Zé do Muro

Bate você…. você.” Demorei um pouco a entender os gritos do técnico no meio da confusão de jogadores cercando o juiz na grande área. Batata já estava com a bola nas mãos, próximo à marca do pênalti. Zé do Muro continuava gritando: “Bate você… você.”, o dedo apontando para mim.

Acredito que nenhum dos jogadores do meu time, todos adolescentes entre 13 e 16 anos, sabia o nome depois de José, mas o bairro inteiro conhecia a origem do apelido. A rotina de Zé do Muro era simples: saía de casa por volta das três da tarde, descia a rua até o bar e bebia, com amigos ou sozinho, até o momento em que o dono do bar começava a baixar as portas. Não é difícil imaginar a dificuldade em andar rua acima após essa longa jornada etílica. Ele andava dez ou quinze passos e apoiava o ombro no muro, esperava um pouco, andava mais alguns passos, encostava-se no muro novamente. Virou Zé do Muro.

Zé do Muro só era visto sóbrio duas vezes por semana: na sexta-feira, dia de treino do time de meninos da rua, e no jogo de domingo. As mãos trêmulas segurando o cigarro, gritando enraivecido por erros fundamentais como passes mal trocados. Depois dos treinos, a gente se sentava, Zé do Muro ao centro, a noite tomando conta do campo. Em cinco minutos de preleção, ele versava sobre preceitos que, ensinava, todos deveriam respeitar no futebol. Nunca chute a bola com o bico da chuteira; dribles só têm sentido na direção do gol, o resto é firula, provocação; não existe idiotice maior do que cruzar a bola da intermediária para a grande área, pois os zagueiros estão sempre de frente…

Eram 40 minutos do segundo tempo. O placar, 3 x 2 para o time adversário. Decisão do torneio Bola de Ouro, patrocinado pelo Bar do Careca. O empate levaria o jogo para a prorrogação. Batata já com a bola debaixo do braço. Zé do Muro continuou gritando até deixar claro a ordem: eu fizera os dois gols do meu time e deveria bater o pênalti. Peguei a bola das mãos de Batata.

O morro atrás do gol estava cheio de torcedores: pais, mães, irmãos, parentes, vizinhos – manhãs de domingo de futebol. Respirei fundo, olhar fixo nos olhos do goleiro. Corri e um segundo antes desviei os olhos para a bola.

Naquela noite, caminhei sozinho pelo bairro. Andei por cerca de uma hora, as ruas quase desertas, passando pelos prédios que se erguiam na explosão imobiliária vertical daqueles anos 70. Ao voltar, quando virei a esquina da minha rua, vi um vulto encostado no muro a poucos metros de distância. Decidi atravessar para o outro lado, pensei, no estado em que está ele não vai me ver. Mas Zé do Muro começou a andar em passos acelerados, firmes, em poucos segundos estava na minha frente. Ele despenteou meus cabelos com a mão, sua voz soou clara e forte: “Da próxima vez, olhe firme nos olhos do goleiro.”

A seguir, voltou a caminhar. Quando abri o portão da minha casa, olhei para trás. Quase no fim da rua, iluminado pela luz do poste, Zé encostado no muro. Ele andou mais alguns passos, apoiou o ombro novamente no muro. Assim, de muro em muro até virar a esquina.

Voo noturno

O avião passou em frente a parede de vidro do bar do hotel, em direção a pista de pouso. Era o terceiro avião que Fábio seguia com o olhar, as luzes indicando a aproximação desses fascinantes voos noturnos. Agradeceu ao garçom o copo de uísque, deixou os olhos no reflexo do vidro, agora encontrando a escuridão.

Nas diversas vezes em que viera a Zurique, nunca encontrara tempo para se sentar em uma das mesas do bar, perto da janela de onde se vê o aeroporto. Lembrou-se dos tempos de menino. O tio morava próximo ao aeroporto da Pampulha. Quando a família de Fábio visitava o tio, o menino rapidamente dava um jeito de fugir daquelas conversas de sofá, atravessava a rua, empilhava cinco ou seis tijolos ao lado do muro do aeroporto e esperava, pescoço pouco acima do muro, um avião pousar. Se fosse corajoso, colocaria mais alguns tijolos na pilha, com um pequeno esforço conseguiria subir e sentar-se no alto do muro, as pernas caídas do lado de dentro enquanto os aviões desfilavam em frente, a pista ao alcance de algumas poucas passadas.

Mas Fábio era menino medroso. Imaginava um guarda gordo, grosso bigode cobrindo a boca, o cassetete pendurado no cinto chegando quase até o chão, quepe enterrado na cabeça. O guarda chegava debaixo do muro, agarrava suas pernas e o puxava para o lado de dentro, jogando-o ao chão. Deitado na terra, ele sentia o pé do guarda em seu peito, o cassetete batendo de leve na sua face, o brilho sádico no olhar do policial.

Fábio girava o copo de uísque, o líquido dando voltas nas laterais. Depois de tantos anos, tantos voos, não sabia bem porque estava agora olhando de novo aviões a pousar. Olhou o relógio, ainda tinha cerca de uma hora antes de sair para o aeroporto.

Adriana chegou cheirando a banho, os longos cabelos molhados, o tom fresco do ar da noite estampado em suas faces. Deixou a chave do quarto em cima da mesa. Outro avião cortou o silêncio que se interpôs naquela troca de olhares. “Você não pode ficar mais um ou dois dias?”, ela  perguntou.

Eles se conheceram três dias atrás. Adriana estava sentada na amurada às margens do rio, um livro nas pernas, o corpo ligeiramente curvado, uma jaqueta jeans a protegendo do vento da tarde. Às vezes ela ajeitava os cabelos atrás da orelha, tentando evitar que eles atrapalhassem sua leitura.

Já fazia cerca de cinco minutos que Fábio a observava – uma quase menina perto dele, sentado no banco do jardim poucos metros adiante. Adriana levantou os olhos na direção de Fábio e deixou-os assim, um flerte longo, curioso, como se olhasse para um rosto há muito tempo querido. Ela levantou-se, caminhou em direção ao estranho que a encarava tão sem cerimônia e ao mesmo tempo tão meigo, sentou-se a seu lado no banco, deitou o rosto no ombro de Fábio e continuou a leitura.

“Não, não posso ficar. Tenho mil coisas para fazer no Brasil, devo voltar em três ou quatro meses, depende dos negócios. Até lá seu curso já acabou. Você vai ficar bem?”, respondeu Fábio, voltando a girar o uísque no copo. “Porque você não fica mais uma noite. Nós voltamos para o quarto…” “Não posso. Tenho negócios a resolver, minha …. Não me olhe assim…”

Fábio tirou os braços de Adriana com calma de seu pescoço. Fazia mais de uma hora que estava acordado, controlando a respiração como se embalasse o sono da jovem deitada em seu dorso. Resolveu se levantar. À medida que deslizava para o lado, substituiu seu corpo pelo travesseiro, pousando a cabeça dela suavemente, sem acordá-la.  Sentou-se na escrivaninha em frente à cama.

A meia luz do quarto era suficiente. Ligou o computador pensando em preencher os relatórios que deveria encaminhar para a empresa. Precisava de uma desculpa para justificar o atraso de um dia, não só na empresa. Enquanto o windows rodava na tela negra do notebook, deixou os olhos no espelho em frente, presos na imagem nua de Adriana na cama. Ela estava de bruços, abraçada com o travesseiro, o corpo resplandecendo de juventude, uma perna ligeiramente dobrada, a outra esticada, a imagem de menina impregnando o quarto de desejo. “Em que você está pensando?” Fábio não havia percebido os olhos semicerrados de Adriana. “Aposto que está pensando em mim, com tesão.”

Ele ficou um longo tempo olhando, percorrendo seu corpo, até que ela pegou novamente no sono, os braços apertados no travesseiro, as costas arfando lentamente. Não. Não pensava em você. Pensava no menino empilhando tijolos até dar conta de esticar o pescoço por cima do muro. Ele desce, pega mais três ou quatro tijolos, consegue apoiar as palmas das mãos no muro e com um pequeno impulso passa uma das pernas, depois outra e, cansado, as mãos um pouco arranhadas, senta-se no alto, as duas pernas para o lado de dentro do muro. O menino espera um bom tempo até um avião apontar no horizonte, refletindo o sol do final de tarde. O avião passa bem em frente a ele, pousando com leveza na pista.

O sol começa a desaparecer, deixando a tarde avermelhada. O menino espera outro avião, talvez apareça um guarda gordo, de grossos bigodes, o longo cassetete pendurado no cinto, e o puxe pelas pernas. Talvez.

Entre amigas

O estudo de Claude Chabrol sobre a juventude parisiense, entregue aos prazeres mundanos da noite, tem um final misterioso e perturbador. Quatro amigas trabalham em uma loja de eletrodomésticos, contando as horas para o final do expediente, quando saem em busca de diversão. Rita é noiva de um jovem da alta sociedade. Ginette esconde das amigas sua vida dupla na noite. Jane namora um militar mas se entrega a outros homens, como se vivesse cada noite ao extremo. Jacqueline, cujo olhar traduz sonhos, está sozinha e nutre fascínio por um motociclista que a segue pelas noites.

