Em Divino amor (2019) o diretor Gabriel Mascaro criou um Brasil futurista, dominado por seitas religiosas. Uma delas, a Divino Amor incentiva a troca de casais que se tornam orgias sexuais consentidas. O último azul (Brasil, 2025) segue a linha ficcional distópica: o governo criou colônias para abrigar os idosos acima de 75 anos que são obrigados a se separar de seus parentes e partir para a clausura.
Tereza, uma mulher trabalhadora, atinge a idade mas se recusa a seguir para a Colônia. Ela começa uma jornada de fuga com um propósito: realizar seu último desejo, voar de avião. No caminho, Tereza se relaciona com Cadu (Rodrigo Santoro), um solitário e desiludido barqueiro; Ludemir (Adanilo), dono de um ultraleve defeituoso e a espanhola Roberta (Miriam Socarras), idosa, dona de um barco, que comprou sua liberdade e não precisa morar na Colônia.
A viagem de Tereza é um mergulho no norte do Brasil, com seus rios caudalosos e o azul infinito dos céus. Misticismo – o caracal Baba Azul que destila um líquido azul alucinógeno nos olhos das pessoas e permite vislumbrar o futuro também é marca da narrativa. Atenção para o enigmático cassino Peixe Dourado, ondas apostas milionárias são feitas em peixes que duelam até a morte.
Mundo invisível (Brasil, 2012) é um experimento cinematográfico dividido em onze episódios dirigidos por cineastas de vários países. A ideia surgiu de Leon Cakoff, organizador da Mostra Internacional de São Paulo, e Renata de Almeida, diretora da mostra. A proposta apresentada aos diretores foi abordar a invisibilidade social, retratando personagens de São Paulo, onde todos os curtas foram realizados, a exceção de um, realizado na Armênia.
No final de cada curta, lettering reflete sobre a proposta do realizador: “Enquanto observava os grafites de São Paulo, Theo Angelopoulos se deparou com um pastor especialmente performático. Quase imperceptível aos olhos da multidão, o pregador se contrapõe à melancolia do mundo exterior, colorido e sem redenção.”
Os destaque da obra são os filmes:
Céu inferior. O filme de Theo Angelopoulos abre espaço para o pregador performático que se apresenta no metrô de São Paulo, utilizando técnicas teatrais, desenvolvendo gestos e falas para criar e exagerar o melodrama religioso.
O ser transparente. Laís Bodanzky reflete sobre o trabalho do ator, com depoimentos de atores, atrizes, uma monja budista e o ator e diretor Yoshi Oida, que escreveu o livro O ator invisível.
Ver ou não ver. Wim Wenders coloca em cena crianças que têm apenas um resquício da visão e passaram por um processo de ensinamento para aprenderem a ver. O curta acompanha três crianças que foram atendidas pelo pioneiro projeto desenvolvido pela Dra. Sílvia Veitzman, do departamento de oftalmologia da Santa Casa – São Paulo.
Os demais curtas são:
Do visível ao invisível, Manoel de Oliveira. Tributo ao público de cinema, Jerzy Stuhr. Gato colorido, Guy Maddin. Fábula, Gian Vittorio Baldi. Tekoha, Marco Bechis. Aventuras de um homem invisível, Maria de Medeiros. Kreuko, Beto Brant e Cisco Vasques. Yerevan – O visível, Atom Egoyan
A narrativa do sensível filme de André Novais Oliveira, da produtora Filmes de Plástico, se passa em pouco mais de 24 horas. Zeca (Renato Novaes) tem dificuldades para acordar devido aos medicamentos contra depressão que faz uso. Chega atrasado mais uma vez no trabalho, ele é bibliotecário de uma escola em Betim. Luísa (Grace Passô) é incumbida de informar ao funcionário que ele está demitido. No fim do dia, Luísa oferece carona a Zeca, pois tem um compromisso em Belo Horizonte.
A produtora Filmes de Plástico tem notoriedade no cinema independente brasileiro devido às temáticas de seus filmes e ao estilo de filmagens. As locações de O dia que te conheci são as ruas periféricas das cidades. A escola, os bares, os ambientes comerciais, a moradia de Zeca, representam a vida comum das pessoas que lutam no dia a dia pela sobrevivência.
Entre a demissão e uma noite de sexo, o terno encontro entre Zeca e Luisa se desenvolve de forma simples, com direito aos chamados “tempos mortos” (expressão cunhada pelos cineastas clássicos americanos para cortar cenas que não movem a narrativa em termos de conflitos): a longa conversa entre o casal no carro, a caminhada em quase silêncio pelas ruas ao anoitecer, o enquadramento final da padaria em uma esquina do bairro. Lindos, esses “tempos mortos”.
Estômago II: o poderoso chef (Brasil, 2024), de Marcos Jorge.
O filme abre com Don Caroglio em pé na ponta de uma grande mesa. Os convidados, todos homens, estão sentados diante de diversos pratos ainda encobertos. À medida que abre cada prato, Don Caroglio discursa sobre o poder dos alimentos e dos homens, até que pára atrás de um dos convidados e o estrangula até a morte.
Corta para cena de Raimundo Nonato, o Alecrim, preparando alimentos na cela da prisão. Com pratos nas mãos, Alecrim caminha pelos corredores para servir aos dois mandatários do presídio: o diretor da prisão e Etcétera, líder dos presos. A harmonia dentro do presídio, administrada pelos dois, vai ser quebrada com a chegada de Don Caroglio, líder da máfia siciliana preso no Brasil.
Estômago II narra duas tramas paralelas que se cruzam no presídio. Flashbacks contam a história do italiano Roberto, ator e cozinheiro, apaixonado por Valentina, filha de um mafioso. O espectador acompanha a transformação de Roberto no poderoso e violento Don Caroglio. No presídio, a trama segue a violenta relação entre Don Caroglio e Etcetera pela disputa do poder, com Alecrim, cozinhando para os dois lados, funcionando como uma espécie de conselheiro.
O filme foi realizado no esquema de coprodução, contando com intérpretes brasileiros e italianos, assim como cenas gravadas nos dois países. O destaque da trama é a ascensão do pacato e apaixonado Roberto em um bandido capaz de explodir seu próprio restaurante e dizimar uma família inteira de mafiosos. Alecrim, com participação menor do que na obra original, dá o tom humorístico da película.
Elenco: João Miguel (Raimundo Nonato), Nicola Siri (Roberto/Dom Caroglio). Violante Placido (Valentina Galante), Paulo Miklos (Etcétera), Giulio Beranek (Salvatore Galante).
O solar dos prazeres noturnos (Brasil, 2024), de Matheus Marchetti.
O filme abre com plano fechado em Rodrigo Escher (Bruno Germano) pintando um retrato. O modelo é um jovem jornalista, interessado em escrever uma história sobre Rodrigo, ex-ator mirim de sucesso que abandonou a profissão após um surto psicótico no set de um dos programas.
O próprio Rodrigo conta sua história, assumindo seus problemas psicológicos como uma herança da família. Seus antepassados foram sádicos assassinos, sua mãe sofre com delírios e alucinações, assim como sua irmã. Todos vivem enclausurados em uma suntuosa casa, onde os surtos se convertem em pesadelos de filmes de horror.
Referências a contos de Edgar Allan Poe compõem a narrativa. As cenas de sadismo remetem ao universo sedutor dessa histórias do gênero, mesclando sangue e sexo em ousadas cenas do universo LGBTQ+. O final em aberto é outra demonstração que o cinema brasileiro contemporâneo assumiu as convenções estéticas e narrativas do gênero, com a ousadia erótica que marca nosso cinema desde a pornochanchada e o terrir de Ivan Cardoso e José Mojica Marins.
Elenco: Com Bruno Germano, Anna Preto, Tuna Dwek, Natan Cardoso,Natt Mazzoni, Vinícius Précoma.
A erva do rato (Brasil, 2008), de Júlio Bressane e Rosa Dias.
São apenas dois personagens em cena durante todo o filme, enclausurados em uma casa perto do mar. Os dois, seus nomes nunca são revelados, se conhecem em um cemitério e o jovem, num rompante, diz que vai cuidar da jovem durante toda a vida.
Em casa, ele lê histórias que ela nota rapidamente. Mais tarde, começam um jogo erótico de fotografias: ele a fotogrando primeiro vestida, depois nua, em poses sensuais, incluindo foco explicíto em suas partes íntimas. Quando um rato começa a destruir as fotografias, a narrativa ganha ainda mais um tom sombrio, deprimente, com leituras simbólicas e metafóricas.
Júlio Bressane, pai do cinema marginal ao lado de Rogério Sganzerla, adaptou de forma livre dois textos de Machado de Assis: Um esqueleto e A causa secreta. Selton Mello e Alessandra Negrini praticam um verdadeiro tour de force de interpretação minimalista, com diálogos frios, mas repletos de insinuações, gestos que denotam uma distância respeitosa, mas plenos de erotismo. Pode-se dizer o mesmo do rato, que transita entre os dois despertando fúria e entrega ao destino – anunciando a erva do rato.
Quando o tempo cair (Brasil 2006), de Selton Mello.
Em seu primeiro filme como diretor, um drama melancólico realizado em 16mm, Selton Mello fez uma aposta ousada: escalou como protagonista Jorge Loredo, mais conhecido pelo eterno Zé Bonitinho.
Loredo interpreta Ivan, um homem idoso, já aposentado, que mora em um pequeno apartamento junto com o filho e o neto. O filho está desempregado e sofre com a depressão, motivo que leva Ivan a procurar emprego para o sustento da família.
O curta-metragem aborda questões importantes e crueis da sociedade brasileira como o etarismo no mercado de trabalho e a depressão entre os jovens. Ivan enfrenta isso com resignação e otimismo, como quem sabe que não tem o que fazer diante dos problemas que o acometem, mas não perde a esperança e o olhar carinhoso para a vida, como na cena final, contemplando sua família na praça.
Vidas secas (Brasil, 1963), de Nelson Pereira dos Santos.
A morte da cachorra Baleia é uma das cenas mais tristes do cinema brasileiro. Ela olha uma última vez para os roedores à distância, sem disposição para persegui-los. Baleia se deita e fecha os olhos sonolenta.
Vidas secas foi filmado em Mirador do Negrão, município paupérrimo (ainda hoje), próximo a Palmeira dos Índios, onde viveu, e foi prefeito, Graciliano Ramos. Nelson Pereira dos Santos, pioneiro do cinema novo brasileiro com seu filme Rio 40 graus (1955), fez escolhas técnicas e estéticas para se aproximar ao máximo da narrativa do romance.
Os diálogos quase não existem, os personagens, principalmente os protagonistas Fabiano (Átila Iório) e Sinhá Vitória (Maria Ribeiro) trocam frases curtas e inacabadas, como se nada precisasse ser dito diante do sol arrasador. Não há trilha sonora, o som direto capta as sensações do sertão e, em alguns momentos, agride os sentidos do espectador, como o estridente barulho do ranger das rodas do carro de boi. A câmera na mão, tremida, é também um retirante, acompanhando Fabiano e sua família pelas paisagens desertas. A fotografia, feita com luz natural forte, sem filtros, aproveita a inclemência solar para ampliar a sensação de decrepitude dos cenários e dos retirantes.
“A fotografia e o som do filme são os exemplos mais claros desse movimento, na base do próprio deslocamento da equipe às locações em Alagoas. Vidas secas, nesse sentido, é um filme de sensações, marcado pelo som e pela luz do sertão, em seu modo de serem incorporados artisticamente na forma cinematográfica. A luz forte das imagens foi um grande achado original de Luiz Carlos Barreto, que concebeu a proposta de fotografia com o apoio de Nelson. É uma luz que machuca os olhos. A luz estourada ao fundo, como bem nota Nelson Pereira, faz com que a composição fotográfica tenha que ser feita nos rostos – é o que sobra como matéria na intensidade do branco do céu, que inunda a imagem e impregna a natureza.” – Fernão Pessoa Ramos.
