As mil e uma noites de Pasolini

As mil e uma noites de Pasolini (l Fiore Delle Mille e Una Notte, Itália/França, 1974), de Pier Paolo Pasolini. Capítulo final da Trilogia da Vida. Os outros filmes são Decameron e Os contos de CanterburyAs Mil e uma noites é o mais belo, com fotografia primorosa resgatada pela exibição em HD. As paisagens variando entre o deserto, as cidades de pedras, o mar e a lua, ganham registro esplêndido neste cinema cultuado como poético de Pasolini.

O diretor entrelaça histórias extraídas de contos eróticos das Mil e umas noites. O elo central é o amor da escrava Zumurrud pelo jovem que a comprou. Ela é sequestrada e passa por vários percalços enquanto tenta reencontrar o seu amor. As outras histórias incluem narrativas fantásticas, como a mulher devoradora, o príncipe viajante buscando seu destino e dois amantes que confrontam o demônio.

O tema central das histórias é a sexualidade. Pasolini explora as nuances de corpos masculinos e femininos, fotografando a beleza da nudez explícita com a naturalidade e sensibilidade de um poeta visual. As mil e uma noites é dos melhores filmes deste cinema subversivo que invade os anos 70. Subversão representada pela violência, pelo erotismo, pela sexualidade sem pudor que cineastas como Pasolini ousaram revelar aos espectadores.

Descartes

Entre os anos 60 e 70, o diretor Roberto Rossellini, grande mentor do neo-realismo italiano, dirigiu filmes com temáticas históricas para a televisão italiana. O mais ambicioso de todos é Descartes, interpretação da vida do francês René Descartes, considerado o pai da filosofia moderna.

O telefilme, dividido em dois capítulos, começa quando o jovem Descartes era aluno do prestigiado colégio jesuíta de La Fleche. A partir daí, a obra segue os passos do filósofo peregrino, em suas viagens pela França, Holanda, Alemanha e outros países. Rossellini compõe seu filme como um grande tratado filosófico, com os atores discursando entre si, em longos debates nas universidades e salões. Nas filmagens, os atores liam os textos no teleprompter, se despojando de atuações, bem ao estilo de reportagens televisivas.

“Rossellini utiliza o teleprompter por razões práticas, mas também para impedir os atores de ‘atuar’, isto é, de se identificar com o personagem, parecerem naturais ou verossímeis. Enquanto leem as falas no aparelho, eles não podem olhar nos olhos dos interlocutores, e isso agrega aquela fixidez quase de manequim que Rossellini impõe a eles diante das câmeras. Os atores não representam, mas ‘citam’, leem, falam como livros; eles não são vozes individualizadas, mas ‘porta-vozes’; eles não nos dão a ilusão de encarnar Luíz 14, Pascal ou Descartes, mas de ‘substituir’ esses personagens, como se carregassem o tempo todo um cartaz com um nome escrito.” – Adriano Aprà.

Referência: Coleção Folha Grandes Biografias no Cinema. Descartes, um filme inspirado na vida de René Descartes. Cássio Starling Carlos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2016.

Descartes (Cartesius, Itália, 1974), de Roberto Rossellini. Com Ugo Cardea (René Descartes), Charles Borrmel (Padre Marin Mersenne), Anne Pouchie (Hélène), Kenneth Belton (Isaac Beeckman), Renato Montalbano (Constantin Hutgens).

Por um punhado de dólares

A trilogia do diretor Sergio Leone com Clint Eastwood é composta de Por um punhado de dólares (1964). Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito (1966). 

Em Por um punhado de dólares, Clint Eastwood interpreta Joe, pistoleiro que chega a uma cidade mexicana comandada por duas quadrilhas rivais. Terra sem lei, sem ordem, sem mocinhos, característica presente em todos os filmes de Leone deste período. O próprio Joe é um pistoleiro sem escrúpulos, muda de um lado para o outro em troca de dólares. É o herói sem caráter.

Este olhar italiano sobre o oeste americano ajudou a reconfigurar o gênero faroeste . No oeste bravio, selvagem, armado até os dentes, todos matam por interesse. Alguns por um pedaço de terra, outros por cabeças de gado, um cavalo, uns míseros dólares ou por uma noite com uma bela mulher. São pistoleiros sem nome, sem passado, sem futuro, eternizados pela união de dois nomes que fazem parte da cultura cinematográfica: Sergio Leone e Clint Eastwood.

