Kobe, Japão, 1940. Yusaku, um próspero comerciante de tecidos ajuda um de seus clientes ingleses, preso por suspeita de espionagem, a sair da cadeia. Aparentemente, ele não se preocupa com questões políticas, tem por hobby produzir filmes caseiros de gênero protagonizados por Satoko, sua esposa. Os dois vivem um casamento apaixonado e feliz. Tudo muda quando Yusaku volta de uma viagem de negócios à Manchúria, junto com uma mulher que, pouco depois, é assassinada.
A virada do roteiro transforma A mulher de um espião em uma complexa narrativa envolvendo crimes biológicos perpetrados pelos militares. A trama é baseada em fatos históricos: os militares japoneses mantiveram na Manchúria a Unidade 731, centro de pesquisa médica que praticava experimentos biológicos em prisioneiros de guerra.
Quando confronta seu marido sobre a viagem e seu possível caso de infidelidade, Satoko assume o protagonismo da trama. A transformação de sua personagem é o grande destaque deste thriller que mistura erotismo, romance, espionagem e atos bárbaros de oficiais nacionalistas. A surpresa próxima ao final traz ainda uma referência às possibilidades narrativas do cinema.
A mulher de um espião (Supai no tsuma, Japão, 2020), de Kiyoshi Kurosawa. Com Yu Aoi (Satoko Fukuhara), Issey Takanashi (Yusaku Fukuhara), Ryota Bando (Fumio), Masahiro Higashide (Taiji).
A narrativa é uma jornada temporal entre dois momentos na vida de Ichiko. Ela trabalha como cuidadora de idosos, cuidando da avó de duas jovens, Motoko e Yoko. Um dia, Yoko é sequestrada a caminho da escola e o principal suspeito é o sobrinho da cuidadora. A partir daí, a vida de Ichiko entra em uma espiral de intrigas, suspeitas e vingança.
O diretor Koji Fukada mistura presente e futuro à medida que a investigação do sequestro se desenrola, levando o espectador a um intrincado exercício de entendimento da trama. A obsessão da jovem Motoko por Ichiko funciona como uma espécie de propulsão para os acontecimentos nestes dois tempos.
Um ponto que merece destaque na trama é o repulsivo tratamento da mídia na cobertura do sequestro, julgando e condenando, como sempre, os envolvidos diante das câmeras, Destaque também para a interpretação de Mariko Tsutsui. Sua personagem transita pelos dois tempos de forma contida, às vezes resignada, outras vezes decidida a se vingar, mas sempre de forma compassiva, participando, mas, também, observando de forma cuidadosa o desenrolar dos acontecimentos.
Perfil de uma mulher (Yokogao I, Japão, 2019), de Koji Fukada. Com Mariko Tsutsui (Ichiko), Mikako Ichikawa (Motoko), Sosuke Ikematsu (Kazumichi), Nahoko Kawasumi (Yoko), Ren Sudo (Tatsuo).
O animador japonês Hayao Miyazaki surpreende o mundo a cada filme que lança. A viagem de Chihiro é sua obra-prima. A pequena Chihiro está em viagem de carro com seus pais. A família se perde na estrada e entra em um parque temático abandonado. Tudo parece deserto, como cidade fantasma. No entanto, os pais encontram refeitório com farta comida. Eles não conseguem resistir, comem até se empanturrarem e, diante dos olhos incrédulos da menina, se transformam em porcos. Cai a noite e espíritos dominam o local, levando Chihiro para uma viagem mágica, perigosa. Nesta viagem, repleta de desafios, Chihiro é guiada por um espírito bom, que ora é menino, ora é dragão.
“A viagem de Chihiro é, de certa maneira, a versão de Miyazaki para Alice no país das maravilhas. As cenas desenhadas à mão pelo diretor e roteirista explodem com energia e inventividade e Miyazaki tira partido da fantástica história para criar dezenas de inimitáveis espíritos e criaturas que vagam por este mundo de regras incompreensíveis e lógica impenetrável. Bebês gigantes fazem pirraça de forma destrutiva. Espíritos maus dão ouro de presente antes de devorar tudo à sua volta. Personagens mudam de forma (e às vezes até de personalidade) sem avisar. Um deles aparece por vezes como menino, dragão e então como espírito do rio. Chihiro demonstra inicialmente perplexidade diante de tais criaturas, mas depois reage com coragem. Logo compreende que precisa se situar nesse estranho mundo para manter as esperanças de voltar para casa. E, assim como os espíritos que ela encontra mudam sua visão sobre a vida, ela também influencia seus comportamento. É uma estranha numa terra estranha, onde os moradores a consideram a mais estranha de todas as criaturas.”
A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi, Japão, 2001), de Hayao Miyazaki.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
Este filme curto de Mizoguchi, pouco mais de uma hora de duração, é o retrato da decadência das gueixas na sociedade japonesa. Umekichi é uma gueixa tradicional, apegada ao seu papel como provedora de prazer aos homens. Apaixonada por Furosawa, lojista falido de Kyoto, ela resolve sustentá-lo. Sua jovem irmã Omocha questiona a posição das gueixas, desenvolvendo ódio contra os homens. Ela despreza os amantes, usando-os para ganhar dinheiro e roupas bonitas.
As irmãs seguem o seu caminho, uma com resignação, a outra com desejo de revolução pessoal que a encaminha para a vingança contra os homens e a sociedade. O final pessimista reflete o olhar sem esperanças de Mizoguchi sobre a realidade das mulheres neste Japão apegado às tradições milenares.
As irmãs de Gion (Gion no shimai, Japão, 1936), de Kenji Mizoguchi. Com Isuzu Yamada (Omocha), Yoko Umemura (Umekichi) , Benkei Shiganoya (Furosawa).
Senhorita Oyu (1951), adaptação de romance de Junichiro Tanizaki, é pujante melodrama, traduzido pelo olhar crítico de Mizoguchi. Em uma tarde no campo, o comerciante Shinnosuke espera uma comitiva de jovens, entre elas Shizu, sua pretendente ao casamento. No entanto, ele se apaixona à primeira vista pela Senhorita Oyu.
Oyu é viúva do irmão de Shizu e vive acorrentada às tradições japonesas. Ela tem um filho, mesmo viúva, deve respeito e obediência à família do marido, governada pelos integrantes mais velhos. Mora junto com o clã e não pode se relacionar com ninguém. Sua vida é devotada ao filho e à rica família que lhe proporciona luxo e conforto.
Shinnosuke se casa com Shizu apenas para ficar perto da amada. A partir do casamento tem início um ousado triângulo amoroso sob o olhar complacente da esposa Shizu. Ela incentiva a pretensão dos dois amantes. Para Shizu, o casamento é a fachada para encobrir da família o amor que deve se concretizar a despeito da cultura japonesa que coloca a mulher nesta posição submissa, quase escrava da família e dos homens.
Mizoguchi trabalha com características comuns ao seu cinema. O diretor esconde os personagens em momentos decisivos da trama, desviando a câmera. A fotografia em preto e branco destaca as instigantes casas japonesas, repletas de portas e espaços abertos, onde a privacidade é quase impossível, analogia à vida vigiada que a cultura japonesa impõe às mulheres. O campo com suas flores, lagos e ventos marca o destino de todos, pontuando a narrativa melodramática e crítica de Mizoguchi. Impossível fugir do destino, Shinnosuke, Shizu e a Senhorita Oyu caminham para a resignada tristeza.
Senhorita Oyu (Oyû,sama, Japão, 1951), de Kenji Mizoguchi. Com Kinuyo Tanaka (Oyû Kayukawa), Nobuko Otowa (Shizu), Yuri Hori (Shinnosuke Seribashi).
Belo, com toda a grandeza que a palavra representa. No século XVI, a guerra civil assola o Japão. A população das pequenas vilas está na miséria, combatentes estão famintos, clãs tentam dominar o país. Neste cenário, dois camponeses se perdem, dominados pela ambição e o desejo, oscilando entre a realidade e o sobrenatural, enquanto suas mulheres tentam sobreviver em meio ao caos.
Cenas memoráveis ajudam a compreender o culto que se criou em torno de Contos da lua vaga (1953) e do diretor Kenji Mizoguchi. O barco navegando no lago encoberto pela névoa. O artesão entregue a seu desejo dentro da piscina natural de águas quentes. Combatentes famintos atacando a mulher na estrada. O impressionante plano sequência do artesão entrando em casa, procurando pela mulher e pelo filho.
Mizoguchi, Ozu e Kurosawa formaram a trindade do cinema japonês, ganhando prêmios festivais afora, conquistando plateias e críticos do ocidente. Cineastas do fascinante cinema dos anos 50, quando obras-primas chegadas dos quatro cantos do mundo invadiam as telas.
Contos da lua vaga é um filme deste tempo, quando o cinema jogava o espectador em um mundo de ilusões. Os fantasmas do filme carregam nossa alma com a leveza da névoa.
Contos da lua vaga (Ugetsu Monogatari, Japão, 1953), de Kenji Mizoguchi. Com Masayuki Mori, Machiko Kyo, Kinuyo Tanaka, Eitaro Ozawa.
Casal de idosos viaja a Tóquio para visitar os filhos. No entanto, a vida agitada da metrópole é pretexto para que os filhos não dediquem atenção aos pais. Somente Noriko, a nora, se dispõe a acompanhar os sogros. Esta história simples revela uma obra-prima do cinema.
