Luzifer

Johannes, um homem com o comportamento de uma criança, vive isolado numa cabana alpina com sua mãe. Seu grande companheiro é um falcão. Johannes passa os dias nas montanhas e em fervorosas orações, comandadas pela mãe, uma ex-alcoólatra, radical religiosa determinada a viver os seus dias em completo isolamento junto com o filho. Essa pretensa paz espiritual é abalada por um grupo de pessoas, representantes de uma empresa que pretende construir um empreendimento turístico na região.

Franz Rogowski é o grande destaque do filme. Sua interpretação é tocante e visceral. A criança em um corpo de homem se vê diante de perturbadores conflitos morais, religiosos, sexuais; a repressão abalando de forma assustadora a idílica convivência com a natureza. Um grande filme sobre a inocência que se perde diante do fanatismo e do sempre cruel domínio capitalista.  

Luzifer (Áustria, 2021), de Peter Brunner. Com Franz Rogowski (Johannes), Susanne Jensen (Maria).

Django & Django

No prólogo, intitulado Era uma vez, o cineasta Quentin Tarantino narra, com imagens de seu filme Era uma vez em Hollywood, um diálogo ao telefone entre o agente Marvin (Al Pacino) e o ator de Hollywood Rick (Leonardo DiCaprio). O agente tenta convencer Rick a se encontrar com Sergio Corbucci. Rick pergunta quem é Corbucci, ao que o agente responde: “O segundo maior diretor de faroeste espaguete do mundo todo.”

É o ponto de partida para o documentário sobre Sergio Corbucci, que era frequentemente confundido com seu grande amigo Sergio Leone. O tom do documentário são os longos depoimentos de Tarantino, admirador confesso, inclusive com homenagens em seus filmes, do diretor de Django (1966). Tarantino revela que cogitou, depois de filmar Bastardos Inglórios, escrever uma biografia de Corbucci intitulada O outro Sergio

Tarantino explica o nascimento da carreira dessa geração que mudou o gênero western a partir do final dos anos 50: “Toda aquela turma de diretores do faroeste espaguete, Leone, Corbucci, Duccio Tessari, Franco Giraldi, todos eles eram amigos. Todos eram críticos que escreviam para revistas e jornais sobre filmes. E todos eles adoravam faroeste. Essa turma de caras começou a trabalhar como críticos e, aos poucos, eles viraram roteiristas. Por meio da escrita, viraram diretores de segunda unidade. E foi onde realmente aprenderam o ofício deles.”

O roteirista e diretor Ruggero Deodato também participa do documentário, comentando sobre sua participação em diversos filmes de Corbucci. Outro ponto de destaque é a participação de Franco Nero, intérprete do célebre Django. 

Django & Django é um retrato fascinante desse diretor italiano tão apaixonado por cinema que resolveu renová-lo, participando de forma decisiva de uma espécie de movimento que foi visto pela crítica como paródia, como cinema menor. Visão que Tarantino, com certeza, não concorda:

“Para mim, o Leone criou a maior trilogia da história do cinema, a trilogia dos dólares. Cada filme é um épico maior do que o anterior. Cada um expressa mais os faroestes. Cada um expressa mais como artista, quem ele é e o que quer fazer. Cada um é uma recriação maior do faroeste sobre a ótica dele. O Corbucci é diferente. O Corbucci decidiu não fazer isso. Quando começou a fazer faroeste espaguete, ele não visou épicos. Ele optou pelo tipo de filme de caubói mais violento. Ele os queria dentro do gênero. Não são épicos. São filmes de caubói, filmes de vingança.”

Django & Django (EUA, 2021), de Luca Rea.

007 – Sem tempo para morrer

A despedida de Daniel Craig do agente secreto é emocionante. O final deixa no ar a certeza de que nossos heróis são assim, como nós. Essa foi, inclusive, a base da renovação da franquia 007 desde Casino Royale (2006): Bond sofre de diversos males físicos e sentimentais, um herói mais próximo, afeito aos conflitos internos e externos (lembrem-se das cenas de tortuna)  que acometem as pessoas comuns. 

No time to die começa com uma impactante sequência em uma casa de campo no inverno gélido, quando são apresentados Madeleine, ainda criança, e Safin, o vilão. Corta anos depois para cenas idílicas de Bond curtindo suas férias em Materna, sul da Itália,  junto com Madeleine, sua namorada. São cenas idílicas, sensuais, nas belas praias, nas vielas históricas, nos quartos de hotéis, assim como em todo filme de 007. Um atentado contra a vida de James Bond dá fim ao romance, instaurando a dúvida entre o casal. 

São dois prólogos recheados de cenas de romance, sexo, ação, perseguições de carros, mortes assustadoras. Cinco anos depois, Bond está aposentado, seu codinome 007 é usado agora por uma agente secreta. No entanto, Lyutsifer Safin, o vilão da primeira sequência, ressurge e se apodera de uma poderosa arma química que pode dar fim à humanidade. 

É a senha para a volta de Bond à ação, em uma narrativa repleta de reviravoltas, sequências mirabolantes de suspense e ação, um amor do passado que volta com surpresas, coadjuvantes que se destacam em momentos decisivos da trama, mulheres empoderadas em ações espetaculares quando resolvem sozinhas os problemas (diante de um Bond atônito); enfim, o velho e o novo 007 oferecem ao espectador tudo que ele tem direito quando se senta diante de um Bond, James Bond. O final apoteótico deixa uma dúvida que se dissipa rapidamente: James Bond will return!?.