Por um punhado de dólares (Per un pugno di dollari, Ale/Esp/Itália, 1964).

Era uma vez no oeste

O diretor italiano Sergio Leone (1929-1989) perguntou a Clint Eastwood se ele queria trabalhar em seu novo filme ao lado de Eli Wallach e Lee Van Cleef. Os três estrelaram o mega sucesso de Leone Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, Itália, 1966). Clint Eastwood perguntou, “seremos protagonistas novamente?”. Sergio Leone respondeu, “não, vocês vão morrer nos dez primeiros minutos do filme”.

A ideia não vingou e três atores desconhecidos morreram no começo de Era Uma vez no Oeste (Once Upon a Time in the West, ITA/EUA, 1969). Outra proposta de Sergio Leone era para a primeira cena de Jill, ex-prostituta de New Orleans e personagem central da trama. Segundo Leone, “uma mulher chega de trem e a câmera está bem baixa na plataforma e você vê o trem passar e parar. Com a câmera bem baixa você vê a porta do vagão se abrir. Então você vê um vestido e a câmera está embaixo do vestido e tudo fica escuro. É uma mulher. E ainda não decidi se ela está usando calcinhas. Ela é Claudia Cardinale.”

Não aconteceu. Claudia Cardinale disse que isso é lenda, que seria estúpido e ridículo. Era uma vez no oeste é um clássico, pontuado por cenas antológicas: a abertura na estação de trem, um surpreendente Henry Fonda assassinando uma família a tiros, o duelo final entre Charles Bronson e Henry Fonda. A primeira cena em que Claudia Cardinale aparece, fruto da genialidade do diretor.

Imagem difusa misturada com fumaça. Plano fechado de frente no trem chegando na estação. Claudia Cardinale aparece na porta do trem, de vestido e chapéu – a mulher do leste – tem um sorriso nos lábios. Desce as escadas, anda pela plataforma à procura de alguém. Caminha pela plataforma ao lado de várias pessoas. A estação movimentada. Ela espera. Olha para o relógio na parede. Close em seu rosto. A música de Ennio Morricone começa a tocar. Ela desiste de esperar. Caminha até o hall de entrada da estação, Entra. A câmera não entra, segue mostrando a parede até parar na janela. A câmera parada na moldura da janela mostra Claudia Cardinalle atravessando a entrada, pedindo informações ao funcionário. A atriz sai pela porta do outro lado. Pelo vidro da porta vê-se a cidade ao fundo. A câmera sobe pela parede do cômodo, passa pelo telhado velho e desgastado. A inesquecível música de Ennio Morricone cresce, toma conta da cena. À medida que a câmera passa pelo telhado, em direção ao céu, vê-se a cidade em construção do outro lado da estação de trem: pessoas, cavalos, charretes, poeira, Claudia Cardinale caminhando pela rua. A visão do oeste bravio e desolado para uma mulher do leste. O oeste de Sergio Leone, uma lenda.

Obsessão

Obsessão (Ossessione, Itália, 1943), primeiro filme de Luchino Visconti, lançou as bases do neo-realismo italiano. Inspirado no romance O destino bate à sua porta, de James M. Cain, o filme foi rodado na cidade de Ferrara, contando com locações reais e os moradores atuando como figurantes.

O andarilho Gino Costa (Massimo Girotti) arranja emprego como mecânico em um restaurante à beira de estrada. A atração entre o vagabundo e Giovanna (Clara Calamai), mulher de seu patrão, é imediata . O encontro entre os dois é explosivo nas telas, química de corpos ardentes que não poupou o espectador de um erotismo perigoso na Itália fascista.

A história envereda para um crime passional, com os amantes arquitetando o assassinato do marido de Giovanna. No entanto, Obsessão é muito mais do que isto: o retrato frio e realista da Itália miserável, às voltas com o fascismo, com a hipocrisia religiosa, a alta voltagem erótica, fazem da obra não só um prenúncio do neo-realismo, mas do próprio cinema moderno.

Ao ver o filme, o ditador Benito Mussolini mandou retirá-lo de cartaz, afirmando: “Esta não é a Itália.” Nos Estados Unidos, Obsessão só foi liberado em 1976, pois como Visconti não pagou pela adaptação do livro, o escritor e os editores impediram a exibição em terras americanas. Tudo isto prejudicou o filme, mas abriu as portas do cinema para Luchino Visconti, um dos grandes diretores de todos os tempos.

