Táxi Teerã

Jafar Panahi em mais um filme que reflete sobre o ato de filmar, sobre o cinema, tendo sempre como ponto de partida sua impossibilidade de fazer filmes (o diretor está proibido de trabalhar com cinema pelo governo iraniano). Em Isto não é um filme (2011), Panahi burlou as proibições impostas por um documento, filmando seu cotidiano dentro de casa. Na prática, ele evitou tudo que não podia fazer, como escrever um roteiro.

Táxi Teerã, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, é mais um experimento do diretor. O próprio Panahi dirige um táxi pelas ruas da capital iraniana com a câmera acoplada ao para-brisa. À medida que os passageiros entram, confundindo o espectador sobre os limites entre ficção e realidade, diálogos metafóricos permeiam a viagem. Um vendedor de filmes piratas reconhece o diretor e diz que tudo aquilo é armado, que Panahi está fazendo um filme. A sobrinha do diretor sai da escola com um manifesto da professora sobre como fazer um filme “exibível”. Enquanto Panahi sai do táxi (a câmera nunca deixa o carro, apenas muda de posição para filmar o exterior vez ou outra), a menina tenta convencer um garoto de rua a praticar atos interessantes para que ela possa filmar com o celular.

O marido ferido dentro do carro, após um acidente, desesperado, no colo da mulher, pede a Panahi que grave com o celular o seu testamento, como um retrato destes tempos nos quais a câmera portátil registra, delata. Em diálogo com um comprador de filmes piratas, Panahi expressa a singularidade do cinema. O comprador pede sugestões sobre qual obra assistir. O diretor revela simplesmente: “Todo filme vale a pena ser assistido.” Principalmente este Táxi Teerã, obra-prima do que pode, novamente, não ser um filme.

Táxi Teerã (Taxi, Irã, 2015), de Jafar Panahi.

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3 faces

A narrativa do filme imbrica documentário e ficção, estilo contemporâneo de cinema conhecido como docfic, marca do diretor iraniano Jafar Panahi. O filme abre com vídeo de Marziyeh Rezaeicena, gravado com celular em uma gruta, A jovem, aspirante à atriz, pede desesperadamente ajuda à Behnaz Jafari, famosa atriz de televisão no Irã. O vídeo termina com a sugestão de suícidio cometido por Marziyeh. 

Corta para Jafar Panahi dirigindo o carro por uma estrada montanhosa. Ao seu lado, Jafari. Os dois tiveram acesso ao vídeo e rumam para o vilarejo onde Marziyeh mora, em busca de informações sobre os acontecimentos narrados. 

A narrativa, de um dia e uma noite, perpassa o cotidiano dos moradores do vilarejo que cruzam o caminho de Panahi e Jafari. Jafar Panahi acompanha tudo como o olhar fosse a câmera documental de seu cinema. Deixa Jafari guiar a história, se envolver emocionalmente com os moradores, enquanto ele assiste ao desenrolar da trama. Neste lugar incrustado nas montanhas está o retrato do Irã, onde cordialidade, preconceito, violência, tentam conviver. O forte preconceito, às vezes violento, contra os artistas é o grande tema do filme. O longo plano sequência do final remete a outro belo plano sequência do cinema iraniano, no filme Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami. 

3 faces (Irã, 2018), de Jafar Panahi. Com Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei.