A mãe

A mãe (Mat, Rússia, 1926), primeiro filme de Vsevolod Pudovkin segue os preceitos básicos do chamado cinema revolucionário soviético, ou vanguarda russa: valorização ideológica da revolução russa, amparada em ousadias no trato da linguagem cinematográfica, principalmente usando a montagem para criar sentidos ideológicos.

A trama, adaptada do romance de Gorki, se passa durante os protestos que aconteceram na Rússia em 1905, quando grupos de trabalhadores organizaram greves e protestos nas ruas contra o regime czarista. Vera Baranovskaya interpreta a mãe, cujo filho é um dos líderes dos movimentos sociais. Fugindo das autoridades, uma noite, o filho esconde armas e panfletos no chão da casa. A mãe, que parecia dormir, vê o local do esconderijo. Quando as autoridades invadem a casa em busca do líder, a mãe, tentando salvá-lo da prisão, revela o esconderijo aos policiais. Esse gesto de traição acaba contribuindo para condenar o próprio filho, que é sentenciado a trabalhos pesados na prisão. 

Pudovkin imprime ao filme fortes cenas de confrontos entre grevistas e trabalhadores que são contra o movimento, servindo aos patrões e autoridades que incentivam esses confrontos. É o forte retrato social da época, realçando questões como violência doméstica, entreguismo de trabalhadores ao sistema, crueldade da polícia czarista, miséria dos trabalhadores que buscam refúgio no álcool; enfim, a realidade soviética que prepararia a sociedade para a grande revolução de 1917. O final é apoteótico, quando a população se une em direção ao presídio e é rechaçada a tiros pela autoridade. 

“Pudovkin dirigiu A mãe (Mat, União Soviética, 1926) quando tinha 27 anos. (…) A mãe foi quase tão influente quanto Potemkin. Havia rivalidade entre Pudovkin e Eisenstein, por isso o primeiro criou uma estrutura musical para o filme (allegro – adagio – allegro) que era muito diferente da montagem alternada de Eisenstein. A mãe é dominado por close-ups, alguns dos quais, como os de uma cena de bar com uma banda, são retratos vívidos de seres humanos reais. Quando o filho pega sua arma para começar a atirar de volta contra as autoridades que tentam debelar a greve, a mãe, em uma série de dissolves de meio segundo, imagina sua morte. Ela se levanta e dois planos curtos mostram seu grito de pânico. Pudovkin percorre com a câmera todo o comprimento do filho aparentemente morto. No fim do filme, antes de a mãe ser morta pela cavalaria czarista de passagem, seu rosto aterrorizado aparece outra vez, mas apenas por dezesseis quadros. Embora Vera Baranovskaya ofereça uma grande e estóica interpretação no papel principal da mãe, os momentos de humanidade do filme são abafados por sua brutal literalidade. Quando a mãe é filmada de um ponto de vista elevado, Pudovkin destaca seu sofrimento e, quando ela é filmada de baixo, parece nobre. Esse viés ideológico, que também tinge boa parte do cinema soviético da década de 1920, enfraquece a obra de Pudovkin.” – Mark Cousins

Referência: 

História do cinema mundial. Dos clássicos mudos ao cinema moderno. Mark Cousin. São Paulo: Martins Fontes, 2013

A fortaleza escondida

Dois miseráveis camponeses, Tahei e Matashichi, andam aos tropeços por uma estrada. Estão voltando da guerra, para onde foram na ilusão de ganhar dinheiro, mas tiveram que trabalhar pesado enterrando cadáveres. Um guerreiro passa por eles, homens a cavalo o perseguem e matam o guerreiro na frente dos camponeses. 

O início do filme determina o ponto de vista escolhido por Kurosawa para contar a história de A fortaleza escondida. Tahei e Matashichi se envolvem inadvertidamente em aventuras ao longo da narrativa: são presos, trabalham cavando ouro em uma mina, se vêem no meio da revolta dos trabalhadores/escravos em uma fuga sangrenta, fogem para as montanhas, encontram um samurai que os alícia para cavarem e carregarem ouro, encontram uma princesa fugitiva, empreendem uma jornada pelas linhas do inimigo carregando pesadas barras de ouro.

Kurosawa não se omite sobre a influência para o filme: os faroestes de John Ford. Rokurota Makabe é um famoso samurai que protege a Princesa Yuki da perseguição de clãs rivais. Os dois camponeses, sempre movidos à cobiça pelo ouro, acompanham e provocam obstáculos à jornada dos heróis. São também, os personagens que trazem humor à trama, as reviravoltas por que passam durante o filme se assemelham àquelas comédias nonsenses que jogam personagens em situações quase inacreditáveis. Em meio a tudo isso, Kurosawa expõe a rígida divisão de classes no Japão. 