O filme começa e termina de forma semelhante, adotando a clássica estrutura circular das narrativas. “Um atrás do outro, primeiro surgem a cachorra Baleia, então Sinhá Vitória, Fabiano e os dois meninos, seus filhos. Como o filme vai mostrar, eles vêm de um lugar indefinido para chegar em outro.” – André Miranda
No final, as duas crianças caminham lentamente, atrás vem Sinhá Vitória, por fim, Fabiano, todos carregando pesados pertences e mantimentos apoiados nas cabeças. Ouve-se o som forte de um berrante, a família contorna a cerca que divide a estrada, olha para a paisagem agreste e segue em frente. A câmera não os acompanha, filma os quatro lado a lado de costas (como na bela cena final de Tempos modernos – 1936, de Charles Chaplin) se afastando, se afastando… Falta alguém nesse belo e triste enquadramento.
Referências:
100 melhores filmes brasileiros. Paulo Henrique Silva (org.). Belo Horizonte: Letramento, 2016. Nova história do cinema brasileiro. Volume 2. Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman (organização). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2018
Dona Lurdes – o filme (Brasil, 2024), de Cristiano Marques. Dona Lurdes – o filme se insere nas modernas produções transmídias, começando com a novela Amor de mão (2019), cujas variações incluem ainda o romance Diário de Dona Lurdes. Manuela Dias é a autora de todos os formatos.
No filme, a mãe protetora interpretada por Regina Casé tem que lidar com a síndrome do ninho vazio, quando Ryan, único filho que ainda morava com ela, sai de casa. Dona Lurdes inicia uma amizade com Zuleide, sua nova vizinha, que a incentiva a buscar um novo relacionamento amoroso.
Com diversas participações de atores e atrizes do elenco global, o filme é claramente sustentado pela atuação nonsense, irreverente e provocativa de Regina Casé. O destaque, negativo, fica por conta de um Evandro Mesquita deslocado, no papel do bom moço apaixonado Mário Sérgio. Ator e personagem não combinam, pois todo espectador sabe o que esperar do grande Evandro Mesquita quando entra em cena.
Elenco: Regina Casé (Dona Lourdes), Evandro Mesquita (Mário Sérgio), Arlete Salles (Zuleide), Thiago Martins (Ryan), Chay Suede (Danilo), Jéssica Ellen (Camila), Nada Costa (Érica), Juliano Cazarré (Magno).
Suellen trabalha como cobradora de pedágio nas imediações de Cubatão. Ela vive com seu namorado Eraldo e o filho adolescente Tiquinho, que passa os dias entre os estudos e gravando vídeos para a internet se insinuando como transformista. Suellen descobre que Eraldo está envolvido com atividades criminosas e o expulsa de casa.
A diretora Carolina Markowicz e a atriz Maeve Jinkings repetem a parceria do primeiro longa da diretora, Carvão (2022). O tema do filme é a relação conflituosa entre Suellen e seu filho, com decisões que abrem a reflexão sobre o fanatismo religioso e o preconceito. Suellen recorre a um Pastor que ganhou renome no procedimento de “cura-gay”, tentando matricular Tiquinho no curso. Como o “tratamento” é caro, Suellen se alia a Eraldo, fornecendo informações sobre os viajantes que passam pelo pedágio com potencial para serem assaltados na estrada.
Pedágio participou de importantes circuitos internacionais, entre eles o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de San Sebastian. O filme foi um dos pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2024 e recebeu diversos prêmios no Brasil, consolidando o nome de Carolina Markowicz como uma das mais promissoras diretora do cinema nacional contemporâneo.
Elenco: Maeve Jinkings (Suellen), Kauan Alvarenga (Tiquinho), Aline Marta Maia (Telma), Thomás Aquino (Arauto), Isac Graça (Pastor Isac).
São Paulo, sociedade anônima (Brasil, 1965), de Luiz Sérgio Person.
O diretor Luiz Sérgio Person foi uma espécie de representante isolado do cinema novo em São Paulo. O cinema novo se consolidou com a filmografia de dois grupos de cineastas, baianos e cariocas, que se juntaram na cidade maravilhosa refletindo, debatendo e praticando um cinema contestador, revolucionário, sempre centrando suas histórias na Bahia e no Rio de Janeiro.
