A ilha de Bergman

Tony é diretor de cinema e sua namorada Chris, roteirista. Eles desembarcam na Ilha Faro, onde Ingmar Bergman fez alguns de seus importantes filmes. A ilha é um ponto turístico associado a Bergman: casas e praias que serviram de locação, a casa de Bergman, uma associação que promove debates após a exibição de filmes do famoso cineasta sueco.

A trama de A ilha de Bergman segue o processo criativo do casal de cineastas enquanto perambulam pela ilha. Tony é um diretor famoso, seguro de seu trabalho, Chris uma roteirista em crise que não consegue desenvolver seu novo projeto. 

A virada da trama acontece quando Chris conta ao namorado a ideia de seu filme. A metalinguagem toma conta, um filme dentro do filme, como duas realidades paralelas na ilha, trazendo à tona revelações e dramas do passado da roteirista. A diretora Mia Hansen-Love aproveita do clima bucólico e intimista da ilha, como se o cinema de Bergman ainda pairasse ali, para compor duas histórias de amor ternas, sem melodrama, embaraçando realidade e ficção.  

A ilha de Bergman (França, 2021), de Mia Hansen-Love. Com Vicky Krieps (Chris), Tim Roth (Tony), Mia Wasikowska (Amy), Anders Danielsen Lie (Joseph). 

Faya Dayi

“Era uma vez, havia um velho emir chamado Azurkherlaini. Ele era um homem devoto. Um dia, ele foi tomado pelo medo. Ele começou a rezar: “Senhor, por que o medo agora? Sei que estou pronto para morrer.” Naquela noite, Deus falou com ele em um sonho. ‘Deve encontrar Maoul Hayat.’ ‘Maoul Hayat’, Ele disse, é a água da vida eterna.”

Esse trecho do documentário de Jessica Beshir expõe o misticismo associado ao khat, uma folha estimulante, cultivada e comercializada pelos etíopes. As imagens poéticas transitam pelas inebriantes paisagens rurais do país, centros urbanos, feiras, onde os coletores e comerciantes se esmeram no trato com a planta. Os jovens dominam grande parte da narrativa, expondo seus sonhos e desejos de prosperidade, alguns de deixar o país, enquanto se entregam à inebriante atmosfera provocada pelas promessas das folhas nascidas da terra e das lendas.  

Faya Dayi (Etiópia, 2021), de Jessica Beshir.

El planeta

O filme abre com uma divertida sequência: a jovem Leonor está em um restaurante com um homem, marcaram encontro por aplicativo, ela está em sua primeira experiência como pretensa garota de programa. Desiste e volta para sua rotina ao lado da mãe, que vive de aplicar fraudes e furtos em supermercados e lojas de grife.

A narrativa reflete a crise econômica contemporânea, afetando os desejos consumistas da classe média.  Mãe e filha tentam ao mesmo tempo manter condições mínimas de subsistência: comer, pagar o aluguel, a conta de luz, sem abrir mão de seus gostos refinados: jantar em restaurantes caros, vestir casacos de pele, preservar a vida de aparências. A narrativa tem um tom bem-humorado e ácido, abordando questões sem solução no mundo capitalista consumista. 

El planeta (Espanha, 2021), de Amalia Ulman. Amalia Ulman (Leonor), Ale Ulman (Maria). 

Between two dawns

Between two dawns, primeiro filme de Selman Nacar, parte de um acidente rotineiro e trágico: um trabalhador é gravemente ferido ao tentar consertar uma máquina na tecelagem onde trabalha, um negócio administrado pelos irmãos Kadir e Serpil. 

Kadir, o irmão mais jovem, assume a tarefa de dar assistência ao ferido no hospital. Quando conhece a esposa do trabalhador, começa um forte dilema moral, o conflito entre os interesses da família e seus valores pessoais. A narrativa acontece em apenas dois dias, filmada nos ambientes urbanos, centrada na jornada de Kadir e em sua inerente transformação. A realista e cotidiana jornada do herói que pode acontecer com cada um de nós, basta um incidente ao sairmos de casa. 

