Rafiki

Rafiki foi o primeiro filme queniano a ser exibido no prestigiado Festival de Cannes, indicado ao prêmio Un Certain Regard. A trama acompanha o relacionamento das jovens Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), cujos pais são adversários políticos. 

Logo no início, a troca de olhares entre Kena e Ziki indicam o fascínio que caminha de forma delicada para o relacionamento amoroso. Enquanto Kena se veste de forma masculina (diz que vestido queima em seu corpo), Ziki é extravagante nas cores femininas, com cabelos em vários tons. 

A delicadeza quase ingênua do romance entre as jovens contrasta com o conservadorismo agressivo da sociedade queniana. A repressão se mostra em várias frentes: nos cultos religiosos, nos políticos representados pelos pais de Kena e Ziki, nos jovens que extravasam a homofobia em agressões verbais e físicas, nas próprias mulheres que atribuem o relacionamento amoroso das jovens ao demônio. 

O destaque da película é a lenta progressão do relacionamento entre Kena e Ziki, marcado por trocas de olhares, toques de mãos, gestos sutis como enfeitar uma a outra. É a beleza do afeto, do romance, do amor. Isso deveria ser capaz de destruir de vez esses criminosos que, em defesa da moralidade, são capazes de espancar meninas. 

Rafiki (Quênia, 2019), de Wanuri-Kahiu. Com Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Jimmi Gathu, Nini Wacera, Dennis Musyoka. 

Os 7 de Chicago

Em 1968, grupos distintos se reuniram em Chicago, durante a Convenção Nacional Democrata, para protestar contra a guerra do Vietnã. Durante os protestos, algumas pessoas foram acusadas de insuflar os manifestantes, provocando tumultos e confrontos com a polícia. Foram presos dezenas de pessoas, após as investigações, oito homens foram à julgamento (durante o julgamento, um integrante dos Panteras Negras foi liberado por falta de evidências). 

Nas mãos do premiado roteirista e diretor Aaron Sorkin (A rede social) os fatos e o julgamento ganham ritmo de thriller à medida que os depoimentos se sucedem. Flashbacks reconstituem os protestos a partir de cada ponto de vista, embaralhando os fatos que poderiam elucidar as lideranças que supostamente provocaram a violência durante as manifestações do dia 28 de de agosto de 1968, que reuniram cerca de 15 mil pessoas. 

A intrincada narrativa provoca reflexões importantes na esfera político-social e também no campo jurídico. Assim como o espectador, membros do júri se sentem cada vez mais incertos diante da alternância de pontos de vista, provocados até mesmo por interesses políticos pessoais de ambos os lados. Por fim, é também uma reflexão sobre o exercício de fazer cinema, afinal, a força dramática de um filme está diretamente ligada ao ponto de vista escolhido para narrar a história. No caso de Os 7 de Chicago, pontos de vista. 

Os 7 de Chicago (The trial of the Chicago 7, EUA, 2020), de Aaron Sorkin. Com Yahya Abdul-Mateen II (Bobby Seale), Sacha Baron Cohen (Abbie Hoffman), Joseph Gordon-Levitt (Richard Schultiz), Eddie Redmayne (Tom Hayden), Jeremy Strong (Jerry Rubin), Mark Rylance (William Kunstler) . 

O som do silêncio

O filme tem uma das grandes sequências de abertura do cinema contemporâneo. Abre com câmera centrada em Ruben Stone, concentrado diante de sua bateria, esperando o momento certo para entrar. Ouve-se o som da canção na voz estridente da vocalista Lou. Ruben se joga de corpo e alma em sua bateria, os acordes pesados do rock metal se confundindo com sua expressão de êxtase, de entrega total, quase lisérgica, executando, sentindo, deixando a música tomar conta de tudo e todos. Sente-se, de imediato, que a vida de Ruben é o instrumento, a música, a estrada, pouco depois, sabe-se que sua vida é também a vocalista da banda. Tudo que ele pode perder à medida que seus ouvidos deixam de funcionar.  

Quando perde completamente a audição, Ruben é convencido por Lou a se internar em uma comunidade onde convivem pessoas com deficiência auditiva. Entre a recusa e a aceitação de sua nova condição, Ruben passa por estágios que vão da compreensão ao ódio, tenta se adaptar, mas busca desesperadamente uma saída médica para voltar a escutar. 

