A professora de piano

Erika é professora de piano no Conservatório de Viena. Ela vive em um pequeno apartamento com a mãe repressora, que controla sua vida e sua carreira de maneira autoritária e conservadora. As duas vivem em conflito permanente, chegando a agressões físicas. A solidão de Erika é marcada por incursões à cabines onde vê filmes pornográficos e comportamento sadomasoquista, incluindo mutilações.

O aclamado filme de Michael Haneke conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além dos prêmios de melhor atriz para Isabelle Huppert e melhor ator para Benoit Magimel. A relação de dominação e subserviência sexual que Erika vive com seu aluno Walter Klemmer proporciona algumas das cenas de sexo mais deprimentes do cinema.  

A professora de piano (La pianiste, Áustria, 2001), de Michael Haneke. Com Isabelle Huppert (Erika Kohut), Annie Girardot (a mãe), Benoit Magimel (Walter Klemmer), Suzanne Lothar (Madame Schober (Anna Sigalevitch (Anna Scober. 

A crônica francesa

O filme começa com uma belíssima homenagem a Jacques Tati: câmera filma do lado de fora um garçom subindo por um prédio, o espectador acompanha a subida pelas janelas, exatamente como a clássica cena de Meu tio (1958). A outra homenagem é também saudosista, pois a narrativa acompanha quatro histórias narradas por jornalistas, de um tempo em que o romantismo, a ousadia, a liberdade de expressão ainda eram tônicas deste fascinante mundo dos contadores de histórias reais. 

Arthur Howitzer Jr. investe o dinheiro do pai para fundar uma revista, A crônica Francesa, recheada de reportagens de estilo literário. As quatro histórias traduzem o jornalismo investigativo, os repórteres acompanham e investigam os fatos narrados. Um ciclista/jornalista percorre as ruas da cidade contando as histórias de seus moradores; uma crítica de arte narra a fascinante saga de um artista que está preso por assassinato e se torna um expoente da arte moderna; um jornalista capaz das maiores frases literárias da revista se envolve com o mundo do crime para retratar os perfis dos mafiosos; uma jornalista tem um caso com um jovem revolucionário quando cobre os manifestos estudantis nas ruas da cidade. 

O estilo extravagante na direção de arte e, principalmente, cenografia, está presente em todas as histórias. A narração de Anjelica Huston colabora com o charme deste filme para ser visto e ouvido com os sentidos abertos à sensibilidade artística de Wes Anderson. 

A crônica francesa (The French Dispatch, EUA, 2021), de Wes Anderson. Com Benicio Del Toro (Moses Rosenthaler), Adrien Brody (Julian Brody), Tilda Swinton (J.K.L. Berensen), Léa Seydoux (Simone), Frances McDormand (Lucinda Krementz), Timothée Chalamet (Zeffirelli), Lyna Khoudri (Juliette), Jeffrey Wright (Roebuck Wright), Mathieu Amalric (The commissaire), Stephen Park (Nescaffier), Bill Murray (Arthur Howitzer, Jr.)

2046 – Os segredos do amor

A narrativa começa com exuberantes imagens futuristas de um trem em alta velocidade. Narração indica que o expresso leva a 2046, de onde ninguém nunca regressou, apenas um jovem que demonstra imenso sofrimento dentro de um dos vagões, sem saber há quanto tempo está ali. 

Corta para a década de 60, o espectador descobre que 2046 é um livro escrito por Chow Mo-Wan (Tony Leung), o mesmo personagem de Amor à flor da pele. É a sua forma de tentar resgatar suas memórias de amor, principalmente de Li-Zhen. O filme retrata uma sucessão de casos amorosos, a maioria tristes e sem perspectivas, envolvendo Chow, que se entrega às mulheres quase por compulsão. Ele mora em um hotel, é fascinado pelo quarto 2046 e as mulheres que passam pelos seus dias entram em suas histórias. 

2046 – Os segredos do amor faz parte da trilogia de dramas românticos, ou melodramas, de Wong Kar Wai. Completam a série Dias selvagens (1990) e Amor à flor da pele (2000). 

2046 – Os segredos do amor (2046, China, 2004), de Wong Kar Wai. Com Tony Leung Chiu-Wai, Gong Li, Takuya Kimura.

Quinta série

O vento frio de junho achava seu caminho entre os prédios do campus. Motivado pela estranha nostalgia que manhãs de outono provocam, resolvi caminhar pelos bonitos jardins da universidade. Passei pelo complexo da unidade de saúde. Onde agora é a escola de odontologia, havia campo de terra, quadra de futebol de salão e piscina.

O centro esportivo era aberto à comunidade nos finais de semana e nas manhãs de sábado eu acompanhava o pai para assistir aos jogos do time do bairro. Meu pai era o treinador, mas sempre tive a impressão que ele apenas distribuía as camisas. Ele andava de um lado para o outro na lateral do campo durante o jogo, gritando com os jogadores e com o juiz. Nada que se parecesse com instruções ou táticas de jogo. Pensando bem, parecido com os técnicos profissionais de hoje.

Na quinta série, entrei para o colégio da rede católica que naquela época funcionava dentro da universidade. As aulas começavam a uma da tarde. Antes e depois, os meninos jogavam futebol. Às 12h30 em ponto, nos reuníamos na quadra e dividíamos apressados os times. Era apenas meia hora de pelada. Cerca de quarenta minutos depois, ofegantes e suados, entrávamos na sala. As meninas olhavam com repulsa, os professores repetiam sermões sobre bom comportamento, blábláblá sobre a necessidade de aprender a separar as coisas, hora da escola e hora do futebol. Apenas o professor de português nos olhava complacente.

Depois da aula, era a vez do campo de terra. Onze meninos para cada lado, sem disciplina ou posições definidas, todo mundo indo e voltando como futebol polivalente, correndo atrás da bola até escurecer.

Quando eu chegava em casa, encontrava o olhar desolado da mãe no meu uniforme sujo de poeira e terra. Esperava por um sermão, um puxão de orelha, algo assim. Ela apenas pedia que eu tirasse logo a roupa e corria para o tanque. No outro dia, na hora da escola, havia sempre uma bermuda e camiseta limpas passadas em cima da cama. Ela me mandava para a aula com um beijo quente no rosto e mil recomendações para não sujar o uniforme.

Termino meu passeio pela infância nessa manhã de outono no atual prédio da Faculdade de Direito. Aqui ficavam as salas de aula do velho colégio. Foi bem na porta daquela sala, no começo da minha adolescência, que o professor de português me viu sentado na pequena murada branca que separa as salas do pátio, pouco antes da aula começar, o uniforme limpo e bem passado. No terceiro dia em que me viu na mesma posição perguntou:

– Você parou de jogar futebol?

– Não estou com vontade.

Ele olhou furtivamente para o outro lado do pátio e entrou na sala. Eu fiquei ainda alguns minutos. Os olhos fixos na sala em frente, onde as meninas da sexta série conversavam animadamente. Mariana, encostada na parede, de vez em quando olhava para mim, os lábios ensaiando um sorriso.

Raios e trovões

A história aconteceu em uma pequena cidade da Zona da Mata, interior de Minas. Minha mãe brincava no chão da cozinha, perto do fogão à lenha, com irmãos. O irmão mais velho, de 20 anos, estava deitado na mesa da cozinha, um pequeno rádio elétrico em seu peito, escutando notícias do Botafogo, time do coração.

Era noite de tempestade, relâmpagos e trovões – desses que despertam todos os medos. De repente, o mais ensurdecedor de todos. Todos na cozinha se levantaram em um salto. Menos o irmão que escutava rádio. Ele estava morto. Um raio atingira as imediações e, por uma dessas fatalidades inacreditáveis, o rádio pousado no peito conduziu a descarga, matando-o. Não me questionem das possibilidades científicas ou probabilidades estatísticas,  aconteceu.

A mãe nunca se recuperou do trauma. Em dias de tempestade, acende uma, dependendo da quantidade de raios e trovões, várias velas para Nossa Senhora. Na infância, me acostumei a vê-la andando pela casa escutando a chuva, mãos segurando o coração a cada trepidar de janelas. Chuva forte, ela apertava os filhos no colo dizendo palavras carinhosas e protetoras  – para ela mesma. Rádio ou qualquer coisa ligada na tomada, nem pensar.

Quando a chuva diminuía, eu dava um jeito de escapulir para a rua, correr para as brincadeiras de chuva. Tico-tico fuzilado, o perdedor ia para o paredão, braços abertos, rosto voltado para o muro, uma bola de meia molhada deixava uma sádica marca nas costas do pobre condenado; ou simplesmente fazer barricada de pedras e paus na correnteza, pular em poças d’água. Quando voltava para casa, a mãe já tinha esgotado as velas.

Adolescente, no tempo das águas, eu e amigos descíamos a pé do Estadual Central – do Santo Antônio ao Centro da Cidade – sem guarda-chuva. Eu deixava a chuva entrar pelas roupas, encharcar corpo e alma, sensação de jovens em bando despreocupados da vida. Chegava em casa, a mãe dizia “menino, tira essa roupa e toma um banho quente”. Eu tomava, esquecido de tudo.

E beijar namorada debaixo da chuva… Hoje, tenho certo receio da chuva, um resfriado, coisa mais séria, sei lá. Prefiro sentar na varanda para ver a chuva, raios e trovões. A cada barulho penso na mãe acendendo velas, as mãos no peito, o coração na infância.

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

O sádico selvagem

Prepare-se para uma das sequências mais aterrorizantes do gênero noir. Depois de enganar mãe e filha em um parque aquático, Dancer (Eli Wallach) e seu comparsa as acompanham até em casa. Os dois estão incumbidos por um cartel de traficantes de drogas de resgatar um pacote de cocaína que foi plantado em uma boneca, transportada inadvertidamente pela criança para São Francisco. Dancer brinca com a criança, com um ar amável, enternecedor, no entanto, o espectador já sabe que ele é um frio assassino. Quando descobre que a criança usou a cocaína como maquiagem para a boneca, Dancer começa a pôr calmamente o silenciador no revólver, sinal de que vai matar a criança e a mãe. 

O filme, dirigido por Don Siegel, tem uma espetacular sequência de perseguição de carro nesta cidade que parece ter sido construída especialmente para diretores e técnicos do cinema desfilaram seu talento em sequências de ações envolvendo automóveis pela ladeiras – veja Bullit (1968) e O corpo que cai (1958). A narrativa acompanha os dois bandidos durante um dia, buscando pacotes de cocaína implantados em bagagens de moradores da cidade. 

Eli Wallach domina o filme com uma interpretação que revela todas as nuances de uma mente doentia que habita um psicopata assassino. Ele está conversando amigavelmente com suas vítimas, um segundo depois… bem, a mais pura essência do terror. 

O sádico selvagem (The lineup, EUA, 1958), de Don Siegel. Com Eli Wallach, Robert Keith, Richard Jaeckel.

Réquiem para Sra. J

O filme abre com Jelena (Mirjana Karanovic) preparando cuidadosamente a arma que pertenceu ao seu marido. É segunda-feira, com esse gesto anuncia-se a decisão da Sra. J: na sexta-feira, aniversário da morte do marido, ela se matará. 

A narrativa é dividida em espécies de capítulos, seguindo os dias da semana. Jelena está desempregada, sua família desestruturada, o peso do sustento econômico recai sobre a filha mais velha que não suporta mais tal obrigação. O diretor Bojan Vuletic é mais um cineasta europeu a se debruçar com sensibilidade sobre a crise trabalhista na Europa e suas consequências na vida das pessoas e na família. Dessa leva recente, vale citar Dois dias uma noite (2014), O valor de um homem (2015), Eu, Daniel Blake (2016), Colo (2017), Você não estava aqui (2018).