Claude Chabrol traça um retrato da futilidade dessas procuras, muito bem representado em uma dupla de amigos que beiram o ridículo em seus comportamentos – a sequência de piscina provoca a mais pura repulsa a homens dessa estirpe. Outro ponto em destaque na trama é o constante assédio masculino às jovens, seja no trabalho ou nos bares pelas noites. O final surpreendente, seguido de uma misteriosa aparição, faz de Jacqueline uma das grandes personagens desta intrigante e misteriosa nouvelle-vague francesa.

Entre amigas (Les bonnes femmes, França, 1960), de Claude Chabrol. Com Bernadette Lafont (Jane), Clotilde Joano (Jacqueline), Stéphane Audran (Ginette), Lucile Saint-Simon (Rita).

O raio verde

Delphine está a duas semanas de suas férias de verão e não consegue decidir o destino da viagem. Acabou de romper com o namorado, a amiga com quem tinha combinado as férias desistiu da viagem. Delphine então, indecisa, empreende uma série de estadias curtas, entre o campo, as montanhas e as praias. 

O raio verde faz parte da série Comédias e Provérbios de Éric Rohmer, anunciado logo no início da narrativa: “Que chegue o tempo quando os corações estão apaixonados.” – Rimbaud. A peregrinação de Delphine coloca em tema a solidão, a dificuldade de se adaptar a novos relacionamentos, a necessidade de conhecer e, ao mesmo tempo, o receio de se entregar a esse conhecer, com todo o despojamento que isso exige. 

O título do filme remete ao último raio de sol poente, quando um possível raio verde toma conta dos corações. Delphine descobre sobre isso ao ouvir, casualmente, um grupo de intelectuais conversando sobre o livro que Júlio Verne escreveu sobre o fenômeno. O final do filme, bem, é desses finais que evocam a magia do olhar, assim como o cinema de Rohmer, repleto de descobertas.  

O raio verde(Le rayon vert, França, 1986), de Éric Rohmer. Com Marie Rivère (Delphine), María Luisa Garcia (Manuella), Vincent Gauthier (Jacques).

Entre parafusos e engrenagens

O motorista do guincho abriu o capô do carro, mexeu em pontos incompreensíveis para mim e deu aquele suspiro de entendido.

– É o cabo. Tá solto, coisa simples…  acho que não precisa rebocar, é só apertar, assim…. apertar bem…. vamos ver se pega, vai lá, liga o carro.

– O carburador tá sujo. Carros de dupla carburação são mais complicados. Tem que andar tudo reguladinho, tem que tá sempre conferindo, desregula um, depois o outro. – debruçado no motor, o pai levantava a cabeça de vez em quando para explicar. As mãos sujas de óleo, o suor escorrendo pelo rosto.

Eu podia ouvir a conversa dos meninos na rua. Era início de noite, depois do jantar iam chegando aos poucos, a aglomeração acontecia sempre na porta de minha casa. A rampa da garagem era um bom lugar para sentar, a casa ficava no centro do quarteirão, local estratégico.

– Liga o carro, vai lá, vamos ver se aprende. – o pai me ajudou a sentar no banco, meus pés quase não chegavam aos pedais.

– Senta mais na beirada… isso. Agora vira a chave devagar até ouvir o barulho da ignição, assim, assim…. não, solta, solta a chave. – olhei assustado para o pai, certo de ter feito alguma coisa errada. Ele passou a mão na minha cabeça.

– De novo, quando você ouvir o barulho do motor dá uma pequena acelerada, com calma, é fácil, tá vendo? é simples. – ouvi maravilhado o carro funcionando. O pai deixou que eu ficasse um tempo, com a ponta dos pés apertei o acelerador, o barulho aumentou, aumentou, invadiu a garagem.

– Agora vem cá, deixa o carro ligado. – voltamos para a traseira do carro, o motor trepidando. – Tá vendo aqui, olha só, você mexe e o carro acelera. Como são dois carburadores… . – ele continuava a explicar, esquecido do tempo. Quando seu rosto quase sumia perto do motor, meus olhos se desviavam para o portão da garagem. Meus ouvidos divididos entre o barulho do motor e a algazarra dos meninos.

– Tá vendo este cabo?, ele costuma soltar, se algum dia o carro morrer com você na rua, dá uma olhada, costuma ser muito simples, só apertar um pouco, pega aquela chave pra mim.  – ele esperou alguns segundo, percebeu que eu não tinha ouvido, descobriu meus olhos na rua. O pai limpou as mãos em um pedaço de estopa, passou um pano pelo suor do rosto. Abriu o portão da garagem e fez um gesto com as mãos.

