Cena de cinema

“Ele é igualzinho aquele ator de cinema.” A irmã deu um pulo da cama assim que Alice entrou aos gritos pela janela.” “Quem?”  “Aquele ator de cinema… do filme que assistimos na semana passada. Vem, vem ver.”

As irmãs dormiam no quarto voltado para a rua, bastava abrir a janela e o movimento estava bem ali. Vez por outra elas se assustavam quando, deitadas na cama, a modorra quente da tarde, abas da janela de madeira abertas, um amigo assobiava, outra amiga pulava de repente no meio do quarto às risadas.

Era assim a vida das meninas: debruçadas na janela, esperando um rosto novo, diferente dos rapazes que passavam três, quatro vezes por dia em frente a casa. No sábado à noite, davam voltas na pracinha da igreja, moças em sentido contrário aos rapazes, olhares se cruzando até enjoarem um do outro.

Alice, mal completados 16 anos, era dois anos mais velha do que a irmã. Há algum tempo elas ludibriavam o horário das nove da noite, estipulado pelo pai, de entrar em casa e se recolherem. Pouco depois das dez, quando a noite encobria com o silêncio aquela casa austera, as meninas destrancavam a taramela da janela e pulavam de volta para a praça.

Naquele sábado chovia como se o céu se desprendesse. Quando Alice entrou esbaforida, encharcando o chão do quarto, repetindo “igualzinho aquele ator de cinema”, a irmã pensou em chamar a mãe para detectar febre na filha. Dedos benignos de mãe, bastava um toque na testa e, pouco depois, compressas de água refrescavam.

Alice juntou a irmã pelas mãos e, quase sem perceber, as duas estavam no passeio da rua, a chuva caindo pesada nos cabelos, nos ombros. “Corre, senão ele vai embora. Olha lá, olha lá…”

Do outro lado da rua, debaixo da pequena marquise de uma das entradas da igreja, um rapaz se escondia da chuva. Apesar do cedo da hora para sábado à noite, a praça estava deserta. A irmã forçou a vista: o estranho vestia um sobretudo cinza, caindo até abaixo dos joelhos. Uma das mãos estava no bolso, a outra, pendente ao longo do corpo, deixava ver brasa entre os dedos. Ela acompanhou o estranho erguer o cigarro até os lábios. A luz fraca do poste impedia que as meninas vissem os traços do rosto. No breve instante em que o cigarro tocou os lábios e a brasa refletiu com um pouco mais de intensidade, o clarão de um relâmpago iluminou a noite, ajudando as meninas a vislumbrarem um rosto moço, moreno, o chapéu escuro encobrindo a cabeça.

“É ou não é igualzinho… o moço que falou tanto coisa bonita no aeroporto.”

Quando viu as irmãs, o estranho tirou lentamente o cigarro dos lábios, soltou uma longa baforada e arredou pé de debaixo da marquise, sentindo a água da chuva bater com força na aba do chapéu. Deixou o cigarro cair no chão e, agora com as duas mãos nos bolsos, atravessou lentamente a rua, provocando sobressaltos nos seios da adolescente Alice, como naquelas noites em frente à tela grande do cinema.

Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

Yonlu

YonluFerrugem e Torquato Neto – Todas as horas do fim compõem filmes do cinema contemporâneo brasileiro que colocam tema tabu em discussão: o suicídio entre jovens. Enquanto Ferrugem é puramente ficcional, Torquato Neto documenta a carreira do poeta/letrista que participou da tropicália. Yonlu parte de um caso real: em 2006, Vinícius Gageiro Marques, 16 anos, se matou em sua casa, em Porto Alegre. O jovem fazia parte de grupos virtuais de jovens que sofriam com a depressão. Ele filmou e transmitiu on-line seu ato final.

O diretor Hique Montanari faz escolhas estéticas ousadas para recriar os problemas enfrentados pelo jovem. Vinícius era músico, poeta, artista promissor que depois da morte teve várias músicas gravadas. A narrativa usa as músicas para compor o perfil psicológico de Yonlu, provoca interações da animação e do grafismo em momentos de devaneio e coloca atores mascarados em cena com Yonlu para recriar fisicamente o mundo virtual do qual fazem parte os personagens. Um psicólogo, em entrevista a jornalista, explica didaticamente os problemas enfrentados por Vinícius e jovens no mesmo estado. O filme toca em tema polêmico com ousadia e sensibilidade.  

Yonlu (Brasil, 2017), de Hique Montanari. Com Thalles Cabral, Nelson Diniz, Lorena Lorenzo, Leonardo Machado, Liane Venturella. 

A morte de Stalin

A trama apresenta sucessão de situações cômicas, bem ao estilo comédia de erros, envolvendo os fatos reais que antecederam e sucederam à morte do ditador russo. Personagens reais se envolvem em tramas ficcionais, principalmente quando entra em cena uma pianista que seria a responsável pelo envenenamento de Stalin. O filme é baseado em revista em quadrinhos francesa e foi proibido pouco antes da estreia na Rússia (as associações com o atual momento soviético, comandado pelo longevo poder de Vladimir Putin são visíveis). Steve Buscemi, no papel de Nikita Kruschev, é o grande nome da película, comandando as intrigas para assumir o comando do partido comunista após a morte de Stalin. 

A morte de Stalin (The death of Stalin, Inglaterra, 2018), de Armando Iannucci. Com Steve Buscemi, Jeffrey Tambor, Jason Isaacs, Svetlana Stalina.  

O valor de um homem

O valor de um homem é um golpe preciso no sistema capitalista que condena cidadãos ao desemprego e à busca desesperada por condições de subsistência. Thierry tem 50 anos e está desempregado há cerca de dois anos. Passa os dias em entrevistas, ouvindo solenemente que não é adequado para os cargos que pretende. Em casa, junto com a mulher, cuida com carinho do filho deficiente. Até que consegue emprego como segurança de uma loja de departamentos.

Desse ponto em diante, Thierry se confronta com seus princípios, pois tem que vigiar e delatar pessoas comuns que furtam objetos dentro da loja e seus próprios colegas de trabalho que burlam normas para conseguir um dinheiro a mais no final do mês. Os encontros entre os seguranças e os acusados na sala de interrogatório da empresa são exemplares da crueldade fria deste sistema que coloca cidadãos como bandidos, humilhados diante da câmera.

O ator Vincent Lindon foi premiado no Festival de Cannes e com o César, Oscar do cinema francês. A linguagem despojada é outro grande trunfo, quase um documentário (a maioria dos atores são amadores). O filme é construído com uma câmera fria, planos fechados no tormento de Thierry e dos acusados,  cortes secos em sequência evidenciando um cinema feito de olhar direto e sofrido.

O valor de um homem (La loi du marché, França, 2015), de Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.

Corações famintos

A exemplo de Capitão Fantástico (2016), Corações famintos apresenta discussão sobre o direito dos pais criarem seus filhos de forma alternativa. No entanto, no filme do italiano Saverio Costanzo, a reflexão ganhar ar de suspense.

Mina e Jude se conhecem no banheiro de um bar, quando ficam trancados juntos. Mina entra inadvertidamente no banheiro masculino logo após uma crise de diarreia de Jude. Ela quase não suporta o cheiro fétido, metáfora do que está por vir: a podridão que exala dos humanos após se empanturrarem com todos os tipos de alimentos.

Os dois se apaixonam, casam e têm um filho. A partir daí, o relacionamento entra em uma espiral depressiva, movida pela decisão de Mina em criar o filho com alimentos naturais, sem carne, e sem contato com o mundo exterior. A mãe está obcecada por uma visão sobre o filho índigo e por um enigmático sonho de um caçador abatendo um cervo (Corações famintos é adaptação do romance Il bambino indaco, de Marco Franzoso).

Os atores Adam Driver e Alba Rohrwacher ganharam os prêmios de melhor atuação no Festival de Veneza. Eles dominam o filme em um embate psicológico, por vezes físico. Seus personagens se demonstram despreparados para encarar o mundo a partir do momento em que uma vida completamente dependente se institui entre eles. Com final extremo, Corações famintos faz refletir sobre nossa posição diante dos filhos.

Corações famintos (Hungry hearts, Itália, 2014), de Saverio Costanzo. Com Adam Driver (Jude), Alba Rohrwacher (Mina), Roberta Maxwell (Anne).

Minha vida de abobrinha

A animação, Inspirada no romance de Gilles Paris “Autobiographie D’Une Courgette”, usa a fascinante técnica do stop-motion  de massinhas para contar uma história adulta ambientada no universo infantil. O garoto Ícaro (Abobrinha) sofre com os castigos impostos pela mãe alcoólatra. Um dia, escondido no sótão da casa para fugir de uma possível sova, provoca um acidente que resulta na morte da mãe.

Abobrinha é encaminhado para um orfanato onde passa a conviver com outras crianças, todas abandonadas pelas famílias por diversos motivos: uso de drogas por parte dos pais, deportação de uma mãe africana e até um pai que mata a mãe de uma das internas e depois se mata.

O mérito da animação é colocar isto de forma simples, tudo visto pelos olhos das crianças que desenvolvem uma união dentro do orfanato enquanto sofrem solitárias, cada uma à sua maneira. Minha vida de Abobrinha não apresenta as tradicionais viradas na trama, a curta história, cerca de uma hora de duração, é um retrato sensível destas crianças que, mesmo abandonadas, buscam o sentido alegre e infantil da vida.

Minha vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette, França/Suíça, 2016), de Claude Barras.

O insulto

Um bairro da periferia do Líbano está passando por reformas, patrocinadas por um deputado. O libanês Tony, cristão ortodoxo, está molhando as plantas na sacada do seu apartamento. A água escorre pela calha e molha o mestre de obras Yasser, refugiado palestino. A equipe de Yasser tenta consertar a calha, mas Tony recusa de forma agressiva, pois sente-se ofendido por ter sido abordado em casa. Ele exige desculpas do palestino.

O incidente banal, bate boca rotineiro, ganha dimensões impressionantes na trama do libanês Ziad Doueiri. A medida que a narrativa avança, o passado dos protagonistas aflora, primeiro na tentativa de reconciliação em frente à juíza, depois durante o julgamento midiático, colocando como opositores advogados também com assuntos pessoais a resolver.

O cerne da questão coloca O insulto como dos grandes filmes (e roteiros) do cinema independente: a intolerância, o preconceito racial, a violência ameaçando explodir a cada palavra desferida. O trunfo do filme é colocar dois cidadãos que buscam apenas cuidar de suas casas, de suas famílias, de seu trabalho, como motivadores do conflito. Tudo poderia ser resolvido com uma conversa amigável, mas décadas de ódio racial impedem um simples aperto de mãos.

O insulto (L’Insulte, Líbano, 2017), de Ziad Doueiri. Com Adel Karam (Toni), Kamel El Basha (Yasser), Camille Salameh (Wajdi Wehbe), Diamand Abou Abboud (Nadine Wehbe), Rita Hayek (Sherine Hanna).

Baronesa

A interseção entre documentário e ficção é tendência do cinema brasileiro. A diretora Juliana Antunes exercita o estilo em Baronesa, projeto que começou como um documentário quando ainda estudava Cinema e Audiovisual e enveredou para relatos ficcionais envolvendo personagens da periferia de Belo Horizonte. 

Andreia mora no bairro Juliana, mas está construindo uma casa no vizinho Baronesa (Juliana Antunes relata que a ideia do filme começou da observação do transporte público de Belo Horizonte, pois diversos bairros trazem nomes femininos). Leid, amiga de Andreia, cuida dos filhos enquanto espera o marido sair da cadeia. As filmagens aconteceram em locações, com moradoras do próprio bairro que improvisaram situações e diálogos. A câmera assume posição íntima das personagens, registrando imagens do cotidiano e diálogos coloquiais sobre criação dos filhos, sexo, questões sociais. Em determinada sequência, tiros invadem o som ambiente, equipe de filmagem e personagens correm para dentro da casa. Neste momento das filmagens aconteceu um tiroteio no bairro, conflito de duas gangues do tráfico rivais. Está no filme. É a força de Baronesa: o registro do cotidiano de mulheres da periferia, envolvidas pelos dramas e tragédias da realidade. 

Baronesa (Brasil, 2017), de Juliana Antunes. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares. 

Mamma mia! Lá vamos nós de novo

Deixe tudo de lado e se entregue mais uma vez ao Abba. Na sequência, foram incluídas 20 canções, entre elas WaterlooI have a dream, Dancing queen e Fernando. A história se passa agora em duas épocas. 

Sophie (Amanda Seyfried) prepara a festa de inauguração do hotel na paradisíaca ilha grega escolhida como morada por Donna (Meryl Streep). Diversos convidados são esperados, entre eles seus três pais. Flashbacks contam a história de Donna, a partir de 1979, quando ela chega à ilha, revelando como ela conheceu Sam, Harry e Bill. Passado e presente, tudo é pretexto para a sucessão de canções do Abba. Tanto pretexto que Andy Garcia interpreta o misterioso Fernando, introspectivo gerente do hotel. A deixa para o melhor do filme, quando a avó de Sophie, nada mais nada menos do que Cher, chega à ilha. É spoiler, me desculpem, mas é Fernando. 

Mamma mia! Lá vamos nós de novo (Mamma mia! Here we go again, EUA, 2018), de Ol Parker. Com Amanda Seyfried, Lilly James, Meryl Streep, Cher, Andry Garcia, Pierce Brosnan.