Cinco vezes favela

Cinco vezes favela (Brasil, 1962) é dos mais importantes filmes do Cinema Novo. O título se refere à reunião de cinco curtas, cuja temática comum é o cotidiano dos moradores da periferia do Rio de Janeiro. Um favelado, de Marcos Farias; Zé da Cachorra, de Miguel Borges; Escola de Samba Alegria de Viver, de Cacá Diegues; Pedreira de São Diogo, de Leon Hirszman; Couro de Gato, de Joaquim Pedro de Andrade.

Os filmes exploram as injustiças sociais, bem ao feitio dos jovens realizadores cinemanovistas, empenhados em evidenciar a cruel realidade dos moradores da periferia. São obras deficientes em termos técnicos, representam a experimentação de diretores iniciantes que contavam com equipamentos precários. A exceção fica por conta de Couro de Gato, cujo diretor, Joaquim Pedro de Andrade, mesmo nos primeiros filmes já se destacava em termos técnico-narrativos.

“COURO DE GATO (o terceiro curta-metragem  de Joaquim Pedro, que havia realizado O MESTRE DE APIPUCOS, 1959, e O POETA DO CASTELO, 1959) apresenta um nível de realização bastante superior aos outros episódios, embora também centrado na representação do universo burguês característico da época e na exploração de sentimentos fáceis no espectador.  PEDREIRA DE SÃO DIOGO (de Leon Hirszman) também é um filme bem realizado, marcado pelas preferências eisensteinianas do jovem cineclubista. Conta a luta dos operários de uma pedreira para impedir que uma explosão mais forte venha fazer despencar diversos barracos localizados na beira do barranco onde trabalhavam.”

REFERÊNCIA: História do cinema brasileiro. Fernão Ramos (organizador). São Paulo: Círculo do Livro, 1987.

São Bernardo

É nítida a influência de Robert Bresson e Yasujiro Ozu em São Bernardo (1971). De Ozu, a apropriação dos longos planos estáticos, distantes dos personagens. Diálogos inteiros são filmados em plano geral, a câmera não se aproxima dos atores, não permite ao espectador contemplar as emoções dos personagens. Tudo fica por conta da força das palavras. Quando a câmera se aproxima, Leon Hirszman se deixa influenciar por Robert Bresson: os atores interpretam de forma naturalista, frios e também distantes. Madalena (Isabel Ribeiro) não deixa transparecer nas faces ou nos olhos a sua lenta degradação psicológica. Paulo Honório (Othon Bastos) se permite a explosões refletidas nos gestos e transtornos do rosto, mas quase sempre a câmera o foca em um longo monólogo interior, as faces e o olhar sem expressão.

A intenção de Leon Hirszman, um dos maiores diretores ligado ao cinema novo, é valorizar o belo texto de Graciliano Ramos. A história de Paulo Honório, pobre trabalhador de Alagoas que se torna o poderoso proprietário da fazenda São Bernardo às custas de exploração e crimes, reflete a realidade da luta pelo poder no sertão nordestino. Hirszman, ao optar pela montagem seca, traduz o verdadeiro objetivo do romance: expressar o interior de Paulo Honório, o homem que luta com obstinação por riqueza e poder, mas não consegue vencer os demônios de sua alma.

São Bernardo (Brasil, 1971), de Leon Hirszman. Com Othon Bastos, Isabel Ribeiro.