Tag: François Truffaut

  • A história de Adèle H.

    O diretor François Truffaut disse que fazia filmes sobre dois temas: crianças e histórias de amor. A história de Adèle H. (L’histoire d’Adèle H., França, 1975) é verídica, contando a juventude de Adèle (Isabelle Adjani), filha do escritor Victor Hugo. Em 1863, ela chega a Halifax, na Nova Escócia (EUA), em busca do jovem oficial britânico Albert Pinson (Bruce Robinson). Os dois viveram um amor intenso e enfrentaram objeções da família do escritor. No novo mundo, Adèle, rejeitada por Albert, passa a persegui-lo com uma obsessão perigosa, confrontando os limites entre amor, sanidade e loucura. 

    A interpretação de Isabelle Adjani, com apenas 19 anos, é o grande destaque do filme. Ela compõe uma personagem que se entrega de corpo e alma a uma paixão platônica, vivendo quase na miséria apenas para estar perto do tenente. Outro destaque é a fotografia de Nestor Almendros, principalmente na parte final do filme, quando a narrativa se passa em Barbados.  As cores naturalistas evidenciam a miséria da região, contrastando com o exuberante figurino da aristocracia do império britânico. Atenção para Adèle H. caminhando com seu vestido, outrora deslumbrante, em farrapos pelas ruelas pobres da cidade.  

  • O garoto selvagem

    O garoto selvagem (L’enfant sauvage, França, 1970), de François Truffaut. 

    A abertura do filme é assustadora. Um garoto (Jean-Pierre Cargol) que vive em um bosque no interior da França, em 1798, é perseguido por homens armados e por cães. O menino tenta se esconder em uma toca, os cães ladram na entrada, os homens ateiam fogo e jogam no interior para forçar o garoto selvagem a sair. Preso, ele passa por maus tratos, acorrentado, tratado como uma fera enjaulada. 

    O filme, baseado em relatos sociológicos do Doutor Jean Itard, conta uma história real. François Truffaut se interessou pelo projeto a ponto de interpretar o papel do  Dr. Jean Itard, que adota o garoto (nomeado como Victor) e o leva para morar em sua casa de campo. A partir daí, a relação passa a ser de professor e aluno, pois a obsessão de Jean é ensinar Victor a falar e a se comportar em sociedade.

    É mais um forma de opressão, pois após doze anos vivendo solitário na natureza, Victor tem dificuldades quase incontornáveis, além de se recusar a obedecer, com comportamentos às vezes violentos.  O garoto selvagem é um estudo social e psicológico que aborda esse contraste violento que marcou os conflitos entre os homens civilizados, dominadores, e os ditos selvagens. 

  • O quarto verde

    O quarto verde (La chambre verte, França, 1978), de François Truffaut. 

    A abertura concilia imagens da primeira guerra mundial com o rosto de Julien Davenne (François Truffaut) sobreposto. Corta para dez anos depois, Julien é um jornalista especializado em escrever obituários para o jornal local. Ele dedica sua vida a não deixar apagar a memória de sua esposa, falecida pouco depois da guerra, em um quarto verde, na casa onde mora. Com o tempo, o jornalista fica mais e mais obcecado por reverenciar os mortos: ele restaura uma velha capela no cemitério e constrói ali um grande altar aos mortos. 

    O quarto verde é o terceiro filme protagonizado pelo próprio cineasta. Os outros são O garoto selvagem (1970) e A noite americana (1973). O filme é inspirado em contos de Henry James, principalmente O altar dos mortos. 

    “A fotografia de Néstor Almendros é um espetáculo à parte. Utilizando-se da escuridão e de uma paleta de cores cinza-azul-preta que literalmente nos passa visualmente os sentimentos de Davenne, o diretor de fotografia e Truffaut conseguem enquadramentos antológicos, como a visão de Davenne, deformado, por trás de uma porta de vidro fosco e a fantástica sequência do que apenas posso classificar como um “casamento macabro” na capela/templo do protagonista.” – Ritter Fan (Plano Crítico)

  • A noiva estava de preto

    A noiva estava de preto (La mariée était en noir, França, 1968), de François Truffaut. 

    No início do filme, Julie (Jeanne Moreau) tenta pular da janela do edifício onde mora. A tentativa de suícidio é impedida pela mãe da jovem. Pouco depois, Julie deixa sua casa e, por meio de diversos disfarces, começa a eliminar os cinco homens que ela julga serem responsáveis pela morte do marido, na porta da igreja, logo após o casamento. 

