
Homensa brancos estao enlouquecendo

Homens brancos estão enlouquecendo (White men are cracking up, Inglaterra, 1994), de Ngozi Onwurah.
Mazie Blue (Theo Omambala) está em um quarto com um coronel do exército de 63 anos. Ela veste roupas sensuais e começa uma dança afro, à pedido do oficial – “Meu último pedido”. Depois da dança, Mazie pergunta: “Você está pronto?” “Sim. Eu estou.”
Na manhã seguinte, o oficial é encontrado morto, claramente se suicidou. É mais um caso que assola a cidade: homens brancos estão cometendo suicídio. Somente o policial interpretado por Jon Finch acredita que as mortes são causadas pela mesma pessoa, “um anjo negro que não deixa rastros”. Ele passa a caçar Mazie Blue e o confronto entre os dois vai testar os limites dessa magia poderosa que opera por meio da sedução.
A diretora Ngozi Onwurah compõe um filme esteticamente também sedutor, com fotografia que reflete as influências do neo-noir. Os figurinos, adereços e direção de arte remetem à cultura africana, intensificando o clima de encantamento e desejo. A narrativa surrealista, associada à essa estética onírica e simbólica, ficou conhecida como afro-surrealista.
Poder local, poder popular

Poder local, poder popular (Cuba, 1970), de Sara Gómez.
A frase “As massas têm a palavra” abre e guia a estrutura narrativa do documentário. A diretora Sara Gómez registra a eleição do “prefeito” de uma comunidade, cuja principal atividade é relacionada ao processo de produção da cana de açúcar, localizada na Isla de Pinos.
O documentário trabalha com comentários e afirmações dos trabalhadores, respeitando o estilo coloquial e, às vezes, irreverente da população local. Letterings em negrito, destacam frases e palavras como “Poder Local”, “Apoio”, “Erros”, “Poder popular”.
Apesar do documentário, como todos os outros da diretora, ser financiado e produzido pelo Instituto Cubano Del Arte e Industria Cinematográficos, órgão ligado ao governo revolucionário, Sara Gómez destaca, na voz dos trabalhadores, pontos polêmicos, como a escassez de alimentos. “Aqui no engenho de açúcar, o fornecimento está bem bagunçado. Quando tem bebidas, não tem gelo, e quando tem gelo, não tem bebida. Quando tem manteiga, não tem pão e quando tem pão não tem manteiga.”
Machorka-Muff

Machorka-Muff (Alemanha, 1963), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub
O curta-metragem abre com a voz interior de Machorka (Heiner Braun), antigo coronel nazista. Corta para o sonho do coronel visualizando estátuas cobertas por lençois brancos. Os lençois caem e revelam Machorka, com seu uniforme militar, nos três pedestais. Deslumbrado, o coronel vê seu nome gravado no pedestal: Erick von Machorka-Muff.
O filme satírico dos franceses Jean-Marie Straub e Danièle Huillet é considerado uma das grandes influências para os jovens cineastas que criaram o novo cinema alemão. O coronel, apesar dos crimes praticados a serviço do regime nazista, vai ser condecorado e assumirá um cargo importante no novo exército alemão, cujo principal objetivo é presarvar as memórias do exército.
Durante um encontro com um aliado, Machorka é convidado para uma visita. A voz interior do coronel representa a ousadia do filme na crítica aos militares e a própria burguesia que fechou os olhos para o horror perpetrado pelo regime. “Prometi visitá-lo, talvez resultasse em uma pequena aventura com sua esposa. Às vezes fico com um apetite para o erotismo bruto das classes mais baixas.”
Não sou eu

Não sou eu (C’est pas moi, França, 2024), de Leos Carax.
O Museu Pompidou, em Paris, sugeriu a Leos Carax responder à questão: “Onde você está, Carax?” A ideia do museu era promover uma exposição que acabou não acontecendo. No entanto, Carax aceitou o desafio e realizou um filme composto de fragmentos de imagens.
A auto reflexão de Carax inclui cenas de seus próprios filmes, acompanhadas de questionamentos sobre sua posição como artista, sobre o futuro do cinema e da própria humanidade, sobre o acúmulo irrefreável de imagens que tomam conta de nosso cérebro – seria a morte do cinema? O ensaio visual utiliza ainda fragmentos de filmes clássicos de Hollywood e da Europa, referências a outros realizadores, principalmente Jean-Luc Godard, grande homenageado do filme.
Não sou eu foi lançado no Festival de Cannes de 2024, sendo reverenciado como uma colagem experimental, artística, poética, que reflete sobre o poder das imagens, o cinema e as questões políticas que acompanham o processo de criação.
“Um humano pisca os olhos entre 15 e 20 vezes por minuto. São 1.200 vezes por hora. E, por dia, 28 mil piscadas. Se não piscassémos, nossos olhos logo ficariam secos. E nós, cegos. Mas as imagens estão ficando cada vez mais rápidas, num fluxo contínuo. Elas não respiram mais, não piscam mais várias vezes por segundo. Elas tentam nos cegar. Sim, nós precisamos piscar os olhos. A beleza do mundo nos impõe isso.” – Leos Carax
Mundo invisível

Mundo invisível (Brasil, 2012) é um experimento cinematográfico dividido em onze episódios dirigidos por cineastas de vários países. A ideia surgiu de Leon Cakoff, organizador da Mostra Internacional de São Paulo, e Renata de Almeida, diretora da mostra. A proposta apresentada aos diretores foi abordar a invisibilidade social, retratando personagens de São Paulo, onde todos os curtas foram realizados, a exceção de um, realizado na Armênia.
No final de cada curta, lettering reflete sobre a proposta do realizador: “Enquanto observava os grafites de São Paulo, Theo Angelopoulos se deparou com um pastor especialmente performático. Quase imperceptível aos olhos da multidão, o pregador se contrapõe à melancolia do mundo exterior, colorido e sem redenção.”
Os destaque da obra são os filmes:
Céu inferior. O filme de Theo Angelopoulos abre espaço para o pregador performático que se apresenta no metrô de São Paulo, utilizando técnicas teatrais, desenvolvendo gestos e falas para criar e exagerar o melodrama religioso.
O ser transparente. Laís Bodanzky reflete sobre o trabalho do ator, com depoimentos de atores, atrizes, uma monja budista e o ator e diretor Yoshi Oida, que escreveu o livro O ator invisível.
Ver ou não ver. Wim Wenders coloca em cena crianças que têm apenas um resquício da visão e passaram por um processo de ensinamento para aprenderem a ver. O curta acompanha três crianças que foram atendidas pelo pioneiro projeto desenvolvido pela Dra. Sílvia Veitzman, do departamento de oftalmologia da Santa Casa – São Paulo.
Os demais curtas são:
Do visível ao invisível, Manoel de Oliveira. Tributo ao público de cinema, Jerzy Stuhr. Gato colorido, Guy Maddin. Fábula, Gian Vittorio Baldi. Tekoha, Marco Bechis. Aventuras de um homem invisível, Maria de Medeiros. Kreuko, Beto Brant e Cisco Vasques. Yerevan – O visível, Atom Egoyan
Nouvelle vague

Nouvelle vague (França, 2025), de Richard Linklater.
Imagine esses diretores convivendo e realizando seus projetos ao mesmo tempo, às vezes, de forma colaborativa: Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer. São os jovens turcos da Cahiers Du Cinema que revolucionaram o cinema dos anos 60.
Ao redor deles, também trabalhando e se influenciando mutuamente, outros grandes da história: Alain Resnais, Jean-Pierre Melville, Suzanne Schiffman, Agnès Varda, Robert Bresson, Jean Cocteau, Roberto Rossellini, Jean Renoir. Todos esses realizadores são citados e participam do filme Nouvelle vague.
A narrativa reproduz o processo e as filmagens de Acossado (1959), primeiro filme de Jean-Luc Godard. O diretor Richard Linklater apresenta um Godard a princípio inseguro, em dúvida sobre seu talento. Godard foi o último dos jovens críticos da Cahiers a realizar seu primeiro longa-metragem.
Quando começam as filmagens, Godard revela seu estilo libertário, rebelde, arredio às regras cinematográficas. O diário de filmagens acompanha os vinte dias da realização de Acossado. O diretor de fotografia Raoul Coutard sempre com a câmera na mão. Travellings improvisados em carrinhos e cadeira de rodas. Jean-Seberg cada vez mais irritada com o improviso diário – Godard escrevia o roteiro nos cafés de Paris, pouco antes do início das filmagens. E, se não estivesse inspirado no dia, cancelava os trabalhos e mandava todo mundo para casa. Jean-Paul Belmondo descontraído, se divertindo com tudo.O produtor George de Beauregard às turras com Godard, ameaçando cancelar o filme ou não pagar os profissionais caso a situação de cancelamento – ou filmar apenas duas horas por dia, permanecesse.
Nouvelle vague é uma grande e bela homenagem ao cinema, trazendo não só o processo técnico e artístico da produção de Acossado, mas abrindo espaço para as reflexões de Godard sobre o cinema e sobre a arte. Ao redor dele, cineastas que mudaram a história do cinema mundial e, ainda por cima, sediados na Cidade Luz: “Paris era, e ainda é, o laboratório do cinema europeu. Nenhuma outra cidade possui uma cultura cinematográfica tão grande.” – Carl Dreyer
Elenco: Guillaume Marbeck (Jean-Luc Godard), Zoey Deutch (Jean Seberg), Aubry Dullin (Jean-Paul Belmondo), Adrien Rouyard (François Truffaut), Antoine Besson (Claude Chabrol), Jodie Ruth Forrest (Suzanne Schiffman), Bruno Dreyfurst (George de Beauregard).