Ladrões de bicicleta

Ladrões de bicicleta (Ladri di biciclette, Itália, 1948), de Vittorio De Sica, é dos meus filmes favoritos. Impossível não se emocionar com diversas cenas, mesmo após inúmeras revisões. Principalmente com a sequência final. O filme termina e você percebe que não pode ficar impassível, pois o olhar de Bruno em direção ao pai faz cada espectador reafirmar ou rever princípios e valores.

O filme é o representante mais famoso do neo-realismo, movimento cinematográfico que começou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, influenciando decisivamente o cinema mundial, a ponto de ser considerado a base do cinema moderno.

“O cinema rodado pelas ruas, os atores apanhados na rua, a realidade fixada sem manipulações e sem preconceitos (‘A realidade está lá. Por que manipulá-la?’, era o estribilho rosselliano mais citado pelos jovens críticos franceses): estas são algumas das fórmulas dentro das quais se tentou sintetizar a experiência do cinema neo-realista italiano.” – Antonio Costa.

Um dos mais impressionantes méritos de Ladrões de bicicleta é a atuação dos protagonistas. Lamberto Maggiorani (Antonio) trabalhava como operário e Enzo Staiola (Bruno) foi escolhido pelo diretor durante as filmagens. O menino observava a gravação de cenas nas ruas de Roma. A fascinante atuação é atribuída, em grande parte, ao talento de De Sica em dirigir atores, observando e incentivando os profissionais a explorarem seus principais atributos. No caso de Maggiorani e Staiola, isto significou interpretarem eles mesmos.

“Antonio não é um operário desempregado qualquer, mas ‘o operário desempregado’, quase como um paradigma vivo. Não se trata de um símbolo ou metáfora, mas de um signo, o que também se poderia dizer dos outros personagens. Porém, como tais figuras não pretendem apenas ‘representar’, mas também ‘ser’, é lógico que tenham sentimentos e não somente razões.” – Juan D. Castillo.

Neste sentido, não é difícil entender porque Ladrões de bicicleta é repetidamente citado como o filme mais encantador e adorado do cinema. A melodramática busca de Antonio e Bruno pela bicicleta nas ruas de Roma equivale ao caminho que todo cidadão comum percorre em uma grande metrópole: trabalhadores e desempregados, donzelas e prostitutas, padres e ladrões, todos se confundem nas vielas, nos cruzamentos. A câmera de De Sica reflete o cânone deste movimento subversivo no cinema.

“O roteirista Cesare Zavattini foi um dos principais nomes do movimento e um de seus mais importantes teóricos. Ele convocou os cineastas para saírem às ruas, subirem em ônibus e bondes e ‘roubarem’ as histórias do cotidiano, relatando em seu diário de guerra Diario di cinema e di vita: ‘Montemos a câmera na rua, num quarto, observemos com paciência insaciável, treinemo-nos para contemplar nossos semelhantes em seus gestos mais simples.’” –  Philip Kemp.

Bruno recolhendo do chão o chapéu do pai e o limpando, na sequência final de Ladrões de Bicicleta, é destes gestos simples do cotidiano. Revela para o coração mais empedernido toda a complexa beleza, muitas vezes triste, é verdade, que permeia as atitudes de um pai sob o olhar do filho.

REFERÊNCIAS:

Os clássicos do cinema. Juan D. Castillo (editor). Edições Altaya, 1997

Compreender o cinema. Antônio Costa. São Paulo: Globo, 1989

Tudo sobre cinema. Philip Kemp. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

Corações famintos

A exemplo de Capitão Fantástico (2016), Corações famintos apresenta discussão sobre o direito dos pais criarem seus filhos de forma alternativa. No entanto, no filme do italiano Saverio Costanzo, a reflexão ganhar ar de suspense.

Mina e Jude se conhecem no banheiro de um bar, quando ficam trancados juntos. Mina entra inadvertidamente no banheiro masculino logo após uma crise de diarreia de Jude. Ela quase não suporta o cheiro fétido, metáfora do que está por vir: a podridão que exala dos humanos após se empanturrarem com todos os tipos de alimentos.

Os dois se apaixonam, casam e têm um filho. A partir daí, o relacionamento entra em uma espiral depressiva, movida pela decisão de Mina em criar o filho com alimentos naturais, sem carne, e sem contato com o mundo exterior. A mãe está obcecada por uma visão sobre o filho índigo e por um enigmático sonho de um caçador abatendo um cervo (Corações famintos é adaptação do romance Il bambino indaco, de Marco Franzoso).

Os atores Adam Driver e Alba Rohrwacher ganharam os prêmios de melhor atuação no Festival de Veneza. Eles dominam o filme em um embate psicológico, por vezes físico. Seus personagens se demonstram despreparados para encarar o mundo a partir do momento em que uma vida completamente dependente se institui entre eles. Com final extremo, Corações famintos faz refletir sobre nossa posição diante dos filhos.

Corações famintos (Hungry hearts, Itália, 2014), de Saverio Costanzo. Com Adam Driver (Jude), Alba Rohrwacher (Mina), Roberta Maxwell (Anne).

Onde está a liberdade?

A reunião entre Totó, dos mais famosos comediantes italianos, com Roberto Rossellini, pai do neorrealismo, resultou em um filme divertido e crítico da sociedade italiana. O barbeiro Salvatore Lojacono acaba de cumprir 20 anos de prisão por ter assassinado o amante de sua mulher. Sem conseguir se integrar à sociedade, ele tenta de tudo, inclusive indo aos tribunais para voltar para a prisão. 

Os momentos divertidos da trama se concentram na defesa própria que Salvatore faz no tribunal, tentando convencer os jurados que precisa voltar para a prisão, onde foi mais feliz. Durante a defesa, flaschbacks mostram sua vida na prisão e nas ruas, após a liberdade. Rossellini aborda questões como marginais que não conseguem se reintegrar à sociedade, mesmo após pagar por seu crimes; pessoas que transitam pela noite sem emprego na Itália do pós-guerra, marcada pelo individualismo; a falta de moradia; enfim, a Itália que tenta se reerguer das tragédias da Segunda Guerra Mundial, mas esquece de seus cidadãos mais necessitados. Roberto Rossellini filma tudo com a estética neorrealista, buscando o cotidiano da cidade, bem ao seu estilo quase documental. 

Onde está a liberdade (Dovè la libertà…?, Itália, 1954), de Roberto Rossellini. Com Toto (Salvatore Lojacono), Vera Molnar (Agnese), Andrea Compagnini (Nadino Torquati), Augusta Mancini (Teresa). 

Umberto D

O filme começa com uma passeata de aposentados italianos, em direção à sede do Governo, reivindicando aumento das pensões. São dispersados pela polícia, correm e se abrigam em prédios ao redor, demonstrando o cansaço natural da idade. 

É hora de seguirmos a vida anônima de um destes aposentados que vivem à margem da sociedade: Umberto D (Carlo Battisti), junto com seu inseparável cãozinho Flike. Quando vai embora da manifestação, tenta vender a outro aposentado seu velho relógio. Depois almoça no balcão de um abrigo para necessitados. Escondendo-se, coloca seu prato no chão para que Flike possa também comer. Finalmente chega na casa onde aluga um pequeno quarto. Ao abrir a porta, descobre que um casal está na sua cama. 

Esse início, marcado por cenas do cotidiano, revela o drama de Umberto D. Sem dinheiro o suficiente para manter sequer suas necessidades básicas, sem uma casa que possa ser chamada de sua, sem família, pressionado pela dona da pensão que aluga seu quarto à tarde para adúlteros e o ameaça de expulsão caso não coloque em dia o aluguel. Resta a Umberto D. seu adorado cão.

“Umberto D. foi filmado nas ruas de Roma e os papéis principais são interpretados por atores não-profissionais, o que dá ao filme maior urgência e autenticidade. Uma das maiores críticas ao neo-realismo é que o tratamento melodramático dispensado à história menor dilui a mensagem social mais ampla e a reivindicação de realismo do próprio filme. Com sua história trágica, contada sem pudor, sobre o desespero de um senhor de idade e o seu amor pelo seu bicho de estimação, e com sua visão incisiva das injustiças sociais, Umberto D oferece a oportunidade perfeita para o espectador refletir sobre essa questão, que diz respeito a um dos movimentos mais influentes da história do cinema.” 

