O rei dos elfos

O filme abre com a descrição em prosa do célebre poema de Goethe, O rei dos elfos. Corta para um homem à cavalo levando o filho doente nos braços. Ele precisa chegar à cidade o mais rápido possível, mas seu cavalo não resiste e cai por terra. Pai e filho encontram abrigo em uma casa, conseguem um cavalo e cavalgam pela estrada até adentrar, à noite, a floresta. 

A partir daí, a trama ganha o tom assombrado, baseado no poema de Goethe. O rei dos elfos emerge das sombras, junto com suas fadas, e persegue o garoto. A diretora Marie-Louise Iribe, também atriz, uma das pioneiras do cinema francês, recria com efeitos visuais o visual místico da floresta, onde vivem seres fantasmagóricos comandados pelo assustador rei que sequestra a alma das crianças. Realizado logo no início do cinema sonoro, a película traz a força da narrativa visual, com frases curtas  entre a criança e seu pai, reproduzidas do poema. O final triste, já anunciado na balada de Goethe, deixa o espectador entre os sentimentos de beleza e melancolia, ciente que está diante de um filme que une várias referências artísticas.  

O rei dos elfos (Les roi des aulnes, França, 1931), de Marie-Louise Iribe. Com Otto Gebuhr, Joe Hamman, Mary Costes, Rosa Bertens.  

Tabu

Antes mesmo das filmagens, Tabu já apresenta uma história de amor: em 1929, Murnau realiza seu sonho de comprar um iate, nomeado de Bali. Assim, conseguiria realizar seu sonho de juventude, conhecer os mares do sul e, ao mesmo tempo, reencontrar seu amado Walter Spies que vivia em Bali.

Junto com o documentarista Robert Flaherty, Murnau chega em Bali em 29 de julho de 1929. Flaherty começa a trabalhar no projeto de um filme chamado Turia, filmando cenas de praias e dos nativos nas cachoeiras. A película seria produzida pela Colorart, no entanto, a produtora faliu durante o crash da bolsa de Nova Iorque. Murnau escreve, então, o roteiro de Tabu e decide financiar o filme. Ele contrata o diretor de fotografia Robert Crosby para substituir Flaherty, com quem o diretor se desentendeu. 

A trama de Tabu segue os passos de dois nativos, Matahi e Reri, jovem virgem que é escolhida pela tribo para servir aos Deuses, sob os cuidados do velho sacerdote Hitu. Matahi sequestra Reri, os dois fogem para outra ilha, onde os brancos exploram pérolas, colonizando os nativos com objetivos de exploração econômica. Matahi se revela exímio mergulhador, o casal vive algum tempo num idílio amoroso. No entanto, a figura do velho sacerdote persegue-os, até o final trágico. 

Robert Flaherty queria produzir um documentário sobre a exploração dos nativos pelo homem branco. Murnau, ao contrário, imprimiu um estilo estético ao filme baseado em pinturas alemãs, pedindo aos atores que imitassem as poses dos quadros. Os movimentos também deveriam se parecer com uma dança, estilo chamado por Murnau e Spies de “cinematografia arquitetônica”. Flaherty não gostou do resultado, pois acreditava na verdade dos documentários. Ele disse que “o estilo de Murnau não passava de uma espantosa manipulação.”

O erotismo está presente em grande parte das tomadas de Tabu, principalmente no início, quando os nativos praticam alegremente a pesca. Os gestos coreografados destilam beleza e sensualidade nas cenas aquáticas. 

“A sensação de puro regozijo dessas imagens prolonga-se na sequência seguinte, quando vemos a aproximação entre Matahi e Reri, o surgimento entre eles de um amor pleno, físico e que se exibe sem nenhum pudor. Toda essa parte é feita de movimentos incessantes na forma de saltos, lutas, danças e nados, de fluxos que reforçam o sentimento de alegria.” – Cássio Starling Carlos

O estilo expressionista de Murnau contrapõe essa alegria erótica e inocente quando as sombras projetadas no rosto do sacerdote Htu, o velho que condena Reri ao Tabu, representam forças ocultas e sombrias que exigem o sacrifício dos amantes. O silencioso Htu, de olhar penetrante e aterrador, é como uma maldição que se interpõe no caminho dos jovens.

Assim como o destino dos dois jovens amantes de Tabu, a relação entre Walter Spies e Friedrich Wilhelm Murnau, o mítico diretor do expressionismo alemão, responsável por obras-primas como Nosferatu (1922), A última gargalhada (1924), Fausto (1926) e Aurora (1927), seguiu caminhos trágicos após a conclusão das filmagens. Em 11 de março de 1931, uma semana antes da estreia de Tabu, Murnau morreu em um acidente de carro em Santa Mônica, Califórnia. Tinha 42 anos.  