O cinema peculiar de Ozu trabalha com o minimalismo da linguagem. Os planos são estáticos. A câmera está sempre baixa e distante dos personagens, evitando destacar as emoções. Imagens dos personagens se alternam com detalhes da paisagem e do ambiente urbano, num jogo narrativo calmo, induzindo à contemplação da vida que transcorre.
“Ozu utiliza pillow shots como as pillow words da poesia japonesa, separando suas cenas com imagens breves, evocativas da vida cotidiana. Ele aprecia trens, nuvens, fumaça, roupas penduradas na corda, ruas desertas, pequenos detalhes da arquitetura, estandartes inflados pelo vento (ele próprio pintou a maioria dos estandartes de seus filmes).” – Roger Ebert
A simplicidade do cinema de Ozu ataca as relações familiares, marcadas pela ausência, pelas desculpas, pela displicência no trato com os idosos. Os filhos do casal Hirayama passam o tempo buscando pretextos a ponto de enviar os pais para um spa no litoral. Resignados, os velhos voltam para a cidade natal.
“Será que alguém vai ver um filme para observar o estilo? Vai, sim. Um estilo refinado e elegante como o de Ozu coloca as pessoas no primeiro plano; focaliza as minúcias da vida diária. Seu estilo é o mais humanista de todos, ao remover toda a maquinaria de efeitos e montagens, preferindo nos tocar pelos sentimentos humanos e não pela mecânica da técnica narrativa.” – Roger Ebert
Na parte final do filme, quando a família se reúne para o velório da mãe, acontece uma das grandes cenas do cinema. Kyoto, a filha caçula, está sentada no chão da casa. Ela não transparece a tristeza e pergunta impassível a Noriko: “A vida não é uma decepção?”. Noriko olha para a câmera, sua resposta é simples e direta: “Sim, ela é.”
Era uma vez em Tóquio (Tokyo monogatari, Japão, 1953), de Yasujiro Ozu. Com Chishu Ryu (Shukishi Hirayama), Setsuko Hara (Noriko Hirayama), Chieko Higashiyama (Tomi Hirayama), Kyoto Kagawa (Kyoko).
Referência: Grandes filmes. Roger Ebert. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006
A prostituta Oharu (Kinuyo Tanaka) caminha à noite na zona de meretrício onde mora e trabalha. Está entregue à miséria. As companheiras perguntam se ela conseguiu um cliente. Ela diz que ninguém se interessa por uma mulher de 50 anos. Oharu entra em um templo. Olha para as centenas de estátuas de santos dispostas na parede. A câmera centra em uma delas que se funde com o rosto de Katsunosuke (Toshiro Mifune), seu grande amor do passado. Close no rosto triste da prostituta. A narrativa volta no tempo. É hora de conhecer os motivos que levaram a jovem e bela cortesã da corte imperial para as ruas do meretrício de Kyoto.
Kenji Mizoguchi era conhecido como o cineasta das mulheres. O crítico Sérgio Alpendre, em depoimento ao DVD da Versátil, atribui isto ao acaso. Quando o diretor foi contratado pela produtora, ainda no cinema mudo, outro diretor fazia filmes com heróis masculinos. O produtor determinou, então, que Mizoguchi fizesse filmes sobre mulheres. Depoimentos de colegas de trabalho de Mizoguchi dão tons mais ilustrativos à história. O jovem Mizoguchi se apaixonou por uma prostituta e, após uma briga, foi esfaqueado por ela nas costas. “Para fazer filmes sobre mulheres, você precisa de uma cicatriz como esta”, disse o diretor a amigos.
Oharu é um relato melancólico da situação da mulher no Japão. A história acontece por volta da metade do século XVII. Os pais criam a filha como objeto de comércio. Ela pode ser uma cortesã, ser comprada por um bom marido, servir como reprodutora a um lorde. Mas se ela se relacionar por amor com um servo a desgraça cai sobre a família.
Duas sequências determinam o olhar de Mizoguchi sobre esta posição secular. O servo de um lorde chega a Kyoto para comprar uma mulher. A escolhida deve parir um filho para o lorde, pois sua esposa está incapaz. Dezenas de mulheres são enfileiradas. De posse das determinações do nobre, o servo tenta achar a mulher ideal. Os pés devem ter menos de 20 cm, ela não pode ter sequer uma verruga no corpo, são alguns dos itens da lista que excluem as candidatas.
Viajante chega em uma casa de prostituição e reúne várias mulheres ao seu redor. Ele abre o saco de dinheiro e joga moedas para as mulheres. Elas se atiram de cócoras aos pés do viajante como animais famintos, recolhendo o dinheiro, engalfinhando-se umas com as outras.
O filme é melancólico, marcado por tons sombrios da fotografia. A câmera, às vezes, enquadra o sofrimento resignado de Oharu. Outras vezes, a personagem se esconde atrás de tecidos, das portas de correr das casas japonesas, atrás de biombos, deixando o espectador vislumbrar sombras da nudez. Oharu caminha para a decadência e destruição das ruas com complacência, filmada com a delicadeza própria do cinema de Mizoguchi. O dever de Oharu é dar prazer ao homem e esperar pela dádiva. São as tristes mulheres de Mizoguchi.
Oharu – A vida de uma cortesã (Saikaku ichidai onna, Japão, 1952), de Kenji Mizoguchi.
O filme venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2018. Uma pobre família japonesa, formada pelos pais e filhos, vive de pequenos furtos em supermercados e lojas de conveniência. Osama treina o filho na arte de roubar e, após uma investida, encontram uma garotinha chorando na varanda de uma casa. A garota é levada para casa e adotada pelo casal que, ingenuamente ou não, reluta em aceitar que praticaram sequestro.
Assunto de família traz a tona a realidade de famílias que vivem à margem de sociedades desenvolvidas, desempregados que se viram no dia-a-dia, crianças que crescem nas ruas, pais que se entregam aos seus problemas de relacionamentos e negligenciam filhos pequenos. A virada de roteiro revela um segredo assustador envolvendo o casal Osama. O final, visto pelo olhar das crianças, é de uma tristeza que faz pensar sobre os caminhos da sociedade.
Assunto de família (Manbiki Kazoru, Japão, 2018), de Hirokazu Kore-Eda. Com Kirin Kiki, Lilly Franky, Sakura Andô, Sósuke Ikematsu.
Finais de dramas românticos em estações de trem têm tudo para enternecer o espectador. A estação de trem pode ser substituída também por estação de metrô, caso da megalópole Tóquio de Eu posso ouvir o oceano.
A trama da animação japonesa acompanha um triângulo amoroso formado pelos amigos Taku e Yutaka, que compartilham o fascínio pela rebelde Rikako. O cenário é uma escola secundária no interior. Os estudantes são submetidos ao rígido sistema educacional do país que cobra de forma assustadora as melhores notas de seus alunos e alunas, pois o nome da Instituição está em jogo. Outras questões importantes são discutidas: a ausência dos pais; como as grandes cidades fascinam e, ao mesmo tempo, pressionam seus moradores, principalmente a juventude que busca espaços.
A narrativa em primeira pessoa de Taku guia o espectador através das descobertas, conflitos, desejos… São as memórias de um verão marcante, quando ele conheceu uma menina com quem chegou a trocar tapas nas faces. Tudo termina, ou verdadeiramente começa, na estação de metrô, para deixar este e outros espectadores relembrando de verões assim.
Eu posso ouvir o oceano (Japão, 1993), de Tomomi Mochizuki.
Satsuki e Mei Kusakabe, duas jovens irmãs, se mudam com o pai para uma casa na área rural, perto de uma imensa floresta. A mãe está doente e fora transferida para um hospital próximo, por isso a mudança da família. Todos os dias, o pai pega o ônibus para o trabalho, é professor em Tóquio. A casa onde moram é velha, apresenta aquele tradicional ar das casas mal assombradas e é assim que os vizinhos se referem a ela.
Essa premissa, comum em várias narrativas do gênero, revela surpresas para o espectador, pois nada caminha para assombrações e sustos. As jovens irmãs se defrontam com mistérios nas trevas do sotão, pequenos pontos negros que correm em debandada quando sentem a presença dos humanos. No quintal, Mei segue um estranho coelho branco até a floresta e cai suavemente no colo de Totoro, uma imensa criatura de ar doce, pueril, terna e encantadora.
“Meu vizinho Totoro se baseia em experiências, situações e explorações – não em conflitos e ameaças. Issos se torna claro em adoráveis e longas sequências envolvendo Totoros – que não são criaturas mitológicas das florestas japonesas, mas sim invenções de Miyazaki para este filme.” – Roger Ebert
As mãos mágicas de Miyazaki, que criam mundos encantadores filme a filme, surpreendem a cada momento da animação. Só as duas crianças veem Totoro, talvez o amigo imaginário. Elas passeiam pela estrada em um Gato Ônibus, interagem com as criaturas da noite como se fossem bolas de pelúcia. Até mesmo momentos que remetem à tristeza, visitas à mãe doente no hospital, abrem perspectivas alegres, esperançosas.
