Maria Gadú assina a bela trilha sonora, grande trunfo do filme. Anna e Chico, recém-casados, se mudam para um apartamento. Anna descobre um som 3×1 guardado em um cômodo, junto com uma fita cassete escrita “Todas as canções de amor.” À medida que escuta as músicas, se interessa e passa a escrever a história de Clarisse, autora da seleção de músicas, presente para seu marido Daniel.
São duas histórias permeadas pelos conflitos de casais, narradas pelo ponto de vista feminino. Anna tenta entender o casamento, o amor, a fita de Clarisse a faz retomar o desejo pela literatura, pela escrita. Nos anos 90, Clarisse luta contra a desilusão do casamento, da relação a dois, sofrendo pela incompreensão de Daniel, músico que nunca tocou uma canção de amor para ela. A trilha sonora eclética traz, entre outras canções, Não aprendi a dizer adeus, Drão, Codinome Beija-Flor, I will survive, Chorando se foi.
Todas as canções de amor (Brasil, 2018), de Joana Mariani. Com Marina Ruy Barbosa (Anna), Bruno Gagliasso (Chico), Luíza Mariani (Clarisse), Júlio Andrade (Daniel).
Em 1981, a atriz Natalie Wood morreu afogada próximo a Ilha Catalina, costa da Califórnia. Estavam com ela no barco seu marido, o ator Robert Wagner, o também ator Christopher Walken e o cuidador do barco.
A primeira parte do documentário, feito por Natasha Gregson Wagner, filha da atriz, relembra a trajetória de Natalie Wood, com destaque para o primeiro casamento com o ator Robert Wagner. Os dois se separaram poucos anos depois e na década de 70 reataram o matrimônio. Os relatos, que incluem depoimentos de amigos como Robert Redford e Mia Farrow, de familiares, de integrantes do sistema hollywoodiano apresentam uma Natalie Wood dedicada à carreira desde os cinco anos de idade. Trechos de entrevistas da própria atriz ajudam a entender os conflitos entre os lados profissional e pessoal de Natalie Wood.
A segunda parte é dramática, pois reconstitui os incidentes que culminaram na trágica morte por afogamento. O destaque é a longa entrevista concedida por Robert Wagner à Natasha Gregson Wagner, relatando passo a passo os dias anteriores e a noite do “acidente”. O propósito da entrevistadora é claro: dirimir todas as dúvidas a respeito da morte da mãe, tentando inocentar Robert Wagner das suspeitas. O caso foi reaberto em 2011, a pedido da irmã da atriz, que sempre suspeitou de assassinato, afirmando que Natalie Wood foi asfixiada e depois jogada na água. Robert Wagner nega essa versão e Christopher Walken sempre se recusa a tocar no assunto.
Tudo indica que é um caso sem solução, portanto, o melhor de Natalie Woode – Aquilo que persiste, são as cenas de trechos de filmes nos quais a atriz trabalhou, principalmente O milagre da Rua 34, Juventude transviada, Clamor do sexo e West side story. Cenas dos filmes e depoimentos de profissionais mostram a história de uma das atrizes mais belas, talentosas e polêmicas de Hollywood que lutou contra o sistema de estúdios, se rendeu à álcool e remédios, se envolveu em inúmeros casos amorosos que alimentaram os tablóides de fofocas e sucumbiu em uma noite chuvosa, misteriosa, envolta em segredos que ninguém ousa revelar.
Natalie Wood – Aquilo que persiste (Natalie Wood: what remains behind, EUA, 2020), de Laurent Bouzereaut.
Dan Gilroy imprimi olhar crítico e mordaz sobre o milionário mundo das artes, flertando com o gênero terror. Morf Vandewalt é crítico de artes requisitado, ou paparicado, pelas galerias para ajudar na elevação do preço das obras. Rhodora Haze é proprietária de galeria de sucesso, responsável por glorificar e lucrar com obras de artes contemporâneas. Josephina é assistente de Rhodora e, após achar centenas de peças no apartamento de seu vizinha que acaba de falecer, ascende de forma meteórica no circuito.
