No intenso agora

A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou imagens feitas por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960. 

O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de imagens da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar. 

O belo texto lê as imagens de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais. 

No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles. 

Publicidade

Clash

Cairo, 3 de julho de 2013. O Presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, é deposto pelo exército do país, depois de manifestação contra o governo. Manifestantes a favor e contra o presidente deposto tomam as ruas da cidade em violentos confrontos.

O diretor Mohamed Diab narra este dia através de ousada experimentação linguística. Manifestantes de ambos os lados são presos dentro de um camburão da polícia e o motorista deve atravessar as zonas de confronto rumo à delegacia. A câmera não sai de dentro do camburão, filmando tudo neste minúsculo espaço repleto de personagens. A tensão cresce minuto a minuto e os manifestantes devem decidir entre o preconceito irascível e perigoso neste ambiente fechado, cujo calor insuportável acirra os ânimos, ou ceder à solidariedade para sobreviverem aos conflitos. 

Clash (Eshtebak, Egito/França, 2016), de Mohamed Diab. 

A gente

Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. 

A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.  

A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.

Rock’n roll: por trás da fama

O diretor e roteirista Guillaume Canet é casado com Marion Cotillard. Na ousada proposta de Rock’n roll: por trás da fama, os dois interpretam a si mesmos, provocando uma crítica feroz à necessidade de se manter como astros famosos no universo do audiovisual. 

Durante gravação de sequência do filme no qual está trabalhando, o astro Guillaume Canet é chamado de velho por atriz mais nova. Incomodado com a acusação e temeroso de não conseguir mais bons papéis no cinema, o ator busca técnicas de rejuvenescimento corporal. Enquanto isso, Marion Cotillard está em casa treinando sotaque para seu novo filme. 

As transformações físicas de Canet rendem cenas engraçadas, assim como as preparações de Marion Cottilard. O desgaste do relacionamento pontua a trama e o final do filme reserva uma virada que aponta para a angústia que domina grande parte de homens e mulheres, famosos e comuns: os dilemas do envelhecimento. 

Rock’n roll: por trás da fama (Rock’n roll, França, 2016), de Guillaume Canet. Com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lelouche, Ben Foster. 

As duas Irenes

A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.

A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.  

As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena). 

Bacurau

O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redorAquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

Gosto se discute

chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.  

Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme. 

Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).

Pendular

Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes. 

Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.

Dona Flor e seus dois maridos (2017)

A relação entre cinema e televisão no Brasil dá o tom da segunda adaptação do clássico romance de Jorge Amado. Além dos atores globais, o diretor Pedro Vasconcelos também se criou na direção de novelas. A história é mais do que conhecida, principalmente depois da antológica adaptação protagonizada por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.  

Agora, Juliana Paes destila erotismo no papel de Flor, mas Marcelo Faria rouba as cenas quando volta do além pelado para provocar a mulher. O ponto fraco é Leandro Hassum, pois Teodoro exige uma interpretação contida o que não combina com o ator. As ousadas cenas eróticas provocam o espectador que, mais uma vez, se entrega aos prazeres deste irreverente triângulo amoroso. 

Dona Flor e seus dois maridos (Brasil, 2017), de Pedro Vasconcelos. Com Juliana Paes (Flor), Marcelo Faria (Vadinho), Leandro Hassum (Teodoro).

Feito na América

Certas histórias reais são mais surpreendentes que o mais surpreendente roteiro. É o caso da vida de Barry Seal (Tom Cruise), piloto de avião comercial em crise financeira. Ele é recrutado pela CIA para registrar imagens aéreas da Colômbia, vira traficante de drogas a serviço do Cartel de Medellín, é convencido a fazer papel de agente duplo pelo DEA (departamento que combate o tráfico de drogas nos Estados Unidos). Para completar, o piloto se envolveu no escândalo Irã-Contras durante o governo Reagan: armas que seriam vendidas ao Irã foram desviadas para financiar o treinamento dos Contras, milícia que combatia o governo Sandinista na Nicarágua. 

O diretor Doug Liman conta esta complexa história com altas doses de aventura e ousadas sequências no avião pilotado por Barry Seal. Tom Cruise compõe um personagem que vive no limite, vai da crise financeira ao enriquecimento fácil, à falência e precisa lidar com ameaças vindas de todos os lados. O final deste personagem, claro, não poderia ser feliz. 

Feito na América (American made, EUA, 2017), de Doug Liman. Com Tom Cruise, Domhall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones.