A guerra acabou

Diego é um dos líderes do Partido Comunista Espanhol, ele luta clandestinamente contra a ditadura de Franco. Diego está em Paris, mas precisa entrar na Espanha, em Barcelona, para tentar avisar um dos seus amigos de partido que a polícia franquista descobriu sua identidade. 

A guerra acabou é um poderoso manifesto político de Alain Resnais, um dos principais expoentes da nouvelle-vague francesa. A narrativa apresenta várias questões políticas e éticas, presentes nas escolhas que os revolucionários devem fazer entre a individualidade e a luta coletiva. Um dos momentos fortes do filme é quando Diego se confronta com um grupo da resistência, formado por jovens idealistas, que pretende usar explosivos em pontos da cidade. 

O estilo irreverente de Renoir está na estrutura, flashbacks e flashforwards interrompem a trama, breves inserts que confundem o espectador sobre o acontecido e o que está por vir. Para completar, o filme tem algumas das mais belas imagens de sexo, espécie de volta de Renoir aos fragmentos de corpos de Hiroshima mon amour (1960).

A guerra acabou (La guerre est finie, França, 1966), de Alain Resnais. Com Yves Montand (Diego), Dominique Rozan (Jude), Jean-François Remi (Juan), Marie Mergey (Madame Lopes), Paul Crauchet (Roberto), Ingrid Thulin (Marianne),

Noite e neblina

O filme, de apenas trinta minutos de duração, é um dos mais poderosos alertas sobre os horrores praticados pelos nazistas nos campos de concentração. No começo, câmera enquadra em campo geral um verdejante campo, desce em panorâmica até uma cerca de arame farpado. O pujante texto de Jean Cayrol alerta: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo uma pradaria com corvos a voar, colheitas e queimadas, mesmo uma estrada por onde passam carros, camponeses, casais, mesmo uma aldeia pacata com feirinhas e campanários, tudo pode nos conduzir a um campo de concentração.” 

A introdução anuncia a principal tônica do documentário: o extermínio praticado pelos nazistas nos campos de concentração aconteceu perto da vida comum nestas cidades que abrigaram os campos, mesmo assim, ninguém viu, ninguém sabia, ninguém foi responsável. A parte documental da película é aterradora. Alain Resnais usou imagens de arquivo de institutos ligados à memória da guerra da Polônia, Holanda, Bélgica e dos museus dos campos de Auschwitz e de Maidanek. 

“A negação é a mola propulsora de Noite e Neblina. Resnais inclui imagens de arquivo dos mortos sendo jogados aos montes em covas coletivas, cadáveres pendurados em cercas de arame farpado, rostos emagrecidos congelados de medo, corpos nus esqueléticos sendo enfileirados para sofrerem humilhações e trens e caminhões transportando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. Ele documenta as câmaras de gás e crematórios, assim como as tentativas grotescas dos nazistas de encontrar utilidade para os objetos pessoais descartados, ossos, pele e corpos de suas vítimas.”

NN – Nacht und nebel (Noite e neblina) eram duas letras usadas para marcar os uniformes azuis listrados dos judeus nos campos de concentração. Quando tiravam as roupas, eram encaminhados para as câmaras de gás. Como denuncia o quase impossível de assistir documentário de Resnais, um elaborado e complexo sistema de extermínio em massa foi construído e posto em prática aos olhos do mundo, que nada viram. 

Noite e neblina (Nuit et brouillard, França, 1956), de Alain Resnais.

Referência: 1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider. Rio de Janeiro: Sextante, 2008

O ano passado em Marienbad

O começo do filme já apresenta a proposta revolucionária do cinema de Resnais, colocando o espectador entre uma história tradicional de adultério e a mais completa imersão estética, sensorial, exigindo libertação dos cânones da narrativa convencional. A câmera-fantasma sobrevoa os corredores de um castelo, narração em off aponta pensamentos desconexos, reflexões, tentativas de resgate da memória que também flui livremente pelo espaço. A viagem da câmara termina no saguão, espectadores assistem a uma encenação teatral.

A partir daí, três personagens, uma mulher e dois homens, se cruzam nos amplos salões, no quarto, na varanda do castelo (um hotel), no majestoso jardim.  Enquanto se relacionam, memórias tentam vir à tona. O homem força a mulher a se lembrar de quando se encontraram um ano atrás, enquanto o outro homem ameaça o casal (o marido, tentando impedir o devaneio dos amantes?). Apesar da aparente linha narrativa, nada faz sentido, as imagens iludem a todo momento, assim como o fazem memórias esparsas.

Marienbad não é criação apenas de Resnais. Sua grandeza decorre de forma orgânica da poesia sonhadora do roteiro de Alain Robbe-Grillet (…). Outro ponto forte é a majestosa fotografia de Sacha Vierny para a tela panorâmica, que por si só é uma verdadeira façanha. Observando ainda mais profundamente, é preciso dar crédito às inferências dos críticos cinematográficos da Cahiers du Cinéma, aos desenvolvimentos na pintura modernista, às correntes existencialistas e bergsoniana da filosofia européia e outras revigorantes inovações teóricas / culturais / sociopolíticas desse período intensamente fértil da cultura francesa”. – 1001 filmes para ver antes de morrer.

Essa impressionante conjunção de referências demarca o cinema fértil da nouvelle-vague francesa, capitaneada por diretores do porte de Alain Resnais, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Agnès Varda, Eric Rohmer, Claude Chabrol. O ano passado em Marienbad é a experimentação mais radical do período. Segundo o crítico José Lino Grunewald, dois filmes revolucionaram o cinema: Cidadão Kane e O ano passado em Marienbad.

“O básico em O ano passado em Marienbad é o seccionamento do intermediário entre o signo cinematográfico e a apreensão do espectador: o suporte da estrutura lógico-analítico-discursiva da linguagem verbal. O conteúdo da fita é relativo. A sincronia do tempo e a diacronia do espaço formam um todo anti absoluto. Os travellings cortam e penetram, inaugurando um espaço que não é o tipicamente ficcional e, não existindo assim esse tempo clássico de ficção – o faz-de-conta -, também a sucessão das imagens e a sua duração isolada ganham uma projeção peculiar e adstrita à realidade do filme em si. Em paralelo, a faixa sonora – música, ruídos e vozes – estabelece, em seu transcorrer, outra esfera de operação dialética, auto-reabastecendo-se ao contato com as imagens motoras. São monólogos e diálogos descontínuos, com um fundo musical barroco-wagneriano e o predomínio do órgão, muito bem empregado.” –  José Lino Grunewald.

O ano passado em Marienbad (L’Année dernière a Marienbad, França, 1961), de Alain Resnais. Com Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitorgg.

Referências:

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (org.). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Um filme é um filme. O cinema de vanguarda dos anos 60. José Lino Grunewald. Organização: Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001

O crime do Monsieur Lange

Jean Renoir faz uma fascinante incursão pelo cinema de gênero. No início do filme já sabemos que o escritor Amédée Lange cometeu um crime. A história é contada por sua namorada em uma pousada, durante a noite, para um grupo de homens. A intrincada trama traz revelações sobre troca de identidades, assédio sexual, corrupção, roubo de direitos autorais. Tudo centrado em uma editora de publicações populares, incluindo jornal e quadrinhos. Lange faz sucesso após publicar uma série de quadrinhos ambientada no Texas, intitulada Arizona Kid. No final, a dúvida que fica é se um assassinato pode ser justificável e o assassino pode escapar sem prestar contas à justiça. 

O crime de Monsieur Lange (Le crime de Monsieur Lange, França, 1936), de Jean Renoir. Com René Lefèvre, Florelle, Jules Berry.