda e, por vezes, divertida, discussão a respeito da masculinidade. Os longos silêncios durante as práticas de esqui nas montanhas, fotografadas em uma perturbadora claridade, reforçam a sensação de progressiva crise depressiva que acompanha Tomas e Vera.

Força maior (Turist, Suécia, 2014 ), de Ruben Ostlund. Com Johannes Bah Kuhnke (Tomas), Lisa Loven Kongsli (Ebba), Clara Wettergren (Vera), Vincent Wettergren (Harry), Kristofer Hivju (Matts), Fanni Metelius (Fanny). 

Era uma vez um sonho

Vez por outra o espectador se depara com filmes que se destacam apenas pela forte atuação dos protagonistas. É o caso de Era uma vez um sonho, cujo destaque reside na interpretação de Glenn Close, indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante pelo papel de Mamaw, uma avó, fortemente maquiada, que assume os cuidados de seu neto, Vance.

A história, baseada em fatos reais, segue o ponto de vista de Vance, primeiro na infância, quando passava férias com os avós, depois como um jovem advogado, morando com a família em Ohio. O tema central são as conturbadas relações familiares, marcadas por sugestões de abusos domésticos, alcoolismo e profundas crises depressivas. Sem grandes destaques narrativos, a história segue os contornos do melodrama familiar, centrados na relação entre Vance e sua mãe, que luta contra a depressão e o alcoolismo. 

Era uma vez um sonho (Hillbilly Elegy, EUA, 2020), de Ron Howard. Com Amy Adams (Bev), Glenn Close (Mamaw), Gabriel Basso (Vance), Haley Bennett (Lindsay), Bo Hopkins (Papaw).