    O fascínio de Truffaut por Alfred Hitchcock ganha contornos nesta clara homenagem. A noiva estava de preto é um thriller de suspense, com boas doses de bom humor, humor negro, claro, além de manter a irreverência comum à nouvelle-vague francesa. 

    O filme foi produzido logo depois da série de entrevistas que Truffaut realizou com Hitchcock, cujo resultado é um dos melhores livros sobre cinema já escritos: Hitchcock Truffaut. Entrevistas. Para completar, o cineasta francês usou como base para o filme o romance A noiva estava de preto, de Cornell Woolrich, mesmo autor de Janela indiscreta, que deu origem a uma das obras-primas de Hitchcock. 

    Elenco: Jeanne Moreau (Julie), Claude Rich (Bliss), MIchel Bouquet (Robert), Michael Sonsdale (Clement), Charles Denner (Fergus), Daniel Boulanger (Delvaux).

  • Na idade da inocência

    Na idade da inocência (L’Argent de poche, França, 1976), de François Truffaut.

    O cineasta François Truffaut dizia que fazia filmes sobre dois temas: o amor e as crianças. Truffaut tinha vários projetos de filmes sobre crianças, “Filmes com crianças nunca se esgotam, tenho inúmeros projetos com crianças, mas não quero fazê-los em sequência, porque não quero me especializar nisso. Então faço filmes de crianças de vez em quando, mas não em sequência.” Como o diretor faleceu jovem, aos 52 anos de idade, muitos desses projetos não foram realizados. 

    Sobre  o filme deste post (sobre crianças) Truffaut disse: “Na idade da inocência, no começo era uma coletânea de crônicas. Escrevi duas ou três histórias, uma de 7 páginas, outra de 12, mas abandonei o formato e cheguei a um roteiro. Vi que podia fazer como em A noite americana, tudo podia se entrelaçar e formar um filme. Por isso preferi um filme a um livro.”

    Essas histórias são contadas no filme quase que episodicamente. A narrativa acompanha um grupo de crianças que estudam na mesma escola. Além dos conflitos inerentes ao ambiente escolar, Truffaut segue os personagens também em seu cotidiano em casa, no bairro, alguns praticando pequenos delitos, outros fazendo biscates para ganhar um trocado (o título original pode ser traduzido como dinheiro de bolso).

    O drama central, espécie de espinha dorsal da narrativa, é a amizade de dois garotos, Patrick e Julien. Patrick ajuda o pai deficiente em suas tarefas cotidianas, enquanto Julien mora em um barracão paupérrimo. Os dois veem o mundo com a inocência inerente à idade, mas com atitudes maduras na busca pela sobrevivência no dia-a-dia. Na idade da inocência é um filme delicado, sensível e doloroso, pois o cotidiano de um dos personagens é cruel – estamos falando, sim, de violência doméstica. 

    Elenco: Georges Desmouceaux, Philippe Goldman, Nicole Felix, François Truffaut. 

  • Atirem no pianista

    François Truffaut disse que não se sentiu confortável com a história de Atirem no pianista, pois descobriu, durante o processo, que detestava filmes de gângsteres. Sua opção, para fugir dos clichês tradicionais do gênero, foi dosar a narrativa com humor, quase um pastiche.  O diretor francês declara um dos principais motivos para realizar seu primeiro filme noir:

    “Fui profundamente influenciado pelo cinema americano e eu queria demonstrar minha gratidão. Atirem no pianista contém muitos temas que admiro em filmes americanos: uma mulher que se joga pela janela, um homem que foi famoso e hoje está totalmente esquecido. Havia o clima, a música, o piano. Eu gostava muito de tudo isso.”

    Truffaut leu o livro de David Goodis em 1957, logo após de escrever o roteiro de O acossado, filmado por Godard em 1959. A adaptação foi seu segundo filme, após Os Incompreendidos (1959). A narrativa começa com um homem sendo perseguido nas ruas de Paris. Ele entra em um bar, onde encontra seu irmão Charlie, o pianista do local. Charlie foi um famoso pianista que abandonou a profissão após uma tragédia em seu casamento. O encontro com o irmão o coloca no caminho de dois gângsteres, plot para uma série de acontecimentos ora bem humorados, ora trágicos. 