O diretor Darius Marder conta com a premiada interpretação de Riz Ahmed para desenvolver uma trama forte em aspectos sociais, psicológicos e narrativos. Na parte técnica/narrativa, a força do filme está no design de som, impressiona como o som ou a ausência dele provocam a imersão do espectador nas sensações do baterista sobre  o novo mundo ao seu redor. 

O som do silêncio (The sound of metal, EUA, 2019), de Darius Marder. Com Riz Ahmed (Ruben Stone), Olivia Cooke (Lou), Lauren Ridioff (Diane),

Os olhos de Cabul

As cenas na abertura do filme retratam o cotidiano do centro de uma grande cidade. O ano é 1998. Carros buzinam, homens trabalham com com pás e picaretas (um carrinho de pedras é despejado na calçada, sinal do que está por vir), meninos jogam bola, pessoas caminham por uma feira de frutas e verduras onde se vê um homem com um rifle nas costas, uma caminhonete passa com diversos homens armados. Letreiro informa: Cabul, Afeganistão, sob domínio do Talibã

O filme é baseado no romance As andorinhas de Cabul.  A narrativa acompanha dois casais distantes que se cruzam. Zunaira, artista plástica, é casada com Mohsen, professor de história. O sonho do casal de lecionar foi abortado pela tomada do poder pelo Talibã. Zunaira se recusa a usar a burca e vive enclausurada em casa, ouvindo rap e desenhando na parede. Mohsen caminha pela cidade e seu olhar desolado reflete o novo Afeganistão.  Ele anda pelos corredores da destruída Universidade de Cabul. Na rua, assiste ao apedrejamento de uma mulher condenada à morte por “fornicação.” Ele vê jovens felizes saindo de um cinema, corta para imagem do cinema destruído e as  jovens estão cobertas pela pesada burca. 

Atiq lutou pela revolução do regime e trabalha como guarda-chave da cadeia onde estão mulheres condenadas à morte. Ele atravessa um momento de crise profunda, agravada pela doença terminal de sua esposa. O encontro de Atiq com Zunaira provoca profundas mudanças em seu comportamento e sela seu destino. 

A animação produzida na França traz o olhar das duas diretoras, Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec, sobre o Afeganistão dominado por um regime cruel, nas mãos de homens ainda mais cruéis, capazes de apedrejar uma mulher até à morte ou, quando entediados por uma manifestação na porta de um hospital, sair e disparar rajadas de metralhadoras em homens, mulheres e crianças. Claro, o olhar das diretoras nesta bela animação em questões estéticas, mas profundamente triste pelo tema e acontecimentos, é desprovido de esperanças. Como confirma a nova investida do Talibã no Afeganistão em 2021. 

Os olhos de Cabul (Les hirondelles de Kaboul, França, 2019), de Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec

A fotografia

O jornalista Michael Block está fazendo pesquisa para uma reportagem em Nova Orleans. Ao entrevistar Isaac, antigo pescador da região, se depara com a fotografia de uma jovem, sentada na mesa da cozinha. Isaac revela a ele que é Christine Eames, namorada de sua juventude. Ela mudou para Nova York em busca de trabalho como fotógrafa. Fascinado pela imagem, Michael pesquisa  e chega até a curadora de arte Mae Morton, filha de Christine, que está trabalhando na preparação de uma exposição sobre os trabalhos da mãe. 

O tema do filme é encantador: fotografia encontrada ao acaso remete às memórias e sentimentos dos personagens, enquanto provoca o entrelaçamento de caminhos. Michael e Mae começam um relacionamento marcado por dúvidas, aparentemente sem pretensões. Mergulham na história da fotógrafa, cujo relacionamento com Isaac é narrado em flashbacks. A trama é simples, resvala para as tradicionais histórias de relacionamentos amorosos separados por escolhas. Assim como uma imagem, paixões podem se diluir na memória, mas basta vasculhar a gaveta que o passado volta perturbador na forma de velhas fotografias.  