Saí para a rua, o ar livre da noite, os meninos já organizados para brincadeiras. O pai ficou um tempo parado, sorriso nos lábios, depois fechou o portão e voltou para seu motor, sozinho, perdido entre ferramentas, parafusos e engrenagens.

Sentado no banco, ouvi o barulho do motor funcionando. Apertei o acelerador devagar, depois um pouco mais fundo, mais fundo, o barulho aumentando. O motorista do guincho levantou a cabeça e fez um gesto como quem diz, já está bom. Ele fechou o capô do carro. Passava da meia-noite, o celular tocou, minha mulher perguntando se já resolvera.

– Já. Coisa simples, só um cabo que soltou.

A mulher do aviador

É o primeiro filme da série Comédias e Provérbios, de Éric Rohmer. “É impossível parar de pensar” serve como preâmbulo para a divertida narrativa com um toque detetivesco. François resolve seguir por um dia um aviador, que foi ou é amante de sua namorada.  Ele está com outra mulher, cuja identidade é desconhecida e, na cabeça de François, poderia provar a infidelidade do aviador. A adolescente Lucie cruza o caminho de François e se junta por acaso, fascinada pela aventura, à perseguição do possível casal de amantes.

Grande parte do filme decorre durante este dia, cujo ponto de vista define muito do que sentimos quando nos deparamos a observar, de longe, as pessoas com quem cruzamos. À medida que observam o casal à distância, François e Lucie se revelam um para o outro, trocando diálogos banais, às vezes reflexivos, outros agressivos, sempre com esse agradável tom de quem acaba de se conhecer. Descobrem muito pouco do casal que observam, mas muito de si mesmos. Quando termina a investigação, cada um volta para sua própria vida, deixando no ar aquela sensação de algo mais que permeia a imaginação.

A mulher do aviador (La femme de l’aviateur, França, 1981), de Éric Rohmer. Com Philippe Marlaud (François), Marie Rivière (Anne), Anne-Laure Meury (Lucie), Mathieu Carrière (Christian).  

Daguerreotypes

Por uma feliz coincidência do destino, Agnès Varda morou grande parte de sua vida em uma rua de Paris chamada Daguerre. Neste documentário, a fotógrafa e cineasta retrata os moradores de sua rua, pequenos comerciantes que vivem o cotidiano simples e corriqueiro de seus afazeres e prazeres. 

A cineasta comentou que seu filme é “uma análise casual dos meus vizinhos.” De manhã, Agnés Varda saía com sua câmera, puxando uma grande extensão de sua casa pela rua, pois não queria gastar energia dos estabelecimentos e casas onde registrava suas imagens singelas, ternas dos moradores da Rua Daguerre. Todos fotografados de forma casual, assim como preconizou um dos inventores da fotografia: Louis Daguerre.  

Daguerreotypes (França, 1975), de Agnès Varda.

Adeus, Philippine

Jean-Luc Godard declarou durante o Festival de Cannes de 1962: “Quem não assistiu Yveline Céry dançar cha-cha-cha para a câmera nunca mais poderá falar de cinema na Croisette.” Ele se referia a uma das muitas cenas lúdicas, irreverentes, descompromissadas que compõem o filme, um despretensioso retrato da juventude francesa, simbolizado na história de duas amigas e um jovem durante o verão. 

MIchel trabalha como assistente técnico em uma televisão parisiense. Ele se torna amigo de Juliette e Liliane, duas jovens modelos que fazem trabalhos ocasionais em publicidade. As duas disputam o interesse de Michel, sem rivalidades, esperando que a escolha do jovem se torne natural. 

Adeus, Philippine é uma pequena obra prima que merece ser vista como a narrativa se apresenta: tudo acontecendo de forma casual, assim como a vida de jovens que se entregam aos dias não esperando nada mais do que diversão, encontros, pequenos romances. O contraponto a tudo isso é a Guerra da Argélia, que paira ameaçadora sobre a juventude. A beleza e sensibilidade deste cinema da nouvelle-vague está muito bem representada na sequência de despedida das amigas de Michel: Juliette e Liliane correm pela amurada à beira-mar, acenando seus lenços para Michel, que está debruçado nas grades do navio que se afasta lentamente do porto. 

Adeus, Philippine (Adieu Philippine, França, 1962), de Jacques Rozier. Com Jean-Claude Aimini (Michel), Daniel Descamps (Daniel), Stefania Sabatini (Juliette), Yveline Céry (Liliane).

