Tag: Brasil

  • Os inconfidentes

    A partir dos anos 70, parte do cinema brasileiro foi gerido pela intervenção do Estado, seja através de financiamento, com a criação da Embrafilme, seja através da censura. Proliferam dois tipos de produção: a pornochanchada, cinema praticado com baixos recursos na Boca do Lixo paulista, e filmes com temáticas históricas.

    Os inconfidentes se enquadra no segundo eixo, com um diferencial: é dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, dos principais articuladores do Cinema Novo, portanto, rebelde por natureza. Com roteiro do próprio diretor e de Eduardo Escorel, os diálogos foram criados a partir de material dos autos da devassa e versos de Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cecília Meireles. O filme é ousado na proposta ideológica e na concepção de linguagem cinematográfica.

    A narrativa é centrada nos intelectuais que participaram da idealização do levante. É quase teatro filmado, com os atores declamando versos entre eles e, por vezes, se voltando para a câmera em conversa com o espectador. A montagem fragmentada, com idas e vindas temporais, demonstra a capacidade de Joaquim Pedro de Andrade em inovar, mesmo em um filme marcado pela narrativa histórica. Nas palavras de Fernão Ramos, discordar parece ser a marca dos integrantes do Cinema Novo que buscaram alternativas às propostas cinematográficas estipuladas pelos militares na ditadura.

    “O diálogo dos cinemanovistas com estas proposições foi imediato. OS INCONFIDENTES (direção de Joaquim Pedro de Andrade, 1972), faz absoluta questão de discordar. Subversão temporal, diálogos literários retirados dos autos da devassa da Inconfidência e da poesia de Cecília Meireles estão presentes numa narrativa centrada não em Tiradentes mas nos intelectuais do movimento. Uma obra sofisticada, colocando em cena a discussão histórica, mas extrapolando para um questionamento do papel dos intelectuais e também da própria linguagem cinematográfica. O Cinema Novo respondia pesado ao oficialismo histórico do movimento, radicalizava e patinava junto ao público. OS INCONFIDENTES é um filme ousado e amargo, indicador de uma época difícil, em que mudanças eram inevitáveis, arrastando em sua esteira os que se opunham a uma incipiente, mas potencialmente forte, expansão cinematográfica. Estado e mercado pareciam prestes a emparedar a vitalidade cinema-novista.”

    Referência: História do Cinema Brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

    Os inconfidentes (Brasil, 1972), de Joaquim Pedro de Andrade. Com José Wilker (Tiradentes), Luiz Linhares (Tomás Antônio Gonzaga), Paulo César Pereio (Bueno da Silveira, Fernando Torres (Cláudio Manoel da Costa), Carlos Kroeber (Alvarenga Peixoto), Nelson Dantas (Luís Vieira da Silva), Carlos Gregório (José Álvares Maciel), Fábio Sabag (Visconde de Barbacena), Wilson Grey (Joaquim Silvério dos Reis), Tereza Medina (Bárbara Heliodora).

  • Uma quase dupla

    A investigadora Keyla chega à cidade de Joinlândia para elucidar crime que se anuncia como a primeira investida de um serial killer. Sua dupla de trabalho é Cláudio, morador da cidade. Enquanto os crimes acontecem, Keyla e Cláudio enveredam por trapalhadas típicas do gênero comédia de duplas de policiais. 

    Tatá Werneck é a estrela do filme, proporcionando momentos engraçados bem ao seu estilo de disparar diálogos como metralhadora. Cauã Reymond faz o estilo policial galã, preocupado em tingir os cabelos e posando para o espelho. O roteiro não ajuda os atores, os clichês se sucedem crime a crime. Resta ao espectador se entregar ao carisma dos protagonistas. 

    Uma quase dupla (Brasil, 2018), de Marcos Baldini. Com Tatá Werneck (Keyla), Cauã Reymond (Cláudio), Ary França (Moacyr), Alejandro Claveaux (Augusto).  

  • Torquato Neto – Todas as horas do fim 

    Natural de Teresina/Piauí, Torquato Neto (1944/1972) foi dos mais ativos e precoces integrantes do grupo cultural que inovou a música, as letras e o cinema entre os anos 60 e início da década de 70. Poeta, letrista, ator, cineasta, cronista cultural, Torquato transitou pela arte com intensidade trágica. 

    Os diretores do documentário se debruçam sobre a breve vida do artista (Torquato se matou aos 28 anos de idade) com sensibilidade. A narrativa usa poemas e textos do autor, lidos por Jesuíta Barbosa; fotografias de Torquato e cenas de suas participações em filmes de Ivan Cardoso; imagens de películas importantes do cinema novo e cinema marginal; depoimentos de artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Tom Zé, Jards Macalé, entre outros. Registros históricos apresentam Gal Costa e outros famosos interpretando belas canções compostas por Torquato Neto.  

    Torquato Neto – Todas as horas do fim é poesia do início ao fim. Poesia nas letras das canções, nas cartas, nas fotos do belo Torquato, nas imagens dos filmes, nos textos. Documentário para ouvir, ver e rever. 

    Torquato Neto – Todas as horas do fim (Brasil, 2018), de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

  • Temporada

    Uma das marcas da estética neorrealista é a câmera centrada no cotidiano de personagens em atitudes comuns do dia-a-dia. Algo como deixar o espectador contemplar o vagar do dia. Temporada parte deste princípio, seguindo a rotina de Juliana e seus colegas de trabalho na periferia de Contagem. Ela trabalha no combate a endemias, batendo à porta das casas para revirar entulhos à cata de pragas. As lentes acompanham a monotonia dos atos, em outros momentos centra o foco na tentativa de Juliana interagir e se divertir do jeito que é permitido nestes recantos da cidade. Nada de mais acontece na vida de Juliana: ela espera a chegada do marido, tenta novos relacionamentos e, no fim, pratica um ato transgressor. 

    Temporada ganhou o Grande Prêmio do Festival de Brasília por conta de dois nomes promissores no cinema nacional: o diretor André Novais e a atriz Grace Passó.

    Temporada (Brasil, 2018), de André Novais Oliveira. Com Grace Passó, Russo APR, Rejane Faria, Hélio Ricardo. 

  • O beijo no asfalto

    O clássico texto de Nelson Rodrigues é conhecido: homem sofre acidente na rua e, pouco antes de morrer, pede um beijo na boca ao homem que tenta socorrê-lo. O pedido é atendido à vista de todos, inclusive um repórter que cobre casos policiais. Com ousadia, o ator Murilo Benício, em seu primeiro trabalho como diretor, transforma a peça em interação entre teatro e cinema, fotografada na bela estética noir, em preto e branco. 

    Reunidos à mesa, no teatro, os atores ensaiam o texto, orientados pelo dramaturgo Amir Haddad. Montagem paralela intercala os diálogos com cenas do filme pronto. Lázaro Ramos, Débora Falabella e Stênio Garcia interpretam o trio de protagonistas. Otávio Muller é o jornalista inescrupuloso que manipula os fatos relacionados ao beijo para vender jornal. O beijo no asfalto é importante e atual em tempos das fake news. 

    O beijo no asfalto (Brasil, 2017), de Murilo Benício. Com Fernanda Montenegro, Débora Falabella, Lázaro Ramos, Stênio Garcia, Otavio Muller, Augusto Madeira.

  • Cartas para um ladrão de livros

    O documentário aborda a trajetória de Laéssio Rodrigues, ladrão de livros raros e gravuras valiosas do acervo de instituições públicas. A compulsão de Laéssio pela prática começa com a paixão por Carmem Miranda – para incrementar sua coleção de imagens, ele rouba fotos, artigos, revistas, tudo relacionado à cantora. Descobre a fragilidade das instituições com os acervos e passa a roubar livros raros, revendendo-os no mercado negro, acumulando dinheiro e bens materiais.

    Os documentaristas partem de cartas trocadas com Laéssio na prisão. Grande parte da narração é feita pelo próprio ladrão de livros, entre os intervalos que sai do cárcere. O tom da narrativa é pessoal: Laércio reflete sobre seus atos, consequências e arrependimentos; as leituras das cartas revelam dúvidas dos diretores sobre o próprio documentário; depoimentos de arquivistas escancaram a revolta com o desaparecimentos de acervos valiosos. 

    Cartas para um ladrão de livros (Brasil, 2018), de Carlos Juliano Barroso e Caio Cavechini.

  • Chacrinha: O velho guerreiro

    A história do popular e histriônico Abelardo Barbosa se confunde com a história do rádio e da TV no Brasil. Adaptado do espetáculo Chacrinha, o Musical, também dirigido por Andrucha Waddington e interpretado por Stepan Nercessian, o filme começa com o jovem Abelardo Barbosa em um navio, rumo à Europa. O navio é forçado a aportar no Rio de Janeiro devido a conflitos da Segunda Grande Guerra. 

