A tomada do poder por Luís 14

Em 1962, diante de uma plateia de repórteres em Roma, Roberto Rossellini proclamou: “O cinema está morto.” A frase sintetiza a desilusão do cineasta com a modernidade já anunciada nos novos cinemas dos anos 60 e com um público cada vez mais desinteressado de histórias realistas, contadas de forma simples e direta, como bem ensinou Rossellini a gerações de cinéfilos. 

No entanto, Rossellini estava longe de abandonar a arte audiovisual e se tornou um dos primeiros cineastas consagrados a aderir à ainda imberbe, em questões dramatúrgicas, TV. O depoimento de seu filho, Enzo Rossellini, também diretor, aponta por que o consagrado mestre do neo realismo italiano se voltou para a pequenina tela que invadiu as salas de famílias do mundo inteiro: 

“Ele não era exatamente um apaixonado pela televisão, ele tinha uma utopia: salvar o mundo por meio da televisão. Ele pensava que um dos maiores males da humanidade, além das doenças que já mataram milhões de pessoas, da fome e da pobreza, era a ignorância. Em sua visão utópica, a televisão poderia libertar a humanidade da ignorância, e ele pensava que, se o homem se libertasse da ignorância, isso o libertaria também da fome, do desemprego e de todos os outros males. Por isso, concebeu usar esse poderoso meio não apenas para dar informação, mas para comunicar cultura. Ele pensava que sua tarefa como diretor maduro era poder fazer filmes baseados na história como fonte de conhecimento, e poder descrever o mundo por meio da televisão.”

A tomada do poder por Luis 14 é uma das obras deste projeto. Roberto Rossellini apresentou a ideia à TV francesa que aprovou, condicionando que as filmagens deveriam se desenvolver em exatos 20 dias, com recursos financeiros mínimos. Um desafio que remonta à experiência de Rossellini com suas obras primas do neo-realismo, imaginem rodar um filme que exige primorosa reconstituição de época em apenas 20 dias. 

Pois assim foi feito. A narrativa acompanha o rei sol quando assume o pleno poder a partir da morte do Cardeal Mazarin. Nesse ponto, já se percebe a marca de Rossellini, a abertura é uma longa exposição de Mazarin à beira da morte, o homem mais poderoso da França agoniza frente ao espectador, com reconstituição tão realista que médicos chegam a cheirar as fezes do cardeal em busca da doença que o acomete. “O que é importante? Descobrir os homens tal como são.” – Roberto Rossellini. 

O diretor italiano expõe sem pudor, quase com crueldade, o cotidiano da realeza francesa, personificada em um soberano que baseou seu reinado na imponência: terminou o palácio de Versalhes, estimulou o culto à aparência através de figurinos requintados, obrigava seus súditos mais próximos a presenciarem seus banquetes, incluindo o café da manhã na cama, como se fosse um espetáculo teatral. “O que se vê é a dominação pela moda,, o desfilo cotidiano de mortos-vivos levados pelas aparências e uma etiqueta inventada do nada. De certa forma, é o filme definitivo sobre Luís 14.” – Hervé Dumont. 

Outro ponto que merece destaque na empreitada televisiva de Roberto Rossellini é explorar a não-interpretação dos atores. Luís 14 é interpretado pelo dramaturgo e diretor de teatro Jean-Marie Patte, naquele momento sem nenhuma experiência como ator. As técnicas de Rossellini na direção de atores sem experiência, como os amadores do neo-realismo, era colar frases do texto em pontos específicos do cenário, ou usar o teleprompter, exigindo que os atores lessem os diálogos ao invés de interpretá-los. 

“Rossellini não faz seus atores atuarem, não os faz expressar esse ou aquele sentimento; ele apenas os faz estar na frente da câmera. Nesse tipo de mise en scène, a localização no espaço dos personagens, o jeito como eles falam e se movem é mais importante do que os sentimentos mostrados em seus rostos, e muito mais importante do que o que eles dizem.” – André Bazin. 

A tomada do poder por Luís 14 (La prise du pouvoir par Louis XIV, França, 1966), de Roberto Rossellini. Com Jean-Marie Patte (Luís 14), Katharina Renn (Ana de Áustria), César Silvagni (Cardeal Mazarin), Raymond Jourdan (Colbert), Pierre Barrat (Fouquet), Joelle Laugeois (Maria Teresa). 

Referência: A tomada do poder por Luís 14. Um filme inspirado na vida de Luís 14. Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Euclides Santos Mendes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016

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Stromboli

Em Fazer um filme, Federico Fellini depõe sobre o que aprendeu durante o período em que trabalhou com Roberto Rosselini.

“… É isso, parece-me que com Rossellini aprendi – um ensinamento nunca traduzido em palavras, nunca expresso, nunca transformado em programa – a possibilidade de caminhar em equilíbrio no meio das condições mais adversas, mais contrastantes e, ao mesmo tempo, a capacidade natural de usar em benefício próprio essa adversidade e esses contrastes, transformá-los num sentimento, em valores emocionais, num ponto de vista. Rossellini fazia isso, vivia a vida de um filme como uma aventura maravilhosa que deve ser vivida e contada.”

Essa aventura se expressa com letras maiúsculas em Stromboli. Karin e Antonio se conhecem no fim da guerra e se casam. Para Karin, o casamento não passa da fuga de seu passado, a perspectiva de um futuro menos vulnerável. Os dois se mudam para Stromboli, ilha de pescadores na Sicília onde Antonio nasceu. A realidade se defronta para Karin assim que desembarca na ilha: miséria, desolação, isolamento e o perigo do vulcão em constante estado de erupção.

“A ilha de Stromboli funciona como uma metáfora para o cinema italiano da época: poucos recursos de produção, uso de atores não profissionais, filmagem em locais externos muitas vezes massacrados pelo sol intenso e vento forte. Karin é obrigada a encarar a cultura da ilha e a falar uma nova língua, assim como Ingrid tem de aprender a interpretar no esquema do neorrealismo italiano, diante de não atores, sem maquiagem, sem fotografia caprichada ou belos vestidos.” – Pedro Maciel Guimarães.

A aventura de Rossellini resultou num dos filmes mais espetaculares do neorrealismo. A sequência da caça ao atum, um massacre sanguinário, contrapõe a necessidade de sobrevivência com atos violentos, ao som de um cântigo religioso. No final, a violência do vulcão coloca em prova a vida e a fé de Karin. Terra, mar e céu aberto desfilam nas lentes sem filtros de Rossellini.  A vida como ela é.

Stromboli (Itália, 1950), de Roberto Rossellini. Com Ingrid Bergman (Karin), Mario Vitale (Antonio), Renzo Cesana (Padre), Mario Sponsor (Homem do farol).

Referências:

Fazer um filme. Federico Fellini. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

Coleção Folha Grandes Astros do Cinema. Vol. 5: Ingrid Bergman. Cássio Starling Carlos.São Paulo: Folha de S. Paulo, 2014.

Descartes

Entre os anos 60 e 70, o diretor Roberto Rossellini, grande mentor do neo-realismo italiano, dirigiu filmes com temáticas históricas para a televisão italiana. O mais ambicioso de todos é Descartes, interpretação da vida do francês René Descartes, considerado o pai da filosofia moderna.

O telefilme, dividido em dois capítulos, começa quando o jovem Descartes era aluno do prestigiado colégio jesuíta de La Fleche. A partir daí, a obra segue os passos do filósofo peregrino, em suas viagens pela França, Holanda, Alemanha e outros países. Rossellini compõe seu filme como um grande tratado filosófico, com os atores discursando entre si, em longos debates nas universidades e salões. Nas filmagens, os atores liam os textos no teleprompter, se despojando de atuações, bem ao estilo de reportagens televisivas.

“Rossellini utiliza o teleprompter por razões práticas, mas também para impedir os atores de ‘atuar’, isto é, de se identificar com o personagem, parecerem naturais ou verossímeis. Enquanto leem as falas no aparelho, eles não podem olhar nos olhos dos interlocutores, e isso agrega aquela fixidez quase de manequim que Rossellini impõe a eles diante das câmeras. Os atores não representam, mas ‘citam’, leem, falam como livros; eles não são vozes individualizadas, mas ‘porta-vozes’; eles não nos dão a ilusão de encarnar Luíz 14, Pascal ou Descartes, mas de ‘substituir’ esses personagens, como se carregassem o tempo todo um cartaz com um nome escrito.” – Adriano Aprà.

Referência: Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema. Descartes, um filme inspirado na vida de René Descartes. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

Descartes (Cartesius, Itália, 1974), de Roberto Rossellini. Com Ugo Cardea (René Descartes), Charles Borrmel (Padre Marin Mersenne), Anne Pouchie (Hélène), Kenneth Belton (Isaac Beeckman), Renato Montalbano (Constantin Hutgens).

Onde está a liberdade?

A reunião entre Totó, dos mais famosos comediantes italianos, com Roberto Rossellini, pai do neorrealismo, resultou em um filme divertido e crítico da sociedade italiana. O barbeiro Salvatore Lojacono acaba de cumprir 20 anos de prisão por ter assassinado o amante de sua mulher. Sem conseguir se integrar à sociedade, ele tenta de tudo, inclusive indo aos tribunais para voltar para a prisão. 

Os momentos divertidos da trama se concentram na defesa própria que Salvatore faz no tribunal, tentando convencer os jurados que precisa voltar para a prisão, onde foi mais feliz. Durante a defesa, flaschbacks mostram sua vida na prisão e nas ruas, após a liberdade. Rossellini aborda questões como marginais que não conseguem se reintegrar à sociedade, mesmo após pagar por seu crimes; pessoas que transitam pela noite sem emprego na Itália do pós-guerra, marcada pelo individualismo; a falta de moradia; enfim, a Itália que tenta se reerguer das tragédias da Segunda Guerra Mundial, mas esquece de seus cidadãos mais necessitados. Roberto Rossellini filma tudo com a estética neorrealista, buscando o cotidiano da cidade, bem ao seu estilo quase documental. 

Onde está a liberdade (Dovè la libertà…?, Itália, 1954), de Roberto Rossellini. Com Toto (Salvatore Lojacono), Vera Molnar (Agnese), Andrea Compagnini (Nadino Torquati), Augusta Mancini (Teresa). 

Era noite em Roma

Três militares fogem de um campo de prisioneiros durante a ocupação nazista na Itália. São acobertados por um grupo de freiras e conseguem chegar a Roma, onde conseguem abrigar-se na casa de Esperia. Escondidos no sótão, vivem os dilemas entre continuarem enclausurados ou se arriscarem pelas noites da cidade junto com a resistência até conseguirem chegar às suas tropas. 

Roberto Rossellini (registros apontam que ele não concluiu o filme devido a problemas com a produção) trata novamente da segunda guerra e da resistência italiana. Os militares são de nacionalidades diferentes e, cada uma à sua maneira, enfrentam as angústias de soldados que se sacrificam, diariamente, lutando longe de casa, das famílias, buscando sentido para essa entrega.  

Era noite em Roma (Era notte a Roma, Itália, Itália, 1960), de Roberto Rossellini. Com Leo Genn (Michael Penberton), Giovanna Ralli (Esperia), Sergey Bondarchuk (Fyodor Nazukov), Renato Salvatori (Renato Balducci), Peter Baldwin (Peter Bradley).