A partilha

Os livros estavam espalhados no chão da sala. O sol anunciava uma clara manhã de domingo, a primavera despejando seus cheiros naquela casa banhada de flores. As flores de minha mãe.

Eu perdera no par ou ímpar e a irmã ganhara a oportunidade de escolher primeiro. Olhei para meu livro favorito, mas desviei os olhos com medo de me trair. Com ar de vencedora, ela escolheu As sandálias do pescador. Respirei aliviado.

– Sua vez. – disse a irmã, olhando para O morro dos ventos uivantes. Peguei o livro.

– Vamos fazer diferente. Eu escolho mais um agora e você escolhe dois depois.

Ela concordou. Peguei rapidamente O bosque das ilusões perdidas. A seguir, ela separou para o seu canto Como era verde meu vale. Sorriu ao notar o meu olhar angustiado.

Quando começamos a trabalhar, ainda adolescentes, fizemos um pacto, cada um compraria um livro por mês, formando uma biblioteca única. Era a forma de valorizar nosso pouco salário para fazer aquilo de que gostamos tanto: ler. Dependendo do mês, dava para comprar mais de dois livros. Combinamos, “quando um de nós sair de casa, dividimos a biblioteca”.

Ela pegou o segundo livro, O caso dos dez negrinhos. Terminada a divisão, a irmã me ajudou a empacotar os livros. Descobrimos que não eram tantos assim, pouco mais de uma dúzia foi o que me coube na partilha.

Dias depois, ao arrumar os livros em minha nova casa, no fundo da caixa encontrei Como era verde meu vale. Foi o primeiro livro que coloquei na estante, a lombada verde soltando a cola, revelando o uso descuidado de jovens leitores. Um a um os livros foram encontrando seu lugar no canto do móvel. E até hoje, tantos anos, tantas mudanças depois, o verdadeiro lugar destes livros é na casa dos meus pais, na casa dos meus irmãos.

Algum lugar do passado

Venha ver a vista do final de tarde. Os carros cruzam as ruas, alguns com faróis acesos, outros insistem na última luz do dia. Bando de pássaros voa em sincronia logo abaixo da janela.

Lembro-me de nossa vista do quarto de hotel. O calor daquelas tardes de abril nos deixava sonolentos, entregues ao prazer do ar condicionado, da cama despretensiosa, do roçar de pernas sem desejo. O cheiro gostoso do seu corpo recendendo a sol. Entregues à tarde, ao nada, à sensação de nos deixarmos. No final da tarde, sentados na varanda do quarto, o sol escondido atrás do hotel refletia uma luz morna nas águas do mar, a maré alta batendo no arrimo de concreto, quase ao alcance dos nossos pés. Nossos olhos entregues.

Os pássaros não voam mais. Devem estar no ninho. Existem três grandes árvores frondosas no lote vizinho. Decerto estão ali, penas encolhidas, asas protegendo o corpo como um abraço próprio, se preparando para a noite longa, incerta.

Você gosta de caminhar entre árvores no final da tarde. Entre pés de fruta. Entre roseiras. Os pés com vontade de pisar descalços na grama, mas receosos de pequenas picadas. Às vezes, você estica um pouco o pescoço, chega o nariz perto dos ramos da vegetação. Dama da noite. Tardes no sítio. O pai acorda da sesta. As mãos cruzadas nas costas, anda calmo pelo quintal, a vistoriar laranjas, mangas, flores de jabuticabeiras, folhas de alface na horta. Os cachorros andam ao lado, despencam em uma correria por nada. É hora de dar milho às galinhas. Ele conversa com elas, a cada uma um nome.

Depois, bem à tardinha, o sol se escondendo no morro, ele pega o equipamento de matar formigas. Vai caçar a praga que destrói folhas, flores, devorando num ritmo eterno o trabalho do dia. Você vai atrás, indica a entrada dos formigueiros. O pai coloca o tubo no buraco, bombeia formicida dentro. Mais à frente, outro buraco, mais outro, a noite derrama sua luz fraca. Os olhos do pai desistem da busca, já não enxergam. Talvez uma lanterna, você sugere. Vamos deixar para amanhã, tenho todo o tempo, as formigas também. Diz o pai e senta-se ao meu lado na varanda. A mãe já está sentada, esperando a novela das seis. Entre uma conversa e outra, entre um silêncio e outro, a noite chega com o misterioso som dos noturnos. A mãe repete a frase de todos os dias, é tão gostoso dormir com o barulho dos sapos, acordar com o galo cantando. Os olhos descansam em um ponto qualquer da escuridão.

Todos os carros já estão com faróis acesos. Não podem mais com a penumbra, com as sombras da noite que levam meus olhos para algum lugar do passado.