Ulisses

Em 1954, Agnès Varda produziu e fotografou a famosa cena em uma praia coberta de pedregulhos no Sul da França. Ulisses é o nome do menino sentado, olhando a cabra morta. 

No curta, realizado na década de 80, a cineasta volta ao local da foto, conversa com os protagonistas, buscando as memórias daquele tempo, daquele registro. Através de imagens passadas e presentes, o curta é uma reflexão sobre a natureza de fotografar, sobre memórias perdidas, resgatadas, sobre pessoas simples que são, em determinados momentos, apenas um flash um suas vidas, eternizadas pela arte.  

Ulisses (Ulysse, França, 1983), de Agnès Varda. 

24 City

O filme é um misto de documentário e ficção. A narrativa acompanha personagens de três gerações, interpretados por atores profissionais, que trabalharam em uma fábrica de construção de peças para a aeronáutica. A fábrica, desativada e em ruínas, serve como elemento de transição entre os depoimentos que são prestados direto para a câmera, assim como nos documentários mais tradicionais. As histórias pessoais traduzem também as importantes transformações políticas e econômicas que acompanham a China. Em determinado momento, é apresentado a maquete de um empreendimento residencial de luxo que ocupará o espaço da antiga fábrica. 

Realidade e encenação se encontram em momentos emocionantes, a exemplo do encontro entre um funcionário e seu antigo mestre na fábrica, agora um ancião entregue às lembranças de seu trabalho. Outro ponto de destaque é a trilha sonora, recheada de canções pops a embalar a narrativa.

24 City (Er shi si cheng ji I, China, 2008), de Jia Zhangke. Com Joan Chen, Lu Liping, Zhao Tao, Chen Jianbin. 

Gotas de óleo

Um dia jogo óleo nos cabos desse elevador.

– Pensando na vida Seu Joaquim? – perguntou Dona Marta, depois de observar por alguns segundos o vizinho olhando para o teto do elevador.

Há quase quarenta anos morando naquele prédio, Joaquim tinha a impressão que cabos, roldanas, máquinas e portas daquele elevador nunca tinham visto lubrificação. Depois de acabar com a pequena fortuna que o avô lhe deixara, ele fora ganhar a vida consertando pequenas máquinas. Joaquim tinha prazer em esguichar óleo Singer nas junções, fazer a engrenagem funcionar lentamente até deixar de ouvir completamente o ruído de máquina contra máquina. Ele voltou os olhos para Dona Marta. Lembrou-se sem saudade de uma noite lá pelos anos cinqüenta. O marido viajando, os dois no mesmo elevador. A porta se abriu no andar onde ela morava. Marta ficou olhando para Joaquim, a porta voltou a se fechar e ela subiu para o apartamento dele.

– É a única coisa que a gente faz agora Dona Marta, pensar na vida  – respondeu Joaquim. O elevador parou no andar de Dona Marta. Ela saiu lentamente, sem mesmo se despedir.

Joaquim entrou no apartamento pensando na vergonhosa derrota daquela noite. Eu nunca deveria ter deixado o rei sem proteção. Rainhas foram feitas para isso, proteger os reis. Pensou em outros jogos, em noites no Cassino da Urca rodeado de fichas e dançarinas. Talvez fosse a sua sina, perder, perder e sair com uma garota pendurada em seu pescoço, cheirando a bebida, para uma noite qualquer em quarto de hotel.

Preciso me concentrar. Amanhã pego de jeito aquele velhaco do Valdir. Abriu a janela da sala. Ouviu irritado o ranger de janela velha. Armou o tabuleiro de xadrez na mesa para pensar. Amanhã pego o Valdir de jeito.

O silêncio do apartamento. Não consigo me concentrar. Música, música. Preciso de música. A voz de Frank Sinatra invadiu seus ouvidos. Há muitos e muitos anos, em que ano Joaquim? não me lembro mais, final de década de 30, sim, é isso, estava em Nova Iorque. Fui com amigos a um bar, final de noite, uma orquestra desconhecida cantando sabe-se Deus para quem. A plateia mais preocupada com o último uísque, homens e mulheres cheirando a álcool, fumo, extasiados da noite. No palco, um rapaz de uma magreza tímida e feia cantava. Alguém disse: É o Frank Sinatra. Esse menino vai longe.

Virou a capa do disco. “Para Joaquim, amor da minha vida. Da sua Eleonora”. A voz de Frank Sinatra tomou conta “And now, the end is near, and so I face, the final curtain / my friend, I’ll say it clear / I’ll state may case, of wich I’m certain / I’ve lived, a life that’s full / I’ve traveled each every highway / And more, much more than this / I did it my way.”

Quem é Eleonora? Não consigo me lembrar. Eleonora. É a Nora? Não. Nora tinha cabelos vermelhos, um jeito inesquecível de descer pelo meu corpo. Preciso me concentrar, pegar o Valdir de jeito amanhã. Vou dormir. Fechou a janela. Esse barulho.

Joaquim foi até a dispensa, pegou sua caixa de ferramentas. O velho tubo de óleo Singer. Derramou algumas gotas na janela, começou o lento movimento de vai e vem. Mais algumas gotas, vai e vem, o ruído sumindo aos poucos. Mais algumas gotas, mais, a janela agora desliza suave, sem barulho. Joaquim podia ouvir até mesmo a brisa solitária da noite.