007 – Sem tempo para morrer (No time to die, EUA, 2021), de Cary Joji Fukunaga. Com Daniel Craig (James Bond), Ana de Armas (Paloma), Rami Malek (Lyutsifer Safin), Léa Seydoux (Madeleine). Lashana Lynch (Nomi), Ralph Fiennes (M), Ben Whishaw (Q), Naomie Harris (Moneypenny).  

Azor

O banqueiro suíço Yvan de Viel chega na Argentina, em 1980. Os argentinos ainda comemoram a conquista da copa do mundo de futebol de 1978. Mas Yvan vai transitar, durante a narrativa, por lugares mais discretos, onde não se vislumbram ecos das ruas das cidades: campos de golfes, hipódromos, mansões, os redutos dos milionários que fazem transações escusas com banqueiros suíços. 

Azor é o filme de estreia do cineasta Andreas Fontana. Sua câmera retrata esse mundo glamouroso e fascinante da elite corrupta e corruptora, distante da sociedade reprimida pelo regime militar, pelas atrocidades praticadas nos porões da ditadura, pela luta diária de pessoas em busca da liberdade. O protagonista transita por esses redutos tentando provar a si mesmo que é capaz de penetrar e também se aproveitar, afinal, o mundo das altas finanças é dominado pelas raposas. 

Azor (Suíça, 2021), de Andreas Fontana. Com Fabrizio Rongione (Yvan de Viel), Stéphanie Cléau (Inés de Wiel), Carmen Iriondo (Viuda Lacrosteguy), Juan Trench (Augusto), Juan Pablo Geretto (Dekerman). 

White building

No início da narrativa, três jovens amigos percorrem a noite de Phnom Penh, apresentando seu número de dança em bares. É a forma de ganhar dinheiro, mantendo o sonho de vencer um concurso de dança. No entanto, um dos amigos abandona o grupo para morar em Paris. 

Esse início, espécie de road movie suave e silencioso de moto pelas ruas da cidade, simboliza o sonho desses jovens, que será desfeito diante da dura realidade. Nag mora no Edifício Branco, cujos moradores são, em sua maioria, artistas desempregados (como o pai de Nang). Um novo empreendimento será erguido no lugar e os moradores devem aceitar a irrisória oferta de indenização. 

White building foi co-produzido pelo icônico diretor chinês Jia Zhangke e segue os preceitos deste novo cinema asiático. A câmera acompanha os personagens pelas ruas e pelos claustrofóbicos interiores das moradias paupérrimas.As imagens dão o tom da narrativa, acompanhadas por um silêncio perturbador, como se a única alternativa que resta aos personagens fosse contemplar a gradativa destruição de seu modo de vida. 

White building (Bodeng sar, Camboja, 2021), de Kavich Neang. Com Piseth Chhun (Nang), Hout Sithorn (Líder), Chinnaro Soem (Ah Kha), Sovann Tho (Tol). 

Drive my car

Raras vezes o cigarro (esse vício que dizima vidas há tempos imemoriais) se mostra tão poético como na cena em que Yusuke Kafuku e Misaki estendem os braços, com cigarros nos dedos, para fora do teto solar do carro. A cena sela a cumplicidade dos dois, que se conheceram de forma silenciosa, durante os longos trajetos de carro. A jovem Misaki dirigindo, o dramaturgo Kafuku no banco de trás, escutando áudios da peça que está ensaiando.  

Drive my car arrebatou diversos prêmios, incluindo o Oscar e o Globo de Ouro de filme estrangeiro. Kafuku é casado com a roteirista de TV Fukaku Oto. Oto tem um fascinante processo criativo: durante o sexo, conta histórias ao marido que se transformam em tramas de seus roteiros. Ao chegar em casa, certa noite, o dramaturgo encontra a esposa morta, após um AVC. Dois anos depois, Kafuku é convidado para encenar Tio Vanya, de Tchecov, em Hiroshima. Como regra do festival do qual vai participar, o diretor não pode dirigir seu próprio carro. É assim que conhece Misaki, jovem designada para ser sua motorista. 

O filme é um longo ensaio sobre a arte, sobre processos criativos que se confundem com a vida de quem cria. Oto vive uma espécie de catarse mediúnica quando faz sexo, criando fascinantes histórias; Fukaku dirige também em uma espécie de transe, ouvindo os longos diálogos de Tio Vanya, ensaiando suas falas e inspirando seus dias; o jovem Takatsuki, protagonista da peça, abandonou uma carreira de sucesso na TV em busca de sua descoberta como artista. Mas são os longos silêncios entre Fukaku e Misaki que movem a trama rumo às descobertas, ao conhecimento revelador do passado. Assim como o silêncio revelador da arte, expresso na atriz surda-muda que interpreta cenas comoventes por meio da linguagem de sinais. 

Drive my car (Japão, 2021), de Ryusuke Hamaguchi. Com Hidetoshi Nishijima (Fukaku Yusuke), Toko Miura (Watari Misaki), Masaki Okada (Takatsuki Koshi), Park Yoo Rim (Lee Yoon Ah), Reika Kirishima (Fukaku Oto).