Aly Muritiba trabalhou como agente penitenciário no Paraná. A experiência serviu de inspiração para a Trilogia do cárcere, composta por dois curta-metragens, A fábrica (2011), Pátio (2013) e o longa A gente. O filme, misturando estilos do documentário e da ficção, foi realizado no presídio onde Aly Muritiba trabalhou, em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba.
A narrativa segue o cotidiano de equipe de agentes penitenciários, liderados por Jefferson Walku. Conflitos rotineiros são retratados, como a tensão no trato com os presidiários, falta de condições de trabalho, superlotação das celas, ausência de estrutura para os trabalhadores e falta de condições dignas para os presos. O ponto de vista escolhido pelo diretor é dos agentes, os presos não aparecem, o espectador ouve apenas suas vozes ou os vê à distância. Quando a câmera sai da prisão, acompanha a rotina pessoal de Jefferson em família ou atuando como pastor em igreja evangélica. Aly Muritiba exercita o estlo doc/fic com potência narrativa, demonstrando a força dos novos realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.
A gente (Brasil, 2013), de Aly Muritiba. Com Jefferson Walku, Tiago Simioni Andreatta, Manassas da Silva, Ivanney Montenegro.
Impossível não se emocionar assistindo à Audrey, documentário que retrata uma das atrizes mais fascinantes, dentro e fora das telas, deste maravilhoso cinema clássico americano. O filme traz depoimentos de familiares e amigos da atriz, como Sean Hepburn-Ferrer, Emma Ferrer, Richard Dreyfuss, Clare Waight Keller, John Loring.
Os depoimentos reconstituem a infância de Audrey, quando ela sofreu com os horrores da ocupação nazista na Holanda, vivendo, inclusive, em estado de desnutrição. Foi abandonada pelo pai que se aliou às fileiras nazistas. A vida pessoal da atriz é pontuada ao longo de sua carreira, passando pelos casamentos desfeitos, pelo reencontro com o pai, com destaque para sua atuação como Embaixadora da Unicef.
Os sofrimentos de Audrey durante a segunda guerra mundial, as frustrações de seus relacionamentos amorosos, seu engajamento fervoroso na luta pelas crianças famintas da África e, finalmente, a batalha contra o câncer que a vitimou, são entrecortados pelas belas imagens da carreira da atriz. Imagens eternas: a princesa que passeia liberta pelas ruas de Roma, a filha de um motorista que se transforma em Paris e seduz dois ricos irmãos, a mendiga que ressurge como a mais bela dama, a garota de programa com seu ar ingênuo diante da joalheria e mais, muito mais – poderíamos ficar descrevendo quase sem fim as aparições luminosas de Audrey Hepburn no cinema e em nossa vidas. Melhor assistir ao documentário e correr para rever os filmes.
1979. Um adolescente acaba de sair do seu trabalho como office-boy e se encaminha para o programa favorito no início da noite: pegar uma sessão de cinema, neste dia, no Cine Jacques. Perto da portaria do cinema, é surpreendido pela multidão que caminha em sentido contrário aos gritos, portanto porretes e outras peças de madeira. Pessoas correm assustadas, lojistas fecham apressados as portas. Ao adolescente, também aterrorizado, resta se jogar debaixo da porta já quase fechada do Rei do Disco (onde ele frequentemente ouvia LPs nas cabines individuais antes de se decidir por este ou aquele). A porta descerrada só não impede a passagem do som: gritos, vidros quebrados, cantos de ordem.
Lembrei-me desse episódio que marcou minha adolescência, durante a famosa greve dos operários da construção civil em Belo Horizonte, ao rever o documentário ABC da greve (Brasil, 1979), de Leon Hirszman.
Leon Hirszman era considerado pelos integrantes do grupo a voz política do cinema novo. Pedreira de São Diogo, curta que integra o clássico Cinco vezes favela (1962) é um grito de resistência a favor das favelas do Rio de Janeiro. Eles não usam black-tie (1981), meu filme favorito do diretor, marca o cinema brasileiro a partir dos anos 80, quando os realizadores se voltaram para a história recente de nosso país, ou seja, a ditadura militar.
Em 1979, o diretor acompanhou a lendária greve dos metalúrgicos no ABC paulista. As filmagens foram complicadas, negativos do filme tiveram que ser escondidos e tirados camuflados da sede do sindicato dos metalúrgicos. Com problemas na finalização, o documentário só foi concluído em 1989 e lançado em 1990, após a morte de Leon Hirszman.
ABC da greve é retrato contundente da situação dos trabalhadores no final dos anos 70, denúncia da falsidade do milagre econômico apregoado pelo regime militar. Compõem o documentário cenas de rua dos trabalhadores em greve, depoimentos dos próprios trabalhadores, discursos dos líderes sindicais em impressionantes reuniões de milhares de grevistas a céu aberto, a equipe de Leon tentando se infiltrar nos pátios das fábricas. Tudo com câmera realista, próxima dos acontecimentos.
Para completar, o documentário traz imagens contundentes de Luiz Inácio Lula da Silva. Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Lula lidera a greve, magnetiza os trabalhadores; as imagens registram seu poder carismático, a liderança e persistência que o levariam mais de duas décadas depois à presidência da república.
A voz política de Leon Hirszman produziu um dos mais importantes documentários da história recente do Brasil, filme que precisa ser revisitado em um momento no qual a extrema direita massacra a sociedade e os trabalhadores se mantêm calados no chão de fábrica.
A diretora e atriz Bárbara Paz faz uma incursão ousada pela intimidade de Hector Babenco, com quem era casada. O documentário entremeia depoimentos de Babenco coletados ao longo de sua vida, cenas da vida cotidiana, incluindo imagens íntimas do casal, imagens do diretor em situações de trabalho e em polêmicas entrevistas, várias e várias cenas de seus mais importantes filmes. Mas a ousadia está em registrar com a câmera momentos da doença de Hector Babenco: em casa, no hospital, ainda trabalhando, ele refletindo sobre a doença que consome sua vida.
Agnès Varda fez registro semelhante também com seu marido, o famoso diretor da nouvelle-vague francesa, Jacques Demy. Filmes que só podem ser realizados por mulheres corajosas, sensíveis, francas, capazes de expressar com a câmera não só momentos íntimos, mas intensamente dolorosos. Bárbara Paz em seu documentário presta uma grande homenagem a Babenco, um dos maiores diretores de todos os tempos do cinema nacional. E também ao cinema, pois cinema é acima de tudo intimidade, intensidade, verdadeiro na essência.
Babenco. Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou (Brasil,2020), de Bárbara Paz.
Em 1942, Orson Welles desembarcou no Brasil com duas missões: estreitar as relações entre os governos daqui e de lá (integrantes do governo brasileiro eram vistos pelos americanos como simpatizantes ao regime nazista de Hitler) e concluir um documentário em três partes – a primeira foi filmada por equipe de segunda unidade no México.
Welles acabara de concluir as filmagens de Soberba e deixara a montagem a cargo de Robert Wise que seria responsável, a mando dos chefes do estúdio, por um dos maiores crimes da indústria cinematográfica: a mutilação e refilmagem da clássica história da Família Amberson.
A saga do documentário É tudo verdade é conhecida pelos cinéfilos: Orson Welles filmou cenas do carnaval carioca e depois partiu para o Nordeste com o objetivo de recriar a viagem de quatro jangadeiros de Fortaleza ao Rio de Janeiro.
Mudanças na direção do estúdio abortaram o projeto e Orson Welles foi chamado de volta para os Estados Unidos. O resultado é que o documentário ficou décadas engavetado. Em 1993, após a morte do diretor, o material filmado foi restaurado e a obra finalmente chegou às telas do cinema.
É tudo verdade traz cenas do filme iniciado no México, Meu amigo bonito, das imagens feitas por Welles na festa carioca, Carnaval no Rio e termina com a recriação da jornada dos cearenses, Quatro homens e uma jangada. As histórias são intercaladas com cenas de arquivo de Orson Welles no Brasil e depoimentos do diretor sobre os problemas enfrentados durante e após as filmagens.
