Malasartes e o duelo com a morte

Jesuíta Barbosa vive o lendário Pedro Malasartes, personagem do folclore que ganhou fama nas mãos de Mazzaropi. Na comédia de Paulo Morelli, Malasartes tem que fazer das suas trapaças para ludibriar um devedor – Próspero, irmão de sua namorada. No entanto, seu talento como trapaceiro aparece mesmo quando se defronta com a morte, que quer fazer de Malasartes seu substituto. A narrativa alterna ações de aventura e comédia em dois planos: o reino dos vivos e dos mortos. 

Não espere muito do roteiro, é aventura despretensiosa com toques de comédia, Jesuíta Barbosa na pele do matuto desfila talento. O ponto forte do filme são os efeitos especiais, cerca de 50% das cenas foram geradas digitalmente, caminho que o cinema brasileiro trilha, investindo cada vez mais nos gêneros fantasia e sobrenatural. 

Malasartes e o duelo com a morte (Brasil, 2017), de Paulo Morelli. Com Jesuíta Barbosa, Milhem Cortaz, Isis Valverde, Julio Andrade, Leandro Hassum. 

O mundo mágico das animações da Disney

Nas manhãs de domingo, o pai deixava os filhos na porta do cinema. Estacionava o carro na Rua Padre Eustáquio. Os dois filhos maiores andavam na frente, ele seguia atrás de mãos dadas com a filha caçula. Comprava os ingressos, balas, pedia alguns cuidados, recomendava ao mais velho “olho nos seus irmãos”. Esperava os filhos passarem pela roleta, acenava e deixava os meninos com a alegria das matinês de domingo, no mundo mágico dos filmes de animação da Disney.

Walt Disney (1901-1966) começou trabalhando com desenhos de publicidade enquanto fazia mini filmes de animação. Criou alguns dos personagens animados mais divertidos, como Mickey Mouse, Pluto, Pateta, o Pato Donald. Ousado, irreverente, não media esforços em suas experiências. A partir de 1937, escreveu seu nome na história do cinema, criando uma série de animações em longa-metragem.

Branca de Neve e os sete anões (1937) e Pinóquio (1940) levaram o universo misterioso dos contos de fadas para as telas. Fantasia (1940) é o clássico da animação: ousadia estética, harmonia perfeita entre desenhos  e a música erudita de Dukas, Beethoven, Stravinsky, Bach, Tchaikovsky, Schubert, entre outros.

A fase áurea da Disney continuou com Cinderela (1950), Alice no país das maravilhas (1951), A dama e o vagabundo (1955), A bela adormecida (1959).

Depois da morte de Walt Disney, em 1966, a Disney passou cerca de 20 anos em uma fase de decadência criativa, com filmes pouco expressivos. A pequena sereia, lançado em 1989, praticamente fez o estúdio renascer. A tecnologia digital comandou os projetos a partir daí e o estúdio mostrou ao mundo pelo menos mais dois clássicos: A bela e a fera (1991) e O rei leão (1994).

Falta um personagem nesta lista de favoritos. Um menino que se recusa a crescer, mora em uma terra habitada por crianças, índios, piratas e o adorável crocodilo que nada ao som de relógio na barriga. Para indicar o caminho desta terra, ele responde simplesmente, “segunda estrela à direita, direto até o amanhecer”. Peter Pan (1953) é mais do que uma animação da Disney. É todo o universo da Disney, feito de fantasia, sonhos e desejos de milhões de crianças que cresceram com os olhos e os corações nesse mundo.

Assisti a vários destes filmes de animação em felizes manhãs de domingo. Quando ainda existiam cinemas de bairro e matinês. Quando irmãos de mãos dadas se deixavam levar para a fantasia, na certeza de que no final os pais estariam esperando na porta do cinema.

No intenso agora

A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou registros feitos por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960.

O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de fotos da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar.

O belo texto pontua de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais.

No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles.

Clash

Cairo, 3 de julho de 2013. O Presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, é deposto pelo exército do país, depois de manifestação contra o governo. Manifestantes a favor e contra o presidente deposto tomam as ruas da cidade em violentos confrontos.

O diretor Mohamed Diab narra este dia através de ousada experimentação linguística. Manifestantes de ambos os lados são presos dentro de um camburão da polícia e o motorista deve atravessar as zonas de confronto rumo à delegacia. A câmera não sai de dentro do camburão, filmando tudo neste minúsculo espaço repleto de personagens. A tensão cresce minuto a minuto e os manifestantes devem decidir entre o preconceito irascível e perigoso neste ambiente fechado, cujo calor insuportável acirra os ânimos, ou ceder à solidariedade para sobreviverem aos conflitos. 

Clash (Eshtebak, Egito/França, 2016), de Mohamed Diab. 

A gente

Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba. 

A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.  

A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.

Rock’n roll: por trás da fama

O diretor e roteirista Guillaume Canet é casado com Marion Cotillard. Na ousada proposta de Rock’n roll: por trás da fama, os dois interpretam a si mesmos, provocando uma crítica feroz à necessidade de se manter como astros famosos no universo do audiovisual. 

Durante gravação de sequência do filme no qual está trabalhando, o astro Guillaume Canet é chamado de velho por atriz mais nova. Incomodado com a acusação e temeroso de não conseguir mais bons papéis no cinema, o ator busca técnicas de rejuvenescimento corporal. Enquanto isso, Marion Cotillard está em casa treinando sotaque para seu novo filme. 

As transformações físicas de Canet rendem cenas engraçadas, assim como as preparações de Marion Cottilard. O desgaste do relacionamento pontua a trama e o final do filme reserva uma virada que aponta para a angústia que domina grande parte de homens e mulheres, famosos e comuns: os dilemas do envelhecimento. 

Rock’n roll: por trás da fama (Rock’n roll, França, 2016), de Guillaume Canet. Com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lelouche, Ben Foster. 

As duas Irenes

A clássica história do caixeiro viajante dá origem a uma instigante narrativa. Tonico trabalha viajando pelo interior. Tem duas famílias em cidades vizinhas, duas filhas de 13 anos em cada família com o mesmo nome: Irene. Irene de Mirinha descobre o segredo do pai e começa a se relacionar com a outra Irene, sem que ela saiba.

A amizade entre as irmãs ganha o belo contorno das descobertas da adolescência. A época é indefinida mas ainda não existem os smartphones e os massacres das redes sociais. As duas Irenes vivem o cotidiano da vida do interior, em praças, coretos, cinema. O contraponto é o perigoso mundo adulto, Tonico vive no limite com suas mulheres, com as filhas. Uma virada de roteiro encaminha o filme para um final carregado de metáforas, quando as personalidades podem se confundir.  

As duas irenes (Brasil, 2017), de Fabio Meira. Com Priscila Bittencourt (Irene de Mirinha), Isabela Torres (Isabela de Neuza), Marco Ricca (Tonico), Suzana Ribeiro (Mirinha), Inês Peixoto (Neusa), Teuda Bara (Madalena). 

Bacurau

O cenário é uma cidadezinha no meio do sertão nordestino. O tempo, futuro indefinido. Teresa está na boleia de um caminhão ao lado do motorista. Passam por caixões jogados na estrada, caídos de outro caminhão, por uma represa abandonada, chegam à Bacurau, onde acontece o funeral da velha Carmelita. Depois do enterro, dois motoqueiros chegam à cidade e partem em seguida. A partir daí, estranhos acontecimentos assolam os moradores: a cidade desaparece do mapa, drone em forma de disco voador sobrevoa a estrada, família de colonos é encontrada assassinada. 

A sinopse demonstra as influências da película do premiado diretor Kleber Mendonça Filho (O som ao redorAquarius), dessa vez contando com a co direção de Juliano Dornelles: o clássico gênero faroeste americano aliado ao faroeste do sertão recheado de ideologias de Glauber Rocha, além de filmes de futuros distópicos ao estilo Mad Max. Quando entra em cena o grupo de caçadores humanos liderados por Michael, pode-se enxergar também referências ao Predador. Nesse ambiente caótico, acontecem confrontos violentos, colocando os pistoleiros Lunga e Michael em planos opostos. A leitura ideológica coloca também em planos opostos classes distintas, a elite voraz e sanguinária mirando a gente pobre do sertão. Resta aos oprimidos a mesma violência, todos de armas em punho, destino eterno da sociedade que vive sempre à beira da guerra civil.  

Bacurau (Brasil, 2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Com Barbara Colen, Sônia Braga, Karine Telles, Udo Kier, Silvero Pereira. 

Gosto se discute

chef Augusto é dono de restaurante e se vê diante de diversos problemas. Um ex-funcionário monta um food truck na porta de seu estabelecimento, roubando a freguesia. Cristina é designada pelo banco credor de Augusto como auditora, assume a direção do restaurante exigindo diversas mudanças, inclusive no cardápio. Para completar, o chef perde o paladar.  

Gosto se discute aproveita a ascensão da gastronomia para compor narrativa com toques de comédia romântica. O confronto entre Augusto e Cristina assume os clichês das brigas e flertes do gênero. Os diálogos entre Augusto e o Dr. Romualdo são o melhor do filme. 

Gosto se discute (Brasil, 2017), de André Pellenz. Com Cássio Gabus Mendes (Augusto), Kéfera Buchmann (Cristina), Gabriel Godoy (Patrick), Paulo Miklos (Dr. Romualdo).

Pendular

Casal formado por artista plástico (Rodrigo Bolzan) e dançarina (Raquel Karro) vai morar em um galpão com a intenção de fazer das instalações ao mesmo tempo moradia e espaço para intervenções artísticas. A narrativa mistura dramas cotidianos do casal, incertos ante a possibilidade de terem filhos, com experimentações artísticas. As intervenções artísticas de Rodrigo Bolzan compõe com potência o cenário do filme. No entanto, o fascínio fica por conta da dançarina. Raquel Karro interage com as experimentações do marido e com o grande espaço do ambiente em números de dança solitários e fascinantes. 

Pendular (Brasil, 2017), de Júlia Murat. Com Raquel Karro, Rodrigo Bolzan, Valeria Barreta, Renato Linhares.