A fotografia (The photograph, EUA, 2020), de Stella Meghie. Com Issa Rae (Mae Morton), Lakeith Stanfield (Michael Block), Chanté Adam (Christine Eames), Y’lan Noel (Isaac Jefferson)

Violet Evergarden: eternidade e a boneca de automemória

Após a primeira guerra mundial, a jovem guerreira de mãos mecânicas Violet Evergarden trabalha em uma instituição como redatora de cartas. Ela é uma Boneca de Automemória e é designada como dama de companhia de Isabela York que mora em uma escola de meninas de boas família. “Esta é minha prisão. Uma escola de meninas separada do mundo por muros altos. Todas as alunas vêm de famílias respeitáveis ou se casarão com alguém respeitável.” Reflete Isabela logo na abertura do filme. 

A função de Violet é fazer com que Isabella tenha sucesso como debutante, ensinando durante três meses cultura, conversação, etiqueta e dança. Além de professora, Violet inspira sentimentos e afetos. No entanto, Isabela tem um passado enigmático, está presa em memórias traumáticas.  Ela viveu a vida miserável das ruas, lutando dia a dia em busca de pão para sobreviver. Ela encontra, também nas ruas, Taylor, menina indigente. As duas vão morar juntas e Isabela dedica sua vida a cuidar da irmãzinha. Quando a família nobre de Isabella a descobre e a resgata da miséria, Taylor é enviada para um orfanato. O destino das irmãs separadas se cruza com Violet, que passa a acalentar os sonhos e os corações das jovens, principalmente com as cartas que escreve. 

O longa de animação é baseado no anime de estrondoso sucesso Violet Evergarden. A história é plena de memórias, afetos, gestos simbólicos, cartas emocionantes que perpassam o tempo. “Basta dizer meu nome e nosso vínculo durará para sempre.” “O carteiro entrega felicidade.” Frases que dizem do mundo no qual vivemos, distantes de afetos, sem cartas para recuperar memórias e sentimentos. 

Violet Evergarden: eternidade e a boneca de automemória (Japão, 2019), de Haruka Fujita.

Judas e o messias negro

Uma sequência, perto da metade do filme, representa o olhar dos agentes brancos do FBI sobre os movimentos negros dos anos 60/70. O agente Roy Mitchell está sentado em frente ao todo poderoso Edgar Hoover. Hoover elabora perguntas seguidas de silêncios das duas partes sobre a família de Roy. “Sua filha Samantha, deve ter uns oitos meses agora, certo?” Emenda com outra pergunta: “Diga-me. O que vai fazer quando ela levar um jovem negro pra casa?” 

Roy retruca não entender por que estão falando da filha e recebe os esclarecimentos por parte de Hoover. “Pense na sua família agora, agente Mitchell. Quando olhar para o Hampton, pense na Samantha, pois é o que está em jogo se perdermos esta guerra. Todo o nosso modo de vida. Estupro, pilhagem, domínio. Está me entendendo?”

O silêncio de Hoover e Roy após cada frase é de um simbolismo estarrecedor, pois sugere ao espectador o que passa dentro de mentes doentias. Sabe-se que o assassinato de Fred Hampton está decretado.

Judas e o messias negro narra o envolvimento de William O’Neal no massacre praticado por agentes do FBI no dia 4 de dezembro de 1969. Os agentes invadiram o apartamento de Fred Hampton e dispararam 99 tiros, atingindo membros dos Panteras Negras. Fred Hampton foi assassinado friamente na cama, pois estava desacordado.

O diretor Shaka King centra seu olhar nos dilemas de William O’Neal que se infiltrou no grupo de Fred Hampton, servindo como informante para o FBI através do agente Roy Mitchell. O que se destaca na trama é o idealismo revolucionário de Fred Hampton, líder carismático que dedica a vida à causa, tentando angariar simpatizantes e fundos para construir escolas e hospitais para as crianças negras. Em contraponto, o olhar admirado e conflituoso do informante que se submete implacavelmente aos corruptores e assassinos do FBI. 

Judas e o messias negro (Judas and the black messiah, EUA, 2020), de Shaka King. Com Daniel Kaluuya (Fred Hampton), LaKeith Stanfield (William O’Neal), Jesse Plemons (Agente Roy Mitchell).  Dominique Fishback (Deborah Johnson), Martin Sheen (J. Edgar Hoover). 

Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou

A diretora e atriz Bárbara Paz faz uma incursão ousada pela intimidade de Hector Babenco, com quem era casada. O documentário entremeia depoimentos de Babenco coletados ao longo de sua vida, cenas da vida cotidiana, incluindo imagens íntimas do casal, imagens do diretor em situações de trabalho e em polêmicas entrevistas, várias e várias cenas de seus mais importantes filmes. Mas a ousadia está em registrar com a câmera momentos da doença de Hector Babenco: em casa, no hospital, ainda trabalhando, ele refletindo  sobre a doença que consome sua vida.

Agnès Varda fez registro semelhante também com seu marido, o famoso diretor da nouvelle-vague francesa, Jacques Demy. Filmes que só podem ser realizados por mulheres corajosas, sensíveis, francas, capazes de expressar com a câmera não só momentos íntimos, mas intensamente dolorosos.  Bárbara Paz em seu documentário presta uma grande homenagem a Babenco, um dos maiores diretores de todos os tempos do cinema nacional. E também ao cinema, pois cinema é acima de tudo intimidade, intensidade, verdadeiro na essência. 

Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou (Brasil,2020), de Bárbara Paz. 

Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo

Alice Guy-Blaché (1873/1968) foi uma das mais produtivas realizadoras da era do cinema mudo. Entre curtas e médias, dirigiu cerca de mil filmes durante vinte anos de carreira. Fez experiência com efeitos sonoros e visuais, pintou filme diretamente à mão, flertou com o surrealismo em seu primeiro filme, o curta A fada dos repolhos (1896). 

A trajetória da diretora, que começou como secretária de Léon Gaumont na França, emigrou para os Estados Unidos onde fundou um dos primeiros estúdios de cinema, o Solax (Nova York), é o tema do documentário Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo. A realizadora Pamela B. Green fez extenso trabalho de pesquisa, reunindo imagens de acervo, depoimentos de pessoas importantes do cinema e historiadores. A narração é de Jodie Foster.

O mérito do documentário é inestimável, resgatando não só a importância de Alice Guy-Blaché, mas das mulheres na história do cinema. Impressiona e revolta a prática comum no mundo das artes que atingiu também a cineasta: ter muitos de seus trabalhos assinados por homens que estavam ao seu redor. O erro mais revoltante é atribuído à Georges Sadoul que, no famoso compêndio em três volumes que escreveu sobre a história do cinema, desconsidera Alice Guy-Blaché e atribui a homens filmes dirigidos pela cineasta. Nos anos 60, Guy-Blaché questionou George Sadoul sobre os erros, mas o historiador não só se omitiu como se recusou a rever os fatos. É assim grande parte da história do cinema: contada por homens que jogaram deliberadamente dezenas e dezenas de diretoras no ostracismo.

Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo (Be natural: The untold story of Alice Guy-Blaché, EUA, 2018), de Pamela B. Green.

3 faces

A narrativa do filme imbrica documentário e ficção, estilo contemporâneo de cinema conhecido como docfic, marca do diretor iraniano Jafar Panahi. O filme abre com vídeo de Marziyeh Rezaeicena, gravado com celular em uma gruta, A jovem, aspirante à atriz, pede desesperadamente ajuda à Behnaz Jafari, famosa atriz de televisão no Irã. O vídeo termina com a sugestão de suícidio cometido por Marziyeh. 

Corta para Jafar Panahi dirigindo o carro por uma estrada montanhosa. Ao seu lado, Jafari. Os dois tiveram acesso ao vídeo e rumam para o vilarejo onde Marziyeh mora, em busca de informações sobre os acontecimentos narrados. 

A narrativa, de um dia e uma noite, perpassa o cotidiano dos moradores do vilarejo que cruzam o caminho de Panahi e Jafari. Jafar Panahi acompanha tudo com o olhar da câmera documental de seu cinema. Deixa Jafari guiar a história, se envolver emocionalmente com os moradores, enquanto ele assiste ao desenrolar da trama. Neste lugar incrustado nas montanhas está o retrato do Irã, onde cordialidade, preconceito, violência, tentam conviver. O forte preconceito, às vezes violento, contra os artistas é o grande tema do filme. O longo plano sequência do final remete a outro belo plano sequência do cinema iraniano, no filme Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami. 

3 faces (Irã, 2018), de Jafar Panahi. Com Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei.