Lumière! A aventura começa

Os irmãos Louis e Auguste Lumière passaram para a história como os inventores do cinema. Em 28 de dezembro de 1895, exibiram em uma sala de Paris dez filmes curtos. Os Irmãos já haviam inventado o cinematógrafo, dispositivo que fotografava e exibia filmes. 

A famosa exibição, com venda de ingressos, em espaço fechado, com cadeiras, tela e o consagrador facho de luz, inaugura também a sala de cinema como conhecemos. É nesta exibição que, conta a lenda, espectadores se assustaram e abandonaram o recinto em correria quando viram um trem chegando na estação (A chegada do trem na estação de Ciotat).

Jérôme Prieur, no documentário Roll on Cinema (França, 2011), acrescenta poesia a esta história: “Mas, em 1895, os Irmão Lumière roubam a cena, a ponto de todos esquecerem seus predecessores. Sem contar todos os nomes que eles ofuscaram (…). Todos jogados aos trilhos da história sob o trem do cinematógrafo Lumière. Chamar-se Lumière já é concorrência desleal.” 

Em Lumière! A aventura começa (Lumière! L’Aventure commence, França, 2016) Thierry Frémaux, diretor do Festival de Cannes, apresenta um lado não-reconhecido pela maioria dos historiadores sobre o trabalho dos Irmãos Lumière: o desenvolvimento da linguagem cinematográfica. O documentário, editado e comentado por Frémaux, reúne 108 filmes (Louis e Auguste rodaram cerca de 1.500 filmes com 50 segundos de duração), revelando que passo a passo os cinegrafistas inovaram, buscando ângulos, planos e movimentos de câmera, desenvolvendo a narrativa do cinema. Um filme registra imagens em travelling nos canais de Veneza; outros mostram planos detalhes de objetos, closes nos rostos de personagens. A saída dos Operários trabalha com profundidade de campo, uma carruagem surge do fundo e trafega atrás dos trabalhadores. Os curtas, restaurados, demonstram o cuidado dos cinegrafistas, dos Irmãos Lumière, com a composição, com a estética, ou seja, o cinema nasce como técnica e como narrativa com a força que o consagrou: a beleza das imagens.

Torquato Neto – Todas as horas do fim 

Natural de Teresina/Piauí, Torquato Neto (1944/1972) foi dos mais ativos e precoces integrantes do grupo cultural que inovou a música, as letras e o cinema entre os anos 60 e início da década de 70. Poeta, letrista, ator, cineasta, cronista cultural, Torquato transitou pela arte com intensidade trágica. 

Os diretores do documentário se debruçam sobre a breve vida do artista (Torquato se matou aos 28 anos de idade) com sensibilidade. A narrativa usa poemas e textos do autor, lidos por Jesuíta Barbosa; fotografias de Torquato e cenas de suas participações em filmes de Ivan Cardoso; imagens de películas importantes do cinema novo e cinema marginal; depoimentos de artistas do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Augusto de Campos, Tom Zé, Jards Macalé, entre outros. Registros históricos apresentam Gal Costa e outros famosos interpretando belas canções compostas por Torquato Neto.  

Torquato Neto – Todas as horas do fim é poesia do início ao fim. Poesia nas letras das canções, nas cartas, nas fotos do belo Torquato, nas imagens dos filmes, nos textos. Documentário para ouvir, ver e rever. 

Torquato Neto – Todas as horas do fim (Brasil, 2018), de Eduardo Ades e Marcus Fernando.

Cartas para um ladrão de livros

O documentário aborda a trajetória de Laéssio Rodrigues, ladrão de livros raros e gravuras valiosas do acervo de instituições públicas. A compulsão de Laéssio pela prática começa com a paixão por Carmem Miranda – para incrementar sua coleção de imagens, ele rouba fotos, artigos, revistas, tudo relacionado à cantora. Descobre a fragilidade das instituições com os acervos e passa a roubar livros raros, revendendo-os no mercado negro, acumulando dinheiro e bens materiais.

Os documentaristas partem de cartas trocadas com Laéssio na prisão. Grande parte da narração é feita pelo próprio ladrão de livros, entre os intervalos que sai do cárcere. O tom da narrativa é pessoal: Laércio reflete sobre seus atos, consequências e arrependimentos; as leituras das cartas revelam dúvidas dos diretores sobre o próprio documentário; depoimentos de arquivistas escancaram a revolta com o desaparecimentos de acervos valiosos. 

Cartas para um ladrão de livros (Brasil, 2018), de Carlos Juliano Barroso e Caio Cavechini.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro 

O documentário me remeteu aos tempos românticos do jornalismo, uma de minhas formações. Os diretores Leo Garcia e Zeca Brito tentam traçar um perfil (se é que é possível) da vida e carreira do jornalista Tarso de Castro, um dos criadores do Pasquim e outros importantes títulos do jornalismo brasileiro, como Folhetim. As histórias giram em torno da rebeldia do jornalista; trechos documentais mostram como Tarso lutava no meio jornalístico, não se rendendo a imposições dos donos dos jornais e nem do sistema político (na época, a ditadura militar). O lado romântico fica por conta do comportamento destes rebeldes no exercício da profissão. “A redação não era extensão do bar, o bar era a redação” – declara um dos entrevistados. Documentário imperdível em um momento de questionamentos sobre a prática jornalística nos grandes meios de comunicação.

A vida extra-ordinária de Tarso de Castro (Brasil, 2016), de Leo Garcia e Zeca Brito

Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo

O documentário é saudosa viagem ao início e apogeu das principais videolocadoras de São Paulo. O diretor Alan Oliveira registrou depoimentos dos personagens que construíram pequenos impérios do entretenimento: fundadores da Vídeo Norte, 2001 Vídeo, Real, Hobby, entre outros pioneiros. Críticos, jornalistas e frequentadores depõem sobre a magia de entrar em uma loja e ficar tempo indefinido entre as prateleiras de filmes. Tom comum entre as declarações é a possibilidade que as videolocadores proporcionaram de construir relações entre os cinéfilos, alguns pioneiros foram profundos conhecedores da sétima arte que colocaram paixão no ato de alugar filmes, outros, iniciantes que começaram nos corredores o caminho mágico pelo mundo dos filmes. 

É história comum: todo grande ou pequeno império um dia desaba. As videolocadoras foram sugadas, primeiro pelas megastores, como a Blockbuster, depois pela irrefreável ascensão do streaming. Sobrevivem na memória de pessoas que participaram como criadores ou como espectadores das antológicas prateleiras de videocassetes, depois DVDs, onde os filmes esperavam os apaixonados pelo cinema.  

Cinemagia: a história das videolocadoras de São Paulo (Brasil, 2017), de Alan Oliveira. 

Cidades fantasmas

A tristeza que permeia o documentário atinge a alma com o poder das imagens do cinema. A câmera de Tyrell Spencer documenta quatro cidades no continente sul americano que foram abandonadas por motivos de decadência econômica, catástrofes naturais e/ou descaso do governo. As cidades são Humberstone (Chile), Fordlândia (Brasil), Armero (Colômbia) e Epecuen (Argentina).

As imagens de ruas desertas, casas abandonadas, prédios em ruínas, praças destruídas, comovem, pois remetem diretamente às memórias de pessoas que viveram e foram felizes nos tempos áureos da exploração do salitre, da extração da borracha, das temporadas turísticas. A pesquisa de Tyrell Spencer traz depoimentos de antigos moradores que rememoram tempos felizes, falam da destruição, acusam empresários, políticos e governos pelas derrocadas das cidades que deixaram milhares de pessoas sem lar.

Os relatos mais impressionantes se referem à erupção do vulcão na Colômbia que destruiu Armero. Segundo moradores, a tragédia seria evitada se as autoridades, que sabiam da iminência da erupção, alertassem a população. Não o fizeram por interesses econômicos, assim como os militares argentinos não impediram a inundação que literalmente afogou a cidade de Epecuén. Cidades fantasmas é o registro/denúncia de como a vida humana é insignificante quando estão em jogo interesses políticos e econômicos.

Cidades fantasmas (Brasil, 2017), de Tyrell Spencer.

Histórias que nosso cinema (não) contava

Um dos momentos de maior bilheteria do cinema brasileiro é a pornochanchada, gênero que marcou os anos 70 e início da década de 80. Fernanda Pessoa fez intensa pesquisa, assistindo e coletando material de filmes que iam além da ousadia sexual travestida de comédia.