É preciso falar de outra influência: a película de Kurosawa foi decisiva para George Lucas quando escrevia o roteiro de Star Wars. 

“O fato é que A fortaleza escondida influenciou Star Wars. Quando comecei a escrever e montar o roteiro pensei em A fortaleza escondida e o que me marcou nesse filme. O que me intrigou nele foi que a história é contada por dois personagens menores. Resolvi que seria um bom jeito de contar a história de Star Wars: pegar dois personagens menores, como fez Kurosawa e contar do ponto de vista deles. No caso de Star Wars, são os dois androides. Essa foi a influência mais forte. O fato de haver uma princesa tentando enfrentar as linhas do inimigo e tudo mais foi uma coincidência, porque a minha princesa é mais guerreira. Nos primeiros rascunhos ela aparecia mais junto com um Jedi mais velho e os dois tentavam escapar mas, com o tempo, acabou virando a história do Luke.” – George Lucas 

Grande parte da crítica não coloca A fortaleza escondida entre os melhores filmes de Kurosawa. O próprio George Lucas reconhece que o filme não está entre seus preferidos do gênio japonês. Pode ser, no entanto, a potência visual da obra é incontestável, primeiro filme em widescreen de Kurosawa. Algumas grandes sequências comprovam isso: o início, quando o guerreiro é morto na estrada; a fuga dos trabalhadores pela escadaria do palácio abandonado; as belas composições de enquadramento na fortaleza escondida; a emocionante festa do fogo e, mais do que tudo, a impressionante performance de Toshiro Mifune segurando a espada com as duas mãos na sela do cavalo, galopando em velocidade atrás de seus inimigos.

A fortaleza escondida (Kakushi-Toride no San-Akunin, Japão, 1958), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Rokurota Makabe), Minoru Chiak (Tahei), Kamatari Fujiwara (Matashichi), Misa Uehara (Princesa Yuki). 

Referência: Extras do DVD A Fortaleza Escondida  – Versátil Home Vídeo.  

Mandacaru Vermelho

Mandacaru Vermelho (1961) abre com massacre na Pedreira do Mandacaru Vermelho perpetrado pelos capangas de Dona Dusinha. Corta para Dona Dusinha, anos depois, abrindo as janelas da casa aos gritos de Clara, sua sobrinha. Ela descobre que a jovem fugiu com Augusto, empregado da fazenda. Decidida a lavar a honra da família, a poderosa fazendeira reúne filhos e sobrinho e parte em busca dos fugitivos.

A narrativa segue os cânones do faroeste do sertão, gênero que fez sucesso a partir dos anos 50 no cinema brasileiro. Clara e Augusto fogem com a ajuda do vaqueiro Pedro e são perseguidos a tiros, com sequência final na pedreira que faz referência a grandes westerns americanos. Outra marca do filme é a improvisação, pois o diretor Nelson Pereira dos Santos estava no sertão baiano para filmar Vidas Secas. A chuva impediu as filmagens e a equipe decidiu aproveitar a mudança da paisagem do sertão.

“Nelson Pereira dos Santos, outro cineasta que ‘descobriu’ a Bahia em 1960, realiza em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, MANDACARU VERMELHO. A história das filmagens é conhecida: Nelson foi à Bahia na esperança de filmar VIDAS SECAS; lá chegando, o sertão vira mar e chove durante dias; então a caatinga floriu, e a equipe começa a falar em tom de brincadeira em ‘vidas molhadas’. Ilhados em Juazeiro, com a cidade alagada, a saída encontrada foi a realização de outro filme, aproveitando o cenário diferente da caatinga florida. O próprio Nelson faz o papel do mocinho que foge com a mocinha já prometida para outro. Perseguidos pela família da jovem, refugiam-se no monte do Mandacaru Vermelho, onde um beato errante realiza o casamento. No final os perseguidores morrem, e o casal consegue escapar para um vilarejo próximo assistindo emocionado a uma cerimônia de casamento.”

Mandacaru vermelho (Brasil, 1961), de Nelson Pereira dos Santos. Com Nelson Pereira dos Santos, Miguel Torres, Jurema Pena, Sonia Pereira.

Nunca, raramente, às vezes, sempre

O título longo e instigante faz sentido para o espectador perto do final do filme, em uma cena triste, dolorosa, a câmera centrada no rosto de Autumn. A jovem mora com os pais no interior do Oklahoma, trabalha como caixa em um supermercado ao lado da prima Skylar. 

Autumn tem 17 anos e descobre que está grávida. Ao lado da prima, parte para Nova York rumo a uma clínica de aborto. A trama, marcada por longos silêncios, provoca reflexões dolorosas à medida que as jovens se defrontam com questões como o abandono e falta de apoio da família, o assédio no trabalho, no transporte público, até mesmo jovens como elas tentam se aproveitar da fragilidade a que elas estão expostas na noite de Nova York. Autumn e Skylar se entendem apenas por olhares e gestos, desenvolvem a solidariedade mútua à medida que se defrontam com a crueldade da sociedade misógina. A diretora e roteirista Eliza Hittman deixa gestos, toques de mãos, olhares, rostos, revelarem mais e com muito mais força do que palavras.

Nunca, raramente, às vezes, sempre (Never rarely sometimes always, EUA, 2020), de Eliza Hittman . Com Sidney Flanigan (Autumn), Talia Syder (Skylar).

Os renegados

Na primeira sequência já sabemos que a protagonista está morta. Mona (Sandrine Bonnaire) é encontrada jogada em uma vala em uma fria manhã de inverno, no sul da França. A polícia conclui que, possivelmente, o frio é a causa da morte.

A diretora Agnès Varda estrutura o filme como uma narrativa policial (sem a polícia presente): personagens que cruzaram com a jovem em seus últimos dias relatam para a câmera os encontros, tentando elucidar para o espectador aspectos da personalidade de Mona, que escolheu andar pelas estradas, vivendo ao acaso.

São relatos fragmentados, às vezes conversas desencontradas com a câmera, cabe ao espectador juntar os pedaços. O único relato denso é de uma professora que dá carona para Mona e passa algum tempo com ela na estrada e durante uma conferência. Os caminhos e encontros de Mona traçam um panorama dos anos 80, quando sociedades mergulharam em crises que provocaram nas pessoas dilemas existenciais, buscas, frustrações, desilusão completa com as estruturas sociais. No final, sabemos apenas o que já estava claro no início: Mona está morta. 

Os renegados (Sans toit ni loi, França, 1985), de Agnès Varda. Com Sandrine Bonnaire, Macha Méril, Stéphane Freiss. 

Lírios d’água

O longa de estreia de Céline Sciamma (Tomboy, Retrato de uma jovem em chamas) apresenta temática recorrente na carreira da diretora: a conflituosa descoberta da sexualidade que rompe os limites entre amizade e romance. 

Marie tem 15 anos e nutre uma paixão à distância por Floriane, atleta de nado sincronizado da escola em que estudam. Floriane namora François e, ao mesmo tempo, incentiva os desejos de Marie. O quadro se completa com Anne, melhor amiga de Marie que é apaixonada por François.

A trama segue o ponto de vista de Marie que se entrega mais e mais ao jogo de dominação estipulado pela sua amada. A sexualidade entre as duas é tratada às vezes de forma suave, outras agressivas, representando a instabilidade das jovens que se confrontam sozinhas com estas descobertas.  

Lírios d’água (Naissance des pieuvres, França, 2007), de Céline Sciamma. Com Pauline Acquart (Marie), Adèle Haenel (Floriane), Louise Blachère (Anne).

O mundo odeia-me

O começo do filme é assustador. A câmera foca apenas os pés de um homem na estrada, pedindo carona. Carros atendem ao pedido e motoristas e passageiros são assassinados pelo caroneiro. Ouvem-se apenas tiros, gritos de mulher, os pés voltam para a estrada. 

Ida Lupino, única mulher a dirigir no sistema de estúdios em Hollywood na década de 50, realizou um thriller composto por, praticamente, três personagens. Após os assassinatos nos primeiros minutos, Emmett Myers consegue carona com Ray e Frank, dois amigos que rumam para uma pescaria. Sentado no banco de trás, Emmett força os amigos a empreenderem uma jornada por cerca de 800 km, a caminho de um barco no litoral. 

Impressiona a passividade de Ray e Frank que, enquanto dirigem, se sujeitam às ameaças, agressões e tenebrosas brincadeiras de Emmett. Em uma das paradas, o assassino testa a pontaria de Frank, exigindo que ele atire à distância em uma lata que está na mão de seu amigo Ray. O que sobressai no filme é a mente doentia do caroneiro, enquanto os dois amigos simplesmente aguardam o momento de serem executados. 