O destaque é Quatro homens e uma jangada. Inteiramente silencioso, o episódio reúne imagens deslumbrantes da luta dos pescadores nordestinos pela sobrevivência. Cada cena traz a marca do gênio responsável por Cidadão Kane: o primor técnico com ângulos de câmera surpreendentes e a fotografia estilizada em preto e branco. Nada é preciso ser dito neste filme, basta se entregar à beleza das imagens, à beleza do cinema de Orson Welles.
É tudo verdade (It’s all true, EUA, 1993), de Orson Welles, Norman Foster, Richard Wilson, Bill Krohn, Myron Meisel.
Alice Guy-Blaché (1873/1968) foi uma das mais produtivas realizadoras da era do cinema mudo. Entre curtas e médias, dirigiu cerca de mil filmes durante vinte anos de carreira. Fez experiência com efeitos sonoros e visuais, pintou filme diretamente à mão, flertou com o surrealismo em seu primeiro filme, o curta A fada dos repolhos (1896).
A trajetória da diretora, que começou como secretária de Léon Gaumont na França, emigrou para os Estados Unidos onde fundou um dos primeiros estúdios de cinema, o Solax (Nova York), é o tema do documentário Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo. A realizadora Pamela B. Green fez extenso trabalho de pesquisa, reunindo imagens de acervo, depoimentos de pessoas importantes do cinema e historiadores. A narração é de Jodie Foster.
O mérito do documentário é inestimável, resgatando não só a importância de Alice Guy-Blaché, mas das mulheres na história do cinema. Impressiona e revolta a prática comum no mundo das artes que atingiu também a cineasta: ter muitos de seus trabalhos assinados por homens que estavam ao seu redor. O erro mais revoltante é atribuído à Georges Sadoul que, no famoso compêndio em três volumes que escreveu sobre a história do cinema, desconsidera Alice Guy-Blaché e atribui a homens filmes dirigidos pela cineasta. Nos anos 60, Guy-Blaché questionou George Sadoul sobre os erros, mas o historiador não só se omitiu como se recusou a rever os fatos. É assim grande parte da história do cinema: contada por homens que jogaram deliberadamente dezenas e dezenas de diretoras no ostracismo.
Alice Guy-Blaché: a história não contada da primeira cineasta do mundo (Be natural: The untold story of Alice Guy-Blaché, EUA, 2018), de Pamela B. Green.
Em 1981, a atriz Natalie Wood morreu afogada próximo a Ilha Catalina, costa da Califórnia. Estavam com ela no barco seu marido, o ator Robert Wagner, o também ator Christopher Walken e o cuidador do barco.
A primeira parte do documentário, feito por Natasha Gregson Wagner, filha da atriz, relembra a trajetória de Natalie Wood, com destaque para o primeiro casamento com o ator Robert Wagner. Os dois se separaram poucos anos depois e na década de 70 reataram o matrimônio. Os relatos, que incluem depoimentos de amigos como Robert Redford e Mia Farrow, de familiares, de integrantes do sistema hollywoodiano apresentam uma Natalie Wood dedicada à carreira desde os cinco anos de idade. Trechos de entrevistas da própria atriz ajudam a entender os conflitos entre os lados profissional e pessoal de Natalie Wood.
A segunda parte é dramática, pois reconstitui os incidentes que culminaram na trágica morte por afogamento. O destaque é a longa entrevista concedida por Robert Wagner à Natasha Gregson Wagner, relatando passo a passo os dias anteriores e a noite do “acidente”. O propósito da entrevistadora é claro: dirimir todas as dúvidas a respeito da morte da mãe, tentando inocentar Robert Wagner das suspeitas. O caso foi reaberto em 2011, a pedido da irmã da atriz, que sempre suspeitou de assassinato, afirmando que Natalie Wood foi asfixiada e depois jogada na água. Robert Wagner nega essa versão e Christopher Walken sempre se recusa a tocar no assunto.