A premissa do filme é fascinante, pois as obras achadas escondem mistério sobrenatural que pode afetar quem tem contato com as peças. A sátira de Gilroy está na escolha do terror, pois o consumismo desenfreado e milionário, o lucro desmedido, a ambição, a crítica que eleva ou destrói, estão no cerne das tragédias que assolam as personagens. Destaque para a montagem alternada no final do filme, envolvendo os três protagonistas.
Velvet buzzsaw (EUA, 2019 ), de Dan Gilroy. Com Jake Gyllenhaal (Morf Vandewalt), Rene Russo (Rhodora Haze), Zawe Ashton (Josephina), Tom Sturridge (Jon Dondon), Toni Collette (Gretchen), Natalia Dyer (Coco), John Malkovich (Piers).
Aos 50 anos, Maria do Caritó (Lilia Cabral) ainda é virgem, pois cumpre promessa feita pelo pai. Esteve perto da morte no parto, o pai orou para São Djalminha, prometendo que entregaria a filha casta ao santo. O clero e políticos da pequena cidade do sertão lucram com histórias difundidas pelos fiéis de que a virgem é milagreira. No entanto, Maria do Caritó também faz suas orações e simpatias, rezando por um marido antes de ser entregue ao claustro da igreja.
Baseado em peça de Newton Moreno, o filme foi realizado para Lília Cabral destilar seu talento cena a cena. Os diálogos bem-humorados encontram a mais legítima expressão da comédia na atriz, que encarna a mulher sedenta por prazer, queimando por dentro, enquanto desfila cética pelas ruas da cidade, recusando a santidade. A falsidade ideológica é o grande tema da película, retratando políticos, padres, moradores da cidade, o pai de Caritó, todos fingindo sem escrúpulos enquanto buscam o lucro através da lenda criada. O circo mambembe que chega na cidade vai ajudar a desmascarar, incluindo a própria Maria do Caritó que precisa se travestir de palhaça para se encontrar e provocar a reviravolta final.
Maria do Caritó (Brasil, 2019), de João Paulo Jabur. Com Lilia Cabral Gustavo Vaz, Juliana Carneiro da Cunha.
Marco Nanini é o grande destaque do filme, em papel ousado e fascinante. Ele é Pedro, enfermeiro de 70 anos que trabalha em hospital público. Certa noite, ele leva sua amiga transexual Daniela para o hospital, mas a falta de leitos impede a internação. Juan dá entrada no hospital com ferimentos após uma briga de bar que resultou na morte do oponente. Ele pede a Pedro que o tire do hospital, com medo de ser assassinado. Pedro atende ao pedido, conseguindo assim leito para Daniela, e abriga Juan em sua casa.
Parte do cinema recente brasileiro traz o mérito de mostrar sem pudor o submundo da sociedade. Em Greta, o diretor Armando Praça eleva o tom ao mostrar de forma às vezes explícita a rotina noturna dos hospitais públicos, dos bares impregnados de sexo, da miséria e tragédia que ronda personagens que transitam pela noite. O destaque da trama é a relação de Pedro e Juan, oscilando entre o perigo, o erotismo, a amizade e o amor.
Greta (Brasil, 2019), de Armando Praça. Com Marco Nanini (Pedro), Démick Lopes (Juan), Denise Weinberg (Daniela).
O ano é 1961. Jânio Quadros renuncia à presidência da república. O vice, João Goulart, está em viagem à China comunista e os militares ameaçam não deixá-lo assumir a presidência. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola lidera o movimento chamado de Legalidade para evitar o golpe, clamando à população para se rebelar em favor do respeito à constituição.
O fato histórico que antecedeu ao golpe de 1964 é a trama de Legalidade, filme do diretor gaúcho Zeca Brito. Realidade e ficção se misturam. Em torno dos bastidores do movimento de Brizola, circula um triângulo amoroso que envolve a jornalista Cecília, o antropólogo e revolucionário Luiz Carlos (lutou ao lado de Che Guevara) e o fotógrafo Tonho.
Os destaques do filme são a primorosa reconstituição de época, utilizando a beleza do palácio Piratini em Porto Alegre, a visceral interpretação de Leonardo Machado na pele do grande Brizola. Infelizmente, Leonardo Machado faleceu pouco depois de terminar as filmagens.