A montagem do documentário é um primor. Sem narração ou depoimentos, sequências dos filmes se sucedem, separadas por temas: tortura perpetrada pela ditadura, consumismo nestes anos do milagre econômico, exploração do corpo feminino, violência contra a mulher, machismo, preconceito racial, homossexualismo, corrupção política. Muitos filmes da pornochanchada foram censurados pelo regime militar. Outros conseguiram inserir em meio a narrativas despretensiosas questões determinantes para a formação da sociedade brasileira. Fernanda Pessoa resgata a pornochanchada como gênero e como resistência política.  

Histórias que nosso cinema (não) contava (Brasil, 2017), de Fernanda Pessoa. 

Quando as luzes das marquises se apagam

O documentário começou como trabalho de conclusão do curso do diretor Renato Brandão quando estudava Cinema e Audiovisual na Escola de Comunicação e Artes da USP. As pesquisas abordaram o apogeu dos cinemas de rua em São Paulo, situados em torno das Avenidas Ipiranga e São João. As diversas salas na mesma região ficaram conhecidas como Cinelândia Paulista. 

Depoimentos relembram os tempos áureos dos cines Broadway, Ópera, Regina, Saci, Avenida, Marrocos, Jussara, República, Ritz, entre outros. Participam do documentário personagens como Ignácio de Loyola Brandão, José Moreira, Inimá Santos, Paula Freire Santoro, Máximo Barro, Carlos Augusto Calil e o empreendedor do ramo de cinemas Francisco José Luccas Netto.  

Como em outras metrópoles, as salas da Cinelândia Paulista deram lugar a cinemas eróticos, estacionamentos, igrejas, lojas de varejo. A resistência fica por conta do Marabá, única sala que permanece funcionando no circuito comercial. 

Quando as luzes das marquises se apagam – A história da Cinelândia Paulista (Brasil, 2018), de Renato Brandão. 

David Lynch: a vida de um artista

A ousadia conceitual e estilística de David Lynch despontou logo no primeiro filme, Eraserhead (1977). Seguiram-se obras impactantes, com a marca surreal, beirando o escatológico: O homem elefante (1980), Duna (1984), Veludo azul (1986), Coração selvagem (1990), Cidade dos sonhos (2001), a revolucionária série Twin peaks – os últimos dias de Laura Palmer (1992). 

O documentário David Lynch: a vida de um artista traça um retrato do lado menos conhecido do cineasta: suas incursões pela pintura. David Lynch conversa com a câmera em seu atelier nas colinas de Hollywood Hills, em Los Angeles, refletindo sobre seu processo criativo. Imagens de filmes caseiros reconstituem as origens de sua relação com a arte e depoimento instigante revela como as artes plásticas impulsionaram sua carreira de roteirista e diretor de cinema. Documentário imperdível para amantes do cinema, revelação das relações entre as pinceladas de Lynch e seu onírico mundo nas telas. 

David Lynch: a vida de um artista (David Lynch: the art life, EUA/Dinamarca, 2016), de Jon Nguyen.

No intenso agora

A força do cinema de João Moreira Salles está nas reflexões, traduzidas em textos poéticos, que ele faz sobre as imagens. Em Santiago (2007), o documentarista volta à infância e à família através do retrato do fascinante mordomo. No intenso agora (2017) também parte de memórias: João Moreira Salles encontrou registros feitos por sua mãe de uma viagem à China na época da revolução cultural, na década de 1960.

O documentário é uma colagem de imagens. Entram sucessão de fotos da China de Mao-Tsé Tung, dos estudantes nas ruas de Paris em maio de 68, da Primavera de Praga na antiga Tchecoslováquia, das ruas do Brasil durante a ditadura militar.

O belo texto pontua de forma pessoal, às vezes apaixonada, outras vezes refletindo o desencanto pelos rumos tomados. Em diversos momentos o silêncio é mais forte do que tudo. Os documentários de João Moreira Salles são assim: apaixonados, pessoais; por isso mesmo profundamente reais.

No intenso agora (Brasil, 2017), de João Moreira Salles.