O mundo odeia-me (The hitch-hiker, EUA, 1953), de Ida Lupino. Com Edmund O’Brien (Ray Collins), Frank Lovejoy (Gilbert Bowen), William Talman (Emmett Myers). 

A morte cansada

Um homem misterioso levanta um enorme muro nos arredores de uma cidade na Alemanha. Nas redondezas, um casal de namorados desfruta de momentos idílicos, festejando a felicidade e o amor, até que o jovem desaparece. Desolada, a jovem sai em busca de seu amado e chega até o muro. Em uma cena impressionante, ela vê seu amado caminhando em direção ao muro, junto com outras pessoas. Ele para diante da jovem com olhar de uma tristeza imensa e atravessa o muro.  

A morte cansada é responsável por consagrar Fritz Lang no início da década de 20, quando o cinema alemão era determinado pelo expressionismo. O roteiro foi escrito por Lang e sua esposa, Thea Von Harbou, e apresenta uma questão dolorosa: o amor é capaz de vencer a morte? 

A jovem, tentando salvar seu amado, atravessa o muro e confronta a morte (o homem misterioso). A morte propõe a ela um desafio: devolve seu amado à vida caso ela consiga salvar a vida de uma pessoa que enfrenta o mesmo conflito, está apaixonada por quem vai morrer. Ela tem três chances, três narrativas paralelas são apresentadas, interpretadas pelos mesmos personagens.  

O ponto forte da película são os cenários impressionantes, a direção de arte e fotografia que remetem a essa linha tênue entre o real e o imaginário (preste atenção nas cenas da jovem soprando as velas que simbolizam o apagar da vida). Destaque também para a interpretação de Bernhard Goetzke que compõe a figura da morte desiludida, apática diante de seu “trabalho”. 

A morte cansada (Mude tod, der, Alemanha, 1921), de Fritz Lang. Com Lil Dagover, Bernhard Goetzke, Walter Janssen.

Era noite em Roma

Três militares fogem de um campo de prisioneiros durante a ocupação nazista na Itália. São acobertados por um grupo de freiras e conseguem chegar a Roma, onde conseguem abrigar-se na casa de Esperia. Escondidos no sótão, vivem os dilemas entre continuarem enclausurados ou se arriscarem pelas noites da cidade junto com a resistência até conseguirem chegar às suas tropas. 

Roberto Rossellini (registros apontam que ele não concluiu o filme devido a problemas com a produção) trata novamente da segunda guerra e da resistência italiana. Os militares são de nacionalidades diferentes e, cada uma à sua maneira, enfrentam as angústias de soldados que se sacrificam, diariamente, lutando longe de casa, das famílias, buscando sentido para essa entrega.  

Era noite em Roma (Era notte a Roma, Itália, Itália, 1960), de Roberto Rossellini. Com Leo Genn (Michael Penberton), Giovanna Ralli (Esperia), Sergey Bondarchuk (Fyodor Nazukov), Renato Salvatori (Renato Balducci), Peter Baldwin (Peter Bradley).

Quando chega a escuridão

Caleb vê Mae saindo do bar à noite. Oferece a ela uma carona, os dois vagueiam pela estrada até que, perto do amanhecer, Mae implora para ser levada embora. O jovem se recusa, começa a beijá-la até ser mordido no pescoço. 

Quando chega a escuridão é a típica história de vampiro com tons modernos que fez muito sucesso nos anos 80, a exemplo de Fome de Viver (1983) e Garotos perdidos (1987). Quando se transforma em vampiro, Calebe se junta à  gangue liderada por Jess, todos com visuais que remetem a jovens rebeldes. Como Caleb se recusa a matar e beber sangue humano, Jess dá a ele 24 horas para se decidir, do contrário morrerá. 

A estética da película é marcada pelos tons sombrios da noite, com névoas recortando os vampiros em belas cenas nas estradas. Outra característica do cinema dos anos 80 que buscou inspiração no cinema noir, consagrando o que foi categorizado como neo noir.  A violência apresenta sua cara na sequência do bar e no final do filme, com destaque para o menino vampiro queimando na estrada enquanto corre atrás da menina por quem se apaixonou. 

Quando chega a escuridão (Near dark, EUA, 1987), de Kathryn Bigelow. Com Adrian Pasdar (Cale), Jenny Wright (Mae), Lance Henriksen (Jesse), Bill Paston (Severen), Jenette Goldstein (Diamondback), Tim Thomerson (Loy), Joshua Miller (Homer), Marcie Leeds (Sarah).