“São Paulo S/A possui a particularidade de se inserir no rodamoinho temático e existencial que atinge o novo cinema brasileiro no pós-1964. Dialoga de modo frontal com esse contexto, mesmo situando-se na exterioridade do grupo cinemanovista. Luiz Sérgio Person tem a origem de sua carreira nos quadros que sobreviveram isolados ao desmonte dos grandes estúdios como Mojica e Candeias.” – Fernão Pessoa Ramos.
São Paulo, sociedade anônima tem como protagonista Carlos (Walmor Chagas), um jovem funcionário de uma fabrica de auto-peças para o mercado automobilístico. Ele é casado com Luciana (Eva Wilma), jovem da classe média emergente paulistana, mas mantém casos amorosos com outras duas mulheres: Ana (Darlene Glória), uma ambiciosa jovem disposta a subir na vida, e Hilda (Ana Esmeralda), uma intelectual amargurada que acaba cometendo suicídio.
A cidade de São Paulo é a personagem que move todas as engrenagens, não só desses relacionamentos, mas da sociedade que vive em constantes conflitos, motivados pelo progresso caótico cujo maior representante é a indústria automobilística. Carlos se vê cada vez mais sufocado pelas cobranças de se projetar social e economicamente, impelido até mesmo a se tornar sócio de seu chefe, que usa dos artifícios inerentes à corrupção para fazer bons negócios com as montadoras de automóveis.
“O protagonista Carlos tem consciência social da exploração e da miséria, mas não é isso que o atormenta ou o move. A bruma do vazio está mais embaixo. Ela reduz a velocidade do seu ser no mundo, fixando-a ao espectro da melancolia em meio a uma metrópole pujante que vibra. A inutilidade e o desinteresse tudo empastela, até desembocar na inutilidade da vida e no horizonte do suicídio.” – Fernão Pessoa Ramos.
A narrativa segue a jornada de Carlos de forma fragmentada, usando os seus relacionamentos com as três mulheres como se fossem episódios que se interligam. Nos intervalos destes encontros, Carlos vaga errante pela cidade abarrotada de pessoas e veículos, todos correndo alucinados, apavorados, mas sedentos, diante do progresso mais veloz do que todos.
“É o espírito caótico e devorador da cidade que o roteiro soube captar, mostrando com crueza o que ela oferece e o que cobre de volta, o preço humano da industrialização e da mecanização da vida e das relações sociais. Tem ainda momentos clássicos e que resistiram ao tempo: a silhueta de Ana diante da imagem da cidade, o começo em que o casal dialoga em lugares diferentes, a visita a mãe com clima felliniano.” – Rubens Ewald Filho
Pacarrete (Marcélia Cartaxo), 70 anos, é uma professora de balé aposentada. Ele vive com sua irmã, a cadeirante Chiquinha (Zezita Matos), em Russas, pequena cidade do interior do Ceará. A prefeitura está preparando uma grande festa em comemoração ao aniversário da cidade e Pacarrete insiste, junto aos organizadores, em fazer uma apresentação solo de balé. Sua proposta é rejeitada, sob o argumento de ser uma festa planejada somente com atrativos populares.
A interpretação de Marcélia Cartaxo é o grande trunfo do filme. Sua personagem carrega um rancor cotidiano, irrompendo aos impropérios com todos à sua volta. A exceção é o dono de mercearia Miguel (João Miguel), por quem nutre uma paixão secreta.
O filme ganhou inúmeros prêmios, incluindo o de Melhor Filme e de Melhor Atriz no Festival de Gramado. Baseado em fatos reais, a narrativa acompanha a jornada de Pacarrete em defesa de sua arte. Por trás de uma mulher amargurada (algo em seu passado como professora na capital), raivosa e agressiva, está a bailarina apaixonada pela dança.
Postergados (Brasil, 2016), de Carolina Markowicz.
Três pessoas são entrevistadas em diferentes locais: um médico corrupto que será responsável pela morte de um motorista; um homem já morto que foi induzido por sua esposa a tomar um remédio que provocou sua morte; uma cartomante charlatã que descobre que pode fazer uma única pergunta antes da passagem para a vida após a morte.
A edição fragmentada, cuja montagem alternada confunde o espectador com as histórias dos personagens que transitam entre a vida, a morte e a pós-morte é o grande trunfo do filme. O curta foi filmado em Porto Alegre, com intérpretes uruguaios de renome nos papéis principais: César Bordon, Mirella Pascual e José Luis Arias.