    Fascinado pela cidade maravilhosa, Abelardo, natural do Recife, decide ficar. Arruma emprego como animador de porta de loja e logo depois em uma rádio, onde assume a alcunha de Chacrinha. O resto é história. Do rádio para a TV, criando o personagem que arrematou multidões com sua irreverência e seus bordões. Hoje, com certeza, Chacrinha seria execrado por suas atitudes politicamente incorretas. Nos tempos áureos da TV ao vivo, era sinônimo de Ibope. 

    Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian brilham na caracterização das fases do velho guerreiro. Os bastidores da TV, da política brasileira nos anos de chumbo da censura, ícones do mundo artístico que passaram pelos palcos do programa; tudo confere ao filme ar nostálgico e enriquecedor de nossa cultura popular. 

    Chacrinha: o velho guerreiro (Brasil, 2018), de Andrucha Waddington. Com Stepan Nercessian, Eduardo Sterblitch, Gianne Albertoni, Laila Garin, Carla Ribas, Rodrigo Pandolfo.

  • O banquete

    A diretora Daniela Thomas buscou inspiração em fatos do início da década de 90 para reunir elenco de peso em torno da mesa de jantar. A primeira inspiração vem de memórias de jantares oferecidos em sua casa; a segunda, da carta escrita pelo jornalista Otávio Frias Filho ao presidente Collor.

    O banquete começa com Nora inspecionando a mesa preparada para receber convidados do universo do teatro e da imprensa. Ela chora diante da mesa, evidenciando o tom de depressão que vai ditar a narrativa. Os convidados são Mauro, famoso diretor de teatro que escreveu uma carta ao presidente Collor e corre risco de ser preso; sua mulher Bia, atriz de sucesso; dois jornalistas culturais; o marido de Nora, advogado; a estranha mulher-gato e Claudinha, espécie de dama de companhia de Bia. O jovem chef Ted assiste a tudo com fascinação. 

    A estrutura teatral da narrativa abre possibilidades para o elenco despejar diálogos sobre cultura, sexo, política e dramas pessoais. O ponto forte do filme é o embate final entre Nora e Bia, entre Drica Moraes e Mariana Lima, duas grandes personagens nas mãos de duas grandes atrizes.  

    O banquete (Brasil, 2018), de Daniela Thomas. Com Drica Moraes (Nora), Mariana Lima (Bia Moraes), Caco Ciocler (Plínio), Rodrigo Bolzan (Mauro), Fabiana Gugli (Maria), Gustavo Machado (Lucy), Chay Suede (Ted), Bruna Linzmeyer (Catwoman), Georgette Fadel (Claudinha). 

  • A vida extra-ordinária de Tarso de Castro 

    O documentário me remeteu aos tempos românticos do jornalismo, uma de minhas formações. Os diretores Leo Garcia e Zeca Brito tentam traçar um perfil (se é que é possível) da vida e carreira do jornalista Tarso de Castro, um dos criadores do Pasquim e outros importantes títulos do jornalismo brasileiro, como Folhetim. As histórias giram em torno da rebeldia do jornalista; trechos documentais mostram como Tarso lutava no meio jornalístico, não se rendendo a imposições dos donos dos jornais e nem do sistema político (na época, a ditadura militar). O lado romântico fica por conta do comportamento destes rebeldes no exercício da profissão. “A redação não era extensão do bar, o bar era a redação” – declara um dos entrevistados. Documentário imperdível em um momento de questionamentos sobre a prática jornalística nos grandes meios de comunicação.

    A vida extra-ordinária de Tarso de Castro (Brasil, 2016), de Leo Garcia e Zeca Brito

  • A moça do calendário

    Helena Ignez participou ativamente como atriz dos grupos que construíram o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Foi casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Em sua recente produção como diretora, Helena Ignez traz resquícios destes movimentos que formaram gerações de cineastas e cinéfilos. 

    Inácio trabalha como mecânico, lê Freud, transita pela noite com o olhar sonhador de quem almeja mundos melhores. Em momentos de ócio na oficina na qual trabalha, tem devaneios com a moça do calendário que invade sua imaginação com erotismo e rebeldia, como se o chamasse a sair pelo mundo. 

    A moça do calendário é Lara, militante de esquerda que luta pela reforma agrária e transita pelo MST. Em algum momento os dois podem se encontrar, enquanto isso, desfilam pelo olhar dos personagens a noite marginal paulistana, os segregados, os explorados pelo capitalismo. Belas imagens, texto contundente, crítica social, irreverência dos personagens – a autora Helena Ignez tem um quê de marginal em seu cinema. 

    A moça do calendário (Brasil, 2017), de Helena Ignez. Com André Guerreiro Lopes (Inácio), Djin Sganzerla.

  • Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo

    O documentário é saudosa viagem ao início e apogeu das principais videolocadoras de São Paulo. O diretor Alan Oliveira registrou depoimentos dos personagens que construíram pequenos impérios do entretenimento: fundadores da Vídeo Norte, 2001 Vídeo, Real, Hobby, entre outros pioneiros. Críticos, jornalistas e frequentadores depõem sobre a magia de entrar em uma loja e ficar tempo indefinido entre as prateleiras de filmes. Tom comum entre as declarações é a possibilidade que as videolocadores proporcionaram de construir relações entre os cinéfilos, alguns pioneiros foram profundos conhecedores da sétima arte que colocaram paixão no ato de alugar filmes, outros, iniciantes que começaram nos corredores o caminho mágico pelo mundo dos filmes. 

    É história comum: todo grande ou pequeno império um dia desaba. As videolocadoras foram sugadas, primeiro pelas megastores, como a Blockbuster, depois pela irrefreável ascensão do streaming. Sobrevivem na memória de pessoas que participaram como criadores ou como espectadores das antológicas prateleiras de videocassetes, depois DVDs, onde os filmes esperavam os apaixonados pelo cinema.  

    Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo (Brasil, 2017), de Alan Oliveira. 

  • Cidades fantasmas

    A tristeza que permeia o documentário atinge a alma com o poder das imagens do cinema. A câmera de Tyrell Spencer documenta quatro cidades no continente sul americano que foram abandonadas por motivos de decadência econômica, catástrofes naturais e/ou descaso do governo. As cidades são Humberstone (Chile), Fordlândia (Brasil), Armero (Colômbia) e Epecuen (Argentina).

    As imagens de ruas desertas, casas abandonadas, prédios em ruínas, praças destruídas, comovem, pois remetem diretamente às memórias de pessoas que viveram e foram felizes nos tempos áureos da exploração do salitre, da extração da borracha, das temporadas turísticas. A pesquisa de Tyrell Spencer traz depoimentos de antigos moradores que rememoram tempos felizes, falam da destruição, acusam empresários, políticos e governos pelas derrocadas das cidades que deixaram milhares de pessoas sem lar.

    Os relatos mais impressionantes se referem à erupção do vulcão na Colômbia que destruiu Armero. Segundo moradores, a tragédia seria evitada se as autoridades, que sabiam da iminência da erupção, alertassem a população. Não o fizeram por interesses econômicos, assim como os militares argentinos não impediram a inundação que literalmente afogou a cidade de Epecuén. Cidades fantasmas é o registro/denúncia de como a vida humana é insignificante quando estão em jogo interesses políticos e econômicos.

    Cidades fantasmas (Brasil, 2017), de Tyrell Spencer.

  • Ferrugem

    Ferrugem é dos mais impactantes filmes do cinema contemporâneo brasileiro. A adolescente Tati está às voltas com um pretenso namorado, o introvertido e estranho Renet. Durante final de semana com amigos da escola, Tati perde seu celular. Pouco depois, vídeo íntimo dela com o antigo namorado invade as redes sociais. Este ato criminoso, infelizmente comum nos dias de hoje, desencadeia série de conflitos envolvendo Tati e os meninos e meninas da escola e a família de Renet. A grande virada do filme é das cenas mais chocantes e perturbadoras: Tati sozinha no corredor da escola, em frente à câmera de segurança.

    O filme conquistou importantes prêmios no Brasil. Traz à tona duas gerações envoltas em seu próprios problemas: os adolescentes consumidos pelas redes sociais, sem saber lidar com a gravidade de atos como postar a intimidade alheia no ambiente virtual; os pais que convivem com problemas nos relacionamentos, no mercado de trabalho, no trato com os filhos. Filme que remete à reflexão destes tempos modernos. 

    Ferrugem (Brasil, 2017), de Aly Muritiba. Com  Tiffany Dopke (Tati), Giovanni De Lorenzi (Renet), Enrique Diaz (Davi), Clarissa Kiste (Raquel), Pedro Inoue (Normal).  

  • Benzinho

    Irene, o marido Klaus e seus quatro filhos vivem o cotidiano da classe média brasileira, às voltas com problemas de dinheiro e de relacionamentos. O refúgio é uma decrépita casa de praia, ideal de consumo principalmente de Irene. A virada no roteiro acontece quando o primogênito ganha bolsa para jogar handebol na Alemanha. O descontrole toma conta de Irene diante da possibilidade de se afastar de um dos filhos. 