Between two dawns (Iki Safak Arasinda, Turquia, 2021), de Selman Nacar. Com Mucahit Kocak (Kadir), Nezaket Erden (Serpil), Unal Silver (İbrahim), Bedir Bedir (Halil), Burcu Gölgedar (Esma), Erdem Şenocak (Yasin).

A mesma parte de um homem

Existem ótimas referências para entender o cinema brasileiro que combina escassez de recursos com histórias intimistas, marcadas pela beleza estética. A mesma parte de um homem traz estes elementos, acrescidos com as ótimas interpretações do elenco. 

Renata e Miguel vivem isolados em uma cabana, junto com a filha adolescente. Trabalham a terra, agricultura de subsistência no interior do Brasil. Logo na primeira sequência, Miguel morre em um acidente de carro, mas o inesperado acontece: um homem ferido, desmemoriado, bate à porta da cabana e assume o lugar de Miguel. 

O filme está à beira de um gênero que tem feito sucesso no cinema contemporâneo nacional: o suspense. O passado de Lui pode trazer revelações imprevisíveis e violentas, mas é a personalidade conflituosa de Renata, oscilando entre o medo e o desejo, que domina a trama. O sensível final na estrada úmida deixa em aberto muito do que esconde a alma humana.  

A mesma parte de um homem (Brasil, 2021), de Ana Johann. Com Clarissa Kiste (Renata), Irandhir Santos (Lui), Laís Cristina (Luana), Otavio Linhares (Miguel).

The humans

O cenário é um velho apartamento de dois pavimentos, cuja estrutura ostenta a necessidade de reformas: fios elétricos aparentes, paredes mofadas, luz oscilante, teto ameaçando deixar pedaços pelo chão. A família Blake está reunida para o Dia de Ação de Graças. Durante a noite, marcada por conflitos, revelações, crises depressivas, a família tenta, quase inutilmente, reatar laços. 

As paredes decrépitas do apartamento, as lâmpadas semi mortas, sugerem, ameaçam, insinuam lentamente que a narrativa caminha para o suspense e o terror. Coisas de uma casa que reflete seus moradores.

The humans (EUA, 2021), de Stephen Karam. Com Richard Jenkins (Erik), Jayne Houdyshell (Deirdre), Amy Schumer (Aimee), Beanie Feldstein (Brigid), Steven Yeun (Richard), June Squibb (Momo). 

O soldado que não existiu

Em 1943, os aliados planejavam a libertação da Itália, ocupada pelos nazistas. O desembarque das tropas deveria acontecer pela Sicília, fortemente defendida pelos alemães. Para minar a resistência, os aliados plantaram informações falsas que invadiriam a Grécia. Assim nasceu a famosa Operação Mincemeat, criada por um pequeno grupo de estrategistas formado por civis e militares: o cadáver de um oficial inglês jogado na costa da Espanha com informações sigilosas sobre o desembarque na Grécia. 

A operação é considerada um dos maiores estratagemas de dissimulação da história das guerras. É a base narrativa de O soldado que não existiu. O filme começa pela montagem invertida, no dia do desembarque da Sicília, com narração em off do escritor Ian Fleming, que participou da operação, discorrendo sobre verdades e mentiras, realidade e ficção em tempos de guerra.

O recuo no tempo, seis meses antes, narra passo a passo o estratagema. Romance, bom-humor, drama e suspense se entrelaçam na história. Em um momento, um oficial diz, se dirigindo a Ian Fleming: “estamos cercados pelos nazistas e pelos escritores.” 

O filme não tem surpresas, todo mundo que se interessa pelo tema sabe que os alemães não ofereceram resistência ao desembarque na Sicília. O trunfo do roteiro são mesmo as combinações de gêneros, centrando na estratégia, sem necessidade das tradicionais sequências de guerra. 