O destaque é a história envolvendo a cartomante, que anuncia a Edna, uma cliente, que ela vai morrer no dia 16 de junho. Durante a consulta, conversando sobre as possibilidades da morte, a cartomante diz a Edna: “Somos cadáveres postergados, como dizia Fernando Pessoa.” Atenção para o belo e sensível conjunto de imagens ao som de Gracias a La Vida.
Namoro à distância (Brasil, 2017), de Carolina Markowicz.
No início da narrativa, voz em off discorre sobre algumas fobias comuns entre as pessoas, como medo de avião, e revela: “Não tenho medo de nada. Não odeio nada. Não tenho grandes ambições. O meu único desejo é poder, um dia, praticar atividade sexual com um extraterrestre.”
O curta, de apenas cinco minutos de duração, acompanha o protagonista, que se muda para Varginha (claro), após se inscrever em um programa de disk sexo com Ets. Carolina Markowicz compõe um universo absurdo e surrealista, por meio de um estilo que transita entre animação, live-action e uma forte referência da estética noir.
Namoro à distância consolida o talento da diretora com uma narrativa curta, potente e provocativa, abordando os inconfessáveis desejos humanos.
Edifício Tatuapé Mahal (Brasil, 2014), de Fernanda Salloum e Carolina Markowicz.
A premiada Carolina Markowicz estreou na direção com este curta de animação provocador, instigante, realizado em coautoria com Fernanda Salloum. O espectador está diante de uma maquete de um típico show room de lançamento imobiliário. O boneco argentino Javier trabalha como corretor neste empreendimento e sua jornada passa por conflitos com os clientes, com seus patrões e por seus relacionamentos amorosos.
A animação em stop-motion trata de temas como exploração do trabalhador. Em determinado momento, narração em off de Javier reclama de suas longas jornadas de trabalho, pois é exposto na maquete de sol a sol. Javier relata o sofrimento de um companheiro de trabalho que é obrigado a andar de bicicleta por tempo indefinido na área do prédio.Frustrado com sua realidade, Javier viaja pela Europa e, na Polônia, se entrega a experiências de um grupo de cirurgiões especializados em transformar bonecos de maquete.
Edifício Tatuapé Mahal conquistou 20 prêmios em diversos festivais mundo afora. É mais um reconhecimento da potência dos filmes de animação produzidos no Brasil.
O órfão (Brasil, 2018), de Carolina Markowicz, ganhou o prêmio Queer Palm no Festival de Cannes. A narrativa acompanha a jornada do menino Jonathas (Kauan Alvarenga). Ele vive em um orfanato e um jovem casal se dispõe a adotá-lo. Durante o período de experiência, já na sua nova casa, Jonathas revela seu jeito afetivo e delicado, provocando conflitos com seus novos pais. Após um breve período, Jonathas é devolvido ao orfanato e volta a lidar com o sentimento de rejeição.
O órfão retrata com uma sensibilidade dolorosa as questões identitárias na infância, negadas pelo preconceito arraigado na estrutura familiar; mesmo um casal formado por jovens não consegue lidar com as sutis descobertas de Jonathas sobre sua sexualidade.
Letícia, Monte Bonito, 04 (Brasil, 2020), de Julia Regis.
É uma tarde quente de verão em uma “venda” de beira de estrada no interior do Rio Grande do Sul. Laís (Eduarda Bento) está sentada no banco da entrada do sobrado, esperando o pai. Ela ouve música no andar de cima e, curiosa, entra pela casa. Letícia (Maria Galant) a surpreende, depois a convida para conhecer o quarto.
O curta de Julia Regis, vencedor do Prémio do Público no Mix Brasil, acompanha com lentidão o relacionamento entre as duas jovens. Elas se divertem em brincadeiras inocentes com bichos de pelúcia, ouvem CDs, dançam ao som de MPB, tentam se refrescar no ventilador. Passo a passo o flerte, leves toques e insinuações delineiam uma sensível e delicada descoberta.
Vaga carne (Brasil, 2019), de Grace Passô e Ricardo Alves Jr.
A peça Vaga Carne, escrita e encenada por Grace Passô, foi apresentada ao público em 2016. A própria autora trabalhou na adaptação para o cinema, em conjunto com Ricardo Alves Jr.. O princípio conceitual é basicamente o mesmo: uma estranha voz toma posse do corpo de uma mulher. O monólogo, uma interação entre voz e corpo, percorre a narrativa, transitando entre reflexões sobre pertencimento, papeis dentro da sociedade, questões estruturais de gênero e preconceito racial.
“Ao levar a peça para o Cinema, em 2018, (…) Grace, por outro lado, possuía uma diferente forma de provocação: uma dramaturgia própria a se traduzir em roteiro para audiovisual; quarenta e cinco minutos de uma protagonista invisível – a voz – falando a frente de uma tela-imagem. A dualidade, porém, cai por terra à medida que o choque entre personagem-cenário se mostra mais homogêneo do que oposicionista, afinal, se a voz invisível quer ser ouvida, o corpo da mulher negra ali estampado também quer ser visto.” – Antonio Pedroni
Vaga Carne seria exibido em sessões duplas, junto com outro média-metragem Sete anos em maio(Brasil, 2019), de Affonso Uchoa. No entanto, o isolamento social provocado pela pandemia não permitiu essa estratégia e cada filme foi lançado de forma isolada no streaming.
Referência: Vaga carne e a intermidialidade teatro-cinema na história do cinema brasileiro. Antonio Pedroni. Monografia apresentada como trabalho de conclusão de curso. PUC MINAS: Curso de Cinema e Audiovisual, 2021.
Incêndios cobrem o horizonte. É agosto, Lúcia (Badu Morais), uma jovem enfermeira, está grávida. Em uma festa, ela ouve o som lamentoso de um pássaro que, logo a seguir, cai morto diante dela. O sinal de mau agouro a coloca em alerta e, à medida que consulta médicos, frequenta uma igreja evangélica, descobre que algo pode estar errado em sua gravidez. A narrativa segue Lùcia em sua jornada de entendimento de sua gravidez tardia e a atração que ela sente por uma amiga, também frequentadora da igreja da comunidade.
A roteirista e diretora Jasmin Tenucci diz que teve a inspiração para o filme em um dia que nuvens de fumaça escureçam a cidade de São Paulo. O curta-metragem recebeu vários prêmios em 2021, entre eles a Menção Especial no Festival de Cannes.
Elenco: Badu Morais, Lilian Regina, Luci Pereira, Ernani Sanches.
O média-metragem Sete anos em maio (Brasil, 2019), de Affonso Uchoa, foi concebido para ser exibido em sessões duplas com outro média-metragem, Vaga Carne (Brasil, 2019), de Grace Passô. No entanto, o isolamento social decorrente da pandemia abortou o projeto e os dois filmes foram lançados separados no streaming.
O filme de Affonso Uchoa começa com uma encenação de um fato real: o trabalhador Rafael caminha à noite para casa e é abordado por policiais, interpretados por jovens que se vestem de forma caricatural e conversam em tom de brincadeira sobre os artefatos que carregam – armas. Segue-se uma sequência de agressões e tortura, pois Rafael fora confundido com um traficante. Os policiais exigem dinheiro de Rafael. Acuado, o jovem foge para São Paulo, onde vive parte dos sete anos em um processo de degradação social: torna-se viciado em crack, envereda para o tráfico, retorna a Belo Horizonte onde segue seu destino de vício e tráfico. Sua vida fora destroçada pela polícia.
Essa segunda parte da narrativa é revelada pelo próprio Rafael, em uma noite fria diante de uma fogueira. A princípio, o espectador pensa que ele conta sua história para a câmera, em um longo e bem construído plano sequência. Percebe-se que, na verdade, Rafael conversa com outro homem, que também fora vítima de agressão e extorsão policial.
O estilo contemporâneo de documentário/ficção é a marca de Sete anos em maio. O filme é curto e minimalista, explorando a dor de Rafael através de uma fotografia expressionista, planos fechados e longos. A encenação da realidade provoca no filme de Rafael Uchôa um encontro doloroso com as memórias de quem sofreu a violência, a tortura, vivendo sete anos no inferno.