    A força de Benzinho está em colocar estes conflitos mesclando humor e drama na medida certa. Importantes debates do contemporâneo pontuam a trama: sonhos de consumo da classe média, violência contra a mulher, estresse provocado pelos traumas cotidianos em família (a mãe completamente entregue aos filhos), jovens sem perspectiva que enxergam apenas o aeroporto como saída. A explosão de Irene na cozinha da casa é o grande momento do filme. 

    Benzinho (Brasil, 2018), de Gustavo Pizzi. Com Karine Teles, Otávio Muller, Adriana Esteves, Konstantinos Sarris. 

  • Comeback

    A periferia de Goiânia é o ambiente para Comeback, filme que flerta com o thriller de ação e com o faroeste, carregando na composição psicológica do protagonista. Amador, um matador aposentado, recebe a incumbência de treinar o neto de seu amigo Davi. A relação entre os dois passa pelos relatos de Amador, cujas façanhas estão registradas em um álbum de recortes de jornais, incluindo a famosa chacina em um bar nas imediações. Ao mesmo tempo, dois cineastas fazem pesquisa para um filme e colocam em dúvida as histórias relatadas pelo matador que, segundo um deles, “não tem cara de pistoleiro.”

    A melancolia está expressa nos diálogos entre Amador e seus antigos colegas de profissão, principalmente Davi, que espera a morte em um leito de hospital. Da mesma forma, o caminhar de Amador pelas ruelas à noite (interpretação primorosa de Nelson Xavier em seu último papel), percorrendo bares, tentando sobreviver à custa de instalação de máquinas caça-níqueis, revelam um homem amargurado, bem ao estilo dos pistoleiros decadentes retratados por John Ford e Howard Hawks nos anos 60. O final, que poderia ser a volta do título, é a constatação de que o passado está irremediavelmente impresso nas memórias do matador.

    Comeback (Brasil, 2016), de Érico Rassi. Com Nelson Xavier (Amador), Marcos de Andrade (Neto do Davi), Everaldo Pontes (Davi), Gê Martú (Tio), Sergio Sartorio (Cineasta 1), Eucir de Souza (Cineasta 2).

  • Ana e Vitória

    A dupla Anavitória integra um ritmo musical contemporâneo conhecido como “pop rural”. As duas jovens já conquistaram o Grammy Latino com apenas cinco anos de carreira. O filme Ana e Vitória parte de ideia do produtor das intérpretes para divulgação, se transformando em uma espécie de storytelling em longa-metragem. 

    Ana e Vitória interpretam elas mesmas no momento em que se conheceram. É mistura de documentário e ficção e grande parte da narrativa se passa em ambientes fechados: bares, casas de espetáculos, hotéis. Pontos fortes da narrativa são as músicas e a coragem em retratar as escolhas amorosas das jovens e seus parceiros/parceiras. Amizade, amor, sexo, tudo se confunde de maneira natural à medida que Ana e Vitória descobrem sua música e a si mesmas. 

    Ana e Vitória (Brasil, 2018), de Matheus Souza. Com Ana Caetano, Vitória Falcão, Thati Lopes, Érika Mader, Bruce Gomlevsky, Clarissa Muller.

  • Histórias que nosso cinema (não) contava

    Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

    A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

    Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

  • Yonlu

    YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

    O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

    Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

  • Baronesa

    A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

    Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

    Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

  • O animal cordial

    Inácio é, aparentemente, o tranquilo dono de um restaurante em São Paulo. Uma noite, perto da hora de fechar, três homens invadem o estabelecimento em tentativa de assalto. O que se segue é das mais impressionantes incursões do cinema brasileiro pelo gênero slasher.

    A diretora estreante Gabriela Amaral Almeida reúne personagens dentro do restaurante que representam a tensão de classe, de gênero e outras facetas escondidas da população brasileira. A explosão gradual de Inácio (preste atenção na brilhante cena de Murilo Benício em frente ao espelho e na incrível cena de sexo no chão do restaurante) resulta em sangue para todos os lados. Ninguém é poupado. O animal cordial demonstra a força do cinema brasileiro nas mãos das diretoras.  

    O animal cordial (Brasil, 2017), de Gabriela Amaral Almeida. Com Murilo Benicio, Luciana Paes, Irandhir Santos, Camila Morgado, Ernani Moraes.