A narrativa alterna momentos de bom humor, destaque para o conselho oferecido a Jelena por um vendedor de armas e as propostas do agente funerário, com momentos depressivos e tensos. resultados da desintegração familiar, das burocracias do estado em relação à assistência de seus cidadãos, da tragédia anunciada ao espectador pela protagonista. Jelena acompanha e assiste a esses momentos com a serenidade silenciosa de quem já tomou sua decisão. Os longos planos em sua caminhada pela cidade, os planos estáticos em sua resignação dentro de casa, ajudam a entender o tratamento sensível tanto em termos de narrativa quanto em propostas audiovisuais deste filme terno. 

Réquiem para Sra. J (Rekviem Za Gospodja J., Sérvia, 2017), de Bojan Vuletic, com Mirjana Karanovic, Jovana Gabrilovich, Danica Nedeljkovic.

Sempre aos domingos

Há silêncio dentro do carro. O irmão cochila, rosto encostado no vidro lateral. Nem o fascínio que sente por carros e estradas consegue vencer o cansaço. A irmã dorme desde que o pai engatou a primeira marcha, deitada no banco, a cabeça em meu colo. No banco da frente, a caçula da família se esconde nos seios da mãe, participando inocente da apatia que toma conta de todos naquele final de tarde de verão. A volta para casa transcorre assim, silenciosa.

Naquela manhã, a mãe se levantou antes de todos. Sentada à mesa da sala de jantar, sacola de pães em frente, uma bisnaga de mortadela, ela prepara a comida do dia. A faca parte cada pedaço bem fino, todos da mesma espessura, como uma máquina de padaria. Ela conta os pães, separando três para cada filho. “Os meninos são pequenos, não dão conta de comer isso tudo. E ainda tem o almoço”, diz o pai, saindo do quarto. “Nadar dá fome e pão com salame é gostoso e barato.”, justifica a mãe, enquanto ajeita tudo em uma cesta: panela de arroz, outra com pedaços de frango assado por cima da farofa com linguiça. No isopor, o pai coloca os recipientes de plástico com k-suco, duas garrafas de cerveja, dois litros de água, cobrindo tudo com barras de gelo.

A estrada para Sete Lagoas é movimentada, uma pista para cada lado transforma meros quilômetros em uma jornada longa, retardada por fila de caminhões que exercitam a paciência do pai ao volante. Ele vira à direita, logo após a placa indicativa para Pedro Leopoldo. São aproximadamente cinco quilômetros de estrada de terra, poeira cobrindo as laterais do carro.

O pai passava a semana planejando pequenas viagens de um dia. Chegava em casa e logo após o jantar discutia com a mãe o destino. “Fiquei sabendo de uma cachoeira perto de Vespasiano. É dentro de uma fazenda, o pessoal chama de Bem-te-vi.” “É longe?” “Não.” Na outra semana: “O Milton me falou de um lugar muito bom, Jujulândia, estrada de Pedro Leopoldo, perto, tem três cachoeiras.”

Em uma das entradas de Jujulândia, o carro passa dentro do riacho, as rodas afundam, águas quase cobrindo os pneus. Depois, a estrada estreita, cortando um bosque, árvores dos dois lados, galhos atravessando pelo alto, formando uma alameda coberta. Os carros ficam na sombra das árvores, pouco distantes do rio.

A mãe estende uma grande toalha ao lado do carro, ajeita com carinho os utensílios, tomando cuidado de fechar bem as panelas, protegendo a comida contra as formigas com um pano de prato amarrado em cada uma. Coloca um pequeno colchão ao lado. Ela vai passar grande parte do dia à sombra, tomando conta do bebê, enquanto o pai desbrava com os três outros filhos.

“Cada um pega um tronco destes.”, ordena o pai, com dois juncos nos braços. Gastamos cerca de uma hora procurando mais pedaços pelos arredores, entrando em trilhas, passando dentro d’água com os pequenos troncos acima da cabeça. Ele vai até o carro, volta com alguns pedaços de corda: “Uma jangada, vamos fazer uma jangada.”

O pai não embarca na jangada, deixa a aventura para os filhos. Descemos rio abaixo, a jangada batendo em uma pedra ou outra, aos poucos as cordas afrouxam, sensação de que todos os troncos vão se soltar. Quase no final da corredeira, pulamos e deixamos o que restou da jangada seguir seu curso. Olho para o alto, o pai gesticula alegre.

Agora ele também está silencioso. Olhar fixo na estrada, seguindo lento a fila de carros que se forma na volta para casa. A mãe, solidária no cansaço, vigia com o canto dos olhos, atenta ao marido, pronta para um cutucão caso note um cochilo. O sol, já fraco, rastro amarelado no céu, decreta o final do dia.

Eu tento manter os olhos abertos, mas sinto aos poucos o rosto tombar sobre o peito. Antes de adormecer, penso na semana, o pai e a mãe discutindo um novo destino para o domingo. Sempre aos domingos.

Bailes de carnaval

Zé de Pio  passou o pequeno pano branco perto do nariz, cheiro de amaciante, ainda o calor do ferro de passar. O amaciante, artigo de luxo na casa beirando a miséria, era reservado para ocasiões marcadas a caneta no calendário: dia do aniversário de um dos seis filhos, quando Donana tirava do armário a roupinha do ano anterior e a levava ao tanque e ao ferro de passar com o carinho de mãe, e nas vésperas dos bailes de carnaval.

Por volta das nove horas da noite, Zé de Pio  começava a perambular pela sala como presidiário em dia da libertação. A cada volta, espreitava Donana a passar as peças brancas: calça e camisa sociais e dois pequenos pedaços de pano.  As roupas vestia solene na frente do espelho, olhar atento para não estragar as dobras do tecido.

Depois, o ritual que repetiria durante quatro noites. Sentado na pequena e corroída mesa de comer, deslizava o primeiro pano branco em cada curva do trompete. Começava pela campana, a mão em gestos circulares até não restar a menor dúvida de partículas de poeira. Seguia por toda a extensão do tubo num vai e vem ritmado, sem sobressaltos. Cada um dos três pistos recebia tratamento igualitário, como se naquele momento Zé de Pio  não quisesse notas diferenciadas, apenas o brilho uniforme.

Por fim, jogava o pano usado de lado e cuidadosamente desdobrava o segundo pano branco. A mão direita em formato de cone recebia o tecido e num gesto ansioso encobria o bocal do trompete, esfregando o pequeno cilindro, às vezes com fúria, às vezes com suavidade, misturando movimentos como em um sopro descontrolado.

Após terminar a operação, colocava o instrumento com cuidado na caixa, se olhava uma última vez no espelho, limpava as gotas de suor que escorriam debaixo dos cabelos pintados de preto, e saía pela porta da casa sem nem mesmo se despedir da mulher. No caminho de apenas quatro quarteirões até o clube, respondia sem olhar as saudações de amigos a erguer copos de cachaça nas portas dos bares. A sensação da bebida estalava no céu da boca, mas Zé de Pio resistia, durante os quatro dias de carnaval resistia e vencia aquelas garrafas que o perseguiam por todos os outros dias de sua vida.

Sempre que saía do bar, pernas em desalinho, batendo o ombro nas paredes das casas, o bêbado ouvia murmúrios de uma ou outra janela “lá vai Zé de Pio, este não tem jeito…”. Mas não em noites de carnaval. Peito esticado, ombros alinhados, pernas firmes, em noites de carnaval ele é José Sandoval Angelini, filho de Pio Angelini.  José Sandoval Angelini, trompetista da Banda da Praça Navona.

Durante quatro noites, ele subiria no modesto palco do clube, trompete nos lábios, olhos fechados, nota a nota destilando as marchinhas de carnaval, o cheiro de suor tomando o lugar da colônia barata, as roupas brancas se encharcando. Até o início das manhãs, José Sandoval Angelini ditava o ritmo do carnaval, recebendo rolos de confete e chuvas de serpentina, partículas de papel que grudavam em seu corpo molhado.

Os jovens pulando no salão pouco se importavam com quem tocava, mal distinguiam o trompetista do tocador de tuba e também pouco se importavam em ouvir, noite após noite, as repetidas e gastas marchinhas de carnaval. Mas nos cantos do salão, sentados à mesa, velhos casais da cidade, embalados pela nostalgia, comentavam quando os olhos paravam no trompetista.

– Nem parece o Zé de Pio.