O soldado que não existiu (Operation Mincemeat, EUA, 2021), de John Madden. Com Colin Firth (Ewen Montagu), Matthew Macfadyen (Charles Cholmonde), Kelly Macdonald (Jean Leslie), Johnny Flynn (Ian Fleming). 

Nós

O documentário da feminista Alice Diop, filha de pais senegaleses, é dedicado ao escritor François Maspero: “O seu livro Les Passagers du Roissy Express me incitou a ver e amar o que havia diante dos meus olhos.”

Na primeira sequência, o ver e ouvir é representado por um casal e seu filho, em um bosque, observando de binóculos cervos selvagens. A partir daí, a diretora segue o cotidiano de personagens que usam o trem RER B, que atravessa Paris, conectando subúrbios ao centro da cidade.

Compõem o filme um mecânico africano, uma cuidadora de idosos, um escritor e a própria Alice Diop que interage com os retratados. No final, uma simbólica trupe de “nobres”, vestidos a caráter para uma caça aos animais, confirma a disparidade social sugerida durante a narrativa, que dá voz aos moradores da periferia.  

Nós (Nous, França, 2021), de Alice Diop.

Nuestros cuerpos son sus campos de batalla

A diretora francesa Isabelle Solas centra sua câmera na trajetória política, combativa, de Claudia e Violeta, duas mulheres trans. Elas reúnem e lideram grupos de ativistas que buscam conscientizar a conservadora sociedade argentina dos direitos transfeministas. 

A narrativa traz depoimentos de Claudia, Violeta e outras mulheres, momentos de reivindicações nas ruas, cenas cotidianas de casa e trabalho, além da cobertura do julgamento de um homem acusado do assassinato de Diana Sacayán, uma mulher trans. 

Isabelle Solas planejou o documentário a partir do encontro com mulheres do Colectivo Otrans. “Queria dissecar como o desejo pode ser político, esta fonte individual e coletiva que torna possível pensar o mundo de forma diferente. Estes corpos que se movem neste território conturbado e violento que é hoje a Argentina; e que são em si mesmos um ato de resistência.” – declara a diretora.

O título do documentário foi inspirado no cartaz da artista Bárbara Kruger, criado em apoio à luta pelo aborto: Your body is battleground.

Nuestros cuerpos son sus campos de batalla (Argentina, 2021), de Isabelle Solas. 

Titane

O filme abre com uma criança sentada no banco traseiro do carro, imitando o som do motor. O motorista, seu pai, mostra-se irritado e a repreende severamente. A criança, nervosa, solta-se do cinto de segurança, fazendo com que seu pai se distraia do volante, provocando um acidente. Após passar por uma delicada cirurgia no cérebro, a criança sai do hospital e, a primeira coisa que faz, é correr para o carro e encostar a face no vidro com os braços abertos, simulando um grande e terno abraço no veículo. 

Corta para Alexia, agora uma jovem, protagonizando uma dança erótica em cima do capô de um carro esporte. A plateia masculina vai ao delírio, Alexia é uma celebridade neste meio. Sua única motivação são os carros, com quem desenvolve uma relação até mesmo erótica: atenção para a cena de sexo de Alexia com um carro, que resulta em uma inacreditável gravidez. 

Logo no início do filme, Alexia revela uma compulsão para a violência, praticando um série de assassinatos. Violência e erotismo se misturam de forma agressiva, quase repulsiva, neste instigante thriller da diretoria Julia Ducournau, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Quando o bombeiro Vincent entra em cena, a reviravolta no roteiro encaminha o filme para uma espécie de fraternidade familiar, mas mantendo o tom ousado e violento. Titane surpreende pela narrativa, pela estética, pelas relações entre personagens distópicos, cada um à sua maneira. 

Titane (França, 2021), de Julia Ducournau. Com Vincent Lindon (Vincent), Agathe Rousselle (Alexia), Garance Marillier (Justine), Lais Salameh (Rayane).