    Atirem no pianista incorpora uma das principais marcas da nouvelle vague, a mistura de gêneros. É comédia, filme de detetive, drama, melodrama e romance. A película estreou em 1960 e foi um fracasso de bilheteria, no entanto, com o tempo, se tornou cult, principalmente nos EUA. 

    Atirem no pianista (Tirez sur le pianiste, França, 1960), de François Truffaut. Com Charles Aznavour (Charlie), Marie Dubois (Lena), Nicole Berger (Thérèse), Michèle Mercier (Clarisse).

  • O último metrô

    Em A noite americana (1973), François Truffaut volta suas lentes para os bastidores de uma produção cinematográfica. O próprio Truffaut interpreta um cineasta durante as filmagens de uma obra nos EUA, explorando o complexo processo criativo e técnico da produção. 

    A trama de O último metrô explora processo semelhante, desta vez sobre o teatro.  Marion Steiner dirige o teatro de seu marido, judeu obrigado a se esconder da ocupação nazista na França. Grande parte do filme se concentra nos ensaios da peça “A desaparecida”, a trupe de atores, atrizes e diretor tentando continuar seu trabalho, a busca pela arte, mesmo durante a Segunda Grande Guerra. Fora do teatro, os protagonistas da peça vivem conflitos com os nazistas. O filho de uma integrante da equipe está desaparecido; o ator Bernard Granger luta pela  resistência; Marion tenta se equilibrar entre salvar o teatro ou se render às investidas dos colaboradores do regime. 

    A película é um primor estético, com deslumbrante reconstituição de época e fotografia feita sob medida para destacar a beleza dos protagonistas, principalmente Catherine Deneuve (cada plano, cada close, deixa o espectador em uma espécie de absoluto fascínio por Deneuve, como na mais pura abstração da beleza). 

    “Quando O último metrô estreou na França, em 1980, não faltaram acusações de que Truffaut havia se rendido e feito um filme que correspondia ao cinema de qualidade que ele próprio, três décadas antes, desqualificara em um artigo demolidor. (…) A combinação de filme histórico, requinte fotográfico e cenográfico e um par de estrelas como protagonistas sugere um filme prêt-à-porter, formatado para recuperar a afeição do público que Truffaut, naquele momento, parecia ter perdido após os fracassos de O quarto verde e o A amor em fuga.” – Cássio Starling Carlos.  

    Apesar das críticas, o filme se consagrou nas bilheterias, foi indicado como melhor filme estrangeiro ao Oscar e ao Globo de Ouro e conquistou dez prêmios César, na França: melhor filme, diretor, ator, atriz, roteiro, música, fotografia, direção de arte, montagem e som.

    O último metrô (Le dernier metro, França, 1980), de François Truffaut. Com Catherine Deneuve (Marion Steiner), Gérard Depardieu (Bernard Granger), Jean Poiret (Jean-Loup Cottins), Heinz Bennent (Lucas Steiner), Andréa Ferréol (Arlette Gulaume), Sabine Haudepin (Nadine Marsac), Jean-Louis Richard (Daxiat).

    Referência: François Truffaut. O último metrô. Coleção Folha Grandes Diretores no Cinema. Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

  • Beijos roubados

    Beijos roubados é o terceiro filme de Truffaut com o personagem Antoine Doinel. O primeiro é o clássico Os incompreendidos (1959), o segundo, Antoine e Colette (1962), curta-metragem. Completam a saga: Domicílio conjugal (1970) e Amor em fuga (1979).

    Após ser desligado do exército, o jovem Antoine Doinel começa um périplo em busca de emprego. Trabalha como recepcionista de um pequeno hotel, mas é despedido quando ajuda um detetive particular a flagrar uma esposa que está no quarto do hotel em adultério. Doinel fica amigo do detetive e experimenta a carreira de investigador particular.

    O tom de humor está presente em todo o filme. O jovem pratica as atividades cotidianas com irreverência, quase desinteressado por tudo que faz. A impressão é que tudo é pretexto para novas experiências, principalmente no quesito paixões pelas mulheres que encontra pelo caminho. Enquanto tenta conquistar Christine, seu grande amor, não se furta a um caso apaixonado com a esposa de um de seus clientes. Entre uma trapalhada e outra, Doinel, ou François Truffaut, pois todos sabem a relação entre personagem/autor, vai se descobrindo. Filme essencial na obra do inigualável François Truffaut.

    Beijos roubados (Baisers volés, França, 1968), de François Truffaut. Com Jean-Pierre Léaud (Antoine Doinel), Claude Jade (Christine Darbon).