Tudo indica que é um caso sem solução, portanto, o melhor de Natalie Woode – Aquilo que persiste, são as cenas de trechos de filmes nos quais a atriz trabalhou, principalmente O milagre da Rua 34, Juventude transviada, Clamor do sexo e West side story. Cenas dos filmes e depoimentos de profissionais mostram a história de uma das atrizes mais belas, talentosas e polêmicas de Hollywood que lutou contra o sistema de estúdios, se rendeu à álcool e remédios, se envolveu em inúmeros casos amorosos que alimentaram os tablóides de fofocas e sucumbiu em uma noite chuvosa, misteriosa, envolta em segredos que ninguém ousa revelar.
Natalie Wood – Aquilo que persiste (Natalie Wood: what remains behind, EUA, 2020), de Laurent Bouzereaut.
Orson Welles foi um dos pilares da minha dissertação de mestrado, defendida em 2003 na Escola de Belas Artes da UFMG. Dediquei um capítulo do texto à revolução narrativa de Cidadão Kane (1941), no qual o diretor faz um jogo interpretativo com o espectador da primeira à última cena. A seguir, a análise se pautou em Soberba (1942), filme mutilado pelos produtores na sala de montagem (pelo então montador Robert Wise) enquanto Welles estava no Brasil, tentando filmar É tudo verdade. Foi a primeira obra do gênio a sofrer com interferências dos executivos dos estúdios de Hollywood (outro crime aconteceu com A marca da maldade).
Era o começo da lenda difundida por executivos, críticos e membros da comunidade hollywoodiana de que Orson Welles não tinha interesse em terminar seus filmes. A filha do diretor refuta categoricamente, dizendo que basta prestar atenção na genialidade dos filmes terminados (e montados) pelo diretor. A afirmação está em um dos melhores documentários sobre o cinema de todos os tempos: Serei amado quando morrer (They’ll love me when I’m dead, EUA, 2018), de Morgan Neville, produzido pela Netflix.
O documentário reúne imagens do mais célebre filme inacabado de Orson Welles, O outro lado do vento, cujas filmagens se iniciaram no início dos anos 70 e se estenderam durante toda a década. Orson Welles faleceu em 1985 sem montar o filme. A versão finalizada pela Netflix está disponível no serviço de streaming – a derradeira obra-prima de Welles.
Depoimentos de atores, diretores e técnicos que participaram da odisséia compõem um retrato da genialidade incompreendida daquele que é considerado por muitos como o maior diretor de todos os tempos. O diretor Peter Bogdanovich depõe sobre a sua participação como ator, revelando com emoção passagens importantes do relacionamento entre os dois.
No entanto, o primor do documentário está na própria participação de Welles, em inúmeras imagens de arquivo, depoimentos sinceros e emocionantes sobre o cinema, sobre Hollywood, sobre sua paixão irrestrita pela sétima arte. No final do documentário, após a morte de Orson Welles, o também diretor John Huston (protagonista de O outro lado do vento) tem acesso a um trecho de película no qual Welles ri espontaneamente para a câmera. O responsável pelas filmagens revela que, após assistir ao trecho, John Huston chorou ao ver o amigo gargalhando. Simplesmente chorou, virou as costas e foi embora.
Não há momento mais oportuno no Brasil para a produção de filmes sobre o drama das nações indígenas. O documentário de Luiz Bolognesi se debruça sobre tema urgente: a descaracterização da cultura dos povos ancestrais de nossa terra. Perpera foi preparado para ser Pajé da tribo Paiter Suruí. No entanto, abandonou o posto quando uma igreja evangélica foi instalada na região e o pastor angariou fiéis entre a tribo, alardeando que os pajés são “coisas do diabo”.
O próprio Perpera adere à religião. Continua com sua vida simples de pescador e tenta ensinar às crianças os costumes de seu povo. Ele se vê em conflito quando integrantes da tribo recorrem ao Pajé para ajudar em casos de doença, já que os remédios dos brancos não resolvem.
A câmera do roteirista e documentarista Luiz Bolognesi registra tudo com imparcialidade, sem recorrer a julgamentos. Deixa as imagens falarem, o que basta para provocar a reflexão sobre a cruel interferência que o mundo dito civilizado insiste em fazer nas nações indígenas. A película conquistou menção honrosa no troféu Glashutte de documentário no Festival de Berlim.