Legalidade (Brasil, 2019), de Zeca Brito. Com Leonardo Machado (Leonel Brizola), Cleo (Cecília Ruiz), Fernando Alves Pinto (Luiz Carlos), Tonho (José Henrique
A jovem Leana administra pousada em uma bela ilha das Filipinas. Em frente ao estabelecimento, o navio Aurora bate nas rochas, provocando centenas de mortes. Os corpos não são resgatados, devido às péssimas condições do mar e os habitantes começam a abandonar a ilha. Leana é convencida por familiares dos náufragos a permanecer na pousada por pelo menos mais trinta dias, pois a mudança do tempo pode levar corpos à praia.
A película asiática (de onde surgem bons filmes de terror do cinema contemporâneo) não se furta aos clichês do gênero. A casa, cujo segundo andar esconde mistérios, o vento constante, a chuva, relances através das vidraças. No entanto, é o terror psicológico que dita os rumos da narrativa. As visões aterradoras de Leana elucidam a trama passo a passo até o clímax que remete a desesperadas tentativas de sobrevivência, cuja esperança pode ser a última imagem captada pelo olhar.
Aurora – O resgate das almas (Aurora, Filipinas, 2018), de Yam Laranas. Com Anne Curtis (Leana), Allan Paulie, Mercedes Cabral, Andrea Del Rosario.
Sequestro relâmpago incorpora dois gêneros importantes do cinema: suspense e road-movie. A trama se passa em uma noite. Isabel é sequestrada por dois jovens após sair de um bar. O plano de Matheu e Japonês é achar um caixa-eletrônico e forçar a jovem a sacar dinheiro, no entanto, o caixa que encontram está quebrado. Começa então a peregrinação pela São Paulo noturna, Isabel dirigindo seu próprio carro e seus algozes em conflito permanente, se atacando próximos de confronto mortal.
Em alguns momentos, Isabel tenta fugir, em outros busca dominar a situação, em outros se aproxima dos sequestradores. A ótima Tata Amaral trabalha com o ambiente fechado do carro, as ruas e a noite como o escape impossível, tanto para Isabel quanto para Matheu e Japonês. Talvez dirigir pela noite em conflito constante, consigo mesmo e com os outros, seja a única possibilidade para esses personagens marginais de nossas cidades.
Sequestro relâmpago (Brasil, 2018), de Tata Amaral. Com Marina Ruy Barbosa, Sidney Santiago, Daniel Rocha.
Cláudia Abreu é a Berenice do título e sua procura é anunciada logo na abertura. O cadáver da transgênero Isabelle (Valentina Sampaio) é encontrado na praia de Copacabana. A narrativa retrocede 36 horas para apresentar personagens que se cruzaram na boate onde Isabelle se apresentou na noite de sua morte.
Berenice procura, adaptado de obra de Luiz Alfredo Garcia-Roza, trabalha com os clichês das tramas policiais, sem novidades, previsível inclusive na conclusão. O destaque do filme está na abordagem de personagens da noite carioca, alguns inescrupulosos como a cafetã interpretada por Vera Holtz, outros que buscam apenas sentido para a vida, como Isabelle.
Berenice procura (Brasil, 2016), de Allan Fiterman. Com Claudia Abreu, Eduardo Moscovis, Vera Holtz, Caio Manhente, Valentina Sampaio
É um filme silencioso, a narrativa motiva o espectador a se entregar aos belos cenários (Parque Estadual dos Três Picos, região serrana do Rio de Janeiro) e às angústias da protagonista. A menina Maria vive reclusa com a mãe, sofrendo com a ausência do pai que abandonou a família. Um criador de cabras acampa perto da casa e deflagra desejos em mãe e filha. Narrativa paralela coloca Maria e o pai em um ambiente indefinido, conversando em forma de fragmentos.
A película é adaptada dos contos O unicórnio e Matamoros de Hilda Hilst. A adaptação tenta transpor para as telas o universo intimista, carregado das angústias femininas da autora. Poucos atores em cena, característica do cinema brasileiro contemporâneo, paisagens que ajudam a compor a solidão de mãe e filha, ambiente claustrofóbico que permeia a possível insanidade do pai, composição fotográfica que remete ao universo das fábulas. Filme silencioso e reflexivo.
Unicórnio (Brasil, 2017), de Eduardo Nunes. Com Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor, Bárbara Luz.