“Após auxiliar Andre Roosevelt na produção do longa Kriss, em 1928, Walter Spies produziu um novo filme que ele gostaria de ter dirigido com Murnau em Bali, A ilha dos demônios. Após a morte de Murnau, o filme foi concluído, apresentando Bali como o paraíso que ele e Murnau sempre sonharam.  Posteriormente, Spies foi preso e acusado de homossexualidade e pederastia. Ele passou muitos anos na prisão. Em 1942, durante a Segunda Grande Guerra, o navio no qual ele havia sido deportado de Bali foi atingido por um torpedo próximo ao Ceilão. Spies morreu afogado tal como o herói Matahi, que no filme de Murnau morre afogado após lutar contra tabus religiosos e morais.” – extraído do documentário “Uma obra em criação”. 

Tabu (EUA, 1931), de F. W. Murnau. Com Matahi, Reri, Hitu, Bill Bambridge. Referência: Coleção Folha Grande Diretores do Cinema. F. W. Murnau – Tabu. Carlos Starling Carlos e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018

A vida de Alexander Graham Bell

O jovem Alexander Graham Bell ganha dinheiro como professor de crianças com deficiências auditivas. Sua intenção é ensinar as crianças a falar e para isso se entrega dia e noite a intensas pesquisas sobre o funcionamento do ouvido humano. Chega, inclusive, a dissecar ouvidos de cadáveres para entender o complexo funcionamento da audição. 

A obsessão do pobre pesquisador o leva a elaborar intrincados sistemas mecânicos que evoluíram lentamente até a invenção do telefone. No caminho, Alexander Graham Bell e seu amigo e funcionário Thomas Watson sacrificaram noites e noites de sono, ficaram dias sem comer por falta de dinheiro, correram atrás de financiamentos, se depararam com a incredulidade dos homens de negócios. 

A cinebiografia dirigida por Irving Cummings narra passo a passo esse processo com intensas pitadas de romantismo, perseverança e otimismo, elementos narrativos que faziam muito sucesso entre o público nos anos da depressão americana. 

“Filmar a vida de grandes personalidades é uma tendência frequente ao longo da história do cinema, mas o gênero recebe um grande impulso na década de 1930 por causa de uma característica típica de sua fórmula. As cinebiografias daquela época têm em comum o enfoque em histórias de sucesso, aquelas que mostram indivíduos talentosos enfrentando resistência até alcançarem a glória por terem persistido. Naquele período, os Estados Unidos enfrentavam a pior crise econômica de sua história, e o governo de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) implementava o conjunto de reformas chamado New Deal. Para alicerçar o moral da nação, os grandes estúdios fomentaram a produção de um gênero que funcionava como um antidepressivo, com suas histórias reconfortantes mostrando que até os grandes homens enfrentaram percalços e se tornaram vitoriosos. Das 67 cinebiografias filmadas em Hollywood nos anos 1930, a maioria representa personalidades no apogeu da glória ou na conquista do sucesso e nelas não há espaço para pessismismo.” – Cássio Starling Carlos.  

A vida de Alexander Graham Bell (The story of Alexander Graham Bell, EUA, 1939), de Irving Cummings. Com Don Ameche (Alexander Graham Bell), Loreta Young (Mabel Hubbard Bell), Henry Fonda (Thomas Watson), Charles Coburn (Gardner Hubbard), Gene Lockhart (Thomas Sanders). 

Referência: A vida de Alexander Graham Bell: um filme inspirado na vida de Alexander Graham Bell. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Reinaldo José Lopes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016

A mocidade de Lincoln

Peter Bogdanovich perguntou certa vez: “Sr. Ford, o senhor dirigiu o filme Três homens maus. Tem uma cena impressionante de uma corrida por terra. Como filmou?” Resposta de John Ford: “Com uma câmera.”

A resposta direta vem de uma das mais impressionantes carreiras do cinema mundial. John Ford com seu estilo simples de filmar rendeu alguns clássicos e cenas antológicas. Lefty Hough, gerente de produção, disse que Ford nunca mexeu uma câmera, porque a câmera se torna um quinto personagem. Hough cita declaração de Ford : “Faço os atores trabalharem para a câmera, quero fazê-lo se perder na história, quero fazer a plateia se perder na história. Não quero que a plateia tenha consciência da câmera.”

Outro depoimento representativo é do montador Robert Parrish. Ele estava trabalhando na montagem de As vinhas da ira (1940) quando Ford entrou na sala e perguntou: “Está com problemas?”. Parrish respondeu que estava trabalhando em uma sequência, eram dez horas da noite, Ford então disse: “Se está com problemas, está fazendo errado. As coisas que filmo, é só contar a ponta, roda até eu dizer corta, volta até antes de eu dizer corta e coloque isso no filme, porque não filmo nada que eu não queira no filme.”

Sequência de A mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, EUA, 1939) representa este estilo direto e sugestivo. O jovem Abe está conversando com Ann, sua primeira paixão. A moça sugere que ele deveria se dedicar ao direito. Os dois estão com olhares enamorados, à beira do rio. Corta para cena de inverno, pedaços de gelo descem pela correnteza, Abe caminha na neve até se ajoelhar diante de um túmulo com a inscrição “Ann Rutledge”. Abe conversa com ela, cena que John Ford repetiria em Paixão dos fortes (1946), o mesmo Henry Fonda no papel de Wyatt Earp, conversando com o túmulo de seu irmão, morto em tiroteio na noite anterior.

Henry Fonda não aceitou, a princípio, interpretar o presidente Abraham Lincoln, dizendo que seria “como interpretar Deus.” John Ford o convenceu, argumentando que o filme seria sobre a juventude de Lincoln, portanto Fonda estaria no papel do jovem advogado do estado de Illinois.

A trama de A mocidade de Lincoln inicia em 1832, um jovem Lincoln discursa para meia dúzia de ouvintes, tentando se eleger deputado. Corta para a conversa dos enamorados à beira do rio. Elipse leva o espectador para a cidade de Springfield, estado de Illinois. Lincoln trabalha em escritório de advocacia. No final da festa do dia da independência, dois jovens irmãos de fora da cidade são acusados de assassinar o delegado durante uma briga.

O jovem advogado Abraham Lincoln assume o caso e grande parte do filme se passa no tribunal. O fato, verdadeiro, é um famoso caso jurídico, pois a reviravolta no final do julgamento acontece quando Lincoln derruba o argumento da acusação: “A principal testemunha de acusação diz no tribunal que, por causa do brilho da lua cheia, conseguira ver os acusados matando Metzker por volta das 23 horas. Abe, porém, descobre, ao consultar o calendário de um almanaque, que a lua já tinha se posto àquela hora na noite do homicídio.”

Centrado nesta trama de tribunal, John Ford, o diretor de fotografia Bert Glennon e Henry Fonda (maquiagem, próteses, além de seu corpo alto e fino,  ajudam a compor um presidente à imagem e semelhança) criam sequências belas, emocionantes: Abe conversando com o túmulo de sua amada Ann; o discurso do jovem advogado diante da turba ensandecida, tentando invadir a delegacia para linchar os jovens; Abe enternecido diante da mãe dos acusados, tentando entender por que ela se recusa a dizer qual dos dois cometeu o assassinato; a caminhada do futuro presidente da república até a colina.

“O filme diferencia-se por algo mais do que sua arte maravilhosa, em que o ritmo da montagem corresponde ao timbre da fotografia e os gritos das águias ecoam sobre o fluxo túrbido da água barrenta e a da marcha constante do burro que carrega o magricela e desengonçado Abe ao longo do rio Sangamon. E há mais coisa aqui do que a habilidade de filmar de uma maneira estilizada, à moda das primeiras fotografias, que faz coro como caráter moral das falas de Lincoln ou com a excentricidade da performance de Henry Fonda, que impede a situação, decerto comovente, de cair no sentimentalismo e que, ao contrário, atinge um grau de páthos raro como na caminhada magnífica de Lincoln pela paisagem no final do filme.” – Sergei Eisenstein (Mister Lincoln by Mister Ford, 1945).

Referência: A mocidade de Lincoln: um filme inspirado na vida de Abraham Lincoln. Cássio Starling Carlos, Pedro Maciel Guimarães, Euclides Santos Mendes. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

O delator

O delator deu a John Ford seu primeiro Oscar de diretor (ganhou outros três, até hoje recordista na categoria). A influência expressionista delineia toda a fotografia do filme. Os cenários minimalistas, a neblina, as luzes dos lampiões das ruas, os closes angustiantes nos personagens, é quase um filme surrealista devido a impressão angustiante que demarca cada personagem, enclausurado nesta noite de violência, perseguições, delações e julgamentos entre amigos. 

“Por isso, a adoção intensiva de sombras e nevoeiros não confirma somente a absorção por Hollywood de recursos formais do expressionismo alemão. Eles são também modos de dar a ver o lado avesso, a face oculta dos homens e das crenças, atmosferas que embaralham nossa percepção e nos impedem de delimitar onde termina o bem e começa o mal.” – Cássio Starling Carlos. 

O delator (The informer, EUA, 1935), de John Ford. Com Victor McLaglen (Gypo Nolan), Margot Grahame (Katie Madden), Heather Angel (Mary McPhillip), Wallace Ford (Frankie McPhillip).

Referência: Coleção Folha Grandes diretores no Cinema. John Ford. O delator. Cássio Starling Carlos, Inácio Araújo Silva Júnior e Pedro Maciel Guimarães. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016. 

O crime do Monsieur Lange

Jean Renoir faz uma fascinante incursão pelo cinema de gênero. No início do filme já sabemos que o escritor Amédée Lange cometeu um crime. A história é contada por sua namorada em uma pousada, durante a noite, para um grupo de homens. A intrincada trama traz revelações sobre troca de identidades, assédio sexual, corrupção, roubo de direitos autorais. Tudo centrado em uma editora de publicações populares, incluindo jornal e quadrinhos. Lange faz sucesso após publicar uma série de quadrinhos ambientada no Texas, intitulada Arizona Kid. No final, a dúvida que fica é se um assassinato pode ser justificável e o assassino pode escapar sem prestar contas à justiça. 

O crime de Monsieur Lange (Le crime de Monsieur Lange, França, 1936), de Jean Renoir. Com René Lefèvre, Florelle, Jules Berry.