Os olhares de Mei e Satsuki fantasiam até mesmo a tristeza, tiram beleza das situações mais inesperadas, apontam caminhos bons pelas estradas misteriosas, se deliciam na chuva ao lado do Totoro desengonçado, brincalhão, ele balança as árvores para ver cair mais gotas de chuva na sombrinha… Esse é o mundo de Miyazaki, para onde todos nós gostaríamos de ir.
Meu amigo Totoro (Tonari no Totoro, Japão, 1988), de Hayao Miyazaki
O final de Os sete samurais (Japão, 1954)é das cenas mais sensíveis do cinema. Kambei, Shichiroji e Katsushiro, os samurais sobreviventes da batalha, observam com reverência as covas de seus quatro companheiros no alto da colina, enquanto os camponeses cantam a alegre canção da colheita do arroz, felizes por finalmente estarem livres dos bandidos. Cenas que representam a essência do cinema clássico que conta histórias repletas de dramas, críticas sociais, heroísmo, sacrifício na defesa pelos mais fracos, amor florescendo em meio a batalhas, enfim, o cinema que todos amamos.
O processo de criação do filme começou a partir da ideia de Akira Kurosawa de fazer um filme de época sobre samurais, mas que fosse capaz de revisitar o gênero. Shinobu Hashimoto, um dos roteiristas, disse que a primeira ideia de Kurosawa era contar com realismo um dia na vida de um samurai. Após longas pesquisas, a ideia foi descartada devido a falta de material registrado sobre o cotidiano dos samurais.
Kurosawa propôs então uma trama ambientada em torno de espadachins famosos, cujo ícone no Japão é Miyamoto Musashi. Hashimoto escreveu o roteiro durante três meses e o apresentou ao diretor. Kurosawa descartou a segunda ideia alegando: “Não posso fazer um filme que tem vários clímax ao longo da narrativa.”, frase que comprova o apego de Kurosawa ao classicismo.
Diretor e roteirista resolveram então conversar com o produtor da Toho, Sojiro Motoki. O relato de Hashimoto sobre a conversa revela essas fascinantes buscas de ideias para filmes. A conversa era sobre a época dos espadachins. Hashimoto queria saber como eles viajavam pelo Japão para aperfeiçoar sua arte, já que provavelmente tinham pouco dinheiro. Motoki respondeu que, no final das Guerras Civis, lutadores marciais recebiam alojamentos e refeições para uma noite em escolas de Kenjutsu. E se não existissem escolas pelo caminho? Nesse caso, os templos budistas ofereciam abrigo e porções de arroz para a viagem. E se não existissem escolas e nem templos budistas pelo caminho? Motoki respondeu prontamente: no final das Guerras Civis os bandidos estavam em toda parte, se o samurai passasse em um vilarejo e servisse de sentinela durante a noite, receberia uma refeição. Hashimoto e Kurosawa se entreolharam e decidiram ali mesmo que escreveriam uma história sobre camponeses pobres contratando samurais para combater bandidos. O pagamento: comida. “Teremos uma batalha dura que não nos trará nem dinheiro nem glória. E podemos morrer.” – diz Kambei a outro samurai, na primeira parte do filme, tentando convencê-lo a lutar pelos camponeses. O samurai responde com um sorriso.
A trama de sete samurais que atendem ao chamado dos camponeses e decidem entrar em uma batalha contra 40 bandidos ficou pronta depois que Kurosawa, Hashimoto e Hideo Oguni ficaram enfurnados em um quarto de hotel durante meses, escrevendo o roteiro. Segundo Hashimoto, Kurosawa revisava página por página do roteiro e, se não gostasse, rasgava páginas na mesma hora e mandava reescrever. Hashimoto diz que Kurosawa pensava como diretor, com a sensibilidade exata do que daria certo ou não. E completa: “Quando chegou ao hotel, Kurosawa tirou um caderno e colocou sobre a mesa. Quando vi as anotações do caderno, contendo descrições detalhadas dos portes físicos, comportamentos e aspectos psicológicos dos sete samurais, inclusive como olham quando chamados de formas diferentes, entendi que Kurosawa trabalha exaustivamente nas ideias.”
No Memorial Akira Kurosawa estão expostos 46 destes cadernos. Sete trazem anotações sobre Os sete samurais. O documentário The Masterworks (extras do blu ray/Versátil), apresenta escritos de Kurosawa que mostram como ele aproveitou os esboços do roteiro descartado sobre os espadachins para compor os personagens do filme. As observações de Kurosawa sobre o líder dos samurais denotam que Kambei lembra um dos famosos espadachins, Koizumi Nobutsuna. Ele é descrito como um homem de quase 50 anos e de cabelos brancos que havia lutado em muitas batalhas, mas nunca do lado vencedor. Isso aparece em pontos importantes do filme. Na primeira parte do filme, Kambei caminha ao lado do jovem aprendiz Katsushiro. Ele diz: “Eu não tenho nada de especial. Eu posso ter visto muitas batalhas, mas sempre do lado dos perdedores.” No final, afirma diante da cova de seus amigos: “Nós perdemos novamente. Quem venceu foram os camponeses.”
Segundo as anotações, o personagem mais rico de todos é Kikuchiyo e revela interessante abordagem de perfil de personagem a partir do nome escolhido. Nas anotações seu nome é Zembei, um homem de passado terrível, um passado monstruoso das Guerras Civis, um personagem com um lado sombrio. Durante o processo, Zembei virou Kikuchiyo e o personagem sombrio desapareceu, dando lugar a um homem rude, quase primitivo, irascível, bufão que passa o filme tentando se afirmar como samurai apesar de sua origem camponesa. Toshiro Mifune interpreta Kikuchiyo com um magnetismo impressionante, alternando cenas cômicas com cenas que revelam seu passado trágico. Dois momentos marcantes de Mifune no filme. Primeiro, quando ele discursa para os samurais, afirmando que eles são os responsáveis pela miserável época em que vivem, “Quem os transformou em monstros? Foram vocês, samurais.” Depois, em uma das cenas mais fortes da película, quando ele recebe um bebê das mãos da mãe à beira da morte, se ajoelha na água e diz aos prantos, “Esse bebê sou eu, foi isso que aconteceu comigo.”
O resultado deste longo processo de criação é uma das maiores obras-primas do cinema, trama de 3h30 de duração ambientada no Século XVI, período Sengoku (Guerra Civil) quando o Japão começa a perder sua autoridade central. No início, letreiro informa: “Durante as guerras civis, conflitos sem fim deixaram o interior dominado por bandidos. As pessoas viviam sob o terror do som de cascos se aproximando.” Corta para quarenta bandidos no alto da colina. Eles observam um vilarejo e decidem voltar depois da colheita de arroz para o saque.
A primeira parte do filme narra a viagem de três camponeses em busca dos samurais. Kambei é o primeiro a ser recrutado, após demonstrar seu heroísmo e integridade salvando um bebê das mãos de um bandido. Ele é o guia, admirado pelos outros seis samurais, cada um com sua individualidade bem definida, irmanados pela convicção de proteger os camponeses, mesmo sem “glória e dinheiro.”
A segunda parte é responsável pelas batalhas épicas, memoráveis, principalmente a sequência final de seis minutos na chuva e na lama. “Os sete samurais não foi inovador apenas em sua mistura de narrativa cinematográfica ocidental e oriental, pela primeira vez em sua carreira, Kurosawa usou várias câmeras para filmar uma cena de batalha. Isso permitiu que ele fosse encenado em sequências mais longas, que podiam, assim, ser desenvolvidas e evoluídas. Também proporcionou ao diretor liberdade e continuidade sem paralelos ao fazer os cortes entre os diferentes ângulos de câmera na pós-produção. Seu uso de lentes mais longas do que 150 mm aplanava o espaço em cenas fundamentais.” – Mark Cousins
Entre diversas cenas arrebatadoras, fico com Kikuchiyo recebendo o bebê no riacho, o moinho em chamas ao fundo, seu rosto transfigurado de amargura e dor pela lembrança do passado; a mulher do camponês Rikichi, que fora sequestrada pelos bandidos, saindo da fortaleza incendiada dos bandidos, o olhar desolado no chão, quando levanta os olhos vê seu marido e corre de volta para as chamas. E claro, os três samurais sobreviventes diante da cova de seus amigos, ouvindo a alegre canção dos camponeses, em silêncio, palavras seriam desnecessárias para expressar a descoberta de que já não havia lugar para os samurais neste novo Japão que emergia.
Os sete samurais (Shichinin no samurai, Japão, 1954), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Kikuchiyo), Takashi Shimura (Kambei), Yoshio Inaba (Gorobei), Minoru Chiaki (Heihachi), Daisuke Kato (Shichiroji), Isao Kimura (Katsushiro), Seiji Miyaguchi (Kyuzo), Keiko Tsushima (Shino), Yoshio Tsuchiya (Rikichi).
Referências:
Extras do blu ray Os 7 samurais. A obra máxima de Akira Kurosawa. Versátil.
História do cinema. Dos clássicos mudos ao cinema moderno. Mark Cousins. São Paulo: Martins Fontes, 2013
Certos filmes transpõem de imediato a fronteira entre o olhar e o coração. Quando o Príncipe Ashitaka luta selvagemente contra um Javali contaminado, tomado pelos monstros e, ao final, também é contaminado e condenado à morte, sabemos que estamos diante de um destes filmes.
Princesa Mononoke se passa no Japão medieval, o Período Muromachi (1336 a 1573). Contaminado, o Príncipe deve deixar sua aldeia e rumar para uma floresta misteriosa em busca da morte solitária ou da possível cura, caso encontre o Deus Cervo, protetor da floresta. É a tradicional jornada do herói, viagem rumo ao desconhecido após o chamado. Na trajetória, se defronta com samurais e descobre poderes violentos em seu braço contaminado. Descobre que a causa que transformou o Javali em monstro é uma bala de ferro produzida em uma aldeia distante.
Na floresta, encontra uma fortaleza denominada Ilha de Ferro, governada pela Srta Eboshi. Mas é seu encontro com uma jovem estranha, que cavalga lobos e se porta como uma guerreira feroz e solitária, que muda o destino de Ashitaka. Quando se olham separados por um rio, sabemos que Ashitaka e a Princesa Mononoke estão marcados uma para o outro e devem enfrentar guerras, tragédias, redenção, escolhas, enfim, tudo que move o cinema e nos move juntos, principalmente em animações de Hayao Miyazaki.
“Guerreiros míticos e princesas amaldiçoadas, feras arcaicas e demônios industriais, figuras do mal desejáveis e arco-íris mágicos – todos podem correr e esbravejar, lutar e amar, subir até as estrelas e súbita, mas temporariamente desaparecer na reificação do formato infantil dos rostos humanos nas mãos dos desenhistas japoneses. Neste filme, o que é raro em animações, o sangue se refere ao sangue real, amor e morte são representados por tintas coloridas e tudo possui uma presença que pertence ao mundo real. Animais fantásticos e questões ecológicas da atualidade interagem como elementos de uma mesma natureza. Se Miyazaki é bem-sucedido ao criar este singular encontro entre animação e filme tradicional, tem a ver com a energia tanto da narrativa quanto da arte-final, a impressionante tensão que permanece durante todo o filme, da primeira à última imagem. Não diga a Miyazaki que os filmes que ele faz não são de verdade, porque ele está convencido de que são. E ele é tão audaz quanto seus personagens. Só podemos torcer para que continue assim.”
As duas guerreiras, Eboshi e Mononoke, representam mulheres destemidas que lutam cada uma por sua causa. Eboshi traz a modernidade ao Japão, defendendo sua mina de ferro, produzindo armas de fogo, lutando contra os protetores da floresta, pois necessita do minério. Mononoke defende com a própria vida seus amados animais, os deuses deste mundo ancestral formado por divindades que habitam árvores, lagos e recantos inimagináveis deste mundo misterioso que o progresso insiste em destruir. Ashitaka se interpõe entre as duas, buscando o equilíbrio, mas representando também o ponto de ruptura que não deixa a paz se instalar, alguém assim como o Johnny Guitar de Nicholas Ray.
Não sei se o universo mágico de Miyazaki abre perspectivas esperançosas, afinal no Japão medieval ou nas sociedades modernas, a realidade impera poderosa e o progresso vai ceifando tudo. Sei apenas que após assistir à Princesa Mononoke posso fechar os olhos e enxergar o mundo com o coração.
Princesa Mononoke (Mononoke Hime, Japão, 1997), de Hayao Miyazaki.
Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008
Após a primeira guerra mundial, a jovem guerreira de mãos mecânicas Violet Evergarden trabalha em uma instituição como redatora de cartas. Ela é uma Boneca de Automemória e é designada como dama de companhia de Isabela York que mora em uma escola de meninas de boas família. “Esta é minha prisão. Uma escola de meninas separada do mundo por muros altos. Todas as alunas vêm de famílias respeitáveis ou se casarão com alguém respeitável.” Reflete Isabela logo na abertura do filme.
A função de Violet é fazer com que Isabella tenha sucesso como debutante, ensinando durante três meses cultura, conversação, etiqueta e dança. Além de professora, Violet inspira sentimentos e afetos. No entanto, Isabela tem um passado enigmático, está presa em memórias traumáticas. Ela viveu a vida miserável das ruas, lutando dia a dia em busca de pão para sobreviver. Ela encontra, também nas ruas, Taylor, menina indigente. As duas vão morar juntas e Isabela dedica sua vida a cuidar da irmãzinha. Quando a família nobre de Isabella a descobre e a resgata da miséria, Taylor é enviada para um orfanato. O destino das irmãs separadas se cruza com Violet, que passa a acalentar os sonhos e os corações das jovens, principalmente com as cartas que escreve.
O longa de animação é baseado no anime de estrondoso sucesso Violet Evergarden. A história é plena de memórias, afetos, gestos simbólicos, cartas emocionantes que perpassam o tempo. “Basta dizer meu nome e nosso vínculo durará para sempre.” “O carteiro entrega felicidade.” Frases que dizem do mundo no qual vivemos, distantes de afetos, sem cartas para recuperar memórias e sentimentos.
Violet Evergarden: eternidade e a boneca de automemória (Japão, 2019), de Haruka Fujita.
Dois miseráveis camponeses, Tahei e Matashichi, andam aos tropeços por uma estrada. Estão voltando da guerra, para onde foram na ilusão de ganhar dinheiro, mas tiveram que trabalhar pesado enterrando cadáveres. Um guerreiro passa por eles, homens a cavalo o perseguem e matam o guerreiro na frente dos camponeses.
O início do filme determina o ponto de vista escolhido por Kurosawa para contar a história de A fortaleza escondida. Tahei e Matashichi se envolvem inadvertidamente em aventuras ao longo da narrativa: são presos, trabalham cavando ouro em uma mina, se vêem no meio da revolta dos trabalhadores/escravos em uma fuga sangrenta, fogem para as montanhas, encontram um samurai que os alícia para cavarem e carregarem ouro, encontram uma princesa fugitiva, empreendem uma jornada pelas linhas do inimigo carregando pesadas barras de ouro.
Kurosawa não se omite sobre a influência para o filme: os faroestes de John Ford. Rokurota Makabe é um famoso samurai que protege a Princesa Yuki da perseguição de clãs rivais. Os dois camponeses, sempre movidos à cobiça pelo ouro, acompanham e provocam obstáculos à jornada dos heróis. São também, os personagens que trazem humor à trama, as reviravoltas por que passam durante o filme se assemelham àquelas comédias nonsenses que jogam personagens em situações quase inacreditáveis. Em meio a tudo isso, Kurosawa expõe a rígida divisão de classes no Japão.
É preciso falar de outra influência: a película de Kurosawa foi decisiva para George Lucas quando escrevia o roteiro de Star Wars.
“O fato é que A fortaleza escondida influenciou Star Wars. Quando comecei a escrever e montar o roteiro pensei em A fortaleza escondida e o que me marcou nesse filme. O que me intrigou nele foi que a história é contada por dois personagens menores. Resolvi que seria um bom jeito de contar a história de Star Wars: pegar dois personagens menores, como fez Kurosawa e contar do ponto de vista deles. No caso de Star Wars, são os dois androides. Essa foi a influência mais forte. O fato de haver uma princesa tentando enfrentar as linhas do inimigo e tudo mais foi uma coincidência, porque a minha princesa é mais guerreira. Nos primeiros rascunhos ela aparecia mais junto com um Jedi mais velho e os dois tentavam escapar mas, com o tempo, acabou virando a história do Luke.” – George Lucas
Grande parte da crítica não coloca A fortaleza escondida entre os melhores filmes de Kurosawa. O próprio George Lucas reconhece que o filme não está entre seus preferidos do gênio japonês. Pode ser, no entanto, a potência visual da obra é incontestável, primeiro filme em widescreen de Kurosawa. Algumas grandes sequências comprovam isso: o início, quando o guerreiro é morto na estrada; a fuga dos trabalhadores pela escadaria do palácio abandonado; as belas composições de enquadramento na fortaleza escondida; a emocionante festa do fogo e, mais do que tudo, a impressionante performance de Toshiro Mifune segurando a espada com as duas mãos na sela do cavalo, galopando em velocidade atrás de seus inimigos.
A fortaleza escondida (Kakushi-Toride no San-Akunin, Japão, 1958), de Akira Kurosawa. Com Toshiro Mifune (Rokurota Makabe), Minoru Chiak (Tahei), Kamatari Fujiwara (Matashichi), Misa Uehara (Princesa Yuki).
Referência: Extras do DVD A Fortaleza Escondida – Versátil Home Vídeo.
Jeanne (Juliette Binoche), ensaísta e jornalista francesa, viaja a uma floresta do Japão. Seu objetivo é encontrar Vision, erva medicinal rara que floresce a cada 997 anos, espalhando esporos capazes de curar a angústia espiritual da humanidade. Durante a viagem, ela conhece Tomo (Masatoshi Nagase), solitário caçador que mora na floresta.
O filme é uma viagem imagética pela misteriosa floresta, a narrativa oscilando entre o presente e memórias dos personagens que caminham para o encontro com vision. Quando um terceiro e misterioso personagem entra em cena, Jeanne se entrega cada vez mais às memórias, à sua própria angústia. A direção de fotografia emoldura cada frame da bela floresta, como se fossem visões da beleza desse mundo místico, que exige de nós a contemplação e a entrega espiritual, sem buscar explicações.
Vision (Japão, 2019), de Naomi Kawase. Com Juliette Binoche, Masatoshi Nagase, Mirai Noriyama.