Essa potência narrativa está expressa em cenas inesquecíveis em um filme que recusa os princípios básicos da narrativa. “Umberto D. cumpre o desejo do diretor Vittorio De Sica e do roteirista Cesare Zavattini: levar o neorrealismo a um nível até então nunca visto, ponto que a situação perde espaço para o homem, em que o obstáculo dá lugar ao instante. O tempo não é mais moldado por acontecimentos interdependentes, mas por episódios de aparência aleatória, reais em excesso, que desembocam sempre no homem, nos seus conflitos e contradições.” – Rafael Amaral. 

Para alguns críticos e até mesmo cineastas do calibre de Luis Bunuel e Alfred Hitchcock esses tempos mortos devem ser evitados na narrativa cinematográfica. “Tempos mortos” para os neorrealistas é a vida e a vida é o próprio cinema. Em uma das cenas mais famosos do filme, a empregada Maria (adolescente grávida que namora dois soldados, portanto, não sabe quem é o pai da criança) acorda de manhã, vai para a cozinha, põe fogo no jornal para queimar formigas na parede, coloca café na máquina, senta-se no banco e começa a mover lentamente a manivela da maquininha. Uma lágrima escorre pelo seu rosto. Maria estende o pé e tenta fechar a porta. Cenas assim, ganham dimensões simbólicas nas palavras de André Bazin: “Trata-se ali de tornar espetacular ou dramático o próprio tempo da vida, a duração natural de um ser a quem nada de particular acontece.”

É a vida dessas pessoas marginais, que ninguém nota, que não importam a ninguém. É a vida de Umberto D. que pode ser muito bem a vida de meu pai e inúmeros outros cidadãos que foram enganados pela política previdenciária no Brasil e passaram, depois de décadas de trabalho, de contribuição ao estado, a depender da ajuda dos filhos. Poderia ser a vida do pai de Vittorio De Sica, a quem ele dedica o filme. Diferente de outros, Umberto D não tem ninguém a quem recorrer, caminha sozinho e anônimo pela vida que só ganha sentido em sua relação de amor com Flike. Flike que, ao contrário de uma sociedade inteira, vê, ama e se entrega à Umberto Domenico Ferrari. 

Umberto D (Itália, 1952), de Vittorio De Sica. Com Carlo Battisti, Maria-Pia Casilio, Lina Gennari.

Referências: 

1001 filmes para ver antes de morrer. Steven Jay Schneider (editor geral). Rio de Janeiro: Sextante, 2008

Catálogo do bluray Ladrões de Bicicleta/Umberto D. Versátil Digital Filmes. 

Suspiria

A partir do sucesso de  O bebê de Rosemary (1968), filmes cujas tramas abordam seitas às voltas com demônios, bruxas, magia negra, invadiram os cinemas dos anos 70/80. Dario Argento revigora o gênero com a mais impressionante experiência estética e sonora. 

A trama de Suspira é simples e recorrente em obras similares: a jovem americana Susy Banyon chega a Fribourg, Suíça, para morar e estudar em uma famosa academia de dança. É noite, chove torrencialmente quando ela desembarca. Na porta da academia, ela se encontra com uma jovem desesperada que foge pelas ruas. Pouco depois, a jovem é assassinada. 

Logo nos primeiros minutos, a marca de Dario Argento mostra sua força. O assassinato da jovem ocorre em um prédio de apartamentos de cores extravagante, vidraças compostas por impressionantes mosaicos coloridos, luzes e clarões dos relâmpagos que ecoam pelos ambientes provocando um labirinto de cores e sensações. Junte a isso sons estridentes e a trilha sonora de rock pesado que retumbam no ouvido junto com gritos das personagens. 

Suspiria transcorre em um cenário classicamente gótico – uma velha academia de dança. A verdadeira natureza do que é ensinado lá nos é revelada em uma chuva de larvas que cai sobre as meninas numa tarde. Nessa completa nojeira reside uma espécie de chave, já que as grandes cenas espetaculares em si se tornam testes de resistência. Enquanto o público e a estudante Susy Banyon (Jessica Harper) são transportados por sinais de revelações misteriosas e esotéricas, a intensa matriz de choques e efeitos audiovisuais de Suspiria se mantém no limite de se tornar insuportável. Essa é a textura de todo o filme, não só em suas grandiosas mortes surreais mas também em seus gestos mais ínfimos, como quando um instrutor de dança maligno derrama um jarro de água inteiro na boca de Susy e notamos o jarro pesado chocalhando contra os seus dentes.”

Suspiria (Itália, 1977), de